quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

01.08.24

 

Recomeça o tempo de um novo mês, o oitavo do calendário. Nada mudou, o céu continua encoberto, um pouco mais fresco até. É o tempo do oeste a norte ou a sul do Cabo Carvoeiro, sempre muito dependente dos humores do Anticiclone dos Açores, esse centro de alta pressão que vagueia normalmente no oceano Atlântico entre as ilhas dos Açores e o sul da Inglaterra.

A praia com mar de águas que ainda deixam ver os pés na areia quando se entra e se avança nele, de areia um pouco grossa para os novos visitantes, já não me chama, o estender a toalha para colocar o corpo ao sol já não é a minha praia. Só os netos me trazem para com eles e com a sua alegria inocente poder viver ou reviver tempos felizes do passado quando aqui cheguei com doze anos e mais tarde quando deixei as praias algarvias e para aqui retornei com as filhas. A maré está na praia-mar mas o vento norte não convida os veraneantes a irem ao banho.


Na areia os netos com os amigos jogam ao 31 entre barracas até que cansados de tanto correrem pediram e lá foram ao banho com o neto Guilherme a dizer-me que a água estava fria, habituado que está às águas algarvias e espanholas, mas se os outros foram ele venceu o frio e também deu um mergulho; a neta Luísa nunca tem frio é um peixe mergulhão. Assim se vive e revive momentos de felicidade.


Mudei, todos os dias mudo um pouco, sempre um pouco mais nesta reta final onde não entro nem saio pela porta que insiste em ficar aberta quando a empurro para a fechar, até quando não sei, mas um dia no incerto futuro quando a minha dualidade terminar ela se irá fechar sem necessidade de a empurrar.

Estou à beira mar olhando não o passado mas o meu canto onde a maresia e o odor do iodo libertado pela decomposição do limo correia que o mar entregou ao areal não chegam,

só, estou aqui e estou lá observando a passarada depenicando uvas e figos, sentindo nesta manhã de neblina fresca o odor seco da terra quente.


Não sei onde é que eu e a mãe erramos na educação das filhas. Olho a anarquia na casa, abro o frigorífico e assusto-me com a desordem no arrumo dos alimentos, não há caixas de conservação, subi aos quartos e fechei os olhos, nem sequer puxam as orelhas aos lençóis e ou edredões, com esta escola como será a vida das netas quando tiverem a sua casa?

De nada me vale ficar preocupado, já não digo nada, sou um velho sem velhice que já não tenho futuro neste país de vidas ilusórias, com uma juventude pouco inquieta e reivindicativa politicamente, uma juventude em que os pais ignoram o bufar dos falcões internos da OTAN preparando-se para no futuro com as várias guerras que os seus mandantes americanos promovem e desencadeiam, necessitarem de terem jovens disponíveis para servirem como «carne para canhão»; às gerações pós 25 de Abril só lhes interessa festivais de música e viagens de turismo para fora do país; a roupa tem de ser de marca sonante da moda que depois é atirada para cima de sofás e cadeiras ou mesmo no chão a monte, telemóvel tem de ser de marca e se possível última geração para que possam aer substituídos por novos modelos. A política não lhes interessa, dizem eles.

Que futuro terá o meu país?


Estou pela primeira vez com os netos mais novos que já têm nove anos, uma felicidade serena que já me tinha esquecido que existia.

27.7.24

 

Vi um pouco da abertura dos jogos olímpicos que de espírito olímpico já nada incorporam, mas é o que o poder nos serve para entretenimento e ilusões.

Vi o Sena com as suas águas e voltei pensar o que pensava quando ia a Paris em trabalho.

Vi indiferente, sem saudade de Paris nem uma ponta de nostalgia, apenas curioso, procurando ver sempre a outra margem. Tudo muda, tudo cambia, pensando que não sendo a lei da vida, porque a vida não tem leis, é antes o fruto de um modelo de desenvolvimento onde os interesses gananciosos se sobrepõem aos valores que estiveram na origem dos jogos olímpicos.

Da mentira tornada verdade salvam-se os atletas, que treinam e se sacrificam ao longo de anos sonhando poder alcançar um lugar honroso nas provas que irão disputar.

Estes são os jogos olímpicos do medo e da tecnologia, do estrebuchar de um país que parece ter esquecido o seu papel europeu de solidariedade, igualdade e fraternidade, vergado por políticos submissos ao neoliberalismo da City imposto do outro lado do Atlântico.

Só as águas do Sena se mantém como há vinte e trinta anos as via duvidando.


Não sou já daqui, sou de algures sem outro interesse que não seja viver em paz comigo próprio. Desenquadrado, tresmalhado deste modelo artificial de vida pouco me importo desde que continue lúcido com os meus cinco sentidos a funcionarem sem pílulas químicas.

