O
mês está a chegar ao fim. Pouca gente pela Consolação, os "
veraneantes" este mês não invadiram a pacata povoação, ou
foram para outras praias lá para o sul ou pela crise que lentamente
se vêm instalando optaram por outras opções face aos preços
especulativos e desproporcionados praticados no aluguer de casas. A
Praia da Consolação está assim mais sossegada, com menos poluição
sonora que nos últimos anos, dizendo-me um amigo natural que voltou
a viver cá, que para ele assim está bem, até os poucos
comerciantes que vivem todo o ano, estão também eles saturados dos
veraneantes que chegam com o rei na barriga sem respeito pelos
outros; até a senhora cigana que há tantos anos tem o seu pequeno
pronto a vestir se queixa de lhe roubarem peças se ela ou a filha se
descuidar na vigilância.
Por
mim continuo a pensar que podem ir todos para o Algarve do moderno
betão, das piscinas com cloro, das vaidades e pedantismo das
celebridades de sete e meio furado televisivas e políticas e claro
muita poluição sonora e odorífera, que para mim basta-me olhar
este mar, andar na baixa mar até ao Molho Leste ou próximo conforme
a bacia permite, olhar lá ao fundo o Cabo Carvoeiro e a Berlenga,
sentir o vento de nordeste que já não sou de bronzeamentos, vivendo
sempre alerta com os sinais que vão aparecendo pois a aranha de baba peçonhenta atua quase sempre silenciosa e sem dor. Não sou de
grandes exigências no usufruir da vida, exigindo sim mais
solidariedade, mais fraternidade, menos desigualdades e menos muito
menos pobreza coletiva. Nisso, sou exigente sendo visto até como
extremista. Não me importo, sigo o meu caminho iniciado em 1969,
caminhando indiferente a partidos políticos e modas ditadas do
exterior, sou português de cá e de lá, depois sou ibérico antes
de ser europeu do sul, e assim serei até ao momento em que chegar a
hora deste meu ser terminar a dualidade matéria e espírito.
Por
aqui caminho na outra margem acompanhado pelos deuses dos mares e
das marés, dos ventos e da bonança, da paz serena em movimento
perpétuo onde a luz solar me aquece, me trás lembranças de outros
tempos para caminhando com a sinfonia das ondas por companhia
equacionar a própria existência de como fomos insubmissos desde
1143 para agora a troco de dinheiros e mordomias materiais nos últimos
quase cinquenta anos perdermos valores e sonhos passando a ser um
rebanho submisso a ordens exteriores sem capacidade de sonhar de novo
com um outro e novo 1640.
Já
não tenho muito tempo para vir desfrutar destes momentos de
serenidade universal, caminhando por estas areias com milhões de
anos e de histórias sempre prontas ao desembarque de algum outro
Prior do Crato.
Ontem
na minha volta após almoço fui ver as netas encontrando a Luísa
com o pai sentados no pequeno quintal a praticar a multiplicação.
No fim a Luísa diz-me que já leu o livro que lhe tinha oferecido e
que na feira do livro que existe aqui na praia tem lá um que ainda
não leu. Lá fomos os dois ver e lá lhe comprei o livro que ela tinha
visto de uma outra coleção. Ao acompanhar a minha filha que ia para
a praia fiquei a saber dos anos do neto Guilherme, para logo que nos
separamos a minha sombra me aconselhar a esquecer.
Hoje,
depois da volta matinal e de deixar a Sacha em casa, fui ao pão
fresco para o pequeno almoço para não ter de comer o pão comprado
no supermercado. Vinha de regresso quando vi a minha filha a sair de
casa para ir trabalhar, levando com ela a minha neta Luísa. Ao
perguntar-lhe se a Maria ficava sozinha com a prima em casa, fiquei
a saber que a prima já não está cá, assim como, a minha Maria
estava em casa com o seu melhor amigo. Em poucas horas recebi
atualizações gratuitas à minha capacidade de entender e aceitar os
novos tempos.
Não
sou religioso. Respeito quem o é, mas eu há muito decidi deixar de
seguir qualquer dos credos religiosos nas suas múltiplas versões,
sejam cristãs, judaicas ou muçulmanas.
Sou
um não crente que acredita. Não acredito nas ladainhas religiosas,
ainda menos em milagres da fé. Não acredito na justiça dos homens
e da justiça divina, nada sei. Acredito num mundo novo onde ricos
possam ser ricos e os pobres cada vez menos pobres até à
inexistência de pobreza. Utópico? Serei.
Não
comentei nenhum dos muitos artigos sobre os crimes de pedofilia
cometidos no seio da Igreja católica, alguns outros foram cometidos
e silenciados, mas não sabendo eu quem estava por detrás das
notícias publicitadas, calei-me. O mesmo faço agora com o dinheiro
público gasto neste evento que irá ocorrer em Lisboa, porque há
muito que políticos governantes do poder central e autárquico não
cumprem a letra da lei da nossa Constituição. Não foi só agora,
infelizmente.
Tenho,
contudo, algumas dúvidas e outras certezas face ao pensamento único
que nos tem dominado com o apoio e anuência da maioria, onde não me
enquadro, tresmalhado que sou.
Será
que cristãos católicos russos, que os há, poderão vir ao evento e
serem bem recebidos, ou será que o fanatismo anti russo de mãos
dadas com o religioso não só os ignora como os repudia?