domingo, 15 de abril de 2018


A minha preocupação és tu. Enquanto eu puder vamos os dois passear logo pela manhã, para tu chegares a casa como se não tivéssemos andado o que andamos, enquanto eu chego cansado, arrastando-me ao subir as escadas até ao terceiro andar para que possas ganhar massa muscular, eu já sem grandes forças lá sigo umas vezes à frente, outras atrás, porque tu me cansas e às vezes me tiras do sério, chego quase a perder a paciência contigo, digo-te coisas que não deveria dizer, para depois mesmo sabendo que eu estou zangado contigo vires não só pedir uma festa, como saltares e tentares dar aquela mordida suave que com teus dentes finos são terríveis.
Quando fixas o teu olhar no meu e pões a cabeça de lado e depois do outro comunicamos e logo ficamos em paz, ficando eu a pensar como será, quando eu não puder andar contigo os nossos quilómetros diários? Fui eu que te escolhi, que culpa tens tu de seres como és? Que culpa terei eu em te ter escolhido?


Nunca fui de modas, nem sou de modas. Não dou por isso importância alguma ao que me dizem ser a tendência das cores, dos feitios, quer seja no vestir como no calçar, que seja nos carros ou nos filmes de cinema. Nunca comprei um livro por ser best seller, não fui ver um filme ao cinema por ter ganho ou ter sido nomeado para os óscares, gostava tanto do cinema americano como do europeu onde pontificava o cinema italiano, francês e sueco. As modas, para mim, são apenas e só mais um instrumento desta sociedade de consumo, um instrumento inútil na vida, uma felicidade vazia na vida comum dos cidadãos. Não sou de modas nem nunca fui de modas.

sexta-feira, 13 de abril de 2018


Neste final de noite, sinto-me ainda mais distante do mundo que me rodeia, quero lá saber se foi ou não penalti, já pouco me importam os resultados do futebol, quero lá saber o que fez ou o que disse, o ministro do ambiente, da defesa, da agricultura ou o do plano, quero lá saber o que disseram os lideres da oposição, dizem todos a mesma coisa num tom diferenciado, consoante se esta no governo ou na oposição, há muito que não consigo ver as cores do arco-íris na política governativa, todos ou quase todos cinzentões. A cada dia que passa me sinto mais longe de tudo o que me rodeia.
Eu e o meu passado bebendo lembranças no silencio da noite, os lugares por onde andámos desde que me lembro de jogar à bola feita de trapos enrolados em meia velha de vidro das senhoras, de fugir à polícia por jogarmos à bola no meio da rua, das reguadas que apanhei na escola primária por não escrever a preceito no caderno de duas linhas e afinal andava doente de uma coisa que nunca mais lembrei o nome, eram outros tempos aqueles, não de respeito cívico-educativo mas sim de respeito pelo medo opressivo vivido por cada uma das famílias , as paredes têm ouvidos , dizia-se à boca fechada, não fosse um bufo, um pide, ouvir o que se falava e dizia inocentemente. Eu e as asneiras que fiz na vida, os amores tidos, os correspondidos e os não correspondidos, todos eles e tudo nesta noite me fazem companhia, eles e eu neste silêncio da noite que até incomoda o zumbido a cada dia mais forte do ouvido direito, já pouco ouve mas teima em cantar esta melodia zumbida quando no silêncio da noite converso com o meu passado.

quarta-feira, 4 de abril de 2018










   Para um bom ano agrícola é decisiva a influência da chuva

É desejada nos meses de Abril e Maio;
Em Abril, águas mil, coadas por um mandil;
Uma água de Maio e três de Abril, valem por mil;
Duas de Abril e uma de Maio fazem andar a junta e o carro
Março e Abril chuvoso fazem o ano formoso
Porém já o mesmo não acontece em Junho:
Chuva de S. João, tira vinho e azeite e não dá pão
Ano de nevão, ano de muito pão”

Ouço notícias que apontam para a chegada de mais uma tempestade, agora na modernice de que dando-lhe um nome, as pessoas prestam mais atenção, às previsões e aos cuidados. Isto é apenas e só uma nova ideia, uma nova forma de tirar a água do capote, tal o receio de que a natureza nos possa surpreender com alguma carga de água anormal puxada a vento.
Deveria ser decretado, que nas rádios e televisões nunca se referissem à chuva, como mau tempo, já que sem ela a nossa vida não seria nunca da forma como a conhecemos. A chuva é etapa importante no ciclo de renovação da água no universo do nosso planeta, sem ela a vida acabará rapidamente, e não pensem que a alternativa será a água do mar.


