quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

27.08.23

 

Pela primeira vez neste mês ao sair para o passeio matinal senti a habitual nortada fresca; ao chegar ao areal olhei o mar, caminhamos pela avenida da praia e olhei a duna que tantas vezes subi para no alto defronte para o universo estabelecer as minha conversas com o sagrado. Hoje, pela primeira vez caminhando com a Sacha pela trela pensei que já não me sinto confortável em estar na minha praia. Ao passar pela duna que tantas vezes disse “ser a minha duna” recordei que só por duas vezes a subi neste verão, ao olhar o mar já não sinto os deuses sagrados que nele habitam, nem as ninfas já vêm à beira das ondas; olho o horizonte lá ao fundo onde o azul do mar e do céu se fundem numa linha sentindo-me invadido por outros pensamentos, outras imagens; caminho com preocupação pensando nas minhas coisas lá no meu canto na minha outra fronteira, pois que nesta vou sentindo as raízes como que a secarem.

Por aqui vivi momentos, dias, meses e anos felizes, hoje são apenas boas lembranças, boas recordações. O meu mar agora são as oliveiras, as azinheiras e sobreiras num mar dourado de verão seco e quente com a serra no horizonte. Seguimos pela beira da estrada sentindo a nortada fresca; comigo seguem duas imagens, uma a sempre foto desde que a encontrei por acaso, a outra é o meu canto com o quintal e as dúvidas sobre como estarão as coisas que lá tenho, será que o tempo de rega gota a gota é em excesso ou por defeito?…

Fomos e voltamos da nossa caminhada matinal, a pouco e pouco vou-me transferindo.

25.08.23

 

Ao que chegámos nesta «Nova Ordem Democrática».

Primeiro, os muitos e vários governos da Nova Ordem Democrática sempre se recusaram reconhecer os antigos combatentes naturais das três colónias ou províncias ultramarinas que combateram integrados nas Forças Armadas Portuguesas;

Segundo, um conservador neoliberal manhoso nas funções de Ministro da Defesa de um desgoverno acabaram com o serviço militar obrigatório seguindo o pensamento ideológico dos neoliberais americanos, vendendo a ideia da profissionalização das forças armadas, que como se está a ver não funcionou, levando as mesmas ao limite da sua existência pela falta de estratégia política governamental que atraia os jovens a integrar dando-lhes uma perspetiva de segurança na vida futura;

Terceiro, que governo é este que se diz socialista e pensa ou estuda a possibilidade de recrutar no estrangeiro cidadãos para as forças armadas, dando mostras que nem sabem nem se preocupam com o que determina a Constituição da República? Estarão a pensar copiar quem?

Estamos no fundo do poço e querem-nos enterrar ainda mais. Tristeza de país que tão maus políticos gerou.

05.08.23

 


Quando ando nas voltas com a Sacha, quando no começo do dia vagueio pelas ruas desta pequena povoação ou quando olho o mar abrindo os braços à nortada dos últimos dois dias, ocupo a mente com ideias para escrever, converso com elas indiferente aos poucos seres que se cruzam comigo. Chego a casa com tantas ideias, contudo ao entrar em casa, as ideias ficam lá fora na rua ou escondem-se no fundo do cérebro deixando-me vazio. Até mesmo os livros que trouxe para ler se apresentam tristes quando os olho com este meu estado em que não escrevo, não os leio nem vejo televisão ou ouço rádio. Vejo as capas dos jornais e o que um ou outro escrevem no mundo do Facebook sobre a maldita guerra, mas até essas mensagens/notícias do outro lado escasseiam neste dias em que só se fala no evento religioso dos cristãos católicos apostólico romanos, como se o mundo e a vida girasse apenas à volta dessa organização religiosa, que promove com gastos públicos de milhões aquilo que designo pela peregrinação do egoísmo mais egoísta, com toda aquela massa de gente a pôr nas mãos de um Deus que ninguém sabe de verdade quem é ou se existe, aquilo que lhes compete a eles e todos os outros seres humanos resolverem.

