quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

07.06.24

 



Sabia que o céu compacto de nuvens não iria proporcionar momentos diferentes para registar com a minha pequena Olympus.

Sabia, mas acabei de jantar, vesti o corta vento, peguei na máquina, deixei a Sacha em casa e fui até à beira mar indiferente à nortada fria e forte que durante a tarde se fez presente. Ao passar junto ao bar de praia clientes saiam combinando em voz alta algo que não entendi e aceleraram nos seus carros com um deles a acelerar como se estivesse em rali de terra batida. Olhei o horizonte de um céu cinzento compacto não fossem dois riscos quase dourados ou alaranjados dizendo que o Sol ainda não estava na linha do horizonte. Olhei o mar calmo com as suas pequenas ondas a acariciar a areia molhada da baixa mar. Só, ali estava eu naquele areal de tantas memórias escutando, absorvendo os sons e odores da Natureza, evitando entrar nas memórias mais tristes da minha caminhada. No fim do areal, a norte, lá está com as suas novas instalações o porto de pesca da cidade que me viu crescer; ao olhá-lo senti a gaveta dos neurónios abrir-se pelo que de imediato voltei costas não deixando a imagem voltar para a minha memória viva embora não deixasse de pensar no arrependimento. Vi três gaivotas voando sobre a minha cabeça no céu que ia ficando mais cinzento à medida que a hora do ocaso se aproximava, subi até ao Largo da Igreja caminhando nostálgico indiferente à nortada que sempre acalma um pouco com o chegar da noite. Esperei pela hora do ocaso mas as nuvens compactas não me deixaram saudar o deus Sol, regressei a casa acompanhado pela nostalgia misturada com a sensação que já não vou pertencendo aqui, a minha praia está diferente ou sou eu que vou caminhando abraçando uma outra forma da natureza; aqui, agora, só recordações e lembranças que se misturam com nostalgias felizes e outras. Já não sou daqui é o meu sentir, fui e vou-me perdendo com o caudal do rio tempo que corre constante invariavelmente.

À hora habitual acordei, olhei o relógio no pulso ainda não eram as seis. Levantei-me, vi que tinha dormido quatro horas de sono profundo. Na sala a Sacha aguardava-me pensando que íamos para a rua, voltou para a sua cama quando me viu sentado a olhar as primeiras páginas dos jornais para depois começar a escrever no aparelho de comunicação.

Eram sete e meia quando saímos em direção à praia. No areal pensei em caminharmos para sul. Pela passadeira subimos até ao Largo da Igreja e fomos pelo caminho na beira da arriba até ao Corre Água olhando sem pressa a beleza quase selvagem deste curto trajeto. Já desliguei do que os serviços municipais e as autoridades marítimas não fazem nem deixarão de fazer, já não acredito na capacidade dessa gente, desses órgãos de poder administrativo. Desde 1962 ano em que aqui cheguei que conheci a existência de muitos planos e mais ideias para o aproveitamento económico e turístico desta região, até investimentos megalómanos foram publicitados para na prática este pedaço de costa continuar esquecido, abandonado à sorte das intempéries da natureza pela sua fraca constituição argilosa de milhares ou milhões de anos.

O meu ser tresmalhado já não vai sentindo raízes neste canto onde cresci e vivi. Tudo muda e também eu vou mudando sem me integrar em nenhum dos vários grupos que constituem o rebanho da grande maioria.

No regresso andando no Largo da Igreja sou saudado por um rapaz do meu tempo, a que logo se juntou um outro amigo que vive agora entre o cá e o Canadá para onde emigrou quando jovem em busca de uma vida melhor; num instante ali no Largo junto à arriba nos juntamos três Carlos, momento que vai rareando por Carlos não ser um nome que agrade às novas gerações. Depois de me despedir, desci até às rochas que não são milagrosas como muitos acreditam por errada informação. Como estava na baixa-mar andei pulando por rochas da minha juventude vendo hoje muitas algas verdes nas mesmas, limos ou algas inexistentes nesses anos da década de sessenta; sinais do tempo, das consequências de um modelo de desenvolvimento económico e social submetido à ganância e à usura no desrespeito pela Natureza. Acredito que estas águas do Atlântico Penicheiro ainda são do melhor que podemos encontrar em termos de poluição, acredito pelo que vejo nelas e através delas, não porque me dizem que a praia tem bandeira azul ou mesmo de ouro, já que não dou credibilidade às ONG's ou organizações ditas ambientalistas, tipo quercus, zero ou outras de igual cariz. Ainda no verão passado, quando desrespeitando as minhas maleitas me aventurei a entrar na água para dar umas braçadas filo sempre de olhos abertos, o que não fiz em outras praias de nomeada e badaladas. Nessa tarde em que a temperatura da água convidava ao banho senti no corpo que aquelas curtas braçadas tinham sido um aviso de despedida dos banhos de mar. A pouco e pouco temos de saber encarar a realidade, é que os erros e exageros de juventude são muitas vezes cobrados com altos juros fazendo jus a expressão popular cantada pelo António Variações, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga.

06.06.24

 

O dia em que nos servem uma meia verdade para esconderem a verdade.

Neste dia já os soviéticos estavam às portas de Berlim, quando se deu o desembarque em Dunquerque na Normandia.