Olho e vejo coisas que me revoltam pela falta de coragem dos políticos, pela incúria com que gastam dinheiros públicos sem que esse gasto traga mais valias para todos e não apenas para empreiteiros, consultores e financeiros. Os dinheiros que se gastam em enormes cartazes anunciando publicitando obras quantas vezes já anunciadas em anos anteriores, antes com a comparticipação de fundos bruxelianos, para agora neste tempo serem os fundos do tal PRR a financiarem parte dessas grandes obras autárquicas; obras que são sujeitas a estudos e mais pareceres de gabinetes públicos e privados assim como de organismos vários para justificarem no paleio a descarbonização do ambiente; obras que são apresentadas à votação dos vereadores para depois se ajustarem num caderno de encargos ao jeito das empresas amigas do poder não vá o diabo tecê-las no concurso público exigido por lei e pelo visto do Tribunal de Contas (que sem um quadro de pessoal à altura das necessidades ainda mesmo assim vai incomodando muitos autarcas). Realizada a obra com ou sem revisão de preços, colocam-se placas comemorativas em honra do autarca chefe com vivas e vivas entre abraços e lembranças dos pedidos para mais um empregozinho para mais um familiar amigo do partido. No final de tudo realizado, celebrações terminadas, fazem-se as contas na busca de soluções alternativas para a apresentação das mesmas às instâncias superiores confiando no conhecimento político e partidário existente nos corredores do poder por nomeação do chefe maior. Tudo sempre “A Bem da Nação” em versão democrática, sendo a manutenção e ou conservação de tais obras colocadas no esquecimento ou mesmo abandonadas por posteriores executivos pois o que importa é apresentar obra nova de modo a agradar ao chefe do partido na esperança de uma promoção ou até mesmo de uma boa colocação em qualquer dos muitos organismos públicos onde se ganham boas mordomias nunca deixando de sonhar com Bruxelas pois claro.

11.07.24

 

Acordo ao fim de seis horas de sono sentido o vazio da vida que transporto levanto-me. Há um vazio no meu peito que lentamente aumenta e me afasta dos mundos que gravitam à minha volta. Ontem à noite depois de ver mais um jogo da semifinal li que “o destino entra pela porta que nós mesmo abrimos convidando-o a passar” e no vazio penso nela, talvez seja verdade, talvez exista uma grande dose de verdade naquelas palavras, o destino somos nós que mesmo sem sabermos o construímos abrindo-lhe as portas.

Neste vazio por onde caminho abro o pensamento à dúvida se a minha constante afirmação de que sou um solitário não é uma forma de esconder a solidão que habita em mim há muito tempo. A minha caminhada tem sido um acumular de dúvidas e incertezas, de equívocos e enganos, por isso onde termina a solidão e começa o ser solitário?


Nasci no oitavo bairro administrativo da cidade capital numa rua rodeada de fábricas industriais.

Rumei aos oito anos a Peniche - Ferrel - Baleal, onde perdi o medo ao mar, onde fiz a escola primária e o exame de aptidão à escola industrial e comercial.

A fazer doze anos rumei a Peniche - Lugar da Estrada - Consolação, onde cresci, aprendi a conhecer o mar com o velho banheiro, grande Homem do mar e da terra, o sr. António Pedro e não mais voltei aos mares do Baleal; aprendi a gostar e a respeitar as ondas grandes do mar da Consolação, mar diferente de muitos outros mares.

Nas andanças da vida voltei à cidade que me viu nascer para continuar os estudos; como militar conheci a guerra no Leste de Angola e quando voltei para o colo de minha mãe já não era o mesmo que numa noite de quase inverno tinha partido sem dela me despedir; nunca me despedi das pessoas que amei. Casei, fui pai, dei educação às minhas filhas para elas poderem voar com as suas asas. Conheci a travessia do deserto do desemprego, do viver sem trabalho, sem dinheiro, sem seguro ou pensão de reforma. Resisti porque desistir é palavra proibida que deveria ser apagada dos dicionários.

Há uns anos tresmalhei-me, passei-me para o outro lado da vida, descrente dos políticos sem coluna vertebral que nos governam a mando de terceiros no exterior; passei a ver o que não nos mostram, passei a ouvir o que não nos dizem e tresmalhado vou caminhando em busca da paz.

Aos setenta e três anos olho na Consolação, o mar onde já não encontro as suas ninfas, já não me revejo com o seu deus e as suas falas; do alto onde antes havia um banco de cimento olho o mar que ano após ano vai encurtando a profundidade do areal e neste nos olharmos silencioso sabendo ele e eu que já não sou mais dali, mudei-me para outra terra onde os odores da maresia não chegam mesmo em dias de forte ventania por desavenças entre o Anticiclone dos Açores ao largo no Atlântico e o centro de baixas pressões no sul espanhol da Península. A vida é um círculo feito de muitos trilhos e veredas andando eu agora por outros horizontes onde o azul do mar é substituído pelo verde da copa das oliveiras e azinheiras, pelo dourado de muitos campos abandonados.

Tresmalhei-me até do mar da praia que me viu chegar quando eu tinha quase doze anos.

Velho sem velhice gosto agora mais da serenidade que a vida nos oferece no interior abandonado e esquecido dos muitos poderes deste país que a Natureza criou à beira mar e a ganância humana vem destruindo.


29.06,24

 

Sentado à mesa procuro ordenar ideias. A manhã apresenta-se de céu compacto, cinzento e húmido sem vento.