Também fui religioso durante a juventude, praticante de missa e terço que cheguei a equacionar entrar no seminário para ser padre com o objetivo de poder pregar o bem; mas em 1969 ao saltar o muro para o mundo da igualdade, da fraternidade e da solidariedade, ao abrir a mente ao outro lado da vida deixei de imediato para trás a religião. Ao estudar, ao ler sobre o passado como nasceu e cresceu a religião cristã compreendemos melhor o seu papel sempre ao lado das classes abastadas opressoras e exploradoras dos desprotegidos da sorte; da Igreja católica portuguesa nunca ouvimos uma crítica ao regime da ditadura de miséria salazarista-marcelista, nunca ouvimos uma palavra de apelo à paz com os povos das antigas colónias africanas. Antes, por todo o país nas missas semanais domingueiras faziam a apologia do regime ditatorial que o velho tirano implementou glorificando-o, os povos africanos que nos combatiam eram a encarnação do mal, do diabo, pelo que ir à guerra era um desígnio de Deus para se poder alcançar a palavra da salvação. Por tudo isto caminho desligado da vida, só as conversas com amigos de infância e juventude me fazem lembrar que ainda resisto, ainda vou andando consciente da minha insignificância incomodativa para o rebanho que segue acéfalo o que lhes contam horas a fio os servos papagaios e pegas sem penas televisivos. 


02.08.23

 

Dia a dia as rotinas repetem-se indiferentes ao que acontece à minha volta. As forças fogem, o peso sobre os ombros aumenta. Esta vida não é vida, antes uma simples rotina rotineira. Solitário sinto-me só, cansado, meio derrotado. Desistir não é solução, palavra e ação proibidos. A luta continua, é já um cartaz desfocado e triste. Caminhar, erguer a cabeça e ir à luta que há coisas por acabar.

30.07.23

 

O mês está a chegar ao fim. Pouca gente pela Consolação, os " veraneantes" este mês não invadiram a pacata povoação, ou foram para outras praias lá para o sul ou pela crise que lentamente se vêm instalando optaram por outras opções face aos preços especulativos e desproporcionados praticados no aluguer de casas. A Praia da Consolação está assim mais sossegada, com menos poluição sonora que nos últimos anos, dizendo-me um amigo natural que voltou a viver cá, que para ele assim está bem, até os poucos comerciantes que vivem todo o ano, estão também eles saturados dos veraneantes que chegam com o rei na barriga sem respeito pelos outros; até a senhora cigana que há tantos anos tem o seu pequeno pronto a vestir se queixa de lhe roubarem peças se ela ou a filha se descuidar na vigilância.

Por mim continuo a pensar que podem ir todos para o Algarve do moderno betão, das piscinas com cloro, das vaidades e pedantismo das celebridades de sete e meio furado televisivas e políticas e claro muita poluição sonora e odorífera, que para mim basta-me olhar este mar, andar na baixa mar até ao Molho Leste ou próximo conforme a bacia permite, olhar lá ao fundo o Cabo Carvoeiro e a Berlenga, sentir o vento de nordeste que já não sou de bronzeamentos, vivendo sempre alerta com os sinais que vão aparecendo pois a aranha de baba peçonhenta atua quase sempre silenciosa e sem dor. Não sou de grandes exigências no usufruir da vida, exigindo sim mais solidariedade, mais fraternidade, menos desigualdades e menos muito menos pobreza coletiva. Nisso, sou exigente sendo visto até como extremista. Não me importo, sigo o meu caminho iniciado em 1969, caminhando indiferente a partidos políticos e modas ditadas do exterior, sou português de cá e de lá, depois sou ibérico antes de ser europeu do sul, e assim serei até ao momento em que chegar a hora deste meu ser terminar a dualidade matéria e espírito.

