Acordo ao fim de seis horas de sono sentido o vazio da vida que transporto levanto-me. Há um vazio no meu peito que lentamente aumenta e me afasta dos mundos que gravitam à minha volta. Ontem à noite depois de ver mais um jogo da semifinal li que “o destino entra pela porta que nós mesmo abrimos convidando-o a passar” e no vazio penso nela, talvez seja verdade, talvez exista uma grande dose de verdade naquelas palavras, o destino somos nós que mesmo sem sabermos o construímos abrindo-lhe as portas.
Neste vazio por onde caminho abro o pensamento à dúvida se a minha constante afirmação de que sou um solitário não é uma forma de esconder a solidão que habita em mim há muito tempo. A minha caminhada tem sido um acumular de dúvidas e incertezas, de equívocos e enganos, por isso onde termina a solidão e começa o ser solitário?
Nasci no oitavo bairro administrativo da cidade capital numa rua rodeada de fábricas industriais.
Rumei aos oito anos a Peniche - Ferrel - Baleal, onde perdi o medo ao mar, onde fiz a escola primária e o exame de aptidão à escola industrial e comercial.
A fazer doze anos rumei a Peniche - Lugar da Estrada - Consolação, onde cresci, aprendi a conhecer o mar com o velho banheiro, grande Homem do mar e da terra, o sr. António Pedro e não mais voltei aos mares do Baleal; aprendi a gostar e a respeitar as ondas grandes do mar da Consolação, mar diferente de muitos outros mares.
Nas andanças da vida voltei à cidade que me viu nascer para continuar os estudos; como militar conheci a guerra no Leste de Angola e quando voltei para o colo de minha mãe já não era o mesmo que numa noite de quase inverno tinha partido sem dela me despedir; nunca me despedi das pessoas que amei. Casei, fui pai, dei educação às minhas filhas para elas poderem voar com as suas asas. Conheci a travessia do deserto do desemprego, do viver sem trabalho, sem dinheiro, sem seguro ou pensão de reforma. Resisti porque desistir é palavra proibida que deveria ser apagada dos dicionários.
Há uns anos tresmalhei-me, passei-me para o outro lado da vida, descrente dos políticos sem coluna vertebral que nos governam a mando de terceiros no exterior; passei a ver o que não nos mostram, passei a ouvir o que não nos dizem e tresmalhado vou caminhando em busca da paz.
Aos setenta e três anos olho na Consolação, o mar onde já não encontro as suas ninfas, já não me revejo com o seu deus e as suas falas; do alto onde antes havia um banco de cimento olho o mar que ano após ano vai encurtando a profundidade do areal e neste nos olharmos silencioso sabendo ele e eu que já não sou mais dali, mudei-me para outra terra onde os odores da maresia não chegam mesmo em dias de forte ventania por desavenças entre o Anticiclone dos Açores ao largo no Atlântico e o centro de baixas pressões no sul espanhol da Península. A vida é um círculo feito de muitos trilhos e veredas andando eu agora por outros horizontes onde o azul do mar é substituído pelo verde da copa das oliveiras e azinheiras, pelo dourado de muitos campos abandonados.
Tresmalhei-me até do mar da praia que me viu chegar quando eu tinha quase doze anos.
Velho sem velhice gosto agora mais da serenidade que a vida nos oferece no interior abandonado e esquecido dos muitos poderes deste país que a Natureza criou à beira mar e a ganância humana vem destruindo.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.