domingo, 17 de dezembro de 2017



Mais um dia nesta viagem. Mais um recomeçar tudo de novo vivendo dia a dia como sendo o primeiro do resto que tenho para andar. Olhando e escutando o interior, perguntando à sombra se ela me pode dizer mais alguma coisa mais do que aquilo que os dois em um sabemos.
As noites passaram a ser um pouco diferentes, não que nos custe, a mim e à minha sombra, o adormecer inicial, um ou dois minutos nem tanto para passarmos pelo subconsciente e mergulharmos nas profundezas do inconsciente, deixando-nos por lá ficar. Apenas o ressonar alterando o compasso da respiração dá sinal de vida.
Contudo, agora, o levantar para o urinar nocturno, como que me acorda não permitindo que recolocado o corpo na horizontal possa de imediato voltar ao universo inconsciente. À mente acordada chegam aos trambolhões ideias, pensamentos e medos que procuro evitar mandando-os embora. Contudo o relógio da sala vai batendo as meias e as horas até que por fim lá me encontro a navegar no subconsciente à tona d’agua aguardando a chegada das sete para sair de casa, olhar pelo meu amigo gato de rua que me aguarda a fim de tomar o seu pequeno almoço, seguindo depois a minha caminhada até por volta das oito.
A vida é feita de pequenos nadas e agora também, de pequenas e grandes dúvidas face aos caminhos alternativos que a ciência nos oferece.
E, como hoje somos o somatório acumulado de experiências, vivências e decisões tomadas ao longo da vida passada, sorrio lembrando-me que foi mais fácil a decisão de escolher o trilho que evitou um dia ter o grupo de combate caído na emboscada que a UNITA nos montou, do que escolher um destes trilhos alternativo agora propostos.


Para o meu pai a oliveira era como que uma árvore sagrada, era o seu Deus no feminino, que resiste aos tempos de estiagem prolongados, que pode viver várias gerações, bastando apenas que de tantos em tantos anos, sejam os seus ramos e troncos limpos para nos anos seguintes voltar a sentir-se feliz com a doação dos seus frutos aos humanos.
E o exemplo que elas nos dão como que se fundiu nas populações do interior que delas dependiam para o seu sustento.
A batata, o grão, as couves da horta plantadas em Agosto para poderem estar na mesa pelo Natal, uma açorda de pão, alho e salsa com um ovo escalfado ou umas migas de batata da minha avó (apenas e só batatas às rodelas cozidas com água dos poços, uma farinheira e uma folha de louro), tudo ganhava e ganha outro sabor, outra força, outro sustento quando o produto da terra é regado a preceito com o azeite extraído a frio do fruto das oliveiras.
Oliveiras, azinheiras e sobreiros davam e dão sombra e abrigo aos animais de pastoreio. As bolotas que caiam e caem para o chão, as azeitonas que ficam esquecidas nas árvores alimentam animais e aves, dando as bolotas um sabor especial à carne e ao toucinho do porco, mesmo quando eram criados nas furnas que rodeavam as aldeias.
Oliveiras, azinheiras e sobreiros povoam os campos pobres aguardando que do céu caia a bendita chuva que sempre tarda a chegar. Elas, os homens que trabalham a terra e os animais que nelas vivem, olham os céus que de azul celeste vestido, mas triste e dorido pela falta da água que se deve ter perdido em algum engarrafamento celeste.
Oliveiras, azinheiras e sobreiros, assistem tristes às nuvens de pó que os tratores produzem ao lavrarem a terra ressequida pois há que lançar as sementes à terra. Agora, homens, árvores, animais, terra
e sementes todos na esperança que o céu deixe o triste azul e volte a colorir-se de nuvens carregadas de água, para que esta possa cair bem temperada e tudo renasça de novo na Natureza.
Enquanto isso, nas cidades, nas televisões e rádios, papagaios falantes pagos alguns a peso de oiro, dão-nos com ar de satisfação desmedida a continuação do falso bom tempo. Será que é nos corpos ao sol que ainda se expõem nas praias que está o futuro ecológico e sustentável?
E, tudo isto em nome de quê? De que progresso? De que Futuro?
Mais um dia onde no calendário imaginário posso colocar uma “x” a relembrar os tempos da guerra em que jovens militares iam colocando a cada dia que passava um “x” Tudo isto porque a vida podendo ser o milagre da multiplicação constante das células, é ao mesmo tempo, uma guerra feita de batalhas constantes ao longo da viagem que vamos percorrendo, às vezes vivendo-a com alegria e felicidade e outras com preocupação, anseios e medos.
Mais um “x” sinónimo de renovação das forças e da vontade de vencer. O corpo por vezes cansado dos anos vividos parece querer desistir mas lá vai encontrando forças para com a ajuda da mente continuar a nossa marcha rumo ao futuro.
Não sei se os anjos existem ou não, mas acredito que possam existir pois acredito que a vida não acaba quando chega ao termino, há sempre um outro além depois deste navegar, há sempre alguém que nos vem segredar ao ouvido anunciando que a utopia em todas as suas formas pode ser realidade um dia. 
Uma janela que se abre. Uma porta que se fecha. Caminho no meu passo, olhando com atenção ao meu redor. Atrás de mim sinto passos apressados. Olho para cima, para o azul celeste do céu, como que procurando sinais da vossa presença amiga.
Agora, são as janelas que se fecham, mas, uma outra porta se abriu à minha passagem. De dentro chega a luz da lamparina que alimenta a esperança e dá força à vontade de continuar esta luta de muitas batalhas que é a vida.

