segunda-feira, 10 de junho de 2024

26.04.24


Lá fui à manifestação agendada para começar no Marquês de Pombal. Ao apanhar o comboio regional vi jovens de cravo na mão, uma jovem até tinha uma tatuagem quase no ombro com uma G3 e o cravo encarnado na ponta da arma. Não sou de levar ou andar de cravo vermelho na mão ou ao peito. Fui sem nada que chamasse a atenção, gosto de passar despercebido. Foram muitos os anos que por mim passaram sem que tivesse tido vontade em participar. Mesmo este ano, mais importante que a celebração dos cinquenta anos quis ver e sentir o pulsar dos que como eu participavam não na festa mas na manifestação de amostragem às forças saudosistas do Estado Novo em versão século XXI, que ainda há quem não se ilude com as meias verdades e mentiras que difundem através dos órgãos amigos da comunicação social.

Contudo, senti que aquele mar de gente estava na onda da festa e não no sentimento da importância que a mesma poderia e deveria ter. Não vejo os slogans «25 de Abril Sempre» ou «25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais» como atuais. Devo estar enganado ou como me tresmalhei do rebanho ter-me-ei desatualizado.

Do 25 de Abril de 1974 pouco, muito pouco resta, embora o que sobrevive desse tempo de sonho, seja muito importante, mas de tudo o que se alcançou resta-nos a Liberdade de expressão, o anémico Serviço Nacional de Saúde e a mais fraca Escola Publica, tudo o resto os governantes mais e menos liberais, cumprindo ordens de Bruxelas, têm desbaratado a troco de mãos cheias de nada, dando ou vendendo uma vida ilusória, de um facilitismo sem alicerces capaz de resistir aos tempos negros que se aproximam.

Como a Avenida estava enchendo-se rapidamente, no Marquês olhei à minha volta e ouvindo um carro com música dos Xutos e Pontapés, pensei onde é que eu estava. Não está em casa a qualidade dos Xutos mas o que é que aquela musica-canção tinha a ver com o 25 de Abril?, então olhei a Avenida e ao ver muitas bandeiras brancas pensei ser talvez a frente da manifestação, mas eram afinal sindicalistas de um sindicato que não identifiquei. Devagar fui descendo e observando não só a Avenida como os passeios laterais com muita muita gente; os do partido Comunista tinha uma larga faixa da Avenida isolada só para eles, ouvi a musica de Grândola Vila Morena mas sem grande participação popular. No cruzamento com a Alexandre Herculano parei, tirei umas fotos incluindo fotos ao senhor que no tempo da pandemia desceu sozinho a Avenida com a sua grande bandeira nacional; por ali estavam estacionados vários carros de polícia com elementos neles sentados com máscara deixando ver apenas os olhos, observando o pulsar das gentes um jornalista de uma rádio que não identifiquei fez-me alguma perguntas a que ia respondendo. Quando o mesmo decidiu ir entrevistar outra pessoa dei por mim rodeado de bloquistas dos quais me afastei de imediato, nada tenho que me identifique com aquela gente ou com aquela esquerda. Ao afastar-me decidi ir descendo a Avenida como outros também o faziam, caminhando devagar com o objetivo de chegar ao cruzamento com a Rua das Pretas onde muito antes do 25 de Abril a esperava quando os horários das aulas o permitiam. Ali me mantive olhando não tanto o cimo da Avenida mas mais a Rua das Pretas, mas nem o desfile dava mostras de se ter iniciado nem da rua das Pretas chegava o sorriso dos seus olhos.

Com o passar do tempo muito para lá da hora programada vendo que aquele mar de gente vivia muito mais a festa do que o sentimento que a data representa no tempo de agora, voltei a descer a Avenida em direção aos Restauradores, seguindo para o Rossio onde muita gente já aguardava a chegada da manifestação-desfile; no palco onde se iriam produzir os discursos músicos tocavam e cantavam. Continuei a andar agora pela Rua Áurea em direção à Praça do Comercio, onde me deparei com carrinhas e policias de intervenção armados, só quando me aproximei da estátua de D. José e ouvi vivas a Salazar e a «Deus Pátria e Família» entendi o aparato policial, sendo que os devotos do fascismo-salazarista pouco passavam das duas dezenas. Em frente à Estação Sul e Sueste apanhei o Metro para Santa Apolónia e voltei serenamente para casa.

Fui com alguma curiosidade e ilusão, voltei com menos ilusões, não me revejo naquela multidão.

Face ao golpe de estado de 7 de Novembro passado promovido pela aliança PR-PGR, a manifestação do 25 de Abril, passados 50 anos da data gloriosa, deveria ter sido de pesar, de um luto silencioso de modo a impor respeito, pondo-os em sentido, aos que “feridos de anulabilidade” foram eleitos deputados e indigitaram um novo governo.

           Mas isto sou eu, o Carlos, que vivo tresmalhado dos            diversos rebanhos. 



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