Os americanos desembarcaram depois de serem convencidos pelos ingleses que o maior inimigo não eram os nazis-alemães mas sim o avanço dos soviéticos e a propagação do comunismo.

A guerra estava ganha mesmo sem o tal desembarque. O exército nazi-alemão capitulou perante os russos soviéticos, depois seguiu-se a destruição escusada de cidades alemãs pelas bombas dos aliados - ocidentais como encenação para uma vitória que já estava antes assegurada.

Ainda hoje, depois do desmoronamento da União Soviética e da extinção do Pacto de Varsóvia há quem ainda veja os russos como comunistas perigosos que nos querem invadir para comerem as nossas crianças ao pequeno almoço.

A verdade sempre foi perigosa para as ambições desmedidas dos falcões ocidentais.

Hoje até o Bandeirista-ucraniano lá estará para escreverem mais uma mentira sobre a II GG.



01.06.24

 

De amanhã a oito dias os que nos parametrizam o modo de vida iludindo-nos chamam-nos para votarmos em mais um ato que dizem representar a liberdade. Liberdade que esses senhores que nos parametrizam a vida não nos deram mas que logo se aproveitaram das disrupções sociais que originaram a sua conquista.

O voto não é a arma do povo, tão pouco apenas um direito conquistado, antes um dever de cidadania que cada de nós tem para com a sociedade, daí o considerar um dever moral dizermos pelo voto qual a escolha que nos interessa perante as alternativas políticas que o sistema nos apresenta.

Na anterior eleição do mês de Março em que o inquilino de Belém sufragou pelo voto o golpe de estado palaciano que promoveu em concluiu com a PGR, votei consciente do que o ato representava pelo que o cumprimento do dever cívico foi útil e necessário. A minha escolha não saiu vitoriosa mas eu não perdi porque o meu voto teve consequências.

Agora no próximo fim de semana temos de novo o dever cívico de votarmos numa escolha para uma instituição europeia que para além da sua legalidade duvidosa, nada irá acrescentar à vida dos cidadãos. O Parlamento Europeu resulta de acordos entre Estados não tendo a suporta-lo uma “Constituição Europeia” que lhe conferisse não só a sua legalidade enquanto órgão de soberania, como qual o seu efetivo papel no futuro dos povos europeus, limitando-se os seus elementos a um papel secundário na definição das políticas económicas, sociais e de segurança; o poder é exercido por uma comissão nomeada com a bênção dos interesses americanos, a qual não está sujeita a sufrágio direto europeu, necessitando apenas e por vezes do voto unânime dos primeiros-ministros que compõem o tratado da união.

Consciente do pouco e fraco interesse que o dito parlamento tem, para a vida dos que se preocupam pelo bem social de todos, irei cumprir o meu dever votando pela Paz na Europa de Lisboa aos Urais como me ensinaram em todos os Estabelecimentos de Ensino Publico que frequentei desde a Escola Primária até à Universidade Técnica.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

31.05.24

 

Fiz sete meses no passado dia 25 que não vejo nem dou atenção ao que dizem ou vomitam as vozes dos donos amestrados em papagaios e catatuas sem penas que preenchem os ecrãs televisivos, a exceção são os jogos do Sporting sem som.

Vivo assim um tempo com mais espaço para ler, para continuar a aprender a pensar pela minha cabeça, ouvindo o que não nos dizem, vendo o que não nos mostram.

Leio alguns jornais sabendo que poucos são os jornalistas independentes que com espaço escrevem fora da corrente quase unânime que domina a comunicação social escrita, avida de presumíveis atos praticados por políticos que indiciem negociatas com amigos quando praticados por gente do centro esquerda que nos tem governado, muito diferente é a mesma comunicação social quando se trata de casos semelhantes que indiciem presumíveis atos lesivos ou trapaças lesivas do herbário público quando efetuados por gente e em benefício da direita política.

Quanto à famosa justiça o que é que podemos esperar depois do caso dos submarinos, sim o que é que se pode esperar de uma justiça que passou ao lado da Revolução de Abril? Isenção? Regressemos a Abril de 1974 quando muitos juízes no dia 24 de Abril atuavam nos Tribunais Plenários da miserável ditadura para no dia 26 recompostos do susto que o dia 25 lhes provocou, passarem muitos deles a democratas assumidos que apenas anteriormente julgavam e mandavam os presos opositores da ditadura para as masmorras de Caxias, Peniche e Tarrafal porque cumpriam a lei existente. Gente sem classificação.

A justiça nunca foi democrata porque na sua essência ela é o expoente dos interesses da classe dominante, daí a triste situação a que vamos assistindo cantando e rindo com os incumprimentos e trapaças dos que por lei deveriam pugnar pelo cumprimento do segredo de justiça.

27.05.24

 


No regresso do fim de semana em Chaves tínhamos duas alternativas, ou fazíamos a N103 até Braga visitando as Barragens do Alto Rabagão, também conhecida como Barragem de Pisões. Seguindo-se mais à frente a linda Barragem da Venda Nova, para depois já mais perto de Braga a Barragem de Salamonde e da Caniçada, regressando depois por auto-estrada, ou não sendo um amante de motas nem mesmo de carros para ir registando em todos os postos de Turismo o carimbo no passaporte que celebra a Nacional 2, nem tendo tempo para dedicar a todas as belezas que a mesma encerra e percorre, decidimos regressar de Chaves Km 0 até onde sentíssemos que era chegada a altura de entrarmos na A24 ou no IP3 para o regresso a tempo de ir passear a amiga Sacha.