Sem ver televisão nem dar atenção às notícias que a rádio pública difunde, vivo, continuando a não sentir necessidade de lhes dar tempo de atenção, já que para o patronato que os domina e controla só existe uma versão, a deles, o contraditório é coisa de gente com problemas psíquicos, gente subversiva e perigosa a soldo dos inimigos do ocidente Atlântico. Pelo que vejo nos jornais e na rede social que ainda frequento entretêm o pessoal com o que se irá passar nas eleições americanas que muitos consideram o país da liberdade incapazes que são em analisar que a tal dita liberdade não é mais do que um partido único com duas secções, uma designada de democrata e a outra de republicana, que de X em X anos apresentam ao mundo a respetiva farsa, já que quem manda de facto são seres sem alma designados como gestores dos interesses expansionista de um modelo liberal sem regulamentação que facilite a exploração do trabalho e da natureza pelo capital ambicioso e ganancioso que representam.


Ainda faltam uns dias para me ir embora e já sinto alguma tristeza por ir deixar não só os tomateiros, videiras, aipo, pimenteiros, curgete, árvores (laranjeira, oliveiras, figueira e tangerineira) mas também está pequena casa onde tenho os meus antepassados, um canto que sendo fisicamente pequeno é maior do que muitos palácios.

25.06.24

 


Comecei ainda mais cedo os meus trabalhos, primeiro com a rega dos tomateiros, cebolas, curgetes e aipo, saindo em seguida com a Sacha para a volta matinal. Tomado o pequeno almoço enchi a garrafa de água e fui voltar às batatas. Hoje como ontem lá fui “capando” algumas. Amanhã de manhã termino. Depois do banho tomado fiz o almoço, seguindo-se a merecida sesta que o corpo, dorido por não estar habituado a estes trabalhos, pedia. Só depois ao olhar o facebook tomei conhecimento da previsível libertação de Julian Assange, uma notícia boa por fim. Vive-se hoje num mundo dominado por verdades fabricadas pelo poder do dinheiro nas mãos dos imperialistas americanos. Assange, jornalista sem medo, desmascarou as atrocidades cometidas pelos falsos dirigentes americanos, por isso viveu anos ora em prisão numa embaixada que lhe deu asilo, ora na prisão dos “bifes” anglicanos súbditos maiores dos aliados americanos.

24.06.24

 

Há uma hora que saí do mundo dos sonhos. Depois de me cuidar, de fazer a cama e conversar com o sagrado sento-me à mesa que foi de meus avós. Olho o relógio que na parede em frente faz tic-tac e os ponteiros dizem-me que são as seis e meia. O Sol já passou a linha do horizonte à cerca de meia hora. É este um mundo de raízes invisíveis que me faz sentir bem, um mundo onde o cheiro da maresia do mar transportado nas asas do vento não chega, que aqui o calor é mais quente e seco de poucas humidades.

Sabes, não não sabes, mas o mar que fez parte da minha vida de juventude já não me chama, não me atrai como em tempos me atraía para nele deixar grande parte da carga de stress que a vida profissional criava; a minha vida agora é de pouco stress porque já não tenho pressa de chegar onde só existe a ostentação do individualismo, o meu sonho não passa por esse modo de vida afastando-se do mesmo à medida que o rio tempo passa por mim.

De modo próprio tresmalhei-me desse mundo, agravando de certo modo e por certo o meu viver solitário, mas fazendo-me degustar o bem do não stress na outra margem da vida, onde a busca da Paz e da harmonia é agora o caminho que procuro concretizar, para quando chegar o momento da paz absoluta deixar tudo no seu próprio lugar, tudo resolvido sem sombras.


No caminho que fizemos, quando regressávamos dei com os olhos em ramos de poejo que à sombra da parede aproveitando a humidade da valeta cresceram. Toquei-lhes e logo o seu aroma me encheu. Gosto do poejo selvagem. Não resisti e trouxe alguns pés para transplantar na esperança que os mesmos se reproduzam.

Esta é mais uma coisa, um bem para o espírito, que nem o mar nem as cidades me podem dar. Não há calma como a do campo.

Lá longe mas não assim tão longe como a grande maioria do rebanho grudado nos ecrãs poluídos das televisões pensa, há uma guerra que ameaça, que destrói vidas mais do que bens materiais, uma guerra entre vários povos que se tornaram inimigos pela soberba e ganância desmedida dos falcões imperialistas sem alma humana. Uma guerra com dois lados, senão ela não existia, dois lados e muitos intervenientes. Uma guerra que se vai agudizando desde 2014 e não apenas e só a partir de 2022 como os papagaios e catatuas sem penas contam e comentam nas televisões recitando a voz do dono que lhe paga chorudas remunerações. No início da guerra para uns, da operação especial para outros, chamaram-me de putinistas, mandaram-me ir para a Rússia. Eu que sou português de lés a lés, europeu do Sul, nunca me vendi aos americanos nem aos russos, no meu tempo de política ativa gritava e defendia- “nem nato, nem pacto de varsóvia, independência nacional” - assim continuei pela vida fora, ausente que sou da política partidária, andando na outra margem da vida, agora não um jovem antes um velho sem velhice que gosta de viver, de fazer o seu caminho em direção ao inexistente futuro onde um dia após o fim da dualidade que me constitui se separar, a matéria reduzida a cinzas, para então fazendo jus ao lés a lés parte delas ser entregue clandestinamente ao mar numa maré vazante num mar calmo e sereno e, a outra parte descansar aqui neste interior raiano à sombra da velha oliveira galega enquanto a casa e as oliveiras se mantiverem na família, porque no cemitério da terra há como reserva a campa da tia Maria do Carmo onde se encontram também os restos de meus pais.



