quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

10.09.23

 

Crise é palavra constante no tempo que corre. Sempre imputamos as culpas da crise aos outros, a terceiros, incapazes que somos de pegar de caras os nossos próprios erros, as nossas culpas na crise que vai germinando na sociedade onde vivemos.

Aceitamos o que ouvimos dos agentes ao serviço das forças que comandam o modelo de gestão liberal e neoliberal da vida em sociedade, onde o individualismo extremo impera como lei oficiosa para o bem estar.

Deixamos de pensar nos porquês e nas causas dos factos que condicionam a nossa vida coletiva. Ler dizem que cansa, desabituado que foi o rebanho. Se ler cansa então pensar diferente é um suplício para a grande maioria, que desse modo segue os arautos sem alma do sistema sem coragem de questionar razões deste marcar passo e marcha atrás.

O País está a bater no fundo. O rei vai nu mas recusamo-nos a vê-lo. Preferimos novelas de amores intercaladas de traições e violência, para depois nos queixamos dos crimes de violência doméstica, dos crimes de natureza sexual, do beijo consentido ou abusador, do penálti que ficou por marcar e do que foi marcado que não era falta merecedora de tal castigo.

(foto da net)


10.09.23

 

Fazes neste dia cem anos que ao encarnares um corpo criaste uma dualidade que terminou o seu caminho há sete anos. No Planeta Terra tudo parece ter um prazo de validade que a Natureza gere; já no Universo onde nos integramos somos energia e como nos ensina a física, a energia não se perde mas está em constante permuta, transformação.

Sentado na cama de ferro que não troco por nenhum modelo das novas tendências do sacrossanto mercado, imagino os teus olhos a sorrir de satisfação olhando as oliveiras para veres se a azeitona está a engrossar com estas poucas mas abençoadas chuvas que por cá tem caído, pouca mas abençoada água que as nuvens deixam ao passar..

Cem anos passaram desde o teu nascimento, estando de novo este subcontinente europeu em crise, em guerra, querendo fazer valer o estatuto de continente mais sangrento de toda a história do Planeta na era dos Homo Sapiens. Tempos negros continuam no horizonte.

Iremos almoçar os três porque este ano temos a companhia da minha e tua neta Maria. Os dois iremos comer o nosso "bacalhau à Brás" que a neta ainda não gosta de bacalhau. Como na vida tudo se aprende mais tarde ou mais cedo lá chegará o dia em que nos poderá fazer companhia no teu prato favorito.

31.08.23

 

O Agosto deste ano chegou ao seu último dia. Os dias passam iguais na sua cadência de há milhões de anos. Dias iguais uns aos outros na monotonia da vida citadina de reformados e aposentados que sobrevivem engaiolados nas grandes cidades, com pouco ou nada por fazer que os obrigue a cumprirem deveres ou obrigações deixam-se ir na onda tóxica televisiva que o sistema criou para os usar segundo as tendências ditadas pelos neoliberais mais poderosos que o sistema vai gerando e autopromovendo para ele próprio continuar a dominar as nossas vidas na ilusória democracia em liberdade.

A foto encontrada por acaso está sempre presente, quando traduzo ou não em palavras o meu pensar o meu não enquadramento pacífico no rebanho submisso e acéfalo que desistiu de ler, de procurar ver, de observar as outras faces da vida, para poder desse modo tomar uma posição própria, consciente das suas opções.

Não é fácil olhar a vida da outra margem. Um olhar que induz o estado de tristeza quase permanente, sendo contudo um estado de tristeza bastante diferente daquele que o sistema nos seus muitos estudos científicos define como antecâmara dos estados depressivos gerados pelo modelo de vida consumista, qual essência necessária à manutenção do próprio sistema.

Na outra margem da vida a tristeza é consequência da opção filosófica e ideológica tomada, um olhar quantas vezes crítico às ações ondulantes do rebanho obediente e crente que se limita a acreditar no que lhe dizem os papagaios e pegas sem penas que na comunicação social televisiva debitam constantemente na tentativa de agradarem “à voz do dono”.

Na outra margem da vida também há alegria, a felicidade também tem lugar, mas qualquer que seja o estado vivido no momento ele é distinto do que acontece com a maioria do rebanho, porque não se aplica o ditado popular de «Maria vai com os outros», são momentos de emoções como que sagradas pelo respeito e pelo amor com que são vividos e partilhados.

