quinta-feira, 29 de novembro de 2018

261118


Esta noite, estava eu a acabar de jantar, quando ao mudar de canal televisivo, apanhei um valente susto, pois vi uma burra a falar na televisão.
Quando me recompus do susto vi que afinal não era uma burra mas sim um “robot-feminino” já fora de prazo, pois toda a palha que vomitava pertencia a um cd já gasto e conhecido, embora muito apreciado pelos telespectadores do referido canal.
Fiquei mais descansado, mesmo sendo aquele canal o último da minha preferência.

Desiludido


Nunca vi tanta televisão como neste tempo em que me sinto preso aos incómodos das dores.
Se a minha relação com a caixa que mudou a vida no planeta não era famosa, com esta sobre-dose não melhorou um infinitésimo.

191118


Aquando do “big bang” nasceu “a princípio era o verbo”. Este desenvolveu-se por milhões de anos até se fazer gente “homem sapiens”, que da costa oriental de África se espalharam e desenvolveram pelas sete partidas do Planeta Terra. Uns em busca do “graal”, outros em busca de nada e, outros em busca do poder. Buscassem o tudo ou o nada o certo é que os “homem sapiens” de hoje continuam de certa forma a saga de serem o maior predador da Natureza.
Na evolução criada pelo Homem, o que ontem era normal e culturalmente aceite por todos, depois pela maioria, é hoje equacionado e posto em causa por largos sectores, que podem ser neste tempo de vida uma própria maioria.
Eu próprio quando era jovem gostava de às quintas feiras à noite assistir na televisão a preto e branco, às transmissões das touradas. É certo que gostava mais do toureio a pé à portuguesa, o homem com o capote e capa frente ao touro em pontas, era para mim uma luta mais igualitária do que o toureio a cavalo. A minha primeira noite sem dormir foi passada na Zebreira aquando da festa de Setembro à espera da chegada dos touros para a garraiada do dia seguinte. Depois quando vi, já a cores, touradas em Espanha onde o toureio a pé tem uma importância que em Portugal nunca teve, comecei a ter outro olhar sobre o toureio.
Nunca fui ver uma tourada a uma praça de touros, já nem me lembro há quantos anos não vejo uma tourada na televisão.
Quero dizer que para esse peditório não dou de minha livre e espontânea vontade.
Entre os aplausos e a contestação, sigo o meu caminho, com a sensação de que mais ano menos ano o espectáculo das touradas acabará, e nem as palavras de ditos intelectuais (diz-me do que te gabas, dir-te-ei o que te falta) chegarão para a sua continuação.

Por outro lado na evolução da espécie em sociedade com todos os mitos, ficções e lendas, os Estados criaram um imposto que faz jus à própria sociedade de consumo, ou seja, o tal de IVA (imposto sobre o valor acrescentado, na sua essência quase perfeito). Como os Estados aderentes têm desenvolvimentos económicos diferenciados, cada um criou as suas taxas sobre os produtos e bens criados e consumidos no seu espaço económico. Inicialmente fazendo jus ao espírito do imposto, criaram-se actividades isentas e abrangeram-se determinados bens, ditos essenciais a uma taxa reduzida, havendo depois mais duas taxas consoante os bens.
É difícil ao nosso Estado arrecadar receitas que cubram as despesas totais do mesmo. Assim usando o poder discricionário aceite e referendado em eleições por todos nós, ano após ano o último grito da gestão pública é mexer nos impostos sobre o rendimento de trabalho e de consumo, pelo agravamento de taxas, reclassificações de bens e criação de novas taxas e impostos.
Todos os anos se levantam vozes concordantes e discordantes, sem que umas e outras apresentem medidas ou soluções alternativas concretas para transformar a “manta” das receitas, já que se a puxamos para cima ficamos com os pés à mostra, mas se tapamos os pés ficamos com o peito a descoberto. É uma dificuldade sem solução à vista.