De manhã comecei a apanha das batatas no meio da muita erva que entre elas cresceu. Sem pressa fui procurando não “capar” nenhuma infelizmente acertei quase sempre nas maiores. No final da manhã a camisa e as trusses estavam encharcadas com o suor. Mesmo depois do banho as minhas mãos ainda apresentam o odor das ervas mal cheirosas, as ditas farinheiras. O dia foi quente, 35° pelo que à tarde fui ver as mensagens e e-mail no computador. A Autoridade Tributária demorou uma semana para validar a minha declaração de rendimento, mas lá a aceitou; andam preocupados com os fracos e subservientes aos fortes e ricos.

15.06.24

 

Às cinco e trinta já o dia se anuncia pela janela do quarto.

Olho o dia de ontem procurando afastar-me das emoções mas não sou capaz, nós somos emoções e eu não fujo à regra. O dia começou mostrando-me que nem sempre se vive em comunhão, para ao chegar ao meu refúgio e sentir como sempre o peso da dureza do silêncio que me mostra o não retorno do passado mesmo quando apenas se busca um simples ato explicativo de um acontecimento que não deveria ter acontecido mas que por razões ocultas aconteceu.

É assim que neste renascer do dia sentado na minha cama olhando a vida pela janela mais uma vez o que meu pai me dizia volta a estar presente «se queres vir para cá tens de arranjar outra mulher» ao que lhe respondia que não ia arranjar outra mulher. Já não tenho apetência para essas coisas. O amor pelos outros secou, pelo menos é o que sinto, não será fácil aos setenta e três anos voltar a partilhar espaço físico quanto mais ideais e sonhos, coisas que não tem idade indiferentes que são ao rio do tempo que passa por nós na sua constante imutável; coisas que são tão importantes nesta idade onde a solidão agressiva e tóxica está presente a todas as horas em programação contínua difundida por canais televisivos na posse dos senhores sem alma para nos querem parametrizar os neurónios e com isso nos trazerem pela trela amestrados e obedientes.


Era um quarto para o meio dia dei à ignição e fui até Segura ao Festival das Migas. Encontrei gente conhecida.

As migas estavam boas, muita variedade com os concorrentes a aplicarem-se na confeção. Grupos de vizinhos espanhóis não faltavam.


Quando o grupo musical encarregue de animar o festival terminou a sua atuação, para dar lugar aos grupos seniores de cantares de Segura, da Zebreira e dos vizinhos espanhóis, subiram ao palco os políticos. A minha sombra lembrou-me que desde 25 de Outubro não vejo televisão, não ouvi um minuto das campanhas eleitorais para a nossa Assembleia e para o tal Parlamento Europeu, decidindo num impulso dar corda aos sapatos, com pena de assim não assistir aos grupos seniores com os seus cantares. O domingo foi um dia bom. Pena já não haver os peixinhos do Erges, mas havia uma boa miga com o poejo do rio Erges. Gostei de todas as migas e não conhecia as migas à espanhola da Junta de Zarza La Mayor que estava muito agradável até por ser fresca realçando o sabor do tomate e do pimento. Mas estavam todas a merecerem palmas. Na Beira Baixa raiana há sabores e saberes gastronómicos.

13.06.24

 


Andava na recruta em Mafra quando comecei a fumar. Numa sexta-feira ao sair do “Calhau” dirigi-me à tabacaria que ficava junto à paragem dos autocarros da Mafrense e comprei um SG Gigante.

Saí nessa única sexta feira por na semana anterior ter tirado nos testes nota superior a catorze. Ao terminarmos o almoço estavam publicadas as especialidades que nos atribuíram para a especialidade, ao ver o meu numero mecanográfico e o meu nome atribuído para a especialidade “031 Atirador” senti as lajes do convento tremerem debaixo dos pés, não queria acreditar mas era a realidade que me estava destinada. Foi essa a causa definitiva do começar a fumar. Ao chegar a casa informei a minha mãe de que fumava para ela não me deitar o tabaco no lixo. Comecei a fumar na esperança que o fumo do tabaco me agudizasse o problema da asma e com isso poder sonhar com uma outra especialidade que não aquela de atirador de infantaria. Ainda andei na consulta externa para fazer exames ao problema asmático, mas ao terminar o tempo da especialidade fomos colocados contra a parede, ou desistíamos da consulta externa ou chumbávamos e teríamos mais onze semanas no “Calhau”. Desisti da consulta externa não queria voltar ao convento e repetir de novo tudo o que tinha suportado. Foi assim que me mandaram posteriormente para o B.C.10 em Chaves.

Do SG gigante de Mafra passei já em Chaves ao SG ventil, depois ao SG filtro fixando-me por fim no Português Suave sem filtro. Em Angola depois de experimentar o tabaco sem filtro que o sistema nos facultava, que era demasiado forte, passei a fumar AC o mais parecido com o SG gigante, mas a minha mãe enviava-me pelo Movimento Nacional Feminino volumes de Português Suave sem filtro. Em bases táticas só acendia o primeiro seguindo-se vários em continuo.