Fizemos a primeira etapa sem pressa, quando alguma viatura se apresentava à retaguarda logo procurava lugar para a deixar passar porque a paisagem envolvente assim aconselhava tão soberba e bela ela é.

Uma estrada hoje mítica para os muitos viajantes de mota que connosco se cruzaram. Não percorri todos os pontos de interesse assinalados no roteiro, mas percorri todas as muitas curvas da N2 sem delas me perder já que nas cidades e vilas a sua sinalização é deficiente e nem sempre respeitada pelas novas estradas de betão do tempo democrático.

São 738km de Chaves até Faro. Na primeira etapa chegámos a Viseu. Falta percorrer os restantes, que serão percorridos em uma nova etapa a partir do km738 em Faro para Norte, ficando depois para percorrer os restantes quilómetros no centro do país sempre pela N2.




26.05.24



 

Ontem dia 25 de Maio sendo o primeiro dia dos restantes de nossas vidas, foi tempo de voltarmos a Chaves para no antigo BC10, atual RI19, celebrarmos os cinquenta anos do nosso regresso da guerra em Angola.

Fizemo-lo em Chaves porque foi nesta cidade no alto de Trás os Montes que em 1972 nos conhecemos formando-nos como corpo militar da 2ª Companhia do Batalhão de Caçadores 5010.

Fomos, nós e a 1 Companhia do Batalhão 5017, recebidos pelo senhor major de Operações Especiais que com uma equipa de militares da Unidade nos recepcionaram com a apresentação de cumprimentos, prestando-se em seguida uma simples mas bonita e emocionante homenagem aos militares que pela honra e glória de Portugal morreram a combater, para depois efetuarmos uma pequena visita às instalações trazendo aos que mais tempo passaram no antigo BC10 recordações já quase esquecidas nas suas memórias de juventude, seguindo-se a missa celebrada na Capela da Unidade pelo senhor Padre Amorim, antigo capelão militar do Batalhão de Caçadores 5010, rumando de seguida o grupo da 2ª Companhia até um restaurante da cidade para degustando o almoço continuarem o seu convívio celebrando a amizade que em 1972 começou a ser forjada no antigo BC10 atual RI19 na cidade transmontana de Chaves.

Deste dia dia ficou igualmente na memória com agrado por todos comentada o excelente aspeto, conservação e limpeza das instalações militares que o atual RI19 mantém do antigo BC10 que para nós, antigos combatentes da 2ª C. Caç. 5010, será sempre a nossa Unidade Militar que com o nosso esforço, sacrifício e disciplina procuramos honrar mas matas longínquas do Mumbué e Ponte de Zadi em Angola.



23.05.24

 

Cheguei a Chaves a 17 de Abril de 1972. Cheguei de comboio pelas 14H15 depois de muitas horas de viagem iniciada na noite anterior pelas quase 23H00 em Santa Apolónia. O país sendo pequeno era demasiado grande pelo atraso económico e social que vivia e que parecia estar condenado a viver.

A concentração dos militares para formarem o Batalhão de Caçadores deu-se em 28 de Agosto de 1972, para nos apresentarmos no BC9 em Viana do Castelo a 25 de Setembro, embarcando para Angola no dia 15 de Dezembro desse mesmo ano. Já contabilizava 14 meses de serviço militar.

Hoje estamos melhor do que naquele tempo, mas o desenvolvimento económico e social com que sonhámos após o 25 de Abril deixa muito a desejar, não é o melhor quanto mais o ideal, vivendo o país subordinado e vergado às vontades e desejos dos burocratas liberais e neoconservadores em Bruxelas.

Se antes vivíamos a ilusão de um império (coutada de meia dúzia ou mesmo uma dúzia de famílias), hoje vivemos a ilusão de uma independência de país soberano que já não somos, venderam-nos a troco de rios de dinheiro que se sublimaram facilmente entre mordomias, megalomanias e off shores seguros, continuando o país na cauda da Europa com o carro vassoura sempre à vista.

Do velho e triste “orgulhosamente sós” passamos a ser apenas “bons alunos” das políticas liberais-neoconservadoras-bruxelianas que visam desmantelar o pobre Estado Social que a Revolução de Abril ajudou a criar.

Hoje já não se pode chegar de comboio a Chaves, políticos submissos uns, outros amigos dos novos barões do dinheiro, mais interessados nos lucros do betão desinvestiram do transporte ferroviário (o menos poluente de todos); a linha do Corgo como outras, em vez de modernizada foi abandonada e destruída para gáudio de novas famílias e grupos amigos do poder (consultores, banqueiros e empresários do betão), sempre tudo «A Bem da Nação» de má memória.

(fotografia obtida na internet)


22.05.24

 

No passeio matinal de todos os dias com a minha amiga Sacha, atravessamos estradas em alguns sítios passando nas passadeiras existentes. Ao chegarmos às passadeiras sempre paramos, não tendo o hábito chegar e atravessar só porque o peão tem prioridade, todo o cuidado é pouco, o seguro dizem que morreu de velho e já não vivo tendo pressa.