Andavam calados, em silêncio, caminhavam na sua grande maioria pela pagina social de cabeça baixa como se tudo o que vem acontecendo na sua amada instituição fosse normal e corriqueiro. Bastou, os dois adversários maiores, perderem os dois no mesmo final de semana e eis que levantaram a cabeça, não para olharem para a vergonhosa gestão que graça na sua instituição, mas para de provocação em provocação mostrarem aos adversários quem manda. Pouco importa se o golo é metido com o pé, com a cabeça, com o favor do arbitro ou de quem na sombra manobra a arbitragem, o que importa é o resultado final dentro das quatro hipotéticas linhas. Viva o futebol! Viva o ópio sagrado do povo!

Os outros, das outras duas instituições, publicavam a toda a hora comentários e vídeos, alguns provocatórios muito para lá da disputa clubística, comentários e vídeos infantilmente utilizados como armas de arremesso na guerra que os dirigentes das três instituições promovem e alimentam, como se não fosse nada com eles, pessoas de uma honestidade acima toda a prova para lá da própria morte, tendo com eles, a conivência das autoridades desportivas e governamentais, em nome de todo um negócio de muitas mais ilegalidades aprovadas superiormente, do que legalidades em prol da sã e verdadeira disputa de um jogo de futebol, de onze contra onze.
Amigos que se ofendem com comentários, por causa das negociatas que germinam à volta do futebol, é triste. Todos de certa forma embebedados na lama podre que tomou conta do bonito e saudável jogo de futebol.
O que era espectáculo transformou-se em guerra. O que era o convívio amigável de ir à bola, passou a ser um evento quase perigoso, onde os amigos de clubes diferentes têm de ficar em “jaulas” separadas . Tudo em nome de um espectáculo-negócio, onde as instituições se deixaram prender e afundar ao serviço de gente bem vestida mas de moral e ética muito escura e duvidosa.
Já dei para este peditório. Infelizmente, até o clube onde fui sócio por vinte e quatro anos tem o tal negócio do futebol SAD nas mãos de gente que até ao diabo metem medo.
Já não dou mais para tal peditório e só lamento que havendo instalações pomposamente designadas por Casa do Futebol, tenham os responsáveis do futebol nacional, de alguns poucos clubes e responsáveis políticos, levado o assunto da violência no desporto-futebol para a Assembleia da Republica.
A Casa da Democracia, a Casa da Liberdade do Povo Português merece muito mais respeito do que o triste espectáculo que políticos e agentes desportivo deram ao país, quando são eles mesmos de forma passiva e activa os promotores da actual situação em que se transformou o desporto nacional em sentido lacto. 

quarta-feira, 28 de março de 2018


Porque é que eu nunca me despedi de ti, mãe?
Nem quando parti para a guerra me fui despedir de ti, mãe
Nem quando naquele dia triste em que nos deixaste e eu te meti naquela caixa de madeira, me despedi de ti
Porque, mãe?
Porque é que com o passar dos anos, cada vez gosto menos do Natal, da Pascoa e do Carnaval, porque mãe?
Que terão estes dias de tão especial, que a cada ano eu me sinto mais ausente, mais sozinho, sem compreender a alegria dos outros… sozinho, na outra margem onde ando e navego, mas de onde não consigo voar... porque mãe?


quinta-feira, 22 de março de 2018


Vinte e dois de Março, uma data histórica em que dois jovens se casaram. Dessa união nasceram anos mais tarde, primeiro o meu irmão e depois eu, os dois no mesmo ano civil. Numa das nossas viagens para almoçarmos nas Termas de Monfortinho, a uma pergunta de como conhecera a minha mãe, respondeu-me sorrindo que um dia quando frequentava a quarta classe na escola primária de Segura, foram fazer uma visita à escola primária de Salvaterra do Extremo e nesse dia conheceu a minha mãe, que embora tenha nascido na Zebreira vivia nesse tempo em Salvaterra. Nesse dia ao olharem-se as duas crianças estabeleceram uma aliança que muitos anos depois selaram neste dia vinte e dois de Março.
Já cá não estão os dois, já partiram desta viagem, mas mesmo assim há histórias de vidas que por alguma razão especial que não visualizo, desde aquela viagem, para mais um bacalhau à brás, eu vou lembrando nas minhas memórias vivas, sim memórias vivas porque também tenho memórias mortas.