Goste-se ou não das touradas, quem é que de boa fé pode compreender que o consumidor das mesmas pague uma taxa de IVA reduzida 6% (os tais bens essenciais) quando todos, eles e nós pagamos 23% na electricidade e nas comunicações?
Para mim que não me oponho à existência de touradas com touros, quem quer gosta, pode e vai, quem não gosta não vai e reclama, acho que a taxa de IVA mais adequada às mesmas seria os 23% em vez dos 6 ou dos 13%.
Comparar a taxa de IVA de uma tourada a uma peça de teatro, a uma ópera, a uma entrada num museu, a um espectáculo de música, de fado ou mesmo de desporto é coisa que eu tenho sérias dificuldades a enxergar de forma nítida, nem sou capaz de engolir a seco.

Cenas tristes


151118
Cansado de tanto ouvir falar num tipo que há muito risquei do meu dicionário, não percebo o espaço televisivo que lhe é dedicado, ou talvez perceba mas não queira acreditar…

Outro processo corre na justiça que também envolve gente do futebol acusada de “corrupção activa e passiva” mas as notícias sobre este processo passam entre os pingos do silêncio, com os jornalistas a darem mostras de terem até medo em noticiarem o caso.

Mas isto são “fait divers”, Setúbal e as OGMA são bem mais importantes para o país, infelizmente de forma negativa.
Não vou discutir a justeza da luta dos estivadores do Porto de Setúbal, que esta coisa de serem eternamente precários não pode agradar a quem trabalha ou trabalhou sempre por conta de outrem. O Governo acordou tarde para o problema, aflito talvez por ter verificado que as viaturas no cais não contam para os números das exportações. FOB é no navio não no cais. Mas o que se passa no Porto de Setúbal é mais um exemplo da falta de visão estratégica dos diversos governos. Ouvi entrevistas radiofónicas do anterior director geral da Autoeuropa, onde ele falava da necessidade urgente da empresa ter acesso à ferrovia não só para escoamento das viaturas acabadas como também para o fornecimento das peças necessárias ao seu funcionamento. E Sines fica ali tão perto… sem problemas de assoreamento como o Rio Sado apresenta...
Mas os nossos políticos governantes não gostam do comboio, tem alergia à ferrovia, gostam mais do betão e de acudirem aos presumíveis ladrões da alta finança.

Já as OGMA enquanto empresa pública, foram sempre um Centro de excelência na manutenção de aeronaves. Muitos dos operários especializados que deram nome à Manutenção da TAP ali se formaram e aprenderam o ofício. Mas, sempre tivemos ministros interessados em desmantelar o erário público. Uns mais activos outros mais passivos, foram estrangulado a actividade da empresa até que lá apareceu “o milagre” da privatização. No passado domingo vivemos o filme de terror de um avião da Air Astana a andar no céu descontrolado, depois de o mesmo ter sido submetido a revisão rigorosa na empresa. Felizmente com a ajuda preciosa dos pilotos da Força Aérea o filme acabou sem danos pessoais. Hoje a empresa é acusada de ser a responsável pelo que aconteceu ao avião, que parece não poder voltar a voar face aos danos sofridos, coisa impensável não há muitos anos quando as OGMA eram uma entidade publica.
Que futuro guardará o accionista Embraer para as OGMA depois deste incidente?

Por fim uma palavra de apreço para a capacidade demonstrada pelos pilotos da Força Aérea.

sábado, 10 de novembro de 2018

Tancos versus Citius


0911
Tancos no vira, no corridinho, no malhão.
Tancos é tema para todos os noticiários, dando origem a Comissão Parlamentar de Inquérito, que ainda não iniciou ou trabalhos mas alguns comentadores já sabem o que por lá se passou e disseram.
Em Tancos presumivelmente roubaram armamento, que mais tarde foi recuperado ou negociado, cabendo à Justiça averiguar e verdade e sentenciar o que houver para tal.
Falando com os meus botões não percebo porque tanto ruído, barulho e gritaria por causa de umas granadas ofensivas e foguete, fora da acção da investigação e segredo de justiça.

Diz-me um dos meus botões com ar de gozo, se o presumível roubo ao “paiol” do Ministério da Justiça, não em Tancos mas no Citius, não é tão ou mais gravoso para a segurança do cidadão e do país que o raio das armas. Sobre o assunto, a Ministra da Justiça e o Governo assobiaram para o lado, os senhores deputados ignoraram quase a cem por cento, pois nenhum solicitou Comissão Parlamentar de Inquérito, ao facto de como é possível um cidadão funcionário judicial, aceder e parece que alterar processos em segredo de justiça. Onde está e como está a segurança da e na Justiça?