Terminada a guerra continuei a fumar o Português Suave sempre sem filtro. Casei e em casa não fumava. Contudo no trabalho era cigarro após cigarro. Era difícil deixar de fumar porque no trabalho ao participar em reuniões em salas fechadas onde muitos fumavam acabava por fumar cigarros dos que estavam ao meu lado, o designado tabaco marca «se me dão». Depois em festas sempre me ofereciam um cigarro e acabava por aceitar. Levei anos nesta situação. Um médico de medicina do trabalho ao efetuar-me um exame viu o maço de tabaco sem filtro que levava, auscultou-me e disse-me «o senhor tem nicotina nos pulmões para cinquenta anos». Comecei a luta comigo próprio para deixar de fumar, mas não foi fácil. Aconteceu quando um dia depois de algum tempo sem comprar um maço, de certo modo envergonhado por fumar o tal «se me dão» decidi-me a comprar um maço de Português Suave com filtro que coloquei em cima da minha secretária. Todos os que nesse dia entraram no meu gabinete aproveitavam e tiravam um cigarro para fumarem. No final, era já noite quando ia a sair peguei no maço para fumar um cigarro e já estava vazio. Senti uma sensação estranha e desde esse momento que nunca mais fumei um cigarro. Já houve momentos em que pensei, se tivesse um cigarro… , mas resisti e nunca mais fumei e penso não voltar a fumar.

Agora com os meses que levo sem ver televisão já senti a sensação de pegar no comando para ligar o terrível aparelho, mas resisto e continuo sem lhes dar ouvidos com exceção a alguns jogos de futebol, sem som de preferência. Não me interessam o que noticiem ou comentem porque assim não me enervo, não lhes chamo mentirosos e outros nomes, arranjando problemas em casa quando estou em Alverca porque olhamos o mundo com olhos diferentes. Ainda no passado domingo eu votei pela Paz e ela votou pela continuação da guerra, toda esperançosa e convencida que o seu voto ia ganhar, não ganhou mas os que ganharam mesmo que por poucochinho são todos pela continuação da guerra contra os russos.

Pela janela do meu casulo olho triste como a quase totalidade do rebanho que foi votar optou pela continuação e agravamento da guerra sem nunca terem sentido como as guerras são horríveis de tão más pois já não há guerras santas. Isto sou eu que ao não ver televisão não ouvi nem li nada do que cada uma das organizações políticas concorrentes disseram antes e após a eleição. Se imaginassem o que é sofrer o medo de morrer ou de ver um companheiro morrer sem lhe poder valer… mas intoxicados e alienados pelos programas televisivos de sentido único, desconhecem o horror que a porcaria da guerra cria. A designada guerra do ultramar foi uma brincadeira comparada com as guerras que ocorrem na Ucrânia e na Palestina. Votaram não se lembrando que os filhos e os netos ainda podem ser enviados para a guerra como carne para canhão, depois irão chorar de arrependimento se as armas nucleares não chegarem a ser usadas, pois se a guerra entrar nessa face poucos cá irão ficar para relatarem o sofrimento antes e após e deflagração das mesmas.

É assim que vou sentindo vontade de lhe voltar a escrever, mas a exemplo do fumar e do não ver televisão recuo. Nem sempre o consigo fazer.

13.06.24

 

https://www.cmjornal.pt/tv-media/detalhe/grupo-impresa-com-passivo-financeiro-de-212-milhoes-de-euros

Para os aldrabões amigos do poder financeiro não falta dinheiro para continuarem a difundir as asneiras que a «voz do dono» lhe ordena.

11.06.24

 

O dia das eleições já passou. Segue-se-lhe um outro dia em que a hipocrisia sai à rua em festejos oficiais. Às vezes penso no que escreveria o poeta desta corte republicana que se passeia pelos corredores dos palácios. Pelo certo também o iriam desprezar talvez mesmo o prendessem nas novas masmorras a exemplo do que lhe terão presumivelmente feito os jesuítas inquisidores daquela época.

Coitado do Luís, que dele se servem os descendentes dos que o ostracizaram e deportaram para marés e terras distantes, valendo-lhe a amizade de fidalgos amigos que o trouxeram de novo à terra mãe para mais tarde o livrarem da fogueira a ele e ao original da sua obra.

Presumivelmente estas possíveis verdades incomodando a nova nobreza reinante dita democrática e republicana em união de facto com a ortodoxia religiosa impedem que se célebre com honra os quinhentos anos do seu nascimento.

Quanto ao que se passou no dia anterior, ou seja, da votação sem anteriormente ouvir um segundo o que uns e outros disseram, também não ouvi nada pós resultados; que terão dito os chefes e os cabeças de listas já nada me incomoda porque todos na verdade ganharam apenas o país duvido que tenha ganho. Cumpri o meu dever de cidadão. Feliz também por minhas filhas terem cumprido com o delas, votando. Eu pertenço à minoria que votou pela PAZ na Europa de Lisboa aos Urais, é essa a minha Europa e não a organização de Estados Europeus submissos e lacaios dos imperialistas americanos amantes de guerras e genocídios.