O amanhã será jamais como o ontem e o hoje é o primeiro dia do resto da minha vida!
Se ontem, dia quinze, fez quarenta e cinco anos que parti naquele que foi o meu baptismo de voo, hoje faz precisamente os mesmos quarenta e cinco anos que pisei pela primeira vez as terras de cor avermelhada de Luanda. Para trás tinham ficado a minha mãe e o meu pai de quem não tivera a coragem de me despedir. Pelo caminho quer no comboio quer na viatura militar vi a casa onde os meus pais moravam nos Olivais Sul, a minha casa até ao dia em que me apresentei em Mafra para o serviço militar. No aeroporto nas despedida apenas o meu irmão e os primos de Azambuja. Ao subir as escadas para o avião voltei atrás e numa ultima despedida de meu irmão disse-lhe «se eu morrer já sabes o que tens a fazer». Depois no fundo da memoria vejo a aproximação do avião à costa e em seguida à pista e não encontro memórias de como fomos do aeroporto para o Campo do Grafanil, apenas me recordo de no final da tarde já na cidade procurarmos onde dormir. Grafanil um entreposto enorme de milhares de militares em transito, onde a alegria dos que deixavam o território se sobrepunha à apreensão dos “maçaricos” nos seus camuflados novos, sem compreenderem bem o que estavam ali a fazer naquela terra onde tudo parecia estranho e pouco acolhedor. Uma vaga ideia de que pela manhã apanhávamos uma viatura que nos levava para o Grafanil onde e como não me lembro. No Grafanil passávamos o tempo até voltarmos no final do dia à cidade, para à noite fazermos o circuito dos bares nocturnos da noite de Luanda onde as “pequenas” sentindo que éramos novos na cidade se sentavam ao pé de nós e nos falavam de queridos para que lhe pagássemos uma bebida e ou algo mais. Não me lembro sequer como e onde almoçávamos. Lembro e recordo os rissóis de camarão e o sumo de maracujá que comia e bebia na baixa de Luanda, em frente à cervejaria Portugália, onde à vista de todos as mulheres faziam o cambio dos escudos em angolares. Chegamos a dezasseis de Dezembro e meio perdidos por lá andámos até à madrugada do dia 21, quando já com os elementos que recebemos do recrutamento local pertencentes ao RI21 nos colocaram em cima de camionetas civis e partimos rumo à zona militar leste. No Mumbué outra companhia nos esperava ansiosos pela nossa chegada. À alegria deles correspondia a nossa apreensão.
Hoje, ao olhar para trás e ao relembrar as condições que nos eram oferecidas impostas, mas que, com sacrifício e ordem soubemos minimizar e humanizar, não sou capaz de ver como seriam as mesmas noticiadas pelos papagaios televisivos nos dias que correm.
Há dias que não se esquecem na vida e este é um deles. Hoje, faz 45 anos que partimos aprumados, tristes e apreensivos de Viana do Castelo em direcção ao futuro desconhecido das terras do fim do mundo no planalto central de Angola. Viemos de comboio até Santa Apolónia, de onde nos levaram em viatura até ao Regimento de Engenharia 1 no Campo Grande (hoje transformado por negócios em Universidade Lusófona) saindo depois de jantar para o aeroporto do Figo Maduro e dali para Angola em Força como mandavam os senhores da guerra, num avião da Força Aérea. A Todos um Obrigado por me aturarem desde Chaves, alguns, passando por Viana do Castelo até às terras do Mumbué, depois na Ponte de Zadi em Maquela do Zombo. Um Abraço civil a recordar tempos de militar à força de uma obrigação!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Diz a história que Jesus nasceu em Belém lá na Judeia, numa noite fria, apenas acompanhado por seus pais e os animais que naquele estábulo estavam. Assim nasceu a noite de Natal.
Recordo as noites frias da minha juventude, por vezes os quatro outras vezes os três porque o pai estava de serviço, tu mãe, enquanto fritavas as filhoses a que alguns chamam de coscorões, cantavas as canções da tua Beira Baixa ao Menino Jesus. Tudo era e foi sempre simples.
Depois fui crescendo, andei em grupos religiosos católicos e fui-me afastando quer da religião, quer do Natal. Hoje, a juntar ao meu não gostar de viver esta época de consumismo hipócrita, entro aqui no face e na minha caixinha de recados tenho uma que me leva à história do “Zé Maria, o 47”. Leio-a na sua totalidade no blog do seu autor.
O dia cinzentão adensa a revolta que sinto por todos os Zé Maria, por todos os Magalhães, por todos os que um dia foram mandados para a guerra dos senhores da guerra de então. Hoje a dez dias do Natal, quantos desses jovens cheios de sonhos e ilusões vivem e vagueiam pelas ruas das cidades, ausentes da vida cheios de desilusões, tendo por companhia as memórias doridas da mata, dos camaradas de guerra, quantos aos sons dos foguetes voltam aquela emboscada que deixou marcas para sempre. Alguns têm num canito rafeiro e abandonado a sua única família.
Ausentes, abandonados, repudiados até por muitos, vagueiam e caminham pelas ruas iluminadas da cidade grande, homens antigos combatentes, “carne para canhão” enquanto jovens. Hoje, mal cheirosos, sujos e incomodativos para os novos senhores do poder em democracia.
Vão chegar os discursos natalícios e de passagem para o ano que dizem ser novo, porque muda um numero apenas. Homens do poder religioso e dos poderes laicos, irão botar discursos e votos preenchidos por palavras bonitas, na maioria vazias de humanismo, apenas bonitas como as luzinhas que acendem e apagam e pouco mais. Nem uns nem outros irão ter uma palavra de apreço, de reconhecimento para com todos os antigos combatentes que um dia foram um número e hoje, ausentes vagueando pelas ruas frias das cidade até esse número perderam.
Felizmente o meu vaguear ausente desta época é outro bem diferente. Por Solidariedade a Todos os Antigos Combatentes que vagueiam solitários abandonados pelas ruas da cidade, para mim não há Feliz Natal! Apenas e só silêncio e lembranças boas e felizes da vida, que as tenho.