Quando chegamos ao parque de estacionamento junto das escolas, básica e secundária, que serve de apoio aos transportes rodoviário e ferroviária, como não temos pressa paramos cientes de que os utentes que circulam nas suas viaturas terão muito mais pressa e assim deixamos-los passar com muitos a agradecerem a amabilidade. Há contudo quem não afrouxe a velocidade pois no cruzamento que está logo após a passadeira tem prioridade e, nem se digne olhar para nós como se tudo fosse deles. Face a esse comportamento sigo-os com a vista para observar se vão estacionar no parque ou se vão entrar no portão da escola secundária. Tristemente, alguns são funcionários na escola, talvez mesmo professores. Que exemplos darão aos alunos não faço ideia, pois sou muito crítico ao ensino que no seu todo se foi instalando no país em nome de uma democracia onde não só a ética e a moral parecem ser conceitos ausentes senão mesmo subversivos face ao liberalismo reinante, como também quem parece mandar nos programas são os senhores da Porto Editora e da Leya que produzem livros como se fossem enchidos de lucros.

Entrei no primeiro ano do ciclo preparatório, hoje quinto ano, com ainda nove anos fazendo diariamente oito quilómetros de bicicleta para chegar à escola às nove ou num dia ou noutro às oito da manhã, saindo da escola no final da tarde para percorrer de novo os mesmos oito quilómetros. Foi um miúdo com sorte porque outros rapazes tinham de ir a pé os mesmo quilómetros mais ou menos. Foi no tempo do livro único do regime, mas hoje ao ver o peso dos livros e os programas que variam consoante a editora e o gosto dos professores não sei por onde caminha o ensino ou se ainda podemos falar de ensino como a minha geração o absorveu.

19.05.24

Estava vivendo o mês de Maio de 1974 nas terras do quase fim do mundo. Saí do Mumbué para Silva Porto no unimog do reabastecimento da Companhia já vestido como civil. Em Silva Porto viajei de avião para Nova Lisboa. Nesta cidade conhecia os gerentes do grande Hotel Ruacaná, a esposa do gerente era de Salvaterra do Extremo e tinha sido amiga de juventude da minha mãe. Jantei com eles uma ou outra vez e foram eles que me arranjaram boleia para Luanda com o gerente da empresa de cervejas Cuca. Em Luanda hospedámos-nos, eu e o outro companheiro de viagem, no Hotel Katekero na Praça Serpa Pinto. No dia 19 de Maio de 1974 depois de termos almoçado e ido ao hotel quando voltei a sair em plena Praça Serpa Pinto olhei o céu azul de Luanda e disse para mim e para o universo: - se um dia tiver uma filha irá chamar-se Catarina!

No dia 20 de Maio aterrámos em Lisboa em voo TAP para cumprir pela segunda vez o meu mês de férias que os senhores da guerra nos concediam. Voltei para o Mumbué em vésperas de S. João.

Corria o mês de Junho do ano de 1977 quando fui pai de uma Catarina realizando o desejo nascido naquela tarde de 19 de Maio sob o céu de Luanda.

Coisas da vida de um caminhante.


(fotografia retirada da internet)

 

14.05.24

Ontem à tarde o meu irmão ficou livre e feliz do peso que o vinha atormentando.

Há dois dias enganei-me na data. Hoje sim foi há oito anos a última vez que falei de voz com o meu pai.

Esta madrugada voei para lá atrás no tempo do muito tempo, a guerra voltou aos meus sonhos abrindo-se possivelmente uma janela de luz sobre o que aconteceu na manhã daquela operação. Não me recordo se a mesma ocorreu antes ou depois de ter sido chamado à sede do Batalhão pelo Major Blasco Gonçalves. Recordo que comandava os dois grupos que naquela operação saímos para cumprirmos mais três dias no mato; na final da tarde do primeiro dia ao transmitirmos a localização onde não nos encontrávamos recebemos a notícia de que a companhia a sul da nossa teria detetado passos de população que se dirigiam para a área onde deveríamos chegar no dia seguinte. Tínhamos ficado na nascente do Cuebe e não estávamos nas coordenadas que tínhamos dado. Decidi levantar o acampamento para andarmos toda a noite. Aquela era a zona da nossa aérea onde a mata era mais cerrada. O guia era como sempre um preto informador da pide conhecia os trilhos da zona. Caminhámos durante toda a noite com algumas paragens para nos certificarmos que estávamos todos, nunca tínhamos caminhado de noite, era a primeira vez que o fazíamos e aquela era como disse atrás a zona da nossa área onde a mata era mais densa. Muitas noites tínhamos de operações no mato mas sempre as passávamos acampados em círculo com um sentinela de vigia. Ao recomeçar da luz diurna chegámos à zona, caminhando em fila começamos a ouvir vozes no fundo de um vale à nossa direita. Embora fossemos em teoria dois grupos de combate só ia connosco um transições de infantaria, decidindo após consultar o guia que nos disse existir no vale a nascente de um rio, separarmos-nos de modo a podermos cercar a zona. O grupo do segundo pelotão comandado pelo furriel mais graduado por o alferes estar ausente de férias seguiu na direção da nascente indicada pelo guia sem levar rádio já que o transmissões ficou no meu grupo. Estávamos os dois grupos separados sem podermos comunicar, iniciando o meu grupo a descida para o vale composto apenas de capim, quando estávamos a mais de meio eis que o capim ao nosso redor começou a arder, alcançando o grupo um pequeno arvoredo onde nos protegemos sem sabermos nada do que se passava com o outro grupo; havia soldados que choravam com medo de ali morrermos queimados, outros queriam matar o guia, que subia à copa das árvores e dizia que não avistava o outro grupo nem a nascente do rio que estaria perto, o medo e o pânico ia-se instalando e nessa instabilidade emocional olhei num instante os olhos da morte frente a frente para no momento seguinte ela se ausentar e o fogo no capim deixar de ter intensidade até se acabar a poucos metros de nós. Terminado esse sufoco para comunicarmos com o outro grupo demos um tiro para o ar, respondendo eles que já estavam na nascente do rio que era também a divisão das áreas das companhias e batalhões. Nada havia como rastos de populações. Mais tarde já depois do regresso a Portugal encontrei um antigo alferes dessa companhia a sul da nossa que pertencia já ao Cuando Cubango enquanto nós pertencíamos ao Bié, dizendo-me ele que nem sequer tinham saído do arame farpado. Então de quem seriam as vozes que ouvimos? Quem teria deitado fogo ao capim cercando-nos?

