quinta-feira, 16 de março de 2023

23.01.23


 

É defensor do Estado Social.

Um Estado que proporcione aos seus cidadãos uma escola pública universal desde a infância até à licenciatura (Finlândia); um Estado que garanta um Serviço Nacional de Saúde público e universal, que invista em meios técnicos e humanos de modo a garantir a assistência condigna a todos (Dinamarca); um Estado que garanta uma Segurança Social Universal permitindo reformas e pensões condignas em função dos descontos efetuados com alguns tetos máximos (Suíça); um Estado que garanta a segurança dos seus cidadãos quer com umas forças armadas proporcionais, quer com forças de segurança pública que zelem pela manutenção da ordem pública sem tiques racistas ou homofóbicos e nunca sujeitas a enxovalhos públicos televisivos; um Estado que proporcione oportunidades à iniciativa privada com setores de atividade definidos sem nunca se deixar condicionar por esta, investindo na agricultura, na indústria, defendendo o nosso mar, para criar condições a uma indústria-agroalimentar privada de qualidade; que apoie os investigadores criando oportunidades para a criação de valor acrescentado em bens e serviços transacionáveis.

Não é pois um liberal.

Um Estado governado por gente política que interiorize a função como uma missão e não a degradação a que se tem assistido, em que a função política é vista como um investimento para o "tacho" ou o melhor caminho para o "tacho" bem remunerado à sombra do "centrão".

O Estado precisa de gente com moral e ética cívica e política, e não este desfilar de oportunistas tipo «big brother político» que nos é serviço por uma comunicação social nas mãos de conversos, sempre pronta a proporcionar modernos autos de fé, relembrando velhos métodos do Santo Oficio (Inquisição).

A incorreta designada "geringonça" foi uma luz ao fundo do túnel a brilhar, indicativa do caminho que é possível trilhar para mais tarde paulatinamente se chegar à desejada "sociedade mais decente". A sociedade mais decente criar-se-á com um Estado Social onde os ricos possam continuar ricos e os pobres cada vez menos pobres.

Não quis o líder desse bom governo continuar esse caminho de esperança, servo submisso que é aos liberais e neoliberais de Bruxelas, arrisca-se no sua deriva levar o partido socialista, onde sempre militou, no caminho que Betino Craxi e François Hollande levaram os seus partidos também eles designados de socialista em Itália e França, ou seja, à sublimação política do mesmo.

Tinha, o sr. Costa, tudo para proporcionar uma vida diferente ao país mas preocupou-se mais com o seu umbigo em Bruxelas e vai daí envaideceu-se escolhendo para governar amigos e amiguetes saindo de cada escolha uma minhoca tóxica.

Não venham os correligionários ortodoxos fieis ao partido apontar o dedo dizendo que a culpa é dos extremistas de esquerda. Estes, por muito que lhes custe reconhecer, provaram aquando do primeiro governo minoritário com apoio parlamentar que são partidos de palavra e convicções, permitindo livrar o país dos neoliberais que antes tinham desgovernado e desbaratado o pobre Estado Social.

Tristemente o desnorte político é visível. Escolhem-se governantes pela capacidade de executar e não por terem ideias e princípios políticos, como se para executar não haja diretores, chefes de serviço e trabalhadores na máquina publica.

Assim vai o país ao fim de 48 anos de democracia em que passamos de um Estado pobre mas independente, a um Estado de pobreza escondida vassalo de um poder não eleito em Bruxelas que decide, anulando a nossa independência económica e social. Éramos pobres mas felizes acreditando na Democracia. Hoje não somos pobres, não somo ricos, somos uns remediados tesos de mão estendida em Bruxelas perdendo paulatinamente a fé na Democracia, como se esta fosse culpada dos erros humanos.

14.01.23


 

Respeita e defende o direito à greve.

Não sabe quem é o dirigente sindical do STOP. Leu que pertence a um pequeno partido MAS. Recorda-se que ouviu falar desse partido na ultima campanha eleitoral que acabou por gerar a atual maioria absoluta.

Vê, que o sindicato inovou trazendo para a luta muitos professores não sindicalizados (segundo afirmação dos próprios perante as câmaras televisivas).

Vê e ouve um comentador direitista no canal do DDT estar a falar mais contra a greve, do que dos porquês da adesão que esta luta vem mostrando.