Eu, o 04420571

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Se assim é, a ser verdade, o político quando ocupa lugares de governação tem de ter uma vida transparente na sua globalidade, ou seja, deixa de ter vida privada privativa. Primeiro por respeito a quem nele confiou para o cargo. Segundo porque as suas possíveis aventuras amorosas podem ser de alto risco, como parece ser o caso. Por último porque os cidadãos que votam nas eleições, independentemente do partido em quem votam, têm de ser respeitados por todos os políticos quer governem, quer estejam nas Assembleias.
Um político que não saiba distinguir os interesses do país dos interesses do coração, ou da conta bancária, não merece ter a consideração de quem pensa que a Política ainda é uma causa nobre.
Ao sujeitar-se ao ridículo de andar a ser falado por aí como um "gajo" que doava dinheiros públicos para ir passar umas noites cor-de-rosa com a "senhora" desacredita o Governo de que faz parte, o partido a que pertence, dando azo a que todos os anti-democratas, digam e criem a ideia de que os políticos são todos iguais, quando isso felizmente não é verdade.
É triste! E, não me venham com a história de que a vida privada só a eles diz respeito. Quando se mistura política, férias cor-de-rosa e dinheiros públicos, perde-se o direito à privacidade. Não deve haver respeito por quem não soube respeitar, o lugar que ocupava no Governo, nem os muitos Zés Contribuintes que com sacrifício pagam os seus impostos para que os mesmos sejam bens geridos colectivamente.
Perante estas tristes cenas, vêm-se sempre à memória o saudoso amigo Major Blasco, quando em 1972 um dia em Viana do Castelo no final do IAO, chamou os Aspirantes a Oficiais Milicianos, e nos perguntou quantos analfabetos, quantos sabiam ler e escrever, quantos órfãos tínhamos no nossos Grupos de Combate, quantos dos nossos soldados eram casados, quantos tinham filhos, mulheres ou namoradas grávidas… e, perante o nossos desconhecimento, nos chamou todos os nomes usados na gíria militar sem que algum de nós tivesse ousado dizer alguma coisa. Serviu-me de lição e é assim que ainda hoje vejo o Serviço da Causa Pública.
A serem verdade as férias pagas com dinheiros da IPSS Raríssimas, deveria o Partido Socialista tomar uma atitude firme e auto-exclui-lo de toda e qualquer actividade política. O que eu duvido que vá acontecer.
Só saem é senas tristes no baralho das cartas sujas.