Esta madrugada ao sonhar com a guerra acordei como se um raio me tivesse atingido fazendo-me crer que os pides da Catota estiveram por detrás de tudo aquilo. Foram eles que com os seus agentes nos ameaçaram, que nos levaram aquele vale e nos cercaram pelo fogo, porque não encontrámos rastos na passagem das duas províncias nem nas imediações da nascente, mas ouvimos vozes e barulhos de panelas e tachos. Foram eles os pides que mandaram gente de sua confiança incendiar o capim, pois há muito que não era detetada população inimiga na zona.

Quem irá acreditar nesta história que passados cinquenta anos se apresenta límpida como a água dos rios do Mumbué? 

 

11.05.24

 

Ao ler os títulos das primeiras páginas dos jornais, balancei. Há coisas que me custam acreditar serem possíveis, daí o ser um quase nada tresmalhado por não me enquadrar em nenhum dos grupos políticos que constituem o rebanho.

De nada me serve votar em contraciclo à maioria, irei contudo continuar a exercer a minha obrigação cívica mesmo que o meu voto seja nulo (já não irei votar em branco porque pode servir a algum júri mais desonesto, e, na política caseira desonestidade é regra). Na última campanha eleitoral que se seguiu ao golpe de Estado sujo de 7 de Novembro não ouvi nem vi nem li nada da propaganda que os partidos políticos fizeram e disseram, para agora continuar ausente ou ainda mais ausente na eleição para o Parlamento Europeu, órgão inútil pelo seu próprio estatuto no contexto europeu já que sendo o único órgão cujos parlamentares são eleitos por voto em sufrágio, não têm poder executivo, nem de intervenção nas políticas de uma Comissão que não é sufragada pelos europeus, sendo escolhida há muito em função de interesses exteriores à própria Europa. Como tem acontecido em eleições anteriores irão os partidos e políticos na sua campanha para o parlamento das mordomias atacarem-se com as políticas de roupa suja caseira e nada dirão sobre os problemas estratégicos da União para o futuro próximo, que União iremos ter? Uma federação criada nas costas dos europeus obediente aos interesses americanos? Ou uma confederação que respeite as diferenças entre os vários países e regiões, que seja independente dos diversos imperialismos, voltada para o bem estar dos europeus, recuperando o humanismo que após a II GG permitiu o progresso e o respeito gerando um período de paz entre si nunca antes conhecido?

Um título na capa do jornal Público levou-me a comprá-lo em papel. Tenho recuperado o velho hábito de ler o jornal. Com paciência li o que escrevem alguns ilustres da nossa praça, gente com quem não me identifico não deixando porem de acompanhar sendo a leitura do que escrevem necessária para o meu distanciamento deles e do rebanho onde são personagens escutados com atenção.

Depois dediquei mais tempo aos artigos sobre a forma como o Fundão está a olhar os imigrantes e a discussão sobre as contas e a dívida pública. Sobre estas e outras na minha atividade profissional ao longo dos anos aprendi que os resultados finais fabricam-se. Nos primeiros anos de trabalho um senhor engenheiro, pessoa de idade e muito saber, contou-me a história do industrial do norte que um dia chamou à sua presença, a advogado, o engenheiro da produção e o técnico de contas (hoje contabilista certificado), todos sentados na mesa de reunião lançou a seguinte questão, - dois mais dois quantos são?. O advogado pediu algum tempo para poder consultar jurisprudência porque a letra da lei pode não corresponder ao espírito do legislador. O engenheiro da produção homem de cálculos certos e eficazes pediu para poder verificar a tendência se o resultado seria bem o quatro ou teria algo mais na sua vizinhança quer a direita quer à esquerda. Por fim o técnico de contas, agora contabilista certificado, voltou-se para o industrial e perguntou-lhe quanto é que o senhor quer para o resultado?

Claro que a contabilidade da macro economia das contas publicas é diferente da contabilidade das empresas, mas factos modificativos sempre existiram nas contas que uns e outros apresentam e como vivemos um tempo onde a artificialidade impera nada dos esquemas presumivelmente utilizados pelo anterior governo é novo ou inovador.