Não, não é fácil mas é o caminho escolhido depois dos erros que ao longo do tempo fui cometendo.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

27.08.23

 

Pela primeira vez neste mês ao sair para o passeio matinal senti a habitual nortada fresca; ao chegar ao areal olhei o mar, caminhamos pela avenida da praia e olhei a duna que tantas vezes subi para no alto defronte para o universo estabelecer as minha conversas com o sagrado. Hoje, pela primeira vez caminhando com a Sacha pela trela pensei que já não me sinto confortável em estar na minha praia. Ao passar pela duna que tantas vezes disse “ser a minha duna” recordei que só por duas vezes a subi neste verão, ao olhar o mar já não sinto os deuses sagrados que nele habitam, nem as ninfas já vêm à beira das ondas; olho o horizonte lá ao fundo onde o azul do mar e do céu se fundem numa linha sentindo-me invadido por outros pensamentos, outras imagens; caminho com preocupação pensando nas minhas coisas lá no meu canto na minha outra fronteira, pois que nesta vou sentindo as raízes como que a secarem.

Por aqui vivi momentos, dias, meses e anos felizes, hoje são apenas boas lembranças, boas recordações. O meu mar agora são as oliveiras, as azinheiras e sobreiras num mar dourado de verão seco e quente com a serra no horizonte. Seguimos pela beira da estrada sentindo a nortada fresca; comigo seguem duas imagens, uma a sempre foto desde que a encontrei por acaso, a outra é o meu canto com o quintal e as dúvidas sobre como estarão as coisas que lá tenho, será que o tempo de rega gota a gota é em excesso ou por defeito?…

Fomos e voltamos da nossa caminhada matinal, a pouco e pouco vou-me transferindo.

25.08.23

 

Ao que chegámos nesta «Nova Ordem Democrática».

Primeiro, os muitos e vários governos da Nova Ordem Democrática sempre se recusaram reconhecer os antigos combatentes naturais das três colónias ou províncias ultramarinas que combateram integrados nas Forças Armadas Portuguesas;

Segundo, um conservador neoliberal manhoso nas funções de Ministro da Defesa de um desgoverno acabaram com o serviço militar obrigatório seguindo o pensamento ideológico dos neoliberais americanos, vendendo a ideia da profissionalização das forças armadas, que como se está a ver não funcionou, levando as mesmas ao limite da sua existência pela falta de estratégia política governamental que atraia os jovens a integrar dando-lhes uma perspetiva de segurança na vida futura;

Terceiro, que governo é este que se diz socialista e pensa ou estuda a possibilidade de recrutar no estrangeiro cidadãos para as forças armadas, dando mostras que nem sabem nem se preocupam com o que determina a Constituição da República? Estarão a pensar copiar quem?

Estamos no fundo do poço e querem-nos enterrar ainda mais. Tristeza de país que tão maus políticos gerou.

05.08.23

 


Quando ando nas voltas com a Sacha, quando no começo do dia vagueio pelas ruas desta pequena povoação ou quando olho o mar abrindo os braços à nortada dos últimos dois dias, ocupo a mente com ideias para escrever, converso com elas indiferente aos poucos seres que se cruzam comigo. Chego a casa com tantas ideias, contudo ao entrar em casa, as ideias ficam lá fora na rua ou escondem-se no fundo do cérebro deixando-me vazio. Até mesmo os livros que trouxe para ler se apresentam tristes quando os olho com este meu estado em que não escrevo, não os leio nem vejo televisão ou ouço rádio. Vejo as capas dos jornais e o que um ou outro escrevem no mundo do Facebook sobre a maldita guerra, mas até essas mensagens/notícias do outro lado escasseiam neste dias em que só se fala no evento religioso dos cristãos católicos apostólico romanos, como se o mundo e a vida girasse apenas à volta dessa organização religiosa, que promove com gastos públicos de milhões aquilo que designo pela peregrinação do egoísmo mais egoísta, com toda aquela massa de gente a pôr nas mãos de um Deus que ninguém sabe de verdade quem é ou se existe, aquilo que lhes compete a eles e todos os outros seres humanos resolverem.