O que é mais importante para a nossa segurança individual e colectiva, Tancos ou Citius?

Que interesses escondem o rombo nestes dois paióis, Tancos (militar) e Citius (justiça)?

Porque é que num caso se faz tanto barulho e no outro tanto silêncio em S. Bento e comunicação social?

Assim não


0811
São as viagens fictícias
São as moradas falsas
São as assinaturas de presença por fantasmas
E a tudo isto o Presidente da Assembleia da República responde de forma redonda sem ponta de desconforto.

Assim não senhores deputados. Não brinquem com coisas demasiado sérias. Com estas condutas os senhores estão lentamente a criar pequenos tumores no corpo da nossa Democracia. Tumores esses que podem degenerar.

Imagino como do outro lado da vida, o “António das botas” e o “Tomáz corta-fitas” se devem estar a rir de gozo, por causa do vosso triste exemplo de conduta cívica e disciplina no Parlamento.

Os senhores enchem-nos os ouvidos que estão mal pagos, que a política paga mal. Ora a política antes de mais deveria ser uma missão, remunerada sim, mas de acordo com a realidade do próprio país. Hoje, os senhores usufruem mordomias que o comum dos cidadãos não têm, por isso tenham vergonha, façam a vossa própria autocrítica e se não são capazes de cumprir com as obrigações de deputado, saiam da política e tratem de trabalhar, sem nos incomodaram e indisporem.
A Democracia precisa de um poder Legislativo forte, incomodativo e acima de tudo exemplar na sua conduta cívica e política.

Vazio


0711
Olho o vazio que me rodeia, o ruído das notícias que me chegam não me animam, adensando o nevoeiro que paira sobre a minha cabeça.
Uma jovem guarda prisional morre por ser atingida no peito por uma bala disparada por um formador. Caberá agora à Justiça averiguar e julgar o sucedido, na certeza de que não irão devolver a vida àquela jovem.
Sou um crítico muito crítico da forma como se formam os tais “Formadores”, embora o formador em causa até possa ser um especialista profissional da área.

Não tenho dados sobre o sucesso dos cursos ministrados pelos IEFP’s, mas não sou crente dessa instituição. Também eu obtive o diploma de “formador”, pelo que sei como os mesmos se obtinham, participando em dois cursos(?) de formação como formador.
Há muito que penso no porque das verbas destinadas à formação dita profissional, não serem destinadas às escolas profissionais com estas a terem cursos diurnos e nocturnos, onde pela certa em vez de formadores teríamos professores com experiência pedagógica e prática.
Não sou adepto dos produtos de aviário.

Eram jovens


0711
Eram jovens saídos da puberdade. Andavam na mesma escola secundária, desde sempre na mesma turma, que por coincidência era mista nas aulas, com recreios separados por um muro real e imaginário que uns e outros não podiam pisar nem ultrapassar.
Ele olhava para fora da turma, gostava de uma moça lá da sua aldeia. Mas ele sabia que ela, a sua colega desde o primeiro ano, gostava dele naquele último ano em que estudaram juntos naquela escola. Ela era uma excelente aluna, sempre com notas altas, já ele era um bom aluno com as notas suficientes para passar os anos sem sobressaltos de maior.
Chegados ao quinto ano de então, duas alternativas havia, ou começavam a trabalhar, que naquele tempo não se conhecia esta coisa de “desemprego” nem de “subsídios”, ou continuavam a estudar.
Quis o destino que ele e o irmão, filhos de funcionário público, pudessem continuar a estudar. Ela com o pai ligado às lides do mar por lá ficou, fazendo o percurso normal dos jovens de então, trabalhar, casar para constituir nova família.
Ele continuou os estudos, mas por força das condições económicas de seus pais voltaram para a cidade grande, de onde tinha saído aos oito anos. Para trás ficaram alguns amigos, amigas e amores de juventude. Novos amigos, novos amores com namoro, outros horizontes, novos mundos, com a vida a ficar suspensa com a mobilização para a guerra em África. Sobrevivente dessa guerra inglória, logo no regresso casou constituindo nova família. Os anos passaram, apenas nas férias a sua família fazia férias na praia de juventude onde cresceu e aprendeu a conhecer o mar, a ouvir Neptuno e a respeitá-lo.
Um dia já ele estava divorciado, ao passar numa das ruas da cidade por onde tantas vezes passou em jovem viu a antiga colega de turma. Os anos passavam, há mais de cinquenta anos que não se falavam, até que um ano tomou coragem, entrou na loja, a empregada perguntou-lhe o que ele desejava, apontando ele que desejava falar com a pessoa que estava a atender outra pessoa. Esperou uns momentos olhando os artigos expostos até sentir que as pessoas já tinham saído. Olharam-se, sorriram e ela diz-lhe o nome completo dele, ao que ele retorquiu dizendo-lhe o nome completo dela de solteira. Agora, ele sempre que passa pela rua, entra na loja para a cumprimentar e desejar-lhe o melhor que a vida tem para dar à sua família.
Eram jovens e hoje são grisalhos com caminhos distintos.