Já o sucesso das políticas de integração adotadas pelo Município do Fundão deveriam ser estudadas e implementadas pelos outros Municípios da Beira Interior Sul, mas a mesquinhez dos políticos que por lá existem não augura complementaridade pois o Fundão é gerido pelo PSD e os municípios que o rodeiam são de gestão PS (Covilhã, Castelo Branco, Idanha a Nova e Penamacor).

06.05.24

Gostei de ver o Sporting campeão. Vi o jogo de sábado em Alvalade. Vi ontem a segunda parte do Benfica em Famalicão. É certo que os jogadores ontem no seu íntimo sabiam que o campeonato estava perdido, mas ao longo da temporada foram equipas com modelos diferentes no jogo coletivo sendo que a diferença pontual não traduz a diferença do que uma e outra equipa produziram.

Não são só as aquisições de milhões propaladas pela comunicação social amiga e oficiosa como grandes feitos por grandes jogadores que fazem coletivos fortes, e, o futebol é um jogo coletivo de momentos onde os melhores se evidenciam.

Isto sou eu a falar que gosto do Sporting. Outros terão opinião diferente. 

 

26.04.24


Lá fui à manifestação agendada para começar no Marquês de Pombal. Ao apanhar o comboio regional vi jovens de cravo na mão, uma jovem até tinha uma tatuagem quase no ombro com uma G3 e o cravo encarnado na ponta da arma. Não sou de levar ou andar de cravo vermelho na mão ou ao peito. Fui sem nada que chamasse a atenção, gosto de passar despercebido. Foram muitos os anos que por mim passaram sem que tivesse tido vontade em participar. Mesmo este ano, mais importante que a celebração dos cinquenta anos quis ver e sentir o pulsar dos que como eu participavam não na festa mas na manifestação de amostragem às forças saudosistas do Estado Novo em versão século XXI, que ainda há quem não se ilude com as meias verdades e mentiras que difundem através dos órgãos amigos da comunicação social.

Contudo, senti que aquele mar de gente estava na onda da festa e não no sentimento da importância que a mesma poderia e deveria ter. Não vejo os slogans «25 de Abril Sempre» ou «25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais» como atuais. Devo estar enganado ou como me tresmalhei do rebanho ter-me-ei desatualizado.

Do 25 de Abril de 1974 pouco, muito pouco resta, embora o que sobrevive desse tempo de sonho, seja muito importante, mas de tudo o que se alcançou resta-nos a Liberdade de expressão, o anémico Serviço Nacional de Saúde e a mais fraca Escola Publica, tudo o resto os governantes mais e menos liberais, cumprindo ordens de Bruxelas, têm desbaratado a troco de mãos cheias de nada, dando ou vendendo uma vida ilusória, de um facilitismo sem alicerces capaz de resistir aos tempos negros que se aproximam.

Como a Avenida estava enchendo-se rapidamente, no Marquês olhei à minha volta e ouvindo um carro com música dos Xutos e Pontapés, pensei onde é que eu estava. Não está em casa a qualidade dos Xutos mas o que é que aquela musica-canção tinha a ver com o 25 de Abril?, então olhei a Avenida e ao ver muitas bandeiras brancas pensei ser talvez a frente da manifestação, mas eram afinal sindicalistas de um sindicato que não identifiquei. Devagar fui descendo e observando não só a Avenida como os passeios laterais com muita muita gente; os do partido Comunista tinha uma larga faixa da Avenida isolada só para eles, ouvi a musica de Grândola Vila Morena mas sem grande participação popular. No cruzamento com a Alexandre Herculano parei, tirei umas fotos incluindo fotos ao senhor que no tempo da pandemia desceu sozinho a Avenida com a sua grande bandeira nacional; por ali estavam estacionados vários carros de polícia com elementos neles sentados com máscara deixando ver apenas os olhos, observando o pulsar das gentes um jornalista de uma rádio que não identifiquei fez-me alguma perguntas a que ia respondendo. Quando o mesmo decidiu ir entrevistar outra pessoa dei por mim rodeado de bloquistas dos quais me afastei de imediato, nada tenho que me identifique com aquela gente ou com aquela esquerda. Ao afastar-me decidi ir descendo a Avenida como outros também o faziam, caminhando devagar com o objetivo de chegar ao cruzamento com a Rua das Pretas onde muito antes do 25 de Abril a esperava quando os horários das aulas o permitiam. Ali me mantive olhando não tanto o cimo da Avenida mas mais a Rua das Pretas, mas nem o desfile dava mostras de se ter iniciado nem da rua das Pretas chegava o sorriso dos seus olhos.

Com o passar do tempo muito para lá da hora programada vendo que aquele mar de gente vivia muito mais a festa do que o sentimento que a data representa no tempo de agora, voltei a descer a Avenida em direção aos Restauradores, seguindo para o Rossio onde muita gente já aguardava a chegada da manifestação-desfile; no palco onde se iriam produzir os discursos músicos tocavam e cantavam. Continuei a andar agora pela Rua Áurea em direção à Praça do Comercio, onde me deparei com carrinhas e policias de intervenção armados, só quando me aproximei da estátua de D. José e ouvi vivas a Salazar e a «Deus Pátria e Família» entendi o aparato policial, sendo que os devotos do fascismo-salazarista pouco passavam das duas dezenas. Em frente à Estação Sul e Sueste apanhei o Metro para Santa Apolónia e voltei serenamente para casa.