Aos que me irão acusar de putinista ou mesmo comunista digo já que sou demasiado pequeno-burguês para ser comunista, sou republicano mais à esquerda e não ao centro, português europeu do sul, respeitando crenças religiosas e costumes; sou tão anti Putin como anti americano, contudo, compreendo e respeito a intervenção militar da Rússia na Ucrânia como forma de defender as populações russas que viviam no Donetsk e Lugansk na região de Donbass dos constantes ataques com que os nazis ucranianos as vinham martirizando desde 2014, ano em que os imperialistas americanos promoveram o golpe de estado na Ucrânia colocando no poder homens de sua confiança reféns dos vários grupos nazis existentes e fomentados pelo designado ocidente democrático.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

07.06.24

 



Sabia que o céu compacto de nuvens não iria proporcionar momentos diferentes para registar com a minha pequena Olympus.

Sabia, mas acabei de jantar, vesti o corta vento, peguei na máquina, deixei a Sacha em casa e fui até à beira mar indiferente à nortada fria e forte que durante a tarde se fez presente. Ao passar junto ao bar de praia clientes saiam combinando em voz alta algo que não entendi e aceleraram nos seus carros com um deles a acelerar como se estivesse em rali de terra batida. Olhei o horizonte de um céu cinzento compacto não fossem dois riscos quase dourados ou alaranjados dizendo que o Sol ainda não estava na linha do horizonte. Olhei o mar calmo com as suas pequenas ondas a acariciar a areia molhada da baixa mar. Só, ali estava eu naquele areal de tantas memórias escutando, absorvendo os sons e odores da Natureza, evitando entrar nas memórias mais tristes da minha caminhada. No fim do areal, a norte, lá está com as suas novas instalações o porto de pesca da cidade que me viu crescer; ao olhá-lo senti a gaveta dos neurónios abrir-se pelo que de imediato voltei costas não deixando a imagem voltar para a minha memória viva embora não deixasse de pensar no arrependimento. Vi três gaivotas voando sobre a minha cabeça no céu que ia ficando mais cinzento à medida que a hora do ocaso se aproximava, subi até ao Largo da Igreja caminhando nostálgico indiferente à nortada que sempre acalma um pouco com o chegar da noite. Esperei pela hora do ocaso mas as nuvens compactas não me deixaram saudar o deus Sol, regressei a casa acompanhado pela nostalgia misturada com a sensação que já não vou pertencendo aqui, a minha praia está diferente ou sou eu que vou caminhando abraçando uma outra forma da natureza; aqui, agora, só recordações e lembranças que se misturam com nostalgias felizes e outras. Já não sou daqui é o meu sentir, fui e vou-me perdendo com o caudal do rio tempo que corre constante invariavelmente.

À hora habitual acordei, olhei o relógio no pulso ainda não eram as seis. Levantei-me, vi que tinha dormido quatro horas de sono profundo. Na sala a Sacha aguardava-me pensando que íamos para a rua, voltou para a sua cama quando me viu sentado a olhar as primeiras páginas dos jornais para depois começar a escrever no aparelho de comunicação.

Eram sete e meia quando saímos em direção à praia. No areal pensei em caminharmos para sul. Pela passadeira subimos até ao Largo da Igreja e fomos pelo caminho na beira da arriba até ao Corre Água olhando sem pressa a beleza quase selvagem deste curto trajeto. Já desliguei do que os serviços municipais e as autoridades marítimas não fazem nem deixarão de fazer, já não acredito na capacidade dessa gente, desses órgãos de poder administrativo. Desde 1962 ano em que aqui cheguei que conheci a existência de muitos planos e mais ideias para o aproveitamento económico e turístico desta região, até investimentos megalómanos foram publicitados para na prática este pedaço de costa continuar esquecido, abandonado à sorte das intempéries da natureza pela sua fraca constituição argilosa de milhares ou milhões de anos.

O meu ser tresmalhado já não vai sentindo raízes neste canto onde cresci e vivi. Tudo muda e também eu vou mudando sem me integrar em nenhum dos vários grupos que constituem o rebanho da grande maioria.

No regresso andando no Largo da Igreja sou saudado por um rapaz do meu tempo, a que logo se juntou um outro amigo que vive agora entre o cá e o Canadá para onde emigrou quando jovem em busca de uma vida melhor; num instante ali no Largo junto à arriba nos juntamos três Carlos, momento que vai rareando por Carlos não ser um nome que agrade às novas gerações. Depois de me despedir, desci até às rochas que não são milagrosas como muitos acreditam por errada informação. Como estava na baixa-mar andei pulando por rochas da minha juventude vendo hoje muitas algas verdes nas mesmas, limos ou algas inexistentes nesses anos da década de sessenta; sinais do tempo, das consequências de um modelo de desenvolvimento económico e social submetido à ganância e à usura no desrespeito pela Natureza. Acredito que estas águas do Atlântico Penicheiro ainda são do melhor que podemos encontrar em termos de poluição, acredito pelo que vejo nelas e através delas, não porque me dizem que a praia tem bandeira azul ou mesmo de ouro, já que não dou credibilidade às ONG's ou organizações ditas ambientalistas, tipo quercus, zero ou outras de igual cariz. Ainda no verão passado, quando desrespeitando as minhas maleitas me aventurei a entrar na água para dar umas braçadas filo sempre de olhos abertos, o que não fiz em outras praias de nomeada e badaladas. Nessa tarde em que a temperatura da água convidava ao banho senti no corpo que aquelas curtas braçadas tinham sido um aviso de despedida dos banhos de mar. A pouco e pouco temos de saber encarar a realidade, é que os erros e exageros de juventude são muitas vezes cobrados com altos juros fazendo jus a expressão popular cantada pelo António Variações, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga.