Por aqui caminho na outra margem acompanhado pelos deuses dos mares e das marés, dos ventos e da bonança, da paz serena em movimento perpétuo onde a luz solar me aquece, me trás lembranças de outros tempos para caminhando com a sinfonia das ondas por companhia equacionar a própria existência de como fomos insubmissos desde 1143 para agora a troco de dinheiros e mordomias materiais nos últimos quase cinquenta anos perdermos valores e sonhos passando a ser um rebanho submisso a ordens exteriores sem capacidade de sonhar de novo com um outro e novo 1640.

Já não tenho muito tempo para vir desfrutar destes momentos de serenidade universal, caminhando por estas areias com milhões de anos e de histórias sempre prontas ao desembarque de algum outro Prior do Crato.


Ontem na minha volta após almoço fui ver as netas encontrando a Luísa com o pai sentados no pequeno quintal a praticar a multiplicação. No fim a Luísa diz-me que já leu o livro que lhe tinha oferecido e que na feira do livro que existe aqui na praia tem lá um que ainda não leu. Lá fomos os dois ver e lá lhe comprei o livro que ela tinha visto de uma outra coleção. Ao acompanhar a minha filha que ia para a praia fiquei a saber dos anos do neto Guilherme, para logo que nos separamos a minha sombra me aconselhar a esquecer.

Hoje, depois da volta matinal e de deixar a Sacha em casa, fui ao pão fresco para o pequeno almoço para não ter de comer o pão comprado no supermercado. Vinha de regresso quando vi a minha filha a sair de casa para ir trabalhar, levando com ela a minha neta Luísa. Ao perguntar-lhe se a Maria ficava sozinha com a prima em casa, fiquei a saber que a prima já não está cá, assim como, a minha Maria estava em casa com o seu melhor amigo. Em poucas horas recebi atualizações gratuitas à minha capacidade de entender e aceitar os novos tempos.

Não sou religioso. Respeito quem o é, mas eu há muito decidi deixar de seguir qualquer dos credos religiosos nas suas múltiplas versões, sejam cristãs, judaicas ou muçulmanas.

Sou um não crente que acredita. Não acredito nas ladainhas religiosas, ainda menos em milagres da fé. Não acredito na justiça dos homens e da justiça divina, nada sei. Acredito num mundo novo onde ricos possam ser ricos e os pobres cada vez menos pobres até à inexistência de pobreza. Utópico? Serei.

Não comentei nenhum dos muitos artigos sobre os crimes de pedofilia cometidos no seio da Igreja católica, alguns outros foram cometidos e silenciados, mas não sabendo eu quem estava por detrás das notícias publicitadas, calei-me. O mesmo faço agora com o dinheiro público gasto neste evento que irá ocorrer em Lisboa, porque há muito que políticos governantes do poder central e autárquico não cumprem a letra da lei da nossa Constituição. Não foi só agora, infelizmente.

Tenho, contudo, algumas dúvidas e outras certezas face ao pensamento único que nos tem dominado com o apoio e anuência da maioria, onde não me enquadro, tresmalhado que sou.

Será que cristãos católicos russos, que os há, poderão vir ao evento e serem bem recebidos, ou será que o fanatismo anti russo de mãos dadas com o religioso não só os ignora como os repudia?

28.07.23

 

Saí para olhar o mar. Não subi à duna nem vi a praia, fui para sul perder-me nos azuis deste recomeçar; de terra a ameaça do nevoeiro vindo de norte, sobre o mar um céu azul fundindo-se com a cor do mar na linha do horizonte.

Fui olhar o Porto Batel. Há quem goste de voltar aos locais onde viveu momentos felizes, eu gosto de olhar os lugares onde fiz disparates e aventuras que hoje não faria, depois, gostaria que num mar como o desta maré parte das minhas cinzas ali sejam entregues na vazante, de forma clandestina, para irem embaladas mar adentro para as profundezas do mesmo.

Conheci caminhos antigos nos caminhos que hoje existem porque tudo muda, sendo agora os campos de horticultura diversa e intensa para servir os interesses das grandes cadeias de distribuição, onde os mesmos se adquirem a preços inflacionados pela ganância dos lucros crescentes dessas grandes cadeias.