Fui com alguma curiosidade e ilusão, voltei com menos ilusões, não me revejo naquela multidão.

Face ao golpe de estado de 7 de Novembro passado promovido pela aliança PR-PGR, a manifestação do 25 de Abril, passados 50 anos da data gloriosa, deveria ter sido de pesar, de um luto silencioso de modo a impor respeito, pondo-os em sentido, aos que “feridos de anulabilidade” foram eleitos deputados e indigitaram um novo governo.

           Mas isto sou eu, o Carlos, que vivo tresmalhado dos            diversos rebanhos. 



24.04.24

 

Há cinquenta anos tinha um sonho, um objetivo, naquelas terras de quase fim do mundo: - voltar são e salvo para o colo de minha mãe, abraços de meu pai e irmão.

Naquela terra do Mumbué, naquelas matas infindáveis, naquele retângulo de arame farpado não se sabia de nada do que se passava no «Puto», ali só tínhamos um saber, sobreviver.

Na gloriosa data, também uma quinta-feira, nada se soube durante o dia, apenas quando acabou a sessão de cinema que por lá passava de quinze em quinze dias, o comerciante sr. Pato nos informou ter havido um golpe no «Puto», questionado sobre quem teria efetuado tal golpe nos disse que lhe parecia ser um tal general Kaúlza, agradecemos a informação e sem mais nada lhe dizermos pensámos «estamos fodidos, nunca mais vamos sair daqui», depois fomos dormir sem mais pensarmos no que teria acontecido na nossa Pátria.

Só no dia seguinte, vinte e seis, soubemos pelos rapazes das transmissões que afinal o golpe tinha sido efetuado por capitães do quadro permanente.

Algo estava a acontecer de anormal, pois as altas patentes do Exército e da Província que estavam programadas para no dia seguinte, vinte e seis, irem entregar as chaves das casas aos dois grupos de GE’s afetos à Companhia que deveriam chegar pelo ar, não apareceram sendo substituídos pelas patentes superiores do Sector de Silva Porto que assim como chegaram, distribuíram as chaves aos GE’s e logo partiram nas suas viaturas.

Expectativa ansiosa sobre o nosso futuro passou a reinar, a crença de que iríamos regressar sãos e salvos ganhou força em cada um de nós jovens militares combatentes naquelas terras de quase fim do mundo.

Hoje, cinquenta anos passados, ouço e vejo frases que não entendo; o inexistente futuro não se constrói apenas com frases saudosistas do que foi o 25 de Abril de 1974, é preciso muito mais porque «a luta continua» tão ou mais difícil do que então. Luta que as gerações mais novas têm de travar se querem um país mais decente do que o atual, porque o sonho comanda a vida e nunca nada esta acabado, muito menos derrotado.

Há quarenta e alguns anos que não vou a uma manifestação, mas hoje este velho sem velhice irá voltar a participar na manifestação pelo 25 de Abril, pelo sonho e esperanças que Abril deu à minha geração e ao meu país.


15.04.24

Às vezes tenho vontade de dizer “bom dia” mas ninguém está ao meu lado

Às vezes ainda sonho não deixando a solidão deitar-se ao meu lado

Às vezes tenho dias em que sentado na minha cama olho pela janela do meu quarto a chegada da aurora

Às vezes sentado na cama leio o pequeno livro que tenho na mesa de cabeceira, “Espiral de Violência” de Dom Hélder Câmara que comprei a 29 de Novembro de 1971, na Cooperativa Livrelco

Já naquele tempo andava por caminhos perigosos que nos ensinavam a pensar nos porquês da vida e da própria humanidade

É longo este meu caminhar, levando-me a ser um tresmalhado nos tempos que correm, um ser solitário que às vezes gostava de dar um beijo e dizer “Bom dia” a quem não está ao meu lado.

Que fazer?

Só há um caminho, seguir caminhando levando a esperança por companhia,

O resto já pouco importa, já não tenho futuro, já não me iludo, apenas sonho

Sou o Carlos, um tresmalhado sem futuro que ainda alimenta algumas esperanças

Escrevo, leio, ouço músicas antigas, planto, semeio, rego e tudo faço com amor, mesmo que ao meu lado não tenha a quem dizer “boa noite” dando-lhe um beijo na testa. 

 

06.04.24

Que irei escrever se tenho passado estes dias fora do mundo que me rodeia?

O tratar das ervas do quintal castiga o corpo habituado ao sedentarismo citadino nos arrabaldes da cidade grande. Chego às dezoito horas e sento-me para olhar o que me diz o telemóvel. Notícias e mais notícias que pouco me dizem já que não me integro em nenhum dos grupos do rebanho. Dos novos governantes nada espero, tal como os anteriores não me indiciam boas novas; gente que se servem mais do poder do que o normal, uns e outros criaram uma corte de nobres republicanos submissos pouco patriotas, gente que se curva e prostitui perante os agentes da oligarquia financeira colocada em Bruxelas. Não os acompanho. Prefiro andar com o corpo dorido a limpar as ervas no meu quintal.