Saí da minha mãe com cinco semanas, eu e os meus nove irmãos. Fomos colocados longe dela mas todos juntos até que pelas sete semanas os meus irmãos começaram a ser levados um por um, por animais estranhos de apenas duas patas. Faziam-nos muitas festas e não se importavam do nosso cheiro que até a mim, já me incomodava. Estava eu de olhos ramelosos quando chegaram outros dois animais de apenas duas patas. A minha dona de então, naquela fala estranha dos animais de duas patas disse-lhes para escolherem um de nós os três. Não percebi porque me escolheram a mim, não era a maior e ainda mais com os olhos ramelosos, mas lá me pegaram ao colo toda suja e mal cheirosa.
Depois entramos numa coisa muito estranha para mim já que eles se sentaram e comigo ao colo, começou a deslizar andando por caminhos que metiam-me medo e logo enjoei. Levaram-me a um sítio onde outros animais de duas patas conheciam a minha mãe e até o meu pai.
Passei a viver num canil diferente do meu e dos meus irmãos. Um mundo diferente fechado mas onde me davam comida a horas certas e, estes seres de duas patas procuravam que eu fizesse as minhas necessidades fisiológicas no mesmo sítio onde colocavam um resguardo, aprendi de tanto ouvir falar, mas como eu fazia onde a vontade me dava, ralhavam comigo. Seres estranhos estes de duas patas que vivem comigo e não gostam que eu possa ser a líder. Ao fim de um tempo levaram-me outra vez aquele sítio onde conheciam os meus pais, um ser vestido de modo diferente deu-me a tomar umas coisas que não gostei e depois quiseram que ficasse quieta, coisa que não fiz nem deixei. Eu quero é brincar e não gosto que me transportem naquela coisa que anda com eles sentados, aquilo faz-me enjoar e às vezes dá-me volta à barriga.
Assim se iam passando os dias naquele canil onde também vivem outros animais de quatro patas que não crescem como eu, não falam como eu, às vezes dá-me vontade de os apanhar, mas os de duas patas não me deixam, fecham as portas de modo a eu não poder passar e brincar com aqueles baixinhos, não deixam que eu os morda para ver se me tiram estas raivas que tenho nos meus dentes.
Como sou esperta vou aprendendo a fala dos de duas patas, mas não quero que eles saibam que eu já percebo algumas das coisas que eles me dizem.
Depois de nova visita ao veterinário (aprendi que é assim que eles dizem) para me picarem outra vez, começaram a levar-me à rua, esse mundo maravilhoso onde me perco tantas são as coisas novas que vejo e cheiro, as idas só não são maravilhosas porque o gajo de duas patas não me deixa à solta, leva-me presa e está sempre a dizer “junto” e “não”, para eu não apanhar do chão tudo aquilo que chama a minha atenção. Como ele não me deixa fazer o que gostava de fazer, também não faço o que ele me está sempre a dizer de “xixi-cocó”; só quando eu quero e onde eu quero é que faço, também não me deixa voar atrás daqueles animais que têm umas patas que batem e eles saltam muito alto andando no ar, diz-me o meu amigo de duas patas que, quer aqueles e uns outros ainda mais pequenos pretos como eu mas de focinho amarelo, são aves e que tem duas asas em vez de patas, os maiores são os pombos e os outros melros. Ah! como eu gostava de ter asas para correr atrás deles. Também já aprendi que o animal de duas patas que me leva à rua e ralha comigo se chama Carlos e eu sou a Sacha, ele diz-se humano de uma linhagem que desconheço e eu sou da linhagem dos pastores alemães. Feitas as apresentações ele agora que passe a contar a minha história que eu também me canso de estar aqui a escrever estas coisas pois não é próprio da minha linhagem escrever e contar coisas que são só minhas.

quarta-feira, 21 de março de 2018


Não sendo dado a estas celebrações de dia disto e daquilo, quis o acaso que chegasse à Zebreira naquele que dizem ser o dia do pai. Eu sei que também tu não ligavas a estas coisas e assim talvez nos tenhas influenciado a vivermos a festa da vida dia a dia porque todos do dias de vida são para serem vividos e se possível de forma saudável e felizes. Todos os dias são dias de aniversários.
De qualquer maneira, como sempre, vou-vos visitar onde os teus restos materiais foram depositados e onde ainda restavam alguns da mãe. Nunca fizemos o culto da morte, mas sempre respeitamos a memória dos que nos foram queridos e desta viagem se foram um dia. Esquecer lembrando é o caminho, que vamos fazendo. Até Sempre!



Já não sei se vim de longe ou de perto. Sei que o caminho tem sido longo, o trilho alcatroado por onde navego esta cheio de teias de aranha. Teias finas e invisíveis que me prendem chegando a causar até falta de ar, rebentando sem nexo em palavras que saem aos tropeções. Se vim de longe, não sei o que ando por aqui a fazer nesta luta desigual. Não sou daqui mas também não sei se vim de longe, nem o que eu vim aqui fazer. Contudo, vou andar por aqui entre o ir e o vir, entre as margens do meu rio e poder desaguar um dia, descansando em ti, lá mais para a frente entre as águas e as rochas do Porto Batel.