quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

24.06.24

 

Há uma hora que saí do mundo dos sonhos. Depois de me cuidar, de fazer a cama e conversar com o sagrado sento-me à mesa que foi de meus avós. Olho o relógio que na parede em frente faz tic-tac e os ponteiros dizem-me que são as seis e meia. O Sol já passou a linha do horizonte à cerca de meia hora. É este um mundo de raízes invisíveis que me faz sentir bem, um mundo onde o cheiro da maresia do mar transportado nas asas do vento não chega, que aqui o calor é mais quente e seco de poucas humidades.

Sabes, não não sabes, mas o mar que fez parte da minha vida de juventude já não me chama, não me atrai como em tempos me atraía para nele deixar grande parte da carga de stress que a vida profissional criava; a minha vida agora é de pouco stress porque já não tenho pressa de chegar onde só existe a ostentação do individualismo, o meu sonho não passa por esse modo de vida afastando-se do mesmo à medida que o rio tempo passa por mim.

De modo próprio tresmalhei-me desse mundo, agravando de certo modo e por certo o meu viver solitário, mas fazendo-me degustar o bem do não stress na outra margem da vida, onde a busca da Paz e da harmonia é agora o caminho que procuro concretizar, para quando chegar o momento da paz absoluta deixar tudo no seu próprio lugar, tudo resolvido sem sombras.


No caminho que fizemos, quando regressávamos dei com os olhos em ramos de poejo que à sombra da parede aproveitando a humidade da valeta cresceram. Toquei-lhes e logo o seu aroma me encheu. Gosto do poejo selvagem. Não resisti e trouxe alguns pés para transplantar na esperança que os mesmos se reproduzam.

Esta é mais uma coisa, um bem para o espírito, que nem o mar nem as cidades me podem dar. Não há calma como a do campo.

Lá longe mas não assim tão longe como a grande maioria do rebanho grudado nos ecrãs poluídos das televisões pensa, há uma guerra que ameaça, que destrói vidas mais do que bens materiais, uma guerra entre vários povos que se tornaram inimigos pela soberba e ganância desmedida dos falcões imperialistas sem alma humana. Uma guerra com dois lados, senão ela não existia, dois lados e muitos intervenientes. Uma guerra que se vai agudizando desde 2014 e não apenas e só a partir de 2022 como os papagaios e catatuas sem penas contam e comentam nas televisões recitando a voz do dono que lhe paga chorudas remunerações. No início da guerra para uns, da operação especial para outros, chamaram-me de putinistas, mandaram-me ir para a Rússia. Eu que sou português de lés a lés, europeu do Sul, nunca me vendi aos americanos nem aos russos, no meu tempo de política ativa gritava e defendia- “nem nato, nem pacto de varsóvia, independência nacional” - assim continuei pela vida fora, ausente que sou da política partidária, andando na outra margem da vida, agora não um jovem antes um velho sem velhice que gosta de viver, de fazer o seu caminho em direção ao inexistente futuro onde um dia após o fim da dualidade que me constitui se separar, a matéria reduzida a cinzas, para então fazendo jus ao lés a lés parte delas ser entregue clandestinamente ao mar numa maré vazante num mar calmo e sereno e, a outra parte descansar aqui neste interior raiano à sombra da velha oliveira galega enquanto a casa e as oliveiras se mantiverem na família, porque no cemitério da terra há como reserva a campa da tia Maria do Carmo onde se encontram também os restos de meus pais.



De manhã comecei a apanha das batatas no meio da muita erva que entre elas cresceu. Sem pressa fui procurando não “capar” nenhuma infelizmente acertei quase sempre nas maiores. No final da manhã a camisa e as trusses estavam encharcadas com o suor. Mesmo depois do banho as minhas mãos ainda apresentam o odor das ervas mal cheirosas, as ditas farinheiras. O dia foi quente, 35° pelo que à tarde fui ver as mensagens e e-mail no computador. A Autoridade Tributária demorou uma semana para validar a minha declaração de rendimento, mas lá a aceitou; andam preocupados com os fracos e subservientes aos fortes e ricos.

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