Saímos um pouco mais cedo para a volta matinal. Fui olhar de novo as oliveiras no Chão da Horta. Depois do pequeno almoço fui até Idanha a Nova. Na praça gastei dez euros em fruta, no talho comprei uma morcela, uma linguiça, um chouriço bofeiro, meio quilo carne de vaca para cozer e um quilo de bife de vitela, deixando lá vinte euros, passei pelo Intermarché e gastei mais trinta euros. No regresso passei na fonte dos Tourinhos e enchi três garrafões de água.

No restante tempo da manhã cinzenta tentei arrumar a tralha que está na parede trás da casa assim como a lenha de sobro, azinho e oliveira que tinha trazido do chão quando com o Zé cortamos à revelia das autoridades quer a sobreira quer os azinheiras que proliferam junto ao muro do chão.

Para o almoço cozi batata doce, cenoura e brócolos para acompanhar a morcela e metade da chouriça assadas. Tudo a preceito com um copito de tinto da região de Palmela que o meu amigo Justo me trouxe quando vieram comer a bexiga de porco.

Passei a tarde no quintal, primeiro a lavrar a parte do terreno onde arranquei as ervas para lá plantar os tomateiros e pimentos. Depois de lavrado, arranjei-o e ainda plantei junto à laranjeira uns pés de aipo. Às seis da tarde acabei, ainda pensei em começar a plantar os tomateiros mas desisti, o cansaço pede descanso.

Agora vejo o jogo do Sporting ansioso e a sofrer, de novo o Benfica domina o meio campo com alguns jogadores do Sporting mal no jogo.

 

30.03.24

 

Nestes dias chuvosos mais cinzentos que primaveris vivo semi-fechado no meu mundo, leio artigos de uns e de outros, leio livros e escrevo sentimentos, mas sinto a indiferença tomar conta de mim. Não foi este o modelo de vida com que sonhei, não foi para isto que tantos lutaram e outros morreram, mas é o que afinal os cidadãos escolheram, não tendo eu saberes para analisar e opinar sobre o tema do porque da escolha, olho para a história do meus país e até compreendo. Que fazer se o meu voto de tresmalhado apenas vale um cagagésimo de quase nada.

Resta-me nesta Páscoa e no tempo que há-de vir viver serenamente comigo em busca da Paz, não perder a esperança dos meus sonhos, porque dificilmente irei mudar já que burro velho não aprende lição nova. O dinheiro há de chegar para cumprir as minhas obrigações, cuidar do meu canto e viver serenamente cuidando de mim da minha cadela e gatita sem esquecer as velhas oliveiras.

O inexistente futuro já não me pertence.

28.03.24

 

O rebanho agita-se por questões políticas; há burgueses a ficarem inquietos com a nova composição da Assembleia da República, onde um presumível terrorista do designado ”verão quente” chegou a vice-presidente da mesma. Gente aquela que se recusa a olhar e analisar os factos históricos quer do passado longínquo quer do recente, vivendo agora essa a fação do rebanho sobressaltada e preocupada com a ascensão do presumível integrante e ideólogo do MDLP ou ELP (organizações terroristas inimigas do 25 de Abril), esquecendo, uns de modo próprio outros por pura ignorância burguesa desta nova ordem democrática quem é que posteriormente reabilitou e condecorou o “chefe” desertor militar de uma das sinistras organizações, concedendo-lhe uma medalha promovendo-o também a Marechal. Tudo gente do Novembro que Abril não merecia.


Não vivo neste tempo, resisto mas não vivo. Sei que sou um velho que se reconhece como tal, não deixando que a velhice tome conta de mim, sou assim um velho sem velhice tresmalhado que vai caminhando na outra margem da vida levando às costas setenta e três anos de vida vivida do meu jeito de ver o mundo.

Não vivo neste tempo, fechei-me no meu mundo de sonhos, utopias e lembranças, não deixando de olhar atento ao que se passa lá fora com as movimentações do rebanho.

Tenho a minha casa, os meus chões de oliveiras, a minha cadela e a minha gatinha, a minha reforma, se esta sofrer cortes os três iremos adaptarmo-nos, pois seguros só tenho os obrigatórios para poder andar conduzindo, irei aguentar porque já nada espero deste meu país, incapaz que foi de trilhar o seu próprio caminho após o redentor 25 de Abril.

Não tenho nenhum respeito pela quase totalidade dos políticos que se sentam no palácio em S. Bento, sendo que, aqueles a quem guardo ainda algum respeito por mais ideias e propostas válidas que apresentem não terão eco na comunicação social dominante mais interessada em continuar a alienar as mentes submissas do rebanho, a culpa também será desses políticos, aliás todos temos a sua dose de culpa ao termos chegado e permitido que o país esteja caminhando submisso a interesses exteriores de falsos amigos, mas enquanto puder cá estarei para ir prestando atenção ao que se passa, continuando a minha caminhada serena pela outra margem desalinhado e tresmalhado mas consciente.

O futuro pertence aos jovens sendo já tempo de se fazerem à vida, sujeitando-se aquilo que escolherem deixando de viver debaixo das asas dos progenitores. A vida que hoje levam indiferentes às lutas que no passado os mais velhos encetaram e sofreram irá ensina-los que o caminho se faz não só caminhando como lutar e resistir são necessários, nunca é tarde para se sonhar por um país melhor, mais decente tomando consciência que o sistema capitalista consumista e egoísta do individualismo não produz bons frutos havendo que mudar a agulha da vida numa outra direção que esta nos está a levar ao abismo.