06.06.24

 

O dia em que nos servem uma meia verdade para esconderem a verdade.

Neste dia já os soviéticos estavam às portas de Berlim, quando se deu o desembarque em Dunquerque na Normandia.

Os americanos desembarcaram depois de serem convencidos pelos ingleses que o maior inimigo não eram os nazis-alemães mas sim o avanço dos soviéticos e a propagação do comunismo.

A guerra estava ganha mesmo sem o tal desembarque. O exército nazi-alemão capitulou perante os russos soviéticos, depois seguiu-se a destruição escusada de cidades alemãs pelas bombas dos aliados - ocidentais como encenação para uma vitória que já estava antes assegurada.

Ainda hoje, depois do desmoronamento da União Soviética e da extinção do Pacto de Varsóvia há quem ainda veja os russos como comunistas perigosos que nos querem invadir para comerem as nossas crianças ao pequeno almoço.

A verdade sempre foi perigosa para as ambições desmedidas dos falcões ocidentais.

Hoje até o Bandeirista-ucraniano lá estará para escreverem mais uma mentira sobre a II GG.



01.06.24

 

De amanhã a oito dias os que nos parametrizam o modo de vida iludindo-nos chamam-nos para votarmos em mais um ato que dizem representar a liberdade. Liberdade que esses senhores que nos parametrizam a vida não nos deram mas que logo se aproveitaram das disrupções sociais que originaram a sua conquista.

O voto não é a arma do povo, tão pouco apenas um direito conquistado, antes um dever de cidadania que cada de nós tem para com a sociedade, daí o considerar um dever moral dizermos pelo voto qual a escolha que nos interessa perante as alternativas políticas que o sistema nos apresenta.

Na anterior eleição do mês de Março em que o inquilino de Belém sufragou pelo voto o golpe de estado palaciano que promoveu em concluiu com a PGR, votei consciente do que o ato representava pelo que o cumprimento do dever cívico foi útil e necessário. A minha escolha não saiu vitoriosa mas eu não perdi porque o meu voto teve consequências.

Agora no próximo fim de semana temos de novo o dever cívico de votarmos numa escolha para uma instituição europeia que para além da sua legalidade duvidosa, nada irá acrescentar à vida dos cidadãos. O Parlamento Europeu resulta de acordos entre Estados não tendo a suporta-lo uma “Constituição Europeia” que lhe conferisse não só a sua legalidade enquanto órgão de soberania, como qual o seu efetivo papel no futuro dos povos europeus, limitando-se os seus elementos a um papel secundário na definição das políticas económicas, sociais e de segurança; o poder é exercido por uma comissão nomeada com a bênção dos interesses americanos, a qual não está sujeita a sufrágio direto europeu, necessitando apenas e por vezes do voto unânime dos primeiros-ministros que compõem o tratado da união.

Consciente do pouco e fraco interesse que o dito parlamento tem, para a vida dos que se preocupam pelo bem social de todos, irei cumprir o meu dever votando pela Paz na Europa de Lisboa aos Urais como me ensinaram em todos os Estabelecimentos de Ensino Publico que frequentei desde a Escola Primária até à Universidade Técnica.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

31.05.24

 

Fiz sete meses no passado dia 25 que não vejo nem dou atenção ao que dizem ou vomitam as vozes dos donos amestrados em papagaios e catatuas sem penas que preenchem os ecrãs televisivos, a exceção são os jogos do Sporting sem som.

Vivo assim um tempo com mais espaço para ler, para continuar a aprender a pensar pela minha cabeça, ouvindo o que não nos dizem, vendo o que não nos mostram.

Leio alguns jornais sabendo que poucos são os jornalistas independentes que com espaço escrevem fora da corrente quase unânime que domina a comunicação social escrita, avida de presumíveis atos praticados por políticos que indiciem negociatas com amigos quando praticados por gente do centro esquerda que nos tem governado, muito diferente é a mesma comunicação social quando se trata de casos semelhantes que indiciem presumíveis atos lesivos ou trapaças lesivas do herbário público quando efetuados por gente e em benefício da direita política.

Quanto à famosa justiça o que é que podemos esperar depois do caso dos submarinos, sim o que é que se pode esperar de uma justiça que passou ao lado da Revolução de Abril? Isenção? Regressemos a Abril de 1974 quando muitos juízes no dia 24 de Abril atuavam nos Tribunais Plenários da miserável ditadura para no dia 26 recompostos do susto que o dia 25 lhes provocou, passarem muitos deles a democratas assumidos que apenas anteriormente julgavam e mandavam os presos opositores da ditadura para as masmorras de Caxias, Peniche e Tarrafal porque cumpriam a lei existente. Gente sem classificação.

A justiça nunca foi democrata porque na sua essência ela é o expoente dos interesses da classe dominante, daí a triste situação a que vamos assistindo cantando e rindo com os incumprimentos e trapaças dos que por lei deveriam pugnar pelo cumprimento do segredo de justiça.