Vê, como a FENEPROF e a FNE foram simplesmente ignoradas por aqueles professores, respondendo a FENEPROF com uma manifestação ao acampar sem qualquer impacto, frente ao ministério. O partidarizar a luta sindical dessas grandes organizações poderá estar na origem da atual contestação sendo ignorados por muitos professores que não se reveem naquelas grandes organizações sindicais.

Estranhou não ver nos canais televisivos a bloquista em bicos de pés a falar para os amigos do sr. Conde Bilderberg, o verdadeiro DDT, da luta dos professores, mas já percebeu o silêncio.

Depois, tudo o que parece fugir ao normal estado da normalidade doentia que atravessamos é logo apontado como fazendo o jogo dos "cheganos". Lembra-se de na última campanha eleitoral autárquica por acompanhar e apoiar o “Movimento Para Todos” que pela primeira vez concorria ao município de Idanha-a-Nova, muitos dos socialistas lá da terra o acusarem de comunista, os comunistas desconfiaram que era do Chega, já estes o considerarem um extremista. Temos que apontar o que esta mal e enaltecer o que se faz de bem. Só que, depois do governo minoritário com apoio parlamentar à esquerda, pouco se vislumbra de bem feito por parte de quem governa,

Pelo pouco que vai conhecendo do atual estado da educação publica é com tristeza que sente a degradação constante do mesmo. Embora não concorde com algumas das ditas reivindicações dos professores, acha um “crime” que os poderes autárquicos possam vir a ter interferência na contratação dos professores.

É contra a regionalização do país e mesmo contra muita das medidas da falsa descentralização do poder central para as autarquias.

Tal como na saúde publica, a educação publica vem ao longo dos vários governos, sendo desprezada lentamente, numa política governativa de servos executores obedientes aos desígnios liberais e neoliberais dos políticos em Bruxelas.

Até a tão anunciada reindustrialização do país aquando da apresentação do PRR esta a marinar e os milhões a irem-se em obras que sendo necessárias não são fundamentais para o futuro do país.

09.01.23

 

Quando na semana passada tinha resolvido ir mais uma vez até à sua rua para lhe tocar à porta, ao tomar o pequeno almoço olhou a televisão e ao ver as cerimónias do funeral do papa emérito, logo desistiu porque talvez ela estivesse a seguir atentamente as cerimónias. Não perdeu tempo nem a ver nem a ouvir o que diziam os vários comentadores especialistas. Todo aquele aparato de luxo lhe causa alergia e nada lhe comunica.

Respeita o papa Francisco como o mais humanista dos papas que conheceu, mas não esquece os crimes cometidos pelos jesuítas ao longo dos 285 anos de história em que exerceram o poder da sua ditadura religiosa junto dos vários monarcas através da Santa Inquisição.

Se a esses 285 anos somarmos os 48 anos da santa aliança entre Salazar e Cerejeira, são quase três séculos e meio de governos monárquicos e republicano de ditadura religiosa. Coisa que não é de somenos, não devendo ser ignorada nem esquecida, como tem sido ao longo destes anos de regime democrático, porque muito do que é hoje a sociedade portuguesa é fruto desse longo e penoso tempo de obscurantismo.

(Foto da internete)

segunda-feira, 13 de março de 2023

09.01.23

Aprendeu política na sua juventude durante a noite negra fascista em modelo salazarento. Tinha 18 anos quando em 1969 despertou e desde então gosta de ter opinião política, ter ideias, para tal lê , estuda e vê pouca televisão por não encontrar nos canais existentes o necessário e urgente contraditório formativo e cultural.

O tempo que leva de vida também lhe ensinou a ver, a descodificar os muitos conversos, os oportunistas que saltam de partido com facilidade, os aldrabões e outros afins que medram nos partidos políticos, não só nos que têm exercido o poder governativo mas também nos outros que se fazem de oposição.

Gosta de ser político sem partido. A sua militância é demasiado insubmissa para se deixar acorrentar por qualquer chefe ou corrente à volta do chefe num florescer de pensamento único, pelo que não dá para esse peditório.

É republicano, não seguindo uma religião, é pacifista anti-anarquista, defensor do Estado Social Europeu, forte. Um político com opções políticas que ainda tem capacidade para mudar e evoluir. Nunca se achou dono da verdade, menos ainda da certeza absoluta. Habituou-se a caminhar em cima das muitas dúvidas que o caminho lhe ofereceu.

Vê com tristeza o atual estado da política, não só no país como na Europa e no restante Planeta.

Às vezes pensa se ainda seremos de verdade independentes, tão submissos vivemos com as esmolas venenosas em rios de dinheiro que nos servem os de Bruxelas.

O que seria de todos nós sem os dinheiros venenosos de Bruxelas?

Como não é investigador de história mas apenas um simples leitor de factos históricos, dá consigo a pensar se o país não é o mesmo que no século XVI com uma nobreza afogada em corrupção e um clero ortodoxo amante ferrenho da ditadura religiosa do Santo Ofício, se entregou submisso a Castela durante 60 anos, para agora no século XX, uma classe política submissa se entregar de novo não aos castelhanos mas à corte de liberais e neoliberais que dominam os corredores de Bruxelas, para desse modo poder viver uma vida acima das suas reais capacidades.

Quando os poderes governativos nos aumentam os impostos sobre o rendimento do trabalho ou do consumo, dizem-nos que é para desse modo obtermos rácios que os de Bruxelas impõem. Quando por haver condições económicas exigimos que um imposto sobre o consumo baixe, dizem-nos os políticos submissos que primeiro têm de obter a aprovação de Bruxelas. Coçando a cabeça fica a pensar, onde estará o verdadeiro poder executivo e legislativo que em eleições escolhemos?

De que nos serve ter um governo de maioria absoluta parlamentar que se diz de esquerda aplicando no país o modelo liberal de Bruxelas?

Um governo de maioria absoluta parlamentar com um primeiro ministro (o chefe) que perante o ruído de um administrador de empresa energética comunica ao país que as faturas da energia passavam a ser visadas por um secretário de estado, para mais tarde com os seus nomeados e empossados amigos andarem de trapalhada em trapalhada com demissões a condimentar o desnorte existente, vir comunicar de novo ao país que o secretário de estado que passa a ministro já tinha dado provas de ser bom executante. Valha-me todos os Santos e Santas a função do ministro não é de decidir, de implementar políticas defendendo-as, mas apenas e tão só de executar o que de liberais de Bruxelas nos mandam implementar.

Andou ele de G3 nos braços a palmilhar grandes florestas muito longe do colo da sua mãe, em busca de um inimigo que nunca lhe tinha feito outro mal que não fosse o de querer poder escolher o seu próprio destino; andou comendo pão cheio de bolor, carne estragada cheirando mal, andou jovem de G3 nos braços cheirando a ansiedade da morte longe do colo de sua mãe, para agora velho, cansado, mas teimoso, sentindo a falta do colo de sua mãe, do abraço e riso do seu pai, ver com olhos de ver, como é que os falsos amigos europeus e ditos ocidentais nos colocaram o freio nos dentes das nossas vidas sem que tenhamos dado um par de coices na defesa dos reais interesses do país.

Não foi com isto que sonhava quando era jovem e o país vivia a festa da Liberdade!

 

07.01.23

Acordou já a claridade entrava pela janela do quarto. Olhou o relógio de pulso na mesa de cabeceira e viu que já eram horas de estar na rua com a sua amiga. Colocou os pés no chão depois de calçar as meias que deixa penduradas nos puxadores das gavetas da mesa de cabeceira, a debaixo é para o pé esquerdo e a outra na primeira gaveta é para o pé direito. Ao pôr-se de pé sentiu a dor ao fundo da coluna, vestiu o casaco que deixou pendurado aos pés da cama e foi para a casa de banho. Não tinha pressa, já ninguém corre atrás de si nem ele tem contas a prestar ou horários a cumprir. Ao lavar a cara olhou-se no espelho e sorriu, ainda tem capacidade para sorrir e ao fazê-lo questionou-se, será a vida uma guerra de muitas batalhas ou será a vida uma batalha de muitas guerras? encolheu os ombros, limpou a cara, besuntou os sovacos, vestiu a camisola e arranjou os cabelos que vão resistindo à queda. A Sacha já o esperava à porta aguardando que ele reabastecesse o bolso do casaco com um pouco mais da ração que lhe dá pelo caminho como biscoito e por fim lhe colocasse a trela para olhar nos olhos dele a autorização de poder sair porta fora; não gosta que ele lhe coloque gotas nos ouvidos quando os coça muito, sendo um dos seus problemas crónicos, os ouvidos e a comichão nos mesmos, mais no direito que no esquerdo.

Ao saírem viu que tinha chovido de noite. O céu no momento estava coberto de nuvens altas não ameaçando chuva, o vento como diz o seu amigo Penicheiro não apagava um fósforo e lá foram dando a volta pelo supermercado na direção dos parques logísticos existentes. Quando a meio do percurso ele passou por cima dos separadores para passarem a ponte sobre a linha férrea e caminharem no outro lado, a sua amiga deu saltos de contente sem ladrar pois sabe que ele não gosta que ela ladre. Talvez ela julgasse que iria andar pelos trilhos da beira rio e ele a soltasse, mas enganou-se, com as chuvas os trilhos apresentam alguns troços mais enlameados e se ele a soltar suja-se já que para ela não há limites para a liberdade de poder andar solta correndo e pulando. No seu canto raiano é diferente, mas na cidade dormitório vivendo num terceiro andar em apartamento é bem mais complicado limpá-la. Na caminhada matinal andaram cerca de quatro quilómetros. É pouco para o que andava antes da pandemia. Procura voltar ao mínimo dos seis quilómetros matinais mas ainda não chegou lá. É mais fácil o desejo do que a realização do mesmo. No regresso olhou o lado do mar sobre a serra onde nuvens negras e baixas anunciavam que não tardaria a volta da sua abençoada chuva. Enquanto tomava o pequeno-almoço, os avençados televisivos anunciavam os avisos do mau tempo que a chuva e o vento iriam trazer à zona do litoral norte do país. Temperou depois as tiras de pota descongeladas para o almoço e preparou tudo para depois juntar o feijão branco ao refogado. Gosta de preparar as cebolas e os alhos bem picadinhos, cortar o bacon aos bocadinhos para dar um gosto, assim como preparar os pimentos e os tomates que estão congelados; gosta mais de usar os tomates congelados do que em em conserva, já que assim não tem aqueles "Es" de conservantes químicos. Ultimamente procura fazer tudo da forma mais simples, sem grandes condimentos, recordando a sua mãe que utilizava muito a salsa, pois no seu interior só há não muitos anos é que nas hortas também se cultivam os coentros, não se recordando de na casa dos seus pais tal erva aromática ser usada. Gosta de utilizar louro em quase tudo, assim como não olha à quantidade dos dentes de alho que utiliza. Quando está lá no seu canto raiano, gosta de ao pequeno-almoço comer uma fatia de pão com manteiga e um dente de alho esmagado sobre a manteiga que coloca sobre a chapa de grelhar para a torrar um pouco. Fá-lo no fogão a gás já que colocou na chaminé um recuperador de calor. A chaminé era usada pelos seus pais, sendo imprescindível quando se matava o porco para fazer o fumeiro que se secava com o fumo da lareira, porque de resto as chaminés são bonitas, muito românticas mas são um desperdício de calor. 

 

05.01.23

 

Ontem foi dia do seu irmão o deixar para trás na unidade do número de anos que ambos levam nesta caminhada. Durante treze dias tiveram a mesma idade.

Não saiu como no dia anterior em que depois de almoço foi apanhar o comboio urbano e andou pelo Parque das Nações a olhar, montras, saldos e pessoas. Gosta de olhar a multidão nos seus movimentos andantes. Foi assim que ao passar pela Livraria Bertrand entrou porque tinha um saldo no seu cartão a caducar. Entrou para ver se encontrava algum livro que lhe chamasse a atenção. Passou e não olhou os livros promovidos no chamado "top ten". Quando olhava tais promoções nunca lá viu um que lhe interessasse ou lhe chamasse a curiosidade. Para si ali não há nada de útil. Mas não demorou muito na livraria. Não tinha dado uma dúzia de passos quando seus olhos bateram em dois exemplares na parte baixa da estante de exposição. Olhou, viu, leu e pegou no livro indo direto ao balcão para pagá-lo descontando o tal saldo. O simpático empregado perguntou-lhe se era para oferecer, ao que respondeu que era para oferecer depois de o ler primeiro. O empregado lamentou que assim não o poderia embrulhar. Não faz mal, disse-lhe, porque assim poupamos papel e ajudámos o ambiente. Sorrindo, despediu-se e tomou o rumo da Estação do Oriente para apanhar o comboio urbano e regressar a casa. No comboio começou a ler. Comprou o livro sem pestanejar porque gosta de ler os autores japoneses que o cativam com a forma como descrevem os assuntos abordados, depois tem gostado dos livros que tem como figura principal o gato. Não é o primeiro livro de autores japoneses que lê, sendo o gato a figura central do livro.

Já em casa sentado na sua secretária continuou a lê-lo um pouco mais. Estava contente com a sua compra instintiva. Gosta de ser assim.

Fechou marcando-o. Ia a mais de meio de um outro livro que tinha encomendado à Livraria Lápis de Papel de Coimbra, sem que na altura tivesse reparado que o autor do livro encomendado era o mesmo de um outro que tinha gostado de ler "O Elogio da Dureza", mas quando iniciou a leitura de "O Longo Braço do Passado" e o nome da figura principal, Paulo de Trava Lobo, instantaneamente lhe veio à memória a figura do Alferes Comando do O Elogio da Dureza, só então viu que o autor era o mesmo, Rui de Azevedo Teixeira. Antes de começar a ler O Longo Braço do Passado, tinha já andando por Angola ao ler o também excelente livro de Carlos Matos Gomes sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz "O Gémeo de Ompanda". Obra que ao referenciar a foz do Rio Cuvelai o levou de novo não para a foz mas para a nascente do mesmo rio onde em 1973 e 1974 por lá andou perseguindo os naturais daquelas terras que sonhavam ser independentes para poderem ser eles próprios e não o que os senhores brancos dos palácios europeus desejavam que eles fossem. Infelizmente ainda à poucos dias um amigo natural e residente que internet proporcionou lhe escrevia que as populações da agora Comuna do Mumbué viviam melhor no tempo da tropa. O amigo era um miúdo quando ele esteve como Alferes no Mumbué e nunca se conheceram entre os muitos miúdos que iam às sobras da comida do rancho. Um miúdo que o pai tirou de lá e o colocou numa instituição longe daquelas terras de quiocos e guenguelas. Há uns anos começou a receber na sua conta e-mail de endereço desconhecido de alguém que insistia em enviar-lhe e-mail, que só ao terceiro abriu para ver o porquê da insistência. Foi então que leu o pedido do desconhecido miúdo que já era um homem pai de família. Respondeu e trocaram vários e-mails enviando-lhe as fotos que guarda desse tempo de militar, até que o Facebook apareceu e acabaram os e-mails. O pedido inicial era simples, o João Pundo Pundo era natural do quimbo Cauéué que pertencia ao Mumbué de onde tinha saído muito novo e agora procurava obter fotos antigas para poder ensinar aos seus filhos como era a sua terra natal. Hoje, continuam a comunicar via Facebook e é assim que vai obtendo informações sobre como estão as populações, do Mumbué, do agora Kuito antiga Silva Porto e do Menongue antiga Serpa Pinto.

No final da tarde acabou de ler a excelente obra O Longo Braço do Passado. Ao andar com a Sacha pelas ruas desta urbe arrabalde da cidade grande, foi fechando as gavetas que ao sair de casa ainda estavam abertas na sua unidade de processamento de dados. Fechou algumas e outras ficaram entreabertas interagindo com o seu ser tresmalhado.

Depois de jantar, recomeçou a leitura de "Memórias de Um Gato Viajante" de Hiro Arikawa. Recomeçou e não deu pelas horas passarem. Já passava da meia noite quando com os olhos inundados de lágrimas que corriam pela face numa disputa com o nariz fungando, chegou ao último ponto final do livro. Antes de se deitar lavou a cara com água fria, procurando que o sono chegasse depressa, já que, não compreende porque aos setenta e dois anos continua a comover-se tanto com histórias reais e outras que existem em livros podendo ser ou não verdadeiras. Resumindo é ou será um coração piegas.

domingo, 12 de março de 2023

02.01.23

 

Nada mudou com a tão badalada e festejada passagem de ano. Em 2023 tudo continua igual ao que já era em 2022, dominada que é a vida pelo pensamento único ocidental, ultimamente produzido em agências de comunicação internacionais ao serviço de um Império sem ética nem moral. A verdade continua em parte incerta, perdida que anda longe dos que detém o poder de governar os povos europeus do Atlântico aos Urais, do Polo Norte ao Mediterrâneo.

Para nos entreterem continuam a servir-nos programas televisivos rascas de gente inútil promovidas a estrelas ao serviço dos ocultos poderes que parametrizam a sociedade e alienam como há muitos não acontecia o rebanho da multidão que vive agarrado às televisões.

Antigos incendiários defensores do miserável salazarismo após 25 de Abril 74 são servidos aos serões pelas televisões, como gente de saber exemplar, destilando nesses tempos de antena o seu ódio escondido à Democracia, criticando ações e posições de um governo de maioria absoluta eleito democraticamente em eleições livres, que se mostra trapalhão sem azimute próprio, incapaz de estabilizar as naus e caravelas do país rumo ao caminho do desenvolvimento sustentável que combata a miséria crescente nas suas gentes. Um governo que se diz socialista perdido que anda implementando as medidas dos neoliberais de Bruxelas, distribuindo bons “tachos” por gente amiga de ética e de competência duvidosa para cargos de responsabilidade quer no próprio Estado quer em empresas e organismos públicos.

 Trapalhadas que favorecem os inimigos da Liberdade democrática saudosos que andam dos tempos da ditadura de miséria salazarista.




(foto da net)


23.01.01

Lá fora o escuro da madrugada ainda se sobrepõe à claridade do recomeçar do novo dia.

Deitou-se pouco passava da meia-noite. Sentado no sofá com os ouvidos fechados ao que se passava no ecrã televisivo, dormia. Acordou com os foguetes que os entusiastas destas celebrações fizeram estalar. Recorda que abriu os olhos faltavam 5 segundos para a alteração do 2 pelo 3. Bebeu um cálice de Porto e voltou a fechar os olhos para se alhear, mas como não conseguindo resolveu continuar o sono na cama que sempre é melhor do que no sofá, principalmente para a velha e queixosa coluna vertebral.

Deitou-se com os "se", pensando no impossível. Dormiu de um sono só até às cinco. Procurou continuar sabendo que não iria conseguir entrar de novo no mundo do sono. Já tinha descansado as horas normais suficientes. Levantou-se, bebeu água e recomeçou os seus rituais de todas as manhãs. A ausência foi de novo a sua companhia. Novo Ano, vida velha é a sua. 

Com o pensamento longe chegou a hora de se vestir para ir com a sua amiga dar o ritual passeio matinal. Conferiu a previsão do tempo no seu aparelho de comunicação. A confirmar-se a previsão a chuva anunciada seria de pouca monta. Gosta da chuva, não se importa de andar à chuva, talvez a chuva o possa limpar das nódoas que foi cometendo ao longo da sua viagem.

Pensa na sua mãe recordando-a com a gratidão do amor que não se esquece. Tem vontade de estar com ela. Errou mais uma vez, um erro que o castiga. Não há dia em que não ouça críticas. Tem de ganhar forças para zarpar rumo ao seu canto, porque lá estará com os seus enquanto que aqui pouco mais é do que nada num mundo onde os seus não entram. 

 

23.01.01


 

O 2022 já lá vai. Tudo agora é 2023, mas só o número do ano mudou, tudo o resto permanece quase igual. Promessas e desejos foram nos últimos momento da passagem para o novo ano infinitamente muitas. Pediu-se e desejou-se tudo.

Nos seus desejos esqueceu-se de desejar "melhores políticos" para conduzirem as sociedades de forma transparente, promovendo a solidariedade entre os diferentes povos e raças sem tiques de superioridade de uns perante os outros, porque no final da viagem nada de material se leva para o desconhecido.

sábado, 11 de março de 2023

22.12.30

 

Depois de almoçar, vestiu-se, penteou o que vai restando do cabelo, saindo para ir à cidade grande renovar o passe social dos antigos combatentes. 

Apanhou o comboio urbano, depois o metro saindo na Baixa Chiado optando por sair em direção à Rua do Crucifixo e fazer o caminho até à Estação do Rossio a pé e devagar. Já há uns meses largos talvez mesmo mais de um ano que não fazia aquele trajeto tantas e tantas vezes palmilhado quando jovem estudante e depois trabalhando na Baixa de Lisboa. 

Levava consigo a sua pequena máquina fotográfica Olympus. Ao chegar à Rua Áurea não sentiu nenhuma vibração pelo que a pequena máquina ficou no fundo da mochila e de lá não saiu na tarde de ontem. A quase totalidade das antigas lojas já não existem, mudaram de ramo ou simplesmente fecharam, alguns prédios com os tapumes das obras, apenas a bicha dos turistas para subirem no elevador de Santa Justa se mantém quase inalterável com o passar do tempo. Na Praça D. Pedro IV conhecida por Rossio cheia dos novos restaurantes com esplanadas, viu turistas nas esplanadas a comerem camarão de aquacultura a preço de selvagem. Só um único vendedor de castanha assada perfumava o ar com o bom cheiro cheiro da mesma. Subiu pelas escadas rolantes até à estação dos comboios onde está o gabinete de apoio ao cliente. Aguardou na fila e já não é preciso apresentar a anomalia do comprovativo fiscal de residência. 

No átrio superior da estação resolveu subir a íngreme Calçada do Carmo que tantas vezes subiu algumas a correr porque o comboio se tinha atrasado e a hora das aulas começarem era sagrada; agora do lado direito de quem a sobe o passeio já esta em escada, facilitando de que maneira a subida e a descida da mesma. À medida que ia subindo observava as novas lojas, dos antigos antiquários de livros só um resiste. No Largo do Carmo lá estava o soldado da Guarda Republicana todo emproado com os turistas a captarem o momento nos seus telemóveis e máquinas fotográficas. Seguiu pela Rua da Trindade decidido a ir à Cervejaria Trindade beber uma imperial preta. Pelo caminho mais esplanadas no passeio. A parte da Rua Nova da Trindade que sai do Largo Trindade Coelho até ao Largo da Trindade está fechada ao transito, e, mais restaurantes com esplanadas. Bebeu a sua imperial preta na Cervejaria da Trindade que ainda coloca um pires de tremoços quando a servem. Gostou de como a mesma está agora. Em frente do outro lado da rua já não existe a Fabrica de Cofres da Trindade onde trabalhou uns anos. Mais acima a Livraria Cotovia onde chegou a comprar livros e Lp´s está abandonada. No Largo Trindade Coelho salvam-se a igreja de S. Roque e a Misericórdia de Lisboa, assim como o quiosque, o resto tudo diferente, bares e hotéis. Desceu a Rua da Misericórdia em direção ao Largo do Camões. Até a velha casa de cafés Carioca mantendo a fachada já não é a mesma. As igrejas pelo menos ainda são as mesmas a Nossa Senhora do Loreto e Nossa Senhora da Encarnação, que durante alguns anos a viu fechada mas agora pensa que os jesuítas a ativaram de novo ao culto religioso. Não viu a estátua do Luís de Camões tapada que está por uma destas bolas enormes que os novos senhores gostam de colocar nas praças publicas. Não gostou, não achou graça ao taparem a estátua do Luís Vaz de Camões com aquela bola enorme de ideias importadas de outros países. Ainda atravessou para do lado da igreja Nossa Senhora da Encarnação para olha-la mas também daí não a viu. Olhou e viu ao cimo da Rua da Horta Seca parte do edifício na Rua das Chagas esquina com a Travessa do Sequeiro, onde durante três anos estudou Contabilidade no velho Cortiço, hoje ocupado pelos senhores do “The Boston Consulting Group”. Como não viu o Camões passou e cumprimentou primeiro o velhinho António Ribeiro Chiado e depois o Fernando Pessoa sempre rodeado de turistas talvez mais interessados em tirar uma foto do que o lerem. Ao passar pelas esplanadas da Brasileira parou por momentos para olhar a nova geração que por lá anda seguindo com a boa sensação de que as moças do seu tempo eram mais bonitas e graciosas e contente por ter vivido naquele tempo, desceu a Rua Garrett no meio da multidão e quase sem dar por isso estava de novo na estação do metro da Baixa Chiado para iniciar o regresso a casa.

Tudo na vida muda. Tem consciência dessa realidade que também passa por si, sentindo-se não um saudosista porque só sente saudade do futuro mas reconhecendo que dia a dia vai ficando mais conservador em muitos aspetos, sentindo-se como que ausente na cidade que um dia o viu nascer, que o viu sair ainda menino para mais tarde o acolher de novo.