Não é hoje possível ser produtor agrícola sem a utilização dos produtos que os conglomerados químicos produzem, desde os adubos aos pesticidas e conservantes. Não é possível sobreviver no mundo agrícola sem a química, embora haja uma corrente de líricos uns e aldrabões outros, que apoiados em relatórios e estudos encomendados nos dizem que o biológico é o futuro. Dizem e defendem porque o futuro não existe e eles não cultivam a terra nem dependem economicamente dela.

Neste modelo de vida numa sociedade consumista onde impera o egoísmo da felicidade individual em oposição à felicidade das coletividades, o biológico é uma treta, cujos ditos produtos, com selo reconhecido por organismos incapazes de controle efetivo sobre os produtos produzidos, tem preço fora do alcance da grande maioria dos consumidores, comprovando que não são alternativa à procura existente quanta mais às necessidades das multidões.

É necessário encarar o problema pelos cornos de forma global. As alterações ambientais, as doenças com fungos, bactérias e vírus cada vez mais resistentes são um facto diretamente ligado ao designado desenvolvimento das sociedades. Compete às novas gerações escolherem o que desejam construir, avançar no modelo? regredir em busca de um outro equilíbrio?

26.07.23

 

O que é isto do dia dos avós? 

Recebo mensagens a celebrarem o dia dos avós, sem que eu saiba o que celebram. Ando e vivo na outra margem da vida onde cada dia é um acontecimento simples singelo de uma grandeza infinita para a vida de todos os seres vivos; na minha margem o rio da vida corre sereno, só as águas seguem ensanguentadas pelas feridas que a multidão provoca na natureza chamando-me à razão.

20.07.23

 

Olho as unhas dos pés, fixando-me na unha do dedo grande do pé direito. Os genes dos pais e antepassados têm influência no nosso caminhar.

Minha mãe faleceu após o segundo AVC sete anos depois de ter sofrido o primeiro. O meu irmão, uns meses mais velho que eu, já conheceu um pequeno AVC chamado isquemia o que não deixou de ser um alerta, não tendo sofrido felizmente qualquer mazela. O meu pai e o irmão mais velho dele sofreram ambos de câncer da próstata. Eu próprio mais ou menos pela idade do meu tio conheci a malvada aranha de baba peçonhenta do câncer da próstata, vivendo hoje sempre alerta a qualquer sinal silencioso que aflore no corpo. Ao olhar a unha do dedo grande do pé direito vejo-a no mesmo dedo do mesmo pé de minha mãe, o mesmo formato a mesma coloração. Claro que hoje eu trato-a com o medicamento prescrito pela médica de família, mas quando pensei ter anulado o malvado e teimoso fungo, o sacana ressuscita impondo-se obrigando-me a continuar a luta diária pela sua morte; uma luta entre dois teimosos em que só um pode vencer.

16.07.23

 

Ontem foi dia de ir até à cidade Invicta. Dia para recordar e dar abraços aos jovens que como eu constituíram o corpo militar da 2ª Companhia de Caçadores 5010, um dia com tempo para recordar, viver a alegria de reencontros, um dia com tempo para pensar e sentir a revolta rondando-me.

Defendo o direito à greve, como um dos pilares da sociedade.

Quando em 1975 comecei a trabalhar, sindicalizei-me. Depois, em plena luta pelo controle do sindicato em que estava sindicalizado, li e ouvi o que propunham e diziam em campanha, de um lado os afetos ao PCP-MDP/CDE do outro os afetos à aliança PS-MRPP. Ouvi, li e… dessindicalizei-me. É que nos anos anteriores da minha juventude tinha consumido várias obras sobre a luta e a história do sindicalismo em Portugal no tempo da Primeira República e do Estado Novo. Vi a vida já na outra margem sem ainda dar conta que me estava afastando da multidão.

Mais tarde quando a Associação de Economistas passou a Ordem desassociei-me, não gosto de Ordens profissionais, que mais não são do que organismos corporativos. Mesmo não gostando tive de continuar associado numa.