Também fui religioso durante a juventude, praticante de missa e terço que cheguei a equacionar entrar no seminário para ser padre com o objetivo de poder pregar o bem; mas em 1969 ao saltar o muro para o mundo da igualdade, da fraternidade e da solidariedade, ao abrir a mente ao outro lado da vida deixei de imediato para trás a religião. Ao estudar, ao ler sobre o passado como nasceu e cresceu a religião cristã compreendemos melhor o seu papel sempre ao lado das classes abastadas opressoras e exploradoras dos desprotegidos da sorte; da Igreja católica portuguesa nunca ouvimos uma crítica ao regime da ditadura de miséria salazarista-marcelista, nunca ouvimos uma palavra de apelo à paz com os povos das antigas colónias africanas. Antes, por todo o país nas missas semanais domingueiras faziam a apologia do regime ditatorial que o velho tirano implementou glorificando-o, os povos africanos que nos combatiam eram a encarnação do mal, do diabo, pelo que ir à guerra era um desígnio de Deus para se poder alcançar a palavra da salvação. Por tudo isto caminho desligado da vida, só as conversas com amigos de infância e juventude me fazem lembrar que ainda resisto, ainda vou andando consciente da minha insignificância incomodativa para o rebanho que segue acéfalo o que lhes contam horas a fio os servos papagaios e pegas sem penas televisivos. 


02.08.23

 

Dia a dia as rotinas repetem-se indiferentes ao que acontece à minha volta. As forças fogem, o peso sobre os ombros aumenta. Esta vida não é vida, antes uma simples rotina rotineira. Solitário sinto-me só, cansado, meio derrotado. Desistir não é solução, palavra e ação proibidos. A luta continua, é já um cartaz desfocado e triste. Caminhar, erguer a cabeça e ir à luta que há coisas por acabar.

30.07.23

 

O mês está a chegar ao fim. Pouca gente pela Consolação, os " veraneantes" este mês não invadiram a pacata povoação, ou foram para outras praias lá para o sul ou pela crise que lentamente se vêm instalando optaram por outras opções face aos preços especulativos e desproporcionados praticados no aluguer de casas. A Praia da Consolação está assim mais sossegada, com menos poluição sonora que nos últimos anos, dizendo-me um amigo natural que voltou a viver cá, que para ele assim está bem, até os poucos comerciantes que vivem todo o ano, estão também eles saturados dos veraneantes que chegam com o rei na barriga sem respeito pelos outros; até a senhora cigana que há tantos anos tem o seu pequeno pronto a vestir se queixa de lhe roubarem peças se ela ou a filha se descuidar na vigilância.

Por mim continuo a pensar que podem ir todos para o Algarve do moderno betão, das piscinas com cloro, das vaidades e pedantismo das celebridades de sete e meio furado televisivas e políticas e claro muita poluição sonora e odorífera, que para mim basta-me olhar este mar, andar na baixa mar até ao Molho Leste ou próximo conforme a bacia permite, olhar lá ao fundo o Cabo Carvoeiro e a Berlenga, sentir o vento de nordeste que já não sou de bronzeamentos, vivendo sempre alerta com os sinais que vão aparecendo pois a aranha de baba peçonhenta atua quase sempre silenciosa e sem dor. Não sou de grandes exigências no usufruir da vida, exigindo sim mais solidariedade, mais fraternidade, menos desigualdades e menos muito menos pobreza coletiva. Nisso, sou exigente sendo visto até como extremista. Não me importo, sigo o meu caminho iniciado em 1969, caminhando indiferente a partidos políticos e modas ditadas do exterior, sou português de cá e de lá, depois sou ibérico antes de ser europeu do sul, e assim serei até ao momento em que chegar a hora deste meu ser terminar a dualidade matéria e espírito.

Por aqui caminho na outra margem acompanhado pelos deuses dos mares e das marés, dos ventos e da bonança, da paz serena em movimento perpétuo onde a luz solar me aquece, me trás lembranças de outros tempos para caminhando com a sinfonia das ondas por companhia equacionar a própria existência de como fomos insubmissos desde 1143 para agora a troco de dinheiros e mordomias materiais nos últimos quase cinquenta anos perdermos valores e sonhos passando a ser um rebanho submisso a ordens exteriores sem capacidade de sonhar de novo com um outro e novo 1640.

Já não tenho muito tempo para vir desfrutar destes momentos de serenidade universal, caminhando por estas areias com milhões de anos e de histórias sempre prontas ao desembarque de algum outro Prior do Crato.


Ontem na minha volta após almoço fui ver as netas encontrando a Luísa com o pai sentados no pequeno quintal a praticar a multiplicação. No fim a Luísa diz-me que já leu o livro que lhe tinha oferecido e que na feira do livro que existe aqui na praia tem lá um que ainda não leu. Lá fomos os dois ver e lá lhe comprei o livro que ela tinha visto de uma outra coleção. Ao acompanhar a minha filha que ia para a praia fiquei a saber dos anos do neto Guilherme, para logo que nos separamos a minha sombra me aconselhar a esquecer.