 Esta decidido e a hora aproxima-se. É a vida Mia. Chegaste até mim num mês de Novembro e agora despedes-te no mês de Dezembro. Foram anos de uma amizade cúmplice em que soubemos partilhar os como e os porquês, no nosso silencio, no teu miar baixinho. Nesta despedida só eu tenho lágrimas, tu já só desejas acabar o sofrimento destas últimas semanas. Primeiro foi o cão Onix, depois o gato Jeremias, contigo a chegares para fazeres companhia à gata Pequenina que acabou por nos deixar pouco depois de tu chegares. Depois chegou o cão Master e também ele acabou por nos deixar. Hoje terminaste tu esta tua viagem, para num amanhã próximo chegar a Chiquita. Não, não virá substituir-te porque nenhum de vocês que partilharam a vida comigo é substituível. Ela virá porque assim aconteceu num impulso para que a tua ausência possa ser preenchida mas nunca substituída. 
 


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Vi as instalações da IPSS Raríssimas na Moita começarem a ser construídas. Passava todos os dias por ali com o meu amigo nas nossas voltas de manhã ou no final da tarde. Lembro-me de ouvir uma senhora da Associação promotora da ideia daquela obra, falar na televisão dos problemas que estavam a ter para financiar a mesma, tão urgente e necessária aos pais cujos filhos são portadores de doenças raríssimas.
Felizmente não conheço ninguém dos órgãos quer directivos, quer de assembleia geral, conselho fiscal ou outros órgãos consultivos da IPSS Raríssimas. Reconheço a sua utilidade e como tal deve ser apoiada pelo Estado através do Orçamento, ou seja, através dos nossos impostos directos ou indirectos.
Desde as reportagens televisivas sobre a morte infeliz de instruendos no Regimento de Comandos, ou dos “desgraçadinhos” do Grupo BES, que procuro de imediato entender os motivos e interesses que poderão estar por trás dessas reportagens, porque não há almoços grátis.
Quando ouvi a reportagem já em segunda edição, cheirou-me logo a queimado. Infelizmente neste país, as publicas virtudes e brandos costumes ainda pesam muito, ainda fazem escola com mestrados e doutoramentos nas sete sais que o Estado veste.
Na política, como nas carreiras profissionais esta instituída a ideia de um curriculum valioso é aquele que apresentam muitas folhas escritas. Políticos responsáveis alinham nesta ideia onde o que interessa é “fazer curriculum” mesmo que seja apenas e só, dar o nome para facilitar o acesso dessas organizações onde há um amigo, ou um conhecido de um amigo, às benesses dos subsídios e subvenções estatais.
Assim, em vez de se julgar na Justiça os actos de gestão, presumivelmente danosos face ao objecto social da instituição. Em vez de, face às presumíveis irregularidades noticiadas, suspender a dita senhora directora das suas funções já que a mesma não o fez, alimenta-se a fogueira mediática com declarações de inocência, de não se ter conhecimento etc e tal. Mas, o que andaram a fazer e para que servem os órgãos e serviços de fiscalização, quer da Instituição, quer da Segurança Social?
Felizmente tenho sempre o comando à mão para mudar de canal sempre que se vão referir ao caso da Raríssimas.
Não dou para o peditório em curso de levar políticos para a fogueira publica de julgamento popular. Quanto à senhora directora e aos actos de gestão praticados, como disse atrás, que seja suspensa das suas funções até apuramento dos factos. Caso se comprovem as notícias vindas a lume, que seja afastada e proceda à respectiva indemnização para com a Instituição; a não serem comprovados os factos, que seja reintegrada nas suas funções e os delatores terão de responder pelo que fizeram à senhora, à instituição e à política.
A Instituição IPSS Raríssimas é um bem social que tem de ser preservado, pelo respeito e solidariedade que nos merecem os seus utentes, as famílias beneficiárias e os colaboradores que honestamente lá trabalham.
Não dou para este peditório que esconde jogos de baixa política empresarial e incendeia antigos e tristes hábitos inquisitoriais.