27.05.24

 


No regresso do fim de semana em Chaves tínhamos duas alternativas, ou fazíamos a N103 até Braga visitando as Barragens do Alto Rabagão, também conhecida como Barragem de Pisões. Seguindo-se mais à frente a linda Barragem da Venda Nova, para depois já mais perto de Braga a Barragem de Salamonde e da Caniçada, regressando depois por auto-estrada, ou não sendo um amante de motas nem mesmo de carros para ir registando em todos os postos de Turismo o carimbo no passaporte que celebra a Nacional 2, nem tendo tempo para dedicar a todas as belezas que a mesma encerra e percorre, decidimos regressar de Chaves Km 0 até onde sentíssemos que era chegada a altura de entrarmos na A24 ou no IP3 para o regresso a tempo de ir passear a amiga Sacha.

Fizemos a primeira etapa sem pressa, quando alguma viatura se apresentava à retaguarda logo procurava lugar para a deixar passar porque a paisagem envolvente assim aconselhava tão soberba e bela ela é.

Uma estrada hoje mítica para os muitos viajantes de mota que connosco se cruzaram. Não percorri todos os pontos de interesse assinalados no roteiro, mas percorri todas as muitas curvas da N2 sem delas me perder já que nas cidades e vilas a sua sinalização é deficiente e nem sempre respeitada pelas novas estradas de betão do tempo democrático.

São 738km de Chaves até Faro. Na primeira etapa chegámos a Viseu. Falta percorrer os restantes, que serão percorridos em uma nova etapa a partir do km738 em Faro para Norte, ficando depois para percorrer os restantes quilómetros no centro do país sempre pela N2.




26.05.24



 

Ontem dia 25 de Maio sendo o primeiro dia dos restantes de nossas vidas, foi tempo de voltarmos a Chaves para no antigo BC10, atual RI19, celebrarmos os cinquenta anos do nosso regresso da guerra em Angola.

Fizemo-lo em Chaves porque foi nesta cidade no alto de Trás os Montes que em 1972 nos conhecemos formando-nos como corpo militar da 2ª Companhia do Batalhão de Caçadores 5010.

Fomos, nós e a 1 Companhia do Batalhão 5017, recebidos pelo senhor major de Operações Especiais que com uma equipa de militares da Unidade nos recepcionaram com a apresentação de cumprimentos, prestando-se em seguida uma simples mas bonita e emocionante homenagem aos militares que pela honra e glória de Portugal morreram a combater, para depois efetuarmos uma pequena visita às instalações trazendo aos que mais tempo passaram no antigo BC10 recordações já quase esquecidas nas suas memórias de juventude, seguindo-se a missa celebrada na Capela da Unidade pelo senhor Padre Amorim, antigo capelão militar do Batalhão de Caçadores 5010, rumando de seguida o grupo da 2ª Companhia até um restaurante da cidade para degustando o almoço continuarem o seu convívio celebrando a amizade que em 1972 começou a ser forjada no antigo BC10 atual RI19 na cidade transmontana de Chaves.

Deste dia dia ficou igualmente na memória com agrado por todos comentada o excelente aspeto, conservação e limpeza das instalações militares que o atual RI19 mantém do antigo BC10 que para nós, antigos combatentes da 2ª C. Caç. 5010, será sempre a nossa Unidade Militar que com o nosso esforço, sacrifício e disciplina procuramos honrar mas matas longínquas do Mumbué e Ponte de Zadi em Angola.



23.05.24

 

Cheguei a Chaves a 17 de Abril de 1972. Cheguei de comboio pelas 14H15 depois de muitas horas de viagem iniciada na noite anterior pelas quase 23H00 em Santa Apolónia. O país sendo pequeno era demasiado grande pelo atraso económico e social que vivia e que parecia estar condenado a viver.

A concentração dos militares para formarem o Batalhão de Caçadores deu-se em 28 de Agosto de 1972, para nos apresentarmos no BC9 em Viana do Castelo a 25 de Setembro, embarcando para Angola no dia 15 de Dezembro desse mesmo ano. Já contabilizava 14 meses de serviço militar.

Hoje estamos melhor do que naquele tempo, mas o desenvolvimento económico e social com que sonhámos após o 25 de Abril deixa muito a desejar, não é o melhor quanto mais o ideal, vivendo o país subordinado e vergado às vontades e desejos dos burocratas liberais e neoconservadores em Bruxelas.

Se antes vivíamos a ilusão de um império (coutada de meia dúzia ou mesmo uma dúzia de famílias), hoje vivemos a ilusão de uma independência de país soberano que já não somos, venderam-nos a troco de rios de dinheiro que se sublimaram facilmente entre mordomias, megalomanias e off shores seguros, continuando o país na cauda da Europa com o carro vassoura sempre à vista.

Do velho e triste “orgulhosamente sós” passamos a ser apenas “bons alunos” das políticas liberais-neoconservadoras-bruxelianas que visam desmantelar o pobre Estado Social que a Revolução de Abril ajudou a criar.

Hoje já não se pode chegar de comboio a Chaves, políticos submissos uns, outros amigos dos novos barões do dinheiro, mais interessados nos lucros do betão desinvestiram do transporte ferroviário (o menos poluente de todos); a linha do Corgo como outras, em vez de modernizada foi abandonada e destruída para gáudio de novas famílias e grupos amigos do poder (consultores, banqueiros e empresários do betão), sempre tudo «A Bem da Nação» de má memória.

(fotografia obtida na internet)