Nunca fiz greve na minha vida de trabalho, mas defendo o direito à greve.

Na noite anterior, antes de me deitar, olhei no computador o sítio da CP, assim como o e-mail, e nenhuma informação negativa havida para no dia seguinte apanhar o Alfa Pendular na estação do Oriente, cujos bilhetes tinha anteriormente adquirido via internet.

Dormi de um sono só. Acordei quando os sensores urinários tocaram o alerta. Levantei-me, relaxei a bexiga e ao colocar de novo o corpo na horizontal, olhei as horas, eram cinco horas. Aguardei e antes do despertador tocar levantei-me, eram as cinco e trinta e a claridade começava a despontar. Tomei banho e saí para a rua para a volta matinal com a Sacha. Quando por volta das sete e quarenta cheguei à estação do Oriente tinha uma chamada do amigo José que estava em Santa Apolónia, onde tinha chegado ainda mais cedo e ao reparar que o comboio não estava no cais de onde normalmente parte, viu no quadro das partidas que o Alfa das oito tinha sido suprimido e, procurava a minha concordância para a alternativa que nos restava, adquirindo os bilhetes para o IC das nove e trinta para Braga que chegaria a Campanhã pelas treze menos dez caso cumprisse o horário, em cima da hora do almoço em S. Mamede de Infesta.

Enquanto esperava pelo amigo, pois tínhamos duas horas e meia pela frente, dirigi-me ao único guiché aberto para comboios suburbanos e educadamente questionei a funcionária porque pelas vinte e três da noite não havia qualquer informação e agora à hora marcada o mesmo tinha sido suprimido? A senhora informou-me que no dia anterior, sexta feira, as perturbações tinham existido por problemas na Infraestruturas de Portugal, enquanto só de madrugada tiveram confirmação da greve dos revisores da empresa. Nada mais havia a falar. Aceitei a situação, porque não tenho conhecimento concreto do que está em discussão, entre os sindicalistas e os representantes da entidade patronal, a CP.

Em silêncio revoltei-me pelo caminho que uns e outros podem estar a cavar de novo, para que amanhã num futuro mais ou menos próximo, estejam reunidas condições para a privatização de mais uma empresa do setor público dos transportes, tão importante para a manutenção do nosso fraco Estado Social, como para os mais desfavorecidos da sorte na sua vida laboral, que se deslocam só e apenas nos transportes públicos.

Chegamos a Campanhã com dez minutos de atraso onde um amigo nos esperava para nos levar até à Central Churrasco em S. Mamede de Infesta onde o pessoal da Companhia nos aguardava.

Reviveram-se amizades, recordaram passagens da vida em comum e da vida dos tempos de agora.

Li em voz alta para que todos ouvissem a mensagem que o antigo capitão miliciano me tinha enviado para ler ao pessoal, já que por motivo de um exame clínico não pode estar presente no encontro.

Ficou agendado novo encontro dos resistentes milicianos da 2ª Companhia de Caçadores 5010 na cidade do Porto para o último sábado de Outubro.

"Nós Somos Capazes" era o lema do Batalhão de Caçadores 5010. A 2ª C. Caç. começou tarde estes encontros, para agora decidirmos marcar presença em encontros duas vezes por ano, porque o tempo não para e já estamos todos com mais de setenta em cima do corpo pelo que as oportunidades de nos encontrarmos irá diminuindo inversamente proporcional ao avanço da idade.

12.07.23

Fugindo das notícias de sentido único sobre a maldita guerra que ocorre no leste europeu, lembro-me de uma outra guerra que se iniciou quando ainda tinha dez anos, que nos meus dezassete anos ouvia na rádio os senhores da guerra dizerem que a guerra estava ganha por ação dos valentes e heroicos militares das nossas tropas que nas três frentes da guerra em África combatiam os terroristas inimigos da Pátria e da fé cristã.

Estava a guerra ganha, diziam os senhores que mandavam os jovens para a guerra no mato, porque havia outras várias formas de ir à guerra sem correr risco de vida.

Estava ganha, tão ganha e certa era a vitória que os contingentes militares por necessidades logísticas nas frentes de combate passaram a viajarem de avião, meio de transporte muito mais rápido que o transporte nos navios fretados às companhias marítimas existentes. Foi assim, com a guerra ganha como diziam os que mandavam no país que embarquei com a minha companhia de caçadores na noite de 15 de Dezembro de 1972 num avião TAM. Era o comandante do terceiro grupo de combate. Na EPI em Mafra tive mais uma nota de curso com a média de 12 valores (nem bom, nem mau, sempre suficiente). Quando chegou a altura de se escolher o primeiro período de férias, aguardei que o capitão e os dois alferes mais graduados escolhessem os seus períodos de férias, porque só um dos oficiais poderia estar ausente do arame farpado de férias. Tive sorte. Sensivelmente ao fim de oito meses podia sair daquela terra que nunca senti como minha, nem tão pouco como a continuação do meu próprio país. Era o "aerograma" para nós militares destacados nas frentes de combate africanas a forma gratuita de comunicarmos com o mundo familiar e exterior. Num dos muitos aerogramas que escrevi pedi ao irmão para comprar uma tenda de campismo e um saco cama. O meu irmão foi à Casa Sena na Rua Nova do Almada e comprou o que lhe pedi.

Vim de férias num avião TAP a meio do mês de Agosto de mil novecentos e setenta e três. No aeroporto de Lisboa apanhei um táxi com o taxista a resmungar por o destino ser nos Olivais Sul junto à Avenida Infante D. Henrique, cobrando-me o suplemento da mala. Não lhe dei troco nem tão pouco gorjeta. Oito meses antes tinha saído de casa ainda em gozo das férias que os senhores da guerra davam aos jovens mobilizados para se despedirem da família. Como não fui capaz de ver a minha mãe a chorar com medo que o seu menino morresse na maldita guerra, uns dias antes das férias acabarem inventei um serviço e fui no comboio para o Porto e depois para Viana do Castelo sem me despedir de minha mãe, já que o meu pai lendo o meu silêncio angustioso acompanhou-me até ao cais do comboio em Santa Apolónia para o Porto para um minuto antes do comboio dar o sinal de partida nos abraçarmos e beijarmos sem trocar uma palavra, nenhum dos dois sabia se aquele abraço se aquele beijo era o último. Quando o comboio começou a andar e a imagem do meu pai imóvel no cais a olhar meus olhos encheram-se de lágrimas revoltosas apagando da memória a viagem assim como os dias que passei em Viana do Castelo andando a vaguear a pela margem do Rio Lima até que chegou todo o pessoal da minha companhia; todos decidimos ir para terras distantes e totalmente desconhecidas lutar contra o inimigo que não conhecíamos.


Minha mãe quando o meu irmão chegou a casa acompanhado dos meus primos de Azambuja aquela hora da noite do dia 15 de Dezembro de mil novecentos e setenta e dois viu de imediato que o seu menino já tinha partido para a guerra sem lhe dar um beijo sem a abraçar a ela que o tinha gerado, parido e criado com tanto amor. Passados oito meses à casa regressava sem ter dito nada da minha chegada. Toquei à campainha e a porta da rua abriu-se, na época o prédio não tinha comunicador subi no elevador e toquei à porta do 8°C. Minha mãe ao abrir a porta e ao ver-me correu para dentro de casa chamando pelo meu irmão para ver quem tinha chegado e, só depois me abraçou me encheu de beijos e mimos logo preocupada com o meu aspeto físico. Naqueles oito meses tinha emagrecido cerca de dez quilos e ela sempre gostou que fosse mais forte do que era. O irmão, por já andar no ISCEF tinha pedido espera do serviço militar, um benefício que o regime concedia aos estudantes universitários.

