segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

22.08.01

 

Ao ler mais um livro, tomou nota no seu caderno de apontamentos «O Mundo não é a mesma coisa das pessoas que o habitam. O Mundo está entre as pessoas», (Hannah Arendt).

Ele, que caminha solitário entre a multidão de pessoas em busca de conhecer o esse Mundo que existe entre as pessoas, onde tudo o que é inato ali mesmo tem origem. Caminha solitário nesse Mundo que existe entre, caminha cansado, desgastado em revolta contra esse Mundo a que pertence. A cada dia vive essa luta surda que trava consigo e com o entre, de onde a loucura silenciosa chