Sabia que o céu compacto de nuvens não iria proporcionar momentos diferentes para registar com a minha pequena Olympus.
Sabia, mas acabei de jantar, vesti o corta vento, peguei na máquina, deixei a Sacha em casa e fui até à beira mar indiferente à nortada fria e forte que durante a tarde se fez presente. Ao passar junto ao bar de praia clientes saiam combinando em voz alta algo que não entendi e aceleraram nos seus carros com um deles a acelerar como se estivesse em rali de terra batida. Olhei o horizonte de um céu cinzento compacto não fossem dois riscos quase dourados ou alaranjados dizendo que o Sol ainda não estava na linha do horizonte. Olhei o mar calmo com as suas pequenas ondas a acariciar a areia molhada da baixa mar. Só, ali estava eu naquele areal de tantas memórias escutando, absorvendo os sons e odores da Natureza, evitando entrar nas memórias mais tristes da minha caminhada. No fim do areal, a norte, lá está com as suas novas instalações o porto de pesca da cidade que me viu crescer; ao olhá-lo senti a gaveta dos neurónios abrir-se pelo que de imediato voltei costas não deixando a imagem voltar para a minha memória viva embora não deixasse de pensar no arrependimento. Vi três gaivotas voando sobre a minha cabeça no céu que ia ficando mais cinzento à medida que a hora do ocaso se aproximava, subi até ao Largo da Igreja caminhando nostálgico indiferente à nortada que sempre acalma um pouco com o chegar da noite. Esperei pela hora do ocaso mas as nuvens compactas não me deixaram saudar o deus Sol, regressei a casa acompanhado pela nostalgia misturada com a sensação que já não vou pertencendo aqui, a minha praia está diferente ou sou eu que vou caminhando abraçando uma outra forma da natureza; aqui, agora, só recordações e lembranças que se misturam com nostalgias felizes e outras. Já não sou daqui é o meu sentir, fui e vou-me perdendo com o caudal do rio tempo que corre constante invariavelmente.
À hora habitual acordei, olhei o relógio no pulso ainda não eram as seis. Levantei-me, vi que tinha dormido quatro horas de sono profundo. Na sala a Sacha aguardava-me pensando que íamos para a rua, voltou para a sua cama quando me viu sentado a olhar as primeiras páginas dos jornais para depois começar a escrever no aparelho de comunicação.
Eram sete e meia quando saímos em direção à praia. No areal pensei em caminharmos para sul. Pela passadeira subimos até ao Largo da Igreja e fomos pelo caminho na beira da arriba até ao Corre Água olhando sem pressa a beleza quase selvagem deste curto trajeto. Já desliguei do que os serviços municipais e as autoridades marítimas não fazem nem deixarão de fazer, já não acredito na capacidade dessa gente, desses órgãos de poder administrativo. Desde 1962 ano em que aqui cheguei que conheci a existência de muitos planos e mais ideias para o aproveitamento económico e turístico desta região, até investimentos megalómanos foram publicitados para na prática este pedaço de costa continuar esquecido, abandonado à sorte das intempéries da natureza pela sua fraca constituição argilosa de milhares ou milhões de anos.
O meu ser tresmalhado já não vai sentindo raízes neste canto onde cresci e vivi. Tudo muda e também eu vou mudando sem me integrar em nenhum dos vários grupos que constituem o rebanho da grande maioria.
No regresso andando no Largo da Igreja sou saudado por um rapaz do meu tempo, a que logo se juntou um outro amigo que vive agora entre o cá e o Canadá para onde emigrou quando jovem em busca de uma vida melhor; num instante ali no Largo junto à arriba nos juntamos três Carlos, momento que vai rareando por Carlos não ser um nome que agrade às novas gerações. Depois de me despedir, desci até às rochas que não são milagrosas como muitos acreditam por errada informação. Como estava na baixa-mar andei pulando por rochas da minha juventude vendo hoje muitas algas verdes nas mesmas, limos ou algas inexistentes nesses anos da década de sessenta; sinais do tempo, das consequências de um modelo de desenvolvimento económico e social submetido à ganância e à usura no desrespeito pela Natureza. Acredito que estas águas do Atlântico Penicheiro ainda são do melhor que podemos encontrar em termos de poluição, acredito pelo que vejo nelas e através delas, não porque me dizem que a praia tem bandeira azul ou mesmo de ouro, já que não dou credibilidade às ONG's ou organizações ditas ambientalistas, tipo quercus, zero ou outras de igual cariz. Ainda no verão passado, quando desrespeitando as minhas maleitas me aventurei a entrar na água para dar umas braçadas filo sempre de olhos abertos, o que não fiz em outras praias de nomeada e badaladas. Nessa tarde em que a temperatura da água convidava ao banho senti no corpo que aquelas curtas braçadas tinham sido um aviso de despedida dos banhos de mar. A pouco e pouco temos de saber encarar a realidade, é que os erros e exageros de juventude são muitas vezes cobrados com altos juros fazendo jus a expressão popular cantada pelo António Variações, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga.