segunda-feira, 10 de junho de 2024

19.05.24

Estava vivendo o mês de Maio de 1974 nas terras do quase fim do mundo. Saí do Mumbué para Silva Porto no unimog do reabastecimento da Companhia já vestido como civil. Em Silva Porto viajei de avião para Nova Lisboa. Nesta cidade conhecia os gerentes do grande Hotel Ruacaná, a esposa do gerente era de Salvaterra do Extremo e tinha sido amiga de juventude da minha mãe. Jantei com eles uma ou outra vez e foram eles que me arranjaram boleia para Luanda com o gerente da empresa de cervejas Cuca. Em Luanda hospedámos-nos, eu e o outro companheiro de viagem, no Hotel Katekero na Praça Serpa Pinto. No dia 19 de Maio de 1974 depois de termos almoçado e ido ao hotel quando voltei a sair em plena Praça Serpa Pinto olhei o céu azul de Luanda e disse para mim e para o universo: - se um dia tiver uma filha irá chamar-se Catarina!

No dia 20 de Maio aterrámos em Lisboa em voo TAP para cumprir pela segunda vez o meu mês de férias que os senhores da guerra nos concediam. Voltei para o Mumbué em vésperas de S. João.

Corria o mês de Junho do ano de 1977 quando fui pai de uma Catarina realizando o desejo nascido naquela tarde de 19 de Maio sob o céu de Luanda.

Coisas da vida de um caminhante.


(fotografia retirada da internet)

 

14.05.24

Ontem à tarde o meu irmão ficou livre e feliz do peso que o vinha atormentando.

Há dois dias enganei-me na data. Hoje sim foi há oito anos a última vez que falei de voz com o meu pai.

Esta madrugada voei para lá atrás no tempo do muito tempo, a guerra voltou aos meus sonhos abrindo-se possivelmente uma janela de luz sobre o que aconteceu na manhã daquela operação. Não me recordo se a mesma ocorreu antes ou depois de ter sido chamado à sede do Batalhão pelo Major Blasco Gonçalves. Recordo que comandava os dois grupos que naquela operação saímos para cumprirmos mais três dias no mato; na final da tarde do primeiro dia ao transmitirmos a localização onde não nos encontrávamos recebemos a notícia de que a companhia a sul da nossa teria detetado passos de população que se dirigiam para a área onde deveríamos chegar no dia seguinte. Tínhamos ficado na nascente do Cuebe e não estávamos nas coordenadas que tínhamos dado. Decidi levantar o acampamento para andarmos toda a noite. Aquela era a zona da nossa aérea onde a mata era mais cerrada. O guia era como sempre um preto informador da pide conhecia os trilhos da zona. Caminhámos durante toda a noite com algumas paragens para nos certificarmos que estávamos todos, nunca tínhamos caminhado de noite, era a primeira vez que o fazíamos e aquela era como disse atrás a zona da nossa área onde a mata era mais densa. Muitas noites tínhamos de operações no mato mas sempre as passávamos acampados em círculo com um sentinela de vigia. Ao recomeçar da luz diurna chegámos à zona, caminhando em fila começamos a ouvir vozes no fundo de um vale à nossa direita. Embora fossemos em teoria dois grupos de combate só ia connosco um transições de infantaria, decidindo após consultar o guia que nos disse existir no vale a nascente de um rio, separarmos-nos de modo a podermos cercar a zona. O grupo do segundo pelotão comandado pelo furriel mais graduado por o alferes estar ausente de férias seguiu na direção da nascente indicada pelo guia sem levar rádio já que o transmissões ficou no meu grupo. Estávamos os dois grupos separados sem podermos comunicar, iniciando o meu grupo a descida para o vale composto apenas de capim, quando estávamos a mais de meio eis que o capim ao nosso redor começou a arder, alcançando o grupo um pequeno arvoredo onde nos protegemos sem sabermos nada do que se passava com o outro grupo; havia soldados que choravam com medo de ali morrermos queimados, outros queriam matar o guia, que subia à copa das árvores e dizia que não avistava o outro grupo nem a nascente do rio que estaria perto, o medo e o pânico ia-se instalando e nessa instabilidade emocional olhei num instante os olhos da morte frente a frente para no momento seguinte ela se ausentar e o fogo no capim deixar de ter intensidade até se acabar a poucos metros de nós. Terminado esse sufoco para comunicarmos com o outro grupo demos um tiro para o ar, respondendo eles que já estavam na nascente do rio que era também a divisão das áreas das companhias e batalhões. Nada havia como rastos de populações. Mais tarde já depois do regresso a Portugal encontrei um antigo alferes dessa companhia a sul da nossa que pertencia já ao Cuando Cubango enquanto nós pertencíamos ao Bié, dizendo-me ele que nem sequer tinham saído do arame farpado. Então de quem seriam as vozes que ouvimos? Quem teria deitado fogo ao capim cercando-nos?

Esta madrugada ao sonhar com a guerra acordei como se um raio me tivesse atingido fazendo-me crer que os pides da Catota estiveram por detrás de tudo aquilo. Foram eles que com os seus agentes nos ameaçaram, que nos levaram aquele vale e nos cercaram pelo fogo, porque não encontrámos rastos na passagem das duas províncias nem nas imediações da nascente, mas ouvimos vozes e barulhos de panelas e tachos. Foram eles os pides que mandaram gente de sua confiança incendiar o capim, pois há muito que não era detetada população inimiga na zona.

Quem irá acreditar nesta história que passados cinquenta anos se apresenta límpida como a água dos rios do Mumbué? 

 

11.05.24

 

Ao ler os títulos das primeiras páginas dos jornais, balancei. Há coisas que me custam acreditar serem possíveis, daí o ser um quase nada tresmalhado por não me enquadrar em nenhum dos grupos políticos que constituem o rebanho.

De nada me serve votar em contraciclo à maioria, irei contudo continuar a exercer a minha obrigação cívica mesmo que o meu voto seja nulo (já não irei votar em branco porque pode servir a algum júri mais desonesto, e, na política caseira desonestidade é regra). Na última campanha eleitoral que se seguiu ao golpe de Estado sujo de 7 de Novembro não ouvi nem vi nem li nada da propaganda que os partidos políticos fizeram e disseram, para agora continuar ausente ou ainda mais ausente na eleição para o Parlamento Europeu, órgão inútil pelo seu próprio estatuto no contexto europeu já que sendo o único órgão cujos parlamentares são eleitos por voto em sufrágio, não têm poder executivo, nem de intervenção nas políticas de uma Comissão que não é sufragada pelos europeus, sendo escolhida há muito em função de interesses exteriores à própria Europa. Como tem acontecido em eleições anteriores irão os partidos e políticos na sua campanha para o parlamento das mordomias atacarem-se com as políticas de roupa suja caseira e nada dirão sobre os problemas estratégicos da União para o futuro próximo, que União iremos ter? Uma federação criada nas costas dos europeus obediente aos interesses americanos? Ou uma confederação que respeite as diferenças entre os vários países e regiões, que seja independente dos diversos imperialismos, voltada para o bem estar dos europeus, recuperando o humanismo que após a II GG permitiu o progresso e o respeito gerando um período de paz entre si nunca antes conhecido?

Um título na capa do jornal Público levou-me a comprá-lo em papel. Tenho recuperado o velho hábito de ler o jornal. Com paciência li o que escrevem alguns ilustres da nossa praça, gente com quem não me identifico não deixando porem de acompanhar sendo a leitura do que escrevem necessária para o meu distanciamento deles e do rebanho onde são personagens escutados com atenção.

Depois dediquei mais tempo aos artigos sobre a forma como o Fundão está a olhar os imigrantes e a discussão sobre as contas e a dívida pública. Sobre estas e outras na minha atividade profissional ao longo dos anos aprendi que os resultados finais fabricam-se. Nos primeiros anos de trabalho um senhor engenheiro, pessoa de idade e muito saber, contou-me a história do industrial do norte que um dia chamou à sua presença, a advogado, o engenheiro da produção e o técnico de contas (hoje contabilista certificado), todos sentados na mesa de reunião lançou a seguinte questão, - dois mais dois quantos são?. O advogado pediu algum tempo para poder consultar jurisprudência porque a letra da lei pode não corresponder ao espírito do legislador. O engenheiro da produção homem de cálculos certos e eficazes pediu para poder verificar a tendência se o resultado seria bem o quatro ou teria algo mais na sua vizinhança quer a direita quer à esquerda. Por fim o técnico de contas, agora contabilista certificado, voltou-se para o industrial e perguntou-lhe quanto é que o senhor quer para o resultado?

Claro que a contabilidade da macro economia das contas publicas é diferente da contabilidade das empresas, mas factos modificativos sempre existiram nas contas que uns e outros apresentam e como vivemos um tempo onde a artificialidade impera nada dos esquemas presumivelmente utilizados pelo anterior governo é novo ou inovador.

Já o sucesso das políticas de integração adotadas pelo Município do Fundão deveriam ser estudadas e implementadas pelos outros Municípios da Beira Interior Sul, mas a mesquinhez dos políticos que por lá existem não augura complementaridade pois o Fundão é gerido pelo PSD e os municípios que o rodeiam são de gestão PS (Covilhã, Castelo Branco, Idanha a Nova e Penamacor).

06.05.24

Gostei de ver o Sporting campeão. Vi o jogo de sábado em Alvalade. Vi ontem a segunda parte do Benfica em Famalicão. É certo que os jogadores ontem no seu íntimo sabiam que o campeonato estava perdido, mas ao longo da temporada foram equipas com modelos diferentes no jogo coletivo sendo que a diferença pontual não traduz a diferença do que uma e outra equipa produziram.

Não são só as aquisições de milhões propaladas pela comunicação social amiga e oficiosa como grandes feitos por grandes jogadores que fazem coletivos fortes, e, o futebol é um jogo coletivo de momentos onde os melhores se evidenciam.

Isto sou eu a falar que gosto do Sporting. Outros terão opinião diferente. 

 

26.04.24


Lá fui à manifestação agendada para começar no Marquês de Pombal. Ao apanhar o comboio regional vi jovens de cravo na mão, uma jovem até tinha uma tatuagem quase no ombro com uma G3 e o cravo encarnado na ponta da arma. Não sou de levar ou andar de cravo vermelho na mão ou ao peito. Fui sem nada que chamasse a atenção, gosto de passar despercebido. Foram muitos os anos que por mim passaram sem que tivesse tido vontade em participar. Mesmo este ano, mais importante que a celebração dos cinquenta anos quis ver e sentir o pulsar dos que como eu participavam não na festa mas na manifestação de amostragem às forças saudosistas do Estado Novo em versão século XXI, que ainda há quem não se ilude com as meias verdades e mentiras que difundem através dos órgãos amigos da comunicação social.

Contudo, senti que aquele mar de gente estava na onda da festa e não no sentimento da importância que a mesma poderia e deveria ter. Não vejo os slogans «25 de Abril Sempre» ou «25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais» como atuais. Devo estar enganado ou como me tresmalhei do rebanho ter-me-ei desatualizado.

Do 25 de Abril de 1974 pouco, muito pouco resta, embora o que sobrevive desse tempo de sonho, seja muito importante, mas de tudo o que se alcançou resta-nos a Liberdade de expressão, o anémico Serviço Nacional de Saúde e a mais fraca Escola Publica, tudo o resto os governantes mais e menos liberais, cumprindo ordens de Bruxelas, têm desbaratado a troco de mãos cheias de nada, dando ou vendendo uma vida ilusória, de um facilitismo sem alicerces capaz de resistir aos tempos negros que se aproximam.

Como a Avenida estava enchendo-se rapidamente, no Marquês olhei à minha volta e ouvindo um carro com música dos Xutos e Pontapés, pensei onde é que eu estava. Não está em casa a qualidade dos Xutos mas o que é que aquela musica-canção tinha a ver com o 25 de Abril?, então olhei a Avenida e ao ver muitas bandeiras brancas pensei ser talvez a frente da manifestação, mas eram afinal sindicalistas de um sindicato que não identifiquei. Devagar fui descendo e observando não só a Avenida como os passeios laterais com muita muita gente; os do partido Comunista tinha uma larga faixa da Avenida isolada só para eles, ouvi a musica de Grândola Vila Morena mas sem grande participação popular. No cruzamento com a Alexandre Herculano parei, tirei umas fotos incluindo fotos ao senhor que no tempo da pandemia desceu sozinho a Avenida com a sua grande bandeira nacional; por ali estavam estacionados vários carros de polícia com elementos neles sentados com máscara deixando ver apenas os olhos, observando o pulsar das gentes um jornalista de uma rádio que não identifiquei fez-me alguma perguntas a que ia respondendo. Quando o mesmo decidiu ir entrevistar outra pessoa dei por mim rodeado de bloquistas dos quais me afastei de imediato, nada tenho que me identifique com aquela gente ou com aquela esquerda. Ao afastar-me decidi ir descendo a Avenida como outros também o faziam, caminhando devagar com o objetivo de chegar ao cruzamento com a Rua das Pretas onde muito antes do 25 de Abril a esperava quando os horários das aulas o permitiam. Ali me mantive olhando não tanto o cimo da Avenida mas mais a Rua das Pretas, mas nem o desfile dava mostras de se ter iniciado nem da rua das Pretas chegava o sorriso dos seus olhos.

Com o passar do tempo muito para lá da hora programada vendo que aquele mar de gente vivia muito mais a festa do que o sentimento que a data representa no tempo de agora, voltei a descer a Avenida em direção aos Restauradores, seguindo para o Rossio onde muita gente já aguardava a chegada da manifestação-desfile; no palco onde se iriam produzir os discursos músicos tocavam e cantavam. Continuei a andar agora pela Rua Áurea em direção à Praça do Comercio, onde me deparei com carrinhas e policias de intervenção armados, só quando me aproximei da estátua de D. José e ouvi vivas a Salazar e a «Deus Pátria e Família» entendi o aparato policial, sendo que os devotos do fascismo-salazarista pouco passavam das duas dezenas. Em frente à Estação Sul e Sueste apanhei o Metro para Santa Apolónia e voltei serenamente para casa.

Fui com alguma curiosidade e ilusão, voltei com menos ilusões, não me revejo naquela multidão.

Face ao golpe de estado de 7 de Novembro passado promovido pela aliança PR-PGR, a manifestação do 25 de Abril, passados 50 anos da data gloriosa, deveria ter sido de pesar, de um luto silencioso de modo a impor respeito, pondo-os em sentido, aos que “feridos de anulabilidade” foram eleitos deputados e indigitaram um novo governo.

           Mas isto sou eu, o Carlos, que vivo tresmalhado dos            diversos rebanhos. 



24.04.24

 

Há cinquenta anos tinha um sonho, um objetivo, naquelas terras de quase fim do mundo: - voltar são e salvo para o colo de minha mãe, abraços de meu pai e irmão.

Naquela terra do Mumbué, naquelas matas infindáveis, naquele retângulo de arame farpado não se sabia de nada do que se passava no «Puto», ali só tínhamos um saber, sobreviver.

Na gloriosa data, também uma quinta-feira, nada se soube durante o dia, apenas quando acabou a sessão de cinema que por lá passava de quinze em quinze dias, o comerciante sr. Pato nos informou ter havido um golpe no «Puto», questionado sobre quem teria efetuado tal golpe nos disse que lhe parecia ser um tal general Kaúlza, agradecemos a informação e sem mais nada lhe dizermos pensámos «estamos fodidos, nunca mais vamos sair daqui», depois fomos dormir sem mais pensarmos no que teria acontecido na nossa Pátria.

Só no dia seguinte, vinte e seis, soubemos pelos rapazes das transmissões que afinal o golpe tinha sido efetuado por capitães do quadro permanente.

Algo estava a acontecer de anormal, pois as altas patentes do Exército e da Província que estavam programadas para no dia seguinte, vinte e seis, irem entregar as chaves das casas aos dois grupos de GE’s afetos à Companhia que deveriam chegar pelo ar, não apareceram sendo substituídos pelas patentes superiores do Sector de Silva Porto que assim como chegaram, distribuíram as chaves aos GE’s e logo partiram nas suas viaturas.

Expectativa ansiosa sobre o nosso futuro passou a reinar, a crença de que iríamos regressar sãos e salvos ganhou força em cada um de nós jovens militares combatentes naquelas terras de quase fim do mundo.

