Às cinco e trinta já o dia se anuncia pela janela do quarto.
Olho o dia de ontem procurando afastar-me das emoções mas não sou capaz, nós somos emoções e eu não fujo à regra. O dia começou mostrando-me que nem sempre se vive em comunhão, para ao chegar ao meu refúgio e sentir como sempre o peso da dureza do silêncio que me mostra o não retorno do passado mesmo quando apenas se busca um simples ato explicativo de um acontecimento que não deveria ter acontecido mas que por razões ocultas aconteceu.
É assim que neste renascer do dia sentado na minha cama olhando a vida pela janela mais uma vez o que meu pai me dizia volta a estar presente «se queres vir para cá tens de arranjar outra mulher» ao que lhe respondia que não ia arranjar outra mulher. Já não tenho apetência para essas coisas. O amor pelos outros secou, pelo menos é o que sinto, não será fácil aos setenta e três anos voltar a partilhar espaço físico quanto mais ideais e sonhos, coisas que não tem idade indiferentes que são ao rio do tempo que passa por nós na sua constante imutável; coisas que são tão importantes nesta idade onde a solidão agressiva e tóxica está presente a todas as horas em programação contínua difundida por canais televisivos na posse dos senhores sem alma para nos querem parametrizar os neurónios e com isso nos trazerem pela trela amestrados e obedientes.
Era um quarto para o meio dia dei à ignição e fui até Segura ao Festival das Migas. Encontrei gente conhecida.
As migas estavam boas, muita variedade com os concorrentes a aplicarem-se na confeção. Grupos de vizinhos espanhóis não faltavam.
Quando o grupo musical encarregue de animar o festival terminou a sua atuação, para dar lugar aos grupos seniores de cantares de Segura, da Zebreira e dos vizinhos espanhóis, subiram ao palco os políticos. A minha sombra lembrou-me que desde 25 de Outubro não vejo televisão, não ouvi um minuto das campanhas eleitorais para a nossa Assembleia e para o tal Parlamento Europeu, decidindo num impulso dar corda aos sapatos, com pena de assim não assistir aos grupos seniores com os seus cantares. O domingo foi um dia bom. Pena já não haver os peixinhos do Erges, mas havia uma boa miga com o poejo do rio Erges. Gostei de todas as migas e não conhecia as migas à espanhola da Junta de Zarza La Mayor que estava muito agradável até por ser fresca realçando o sabor do tomate e do pimento. Mas estavam todas a merecerem palmas. Na Beira Baixa raiana há sabores e saberes gastronómicos.
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