Hoje, depois da volta matinal e de deixar a Sacha em casa, fui ao pão fresco para o pequeno almoço para não ter de comer o pão comprado no supermercado. Vinha de regresso quando vi a minha filha a sair de casa para ir trabalhar, levando com ela a minha neta Luísa. Ao perguntar-lhe se a Maria ficava sozinha com a prima em casa, fiquei a saber que a prima já não está cá, assim como, a minha Maria estava em casa com o seu melhor amigo. Em poucas horas recebi atualizações gratuitas à minha capacidade de entender e aceitar os novos tempos.

Não sou religioso. Respeito quem o é, mas eu há muito decidi deixar de seguir qualquer dos credos religiosos nas suas múltiplas versões, sejam cristãs, judaicas ou muçulmanas.

Sou um não crente que acredita. Não acredito nas ladainhas religiosas, ainda menos em milagres da fé. Não acredito na justiça dos homens e da justiça divina, nada sei. Acredito num mundo novo onde ricos possam ser ricos e os pobres cada vez menos pobres até à inexistência de pobreza. Utópico? Serei.

Não comentei nenhum dos muitos artigos sobre os crimes de pedofilia cometidos no seio da Igreja católica, alguns outros foram cometidos e silenciados, mas não sabendo eu quem estava por detrás das notícias publicitadas, calei-me. O mesmo faço agora com o dinheiro público gasto neste evento que irá ocorrer em Lisboa, porque há muito que políticos governantes do poder central e autárquico não cumprem a letra da lei da nossa Constituição. Não foi só agora, infelizmente.

Tenho, contudo, algumas dúvidas e outras certezas face ao pensamento único que nos tem dominado com o apoio e anuência da maioria, onde não me enquadro, tresmalhado que sou.

Será que cristãos católicos russos, que os há, poderão vir ao evento e serem bem recebidos, ou será que o fanatismo anti russo de mãos dadas com o religioso não só os ignora como os repudia?

28.07.23

 

Saí para olhar o mar. Não subi à duna nem vi a praia, fui para sul perder-me nos azuis deste recomeçar; de terra a ameaça do nevoeiro vindo de norte, sobre o mar um céu azul fundindo-se com a cor do mar na linha do horizonte.

Fui olhar o Porto Batel. Há quem goste de voltar aos locais onde viveu momentos felizes, eu gosto de olhar os lugares onde fiz disparates e aventuras que hoje não faria, depois, gostaria que num mar como o desta maré parte das minhas cinzas ali sejam entregues na vazante, de forma clandestina, para irem embaladas mar adentro para as profundezas do mesmo.

Conheci caminhos antigos nos caminhos que hoje existem porque tudo muda, sendo agora os campos de horticultura diversa e intensa para servir os interesses das grandes cadeias de distribuição, onde os mesmos se adquirem a preços inflacionados pela ganância dos lucros crescentes dessas grandes cadeias.

Não é hoje possível ser produtor agrícola sem a utilização dos produtos que os conglomerados químicos produzem, desde os adubos aos pesticidas e conservantes. Não é possível sobreviver no mundo agrícola sem a química, embora haja uma corrente de líricos uns e aldrabões outros, que apoiados em relatórios e estudos encomendados nos dizem que o biológico é o futuro. Dizem e defendem porque o futuro não existe e eles não cultivam a terra nem dependem economicamente dela.

Neste modelo de vida numa sociedade consumista onde impera o egoísmo da felicidade individual em oposição à felicidade das coletividades, o biológico é uma treta, cujos ditos produtos, com selo reconhecido por organismos incapazes de controle efetivo sobre os produtos produzidos, tem preço fora do alcance da grande maioria dos consumidores, comprovando que não são alternativa à procura existente quanta mais às necessidades das multidões.

É necessário encarar o problema pelos cornos de forma global. As alterações ambientais, as doenças com fungos, bactérias e vírus cada vez mais resistentes são um facto diretamente ligado ao designado desenvolvimento das sociedades. Compete às novas gerações escolherem o que desejam construir, avançar no modelo? regredir em busca de um outro equilíbrio?

26.07.23

 

O que é isto do dia dos avós? 

Recebo mensagens a celebrarem o dia dos avós, sem que eu saiba o que celebram. Ando e vivo na outra margem da vida onde cada dia é um acontecimento simples singelo de uma grandeza infinita para a vida de todos os seres vivos; na minha margem o rio da vida corre sereno, só as águas seguem ensanguentadas pelas feridas que a multidão provoca na natureza chamando-me à razão.