Hoje, cinquenta anos passados, ouço e vejo frases que não entendo; o inexistente futuro não se constrói apenas com frases saudosistas do que foi o 25 de Abril de 1974, é preciso muito mais porque «a luta continua» tão ou mais difícil do que então. Luta que as gerações mais novas têm de travar se querem um país mais decente do que o atual, porque o sonho comanda a vida e nunca nada esta acabado, muito menos derrotado.

Há quarenta e alguns anos que não vou a uma manifestação, mas hoje este velho sem velhice irá voltar a participar na manifestação pelo 25 de Abril, pelo sonho e esperanças que Abril deu à minha geração e ao meu país.


15.04.24

Às vezes tenho vontade de dizer “bom dia” mas ninguém está ao meu lado

Às vezes ainda sonho não deixando a solidão deitar-se ao meu lado

Às vezes tenho dias em que sentado na minha cama olho pela janela do meu quarto a chegada da aurora

Às vezes sentado na cama leio o pequeno livro que tenho na mesa de cabeceira, “Espiral de Violência” de Dom Hélder Câmara que comprei a 29 de Novembro de 1971, na Cooperativa Livrelco

Já naquele tempo andava por caminhos perigosos que nos ensinavam a pensar nos porquês da vida e da própria humanidade

É longo este meu caminhar, levando-me a ser um tresmalhado nos tempos que correm, um ser solitário que às vezes gostava de dar um beijo e dizer “Bom dia” a quem não está ao meu lado.

Que fazer?

Só há um caminho, seguir caminhando levando a esperança por companhia,

O resto já pouco importa, já não tenho futuro, já não me iludo, apenas sonho

Sou o Carlos, um tresmalhado sem futuro que ainda alimenta algumas esperanças

Escrevo, leio, ouço músicas antigas, planto, semeio, rego e tudo faço com amor, mesmo que ao meu lado não tenha a quem dizer “boa noite” dando-lhe um beijo na testa. 

 

06.04.24

Que irei escrever se tenho passado estes dias fora do mundo que me rodeia?

O tratar das ervas do quintal castiga o corpo habituado ao sedentarismo citadino nos arrabaldes da cidade grande. Chego às dezoito horas e sento-me para olhar o que me diz o telemóvel. Notícias e mais notícias que pouco me dizem já que não me integro em nenhum dos grupos do rebanho. Dos novos governantes nada espero, tal como os anteriores não me indiciam boas novas; gente que se servem mais do poder do que o normal, uns e outros criaram uma corte de nobres republicanos submissos pouco patriotas, gente que se curva e prostitui perante os agentes da oligarquia financeira colocada em Bruxelas. Não os acompanho. Prefiro andar com o corpo dorido a limpar as ervas no meu quintal.


Saímos um pouco mais cedo para a volta matinal. Fui olhar de novo as oliveiras no Chão da Horta. Depois do pequeno almoço fui até Idanha a Nova. Na praça gastei dez euros em fruta, no talho comprei uma morcela, uma linguiça, um chouriço bofeiro, meio quilo carne de vaca para cozer e um quilo de bife de vitela, deixando lá vinte euros, passei pelo Intermarché e gastei mais trinta euros. No regresso passei na fonte dos Tourinhos e enchi três garrafões de água.

No restante tempo da manhã cinzenta tentei arrumar a tralha que está na parede trás da casa assim como a lenha de sobro, azinho e oliveira que tinha trazido do chão quando com o Zé cortamos à revelia das autoridades quer a sobreira quer os azinheiras que proliferam junto ao muro do chão.

Para o almoço cozi batata doce, cenoura e brócolos para acompanhar a morcela e metade da chouriça assadas. Tudo a preceito com um copito de tinto da região de Palmela que o meu amigo Justo me trouxe quando vieram comer a bexiga de porco.

Passei a tarde no quintal, primeiro a lavrar a parte do terreno onde arranquei as ervas para lá plantar os tomateiros e pimentos. Depois de lavrado, arranjei-o e ainda plantei junto à laranjeira uns pés de aipo. Às seis da tarde acabei, ainda pensei em começar a plantar os tomateiros mas desisti, o cansaço pede descanso.

