Ontem à tarde o meu irmão ficou livre e feliz do peso que o vinha atormentando.
Há dois dias enganei-me na data. Hoje sim foi há oito anos a última vez que falei de voz com o meu pai.
Esta madrugada voei para lá atrás no tempo do muito tempo, a guerra voltou aos meus sonhos abrindo-se possivelmente uma janela de luz sobre o que aconteceu na manhã daquela operação. Não me recordo se a mesma ocorreu antes ou depois de ter sido chamado à sede do Batalhão pelo Major Blasco Gonçalves. Recordo que comandava os dois grupos que naquela operação saímos para cumprirmos mais três dias no mato; na final da tarde do primeiro dia ao transmitirmos a localização onde não nos encontrávamos recebemos a notícia de que a companhia a sul da nossa teria detetado passos de população que se dirigiam para a área onde deveríamos chegar no dia seguinte. Tínhamos ficado na nascente do Cuebe e não estávamos nas coordenadas que tínhamos dado. Decidi levantar o acampamento para andarmos toda a noite. Aquela era a zona da nossa aérea onde a mata era mais cerrada. O guia era como sempre um preto informador da pide conhecia os trilhos da zona. Caminhámos durante toda a noite com algumas paragens para nos certificarmos que estávamos todos, nunca tínhamos caminhado de noite, era a primeira vez que o fazíamos e aquela era como disse atrás a zona da nossa área onde a mata era mais densa. Muitas noites tínhamos de operações no mato mas sempre as passávamos acampados em círculo com um sentinela de vigia. Ao recomeçar da luz diurna chegámos à zona, caminhando em fila começamos a ouvir vozes no fundo de um vale à nossa direita. Embora fossemos em teoria dois grupos de combate só ia connosco um transições de infantaria, decidindo após consultar o guia que nos disse existir no vale a nascente de um rio, separarmos-nos de modo a podermos cercar a zona. O grupo do segundo pelotão comandado pelo furriel mais graduado por o alferes estar ausente de férias seguiu na direção da nascente indicada pelo guia sem levar rádio já que o transmissões ficou no meu grupo. Estávamos os dois grupos separados sem podermos comunicar, iniciando o meu grupo a descida para o vale composto apenas de capim, quando estávamos a mais de meio eis que o capim ao nosso redor começou a arder, alcançando o grupo um pequeno arvoredo onde nos protegemos sem sabermos nada do que se passava com o outro grupo; havia soldados que choravam com medo de ali morrermos queimados, outros queriam matar o guia, que subia à copa das árvores e dizia que não avistava o outro grupo nem a nascente do rio que estaria perto, o medo e o pânico ia-se instalando e nessa instabilidade emocional olhei num instante os olhos da morte frente a frente para no momento seguinte ela se ausentar e o fogo no capim deixar de ter intensidade até se acabar a poucos metros de nós. Terminado esse sufoco para comunicarmos com o outro grupo demos um tiro para o ar, respondendo eles que já estavam na nascente do rio que era também a divisão das áreas das companhias e batalhões. Nada havia como rastos de populações. Mais tarde já depois do regresso a Portugal encontrei um antigo alferes dessa companhia a sul da nossa que pertencia já ao Cuando Cubango enquanto nós pertencíamos ao Bié, dizendo-me ele que nem sequer tinham saído do arame farpado. Então de quem seriam as vozes que ouvimos? Quem teria deitado fogo ao capim cercando-nos?
Esta madrugada ao sonhar com a guerra acordei como se um raio me tivesse atingido fazendo-me crer que os pides da Catota estiveram por detrás de tudo aquilo. Foram eles que com os seus agentes nos ameaçaram, que nos levaram aquele vale e nos cercaram pelo fogo, porque não encontrámos rastos na passagem das duas províncias nem nas imediações da nascente, mas ouvimos vozes e barulhos de panelas e tachos. Foram eles os pides que mandaram gente de sua confiança incendiar o capim, pois há muito que não era detetada população inimiga na zona.
Quem irá acreditar nesta história que passados cinquenta anos se apresenta límpida como a água dos rios do Mumbué?
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