Tínhamos um amigo alentejano que não só tinha tirado o curso de Contabilista com o meu irmão como viajava também de comboio para a Estação do Rossio, nós do Apeadeiro de Cabo Ruivo e o amigo da Estação de Entre Campos. Era o amigo Geraldo um pouco mais velho de idade que nós, trabalhando já num escritório de contabilidade depois de ter cumprido o serviço militar na cidade de Beja.

A trabalhar, o amigo Geraldo comprou o seu primeiro carro em segunda mão, um Fiat 850. A primeira viagem que os três fizemos no Fiat foi irmos passar um fim de semana à Consolação estreando a tenda que o irmão tinha comprado com o dinheiro do pré que eu cá deixava.

Na semana seguinte o amigo entrava de férias uns dias, combinando os três irmos até ao Algarve onde eu e o meu irmão nunca tínhamos ido. O amigo Geraldo combinou com um casal amigo dos tempos de estudante almoçarmos com eles em Porto Covo. Saímos cedo de Lisboa rumo a sul com o acordo de que tínhamos de dar um mergulho nas praias por onde passássemos. Foi assim que nessa manhã chegados a Sines estacionado o Fiat 850 lá fomos os três ao banho na praia de Sines com as obras do Porto já a decorrerem. De novo aprumados o Fiat deslizou pela estrada à beira-mar até Porto Covo, onde o casal, ambos engenheiros, já nos aguardavam. Feitas as apresentações e os cumprimentos fomos almoçar uma ótima caldeirada num restaurante da então ainda pequena aldeia de Porto Covo. Comemos, bebemos e fomos conversando à boa moda do Alentejo, estávamos de férias e a pressa não ia connosco. No final da tarde descemos à praia onde conhecemos umas moças que como nós viajavam sem pressa mas elas já estavam de regresso das férias. Tomado mais uma banho de mar, voltamo-nos a encontrar com os amigos para degustarmos umas excelentes gambas e bebermos mais uns copos. Era já noite quando os três bem jantados e bebidos iniciamos a viagem para o Monte onde os pais do amigo Geraldo viviam perto de Castro Verde. Com algum receio mas sem nos enganarmos no caminho lá conseguimos chegar ao Monte a altas horas da noite, enfrentando nova aventura pois as portas e janelas de casa estavam trancadas sendo os pais do Geraldo “surdos que nem um porta”. Estávamo-nos a preparar para dormirmos no carro, quando o “anjo” irmão mais novo chegou da noite em Castro, permitindo assim que entrássemos e pudéssemos dormir em camas. Na manhã seguinte quando acordaram e se levantaram os manos, João e Carlos, conheceram a mãe e o pai do amigo Geraldo assim como toda uma mesa cheia de iguarias que a mãe fazia. Naquela mesa desde o pão passando pela manteiga, queijos, ovos e compotas tudo a mãe do amigo fazia em casa. Ainda hoje recorda aquele pequeno almoço. Conhecido o Monte o amigo levou-nos a conhecermos Castro Verde. Depois de almoçarmos, como o calor apertava decidimos descansar, até porque havia um lanche especial em que a nossa presença iria ajudar um amigo dos pais a enganar um seu familiar que se recusava a comer carne de burro. A mãe do Geraldo preparou o petisco com a carne de burro que o amigo previamente lhe trouxe e à hora certa chegaram os dois familiares. Depois dos cumprimentos normais sentamo-nos todos à mesa a degustarmos o petisco com o familiar que se recusava a comer carne de burro sem desconfiar do que comia gabava a qualidade e o sabor da carne.
Quando o calor da tarde amainou juntou-se-nos o irmão mais novo do Geraldo que nunca tinha ido a uma praia. Os quatro no Fiat rumamos a sul, sem pressa de janelas abertas para que a natureza pudesse ir ouvindo o excelente canto alentejano do condutor. Quando encontrávamos uma placa rodoviária indicando a velocidade de 60 baixava-se a velocidade para 30 lá cantando. Portimão era o primeiro destino, chegamos já era noite. Saímos de Portimão em direção a Lagos mas sempre que víamos um foguete estourar no ar o Fiat logo se direcionava para lá de tal modo que não demos pelas horas passarem. Quando altas horas da noite chegámos à porta do Parque de Campismo do Esperança de Lagos a porta estava encerrada. Decidimos ir em busca de um local onde pudéssemos montar a tenda e descansar. Cansados e desconhecedores da zona lá encontrámos um sítio. Ainda mal tínhamos dormido quando somos acordados pelo apitar e barulho do comboio. Assarapantados levantámo-nos e só então reparámos que tínhamos montado a tenda a cerca de dois metros dos carris da linha férrea. Acordados e mal dormidos fomos de novo para o parque de campismo. Cumpridas as formalidades montamos a tenda para permanecermos uns dias em Lagos. Passámos a maior parte do tempo na Meia Praia onde na baixa-mar nos entretínhamos a apanhar conquilhas que depois as dávamos aos casais que por lá andavam na apanha do precioso bivalve. Recordo a nossa admiração ao vermos que a maioria dos pescadores que existiam na ria em plana cidade se situavam nas saídas dos esgotos pois era aí que mais peixe capturavam.
Saímos um dia de Lagos com destino à Ilha de Armona em Olhão, mas sempre sem pressa tomando banho nas praias por onde passávamos. Paramos já noite na Quarteira. O meu irmão João imaginou que poderia encontrar por lá a passear uma colega do grupo de Económicas e lá andamos pela marginal mas a gente era tanta que seria tarefa quase impossível encontrar a colega, pelo que desistimos acabámos por montar a tenda na areia perto de um chuveiro para de manhã nos poderemos lavar.