Agora vejo o jogo do Sporting ansioso e a sofrer, de novo o Benfica domina o meio campo com alguns jogadores do Sporting mal no jogo.

 

30.03.24

 

Nestes dias chuvosos mais cinzentos que primaveris vivo semi-fechado no meu mundo, leio artigos de uns e de outros, leio livros e escrevo sentimentos, mas sinto a indiferença tomar conta de mim. Não foi este o modelo de vida com que sonhei, não foi para isto que tantos lutaram e outros morreram, mas é o que afinal os cidadãos escolheram, não tendo eu saberes para analisar e opinar sobre o tema do porque da escolha, olho para a história do meus país e até compreendo. Que fazer se o meu voto de tresmalhado apenas vale um cagagésimo de quase nada.

Resta-me nesta Páscoa e no tempo que há-de vir viver serenamente comigo em busca da Paz, não perder a esperança dos meus sonhos, porque dificilmente irei mudar já que burro velho não aprende lição nova. O dinheiro há de chegar para cumprir as minhas obrigações, cuidar do meu canto e viver serenamente cuidando de mim da minha cadela e gatita sem esquecer as velhas oliveiras.

O inexistente futuro já não me pertence.

28.03.24

 

O rebanho agita-se por questões políticas; há burgueses a ficarem inquietos com a nova composição da Assembleia da República, onde um presumível terrorista do designado ”verão quente” chegou a vice-presidente da mesma. Gente aquela que se recusa a olhar e analisar os factos históricos quer do passado longínquo quer do recente, vivendo agora essa a fação do rebanho sobressaltada e preocupada com a ascensão do presumível integrante e ideólogo do MDLP ou ELP (organizações terroristas inimigas do 25 de Abril), esquecendo, uns de modo próprio outros por pura ignorância burguesa desta nova ordem democrática quem é que posteriormente reabilitou e condecorou o “chefe” desertor militar de uma das sinistras organizações, concedendo-lhe uma medalha promovendo-o também a Marechal. Tudo gente do Novembro que Abril não merecia.


Não vivo neste tempo, resisto mas não vivo. Sei que sou um velho que se reconhece como tal, não deixando que a velhice tome conta de mim, sou assim um velho sem velhice tresmalhado que vai caminhando na outra margem da vida levando às costas setenta e três anos de vida vivida do meu jeito de ver o mundo.

Não vivo neste tempo, fechei-me no meu mundo de sonhos, utopias e lembranças, não deixando de olhar atento ao que se passa lá fora com as movimentações do rebanho.

Tenho a minha casa, os meus chões de oliveiras, a minha cadela e a minha gatinha, a minha reforma, se esta sofrer cortes os três iremos adaptarmo-nos, pois seguros só tenho os obrigatórios para poder andar conduzindo, irei aguentar porque já nada espero deste meu país, incapaz que foi de trilhar o seu próprio caminho após o redentor 25 de Abril.

Não tenho nenhum respeito pela quase totalidade dos políticos que se sentam no palácio em S. Bento, sendo que, aqueles a quem guardo ainda algum respeito por mais ideias e propostas válidas que apresentem não terão eco na comunicação social dominante mais interessada em continuar a alienar as mentes submissas do rebanho, a culpa também será desses políticos, aliás todos temos a sua dose de culpa ao termos chegado e permitido que o país esteja caminhando submisso a interesses exteriores de falsos amigos, mas enquanto puder cá estarei para ir prestando atenção ao que se passa, continuando a minha caminhada serena pela outra margem desalinhado e tresmalhado mas consciente.

O futuro pertence aos jovens sendo já tempo de se fazerem à vida, sujeitando-se aquilo que escolherem deixando de viver debaixo das asas dos progenitores. A vida que hoje levam indiferentes às lutas que no passado os mais velhos encetaram e sofreram irá ensina-los que o caminho se faz não só caminhando como lutar e resistir são necessários, nunca é tarde para se sonhar por um país melhor, mais decente tomando consciência que o sistema capitalista consumista e egoísta do individualismo não produz bons frutos havendo que mudar a agulha da vida numa outra direção que esta nos está a levar ao abismo.