Produtos de aviário


0711
Não sou adepto dos produtos de aviário, que a sociedade de consumo nos impinge como saudáveis.
Cresci e criei-me com o leite da teta das vacas leiteiras que os vizinhos possuíam e nós comprávamos indo buscá-lo em leiteiras de alumínio.
Os frangos, galo e galinhas eram criados no quintal à solta. Comiam farelo, hortaliças migadas finamente, as cascas das melancias e dos melões eram cortados finamente para juntar ao farelo.
O mesmo para os patos que uma vez por ano a minha mãe aproveitava o choco de uma coquicha e deitava os ovos de pata, atendendo aos quartos de Lua por forma a que nascesse todos sem problemas.
Os coelhos alimentavam-se de ervas que depois das aulas íamos buscar ao campo, após o meu pai ter falado com os donos das terras. Nunca se comia uma coelha sem esta ir visitar o coelho, minha mãe era malandreca e dizia que assim morria sabendo o que é bom, não se comiam virgens.
Perus nunca foram por nós criados. Era coisa para rico comprar no Natal.
As verduras, a batata vinham do campo, da horta, criados sem estes modernos adubos, a que agora chamam de nutrientes. Modernices.
O pão feito com farinha de trigo em fornos de lenha.
A água para beber de uma fonte, que a da rede era demasiado ferrosa.
O vinho e a água-pé de adegas dos vizinhos, que elaboração para consumo próprio.
Recordo-me de um dia num monte alentejano na zona de Castro Verde, onde viviam os pais de um amigo, tudo o que estava na mesa para comermos era feito, elaborado por seus pais e em especial por sua mãe; até o petisco no final da tarde com carne de burro de um monte vizinho estava divino.
Hoje, as multinacionais tomaram conta da nossa alimentação, e na sua busca de mais e mais receitas financeiras criam ideias e mitos sobre o que nos faz bem, o que devemos comer e não comer.
O leite tem de ser em pacote e no supermercado depois de submetido a não sei quantos processos químicos não naturais. Aquela nata de gordura da qual a minha tia fazia um bolo divinal, hoje não é possível, é perigosa para a saúde, dizem-me.
Os frangos, os perus, os patos e os coelhos, nascem e morrem sem comer uma verdura, sem picarem, sem esgravatar a terra na busca de uma larva qualquer. São injectados com hormonas de crescimento rápido e não podem ultrapassar aquele peso que um “especialista da bolsa de valores” calculou como o mais rentável. Rentável não saudável, ficando a função de mistificar essas noções ao cuidado das agências do marketing, especialistas em criar, ideias, mitos e prováveis mas remotas verdades...
Até as carnes ditas vermelhas à venda nos supermercados estão cada dia mais cor-de-rosa claro, quando a verdade é que a carne do gado bovino na pastagem, comendo pasto verde, é de cor vermelha escura.
A gordura animal faz mal, mas as gorduras hidrogenadas serão mais saudáveis do que as de origem animal? Alguma gordura hidrogenada, vulgo margarina, produz mais sabor na confecção de uma refeição do que o azeite ou a banha de porco?
Quem não esquece a campanha publicitária das margarinas, apoiada por um cardiologista famoso da nossa praça, em detrimento da utilização do azeite, sou eu. Uma mentira corroborada por esse senhor que tinha e tem fama de grande cardiologista, um charlatão que com essa campanha televisiva e radiofónica enriqueceu em detrimento do consumo do azeite, a melhor gordura natural. As margarinas eram produzidas por uma multinacional poderosa ainda hoje, mas o dinheiro não tem moral nem ética.
Hoje, os senhores de Bruxelas e os cá do burgo, estão subordinados aos interesses da finança e das grandes multinacionais do agro-alimentar-industrial. Eles controlam as sementes híbridas, os adubos agora nutrientes, os pesticidas para as pragas fomentadas por eles, controlam as ditas condições de higiene, os químicos conservantes, no fundo a alimentação do mundo animal incluindo os humanos. Por fim tem interesses muito fortes na saúde, cercando os políticos com a sua sede de receitas financeiras.
Não é possível viver fora deste cerco, mas podemos infringir regras e normas, é o que faço sempre que posso, não ganho a guerra mas a revolta alimenta-me as forças e os neurónios insubmissos e radicais face à maioria silenciosa e crente dos mitos que lhe são vendidos sem vontade de pensarem nos porquês.