Saímos de Quarteira indo de praia em praia tomando banho. Almoçámos em Faro num restaurante onde o empregado nos quis cobrar indevidamente 10% de taxa turística já que ao pagar lhe apresentei o meu bilhete de identidade militar pois os militares estavam isentos da mesma. Ainda se gerou uma pequena discussão com o empregado mas pagámos sem os 10% porque não nos considerávamos turistas e eu era militar. O amigo Geraldo quando fez o serviço militar em Beja como alferes criou amizade com um furriel de Olhão, cuja família tinham um lugar de venda na praça do peixe e marisco com a esposa a trabalhar num armazém de marisco. Estava tudo combinado para depois de nos encontramos com o novo amigo dirigirmo-nos ao armazém onde a esposa trabalhava e aí comprarmos uma caixa de gambas cozidas, indo depois sentarmo-nos numa esplanada comendo-as acompanhadas das respetivas imperiais; era normal naquele tempo o pessoal das esplanadas aceitar que apenas consumíssemos as bebidas para acompanhar o marisco comprado em outro local. A tarde estava a chegar ao fim estacionado o Fiat fomos com a trouxa às costas apanhar o barco para a Ilha de Armona, montando a tenda junto à Ria Formosa numa pequena duna que o amigo de Olhão nos tinha indicado.
Era o fim de Agosto início de Setembro e não havia muita gente na Ilha. Nos dias que lá passámos ficámos mais pela Ria do que pela Costa. O Bar do Tolinhas foi o ideal para aqueles dias de descanso. Aí entabulámos conversa com um grupo de moças que lá estavam lá de férias com os pais. À noite jogávamos jogos de cartas com elas sob o olhar atento e vigilante dos pais. Tinham passado três anos desde que abandonei a minha primeira namorada e não mais tinha encontrado alguém de quem gostasse, mas naquele final de Agosto princípio de Setembro no Bar do Tolinhas gostei de uma das moças que estava com o pai perto do local onde estávamos acampados. Quando chegou o dia de iniciarmos o regresso a casa e o Geraldo ao trabalho, ao despedirmo-nos das moças soube que ela iria voltar para Lisboa na semana seguinte e onde almoçava todos os dias de trabalho. Uma semana e um dia depois apareci no “self-service” existente no edifício Franjinhas na Rua Braamcamp em Lisboa onde ela almoçava.
Regressei da guerra em Angola a 29 de Novembro de 1974 para a 4 de Outubro de 1975 nos casarmos.