Cabo Magalhães


0411
Depois da emoção dos militares em parada, como homenagem aos antigos combatentes que lutaram na primeira grande guerra ao lado das forças aliadas contra as forças dos impérios alemão e austro-húngaro, sobem à memória acontecimentos passados em Angola nas quase terras do fim do mundo, sem rancores, nem ódios, apenas alguma revolta comigo mesmo, que me acompanha há uns anos bons. Por vezes guardo-a e fecho-a numa das gavetas do cérebro, outras a gaveta abre-se por si dando lugar a este sentimento triste de revolta.
Era eu um jovem de vinte e um anos, a quem o sistema político de então, contra minha vontade e sem consultar os meus pais, me mobilizou para a guerra em Angola com o posto de alferes de infantaria e me responsabilizou pela vida de outros trinta jovens, sem que para tal nos dessem qualquer seguro de acidentes de trabalho.
No próximo almoço com o antigo capitão da companhia vou ver se não me esqueço de lhe perguntar, o porquê de acumular oficiosamente a função de oficial da polícia judiciária militar da companhia, cuja principal função era a elaboração dos autos, quer de corpo delito, quer de outros mais simples.
Ao fim de poucos meses de estarmos no Mumbué, o cabo Magalhães sofria de tromboflebite que não só o incapacitava, como o impedia de participar nas operações do meu grupo de combate. Não foi fácil a luta para que pudesse ser evacuado para a Metrópole a fim de ser tratado, já que as indicações surdas e mudas do Comandante de Batalhão era evitar evacuações na nossa companhia (o homem não gostava de nós; andámos por Chaves e Viana do Castelo mas quando a Companhia passou no Chitembo a caminho do Mumbué o senhor não sabia quem eu era felizmente). O cabo Magalhães foi evacuado. A Companhia depois de rodar do leste para o norte acabou por regressar sem outras baixas.
Passados uns anos telefonam do Quartel General para casa de meus pais à minha procura. Minha mãe ia morrendo de susto. Lá fui ao QG em S. Sebastião da Pedreira. Entrei acompanhado por um senhor Coronel da PJM e fiquei a saber que o auto que tinha elaborado no mato em Angola ainda estava aberto, passando eu de relator a testemunha por ter elaborado inicialmente o auto e ter sido o comandante do grupo de combate a que o Magalhães pertenceu. Respondi aos quesitos com a consciência de ter dito a verdade. Em causa estava uma diferença de 200 escudos na pensão de invalidez.
A revolta que me castiga e não me abandona é o facto de ter conhecimento que figura menor da nossa política, já depois do 25 de Abril partiu o pé em Moçambique e esse facto proporcionou-lhe uma reconfortante pensão de invalidez, e eu por falar verdade privei o cabo Magalhães de uns míseros 200 escudos (1 euro). Esta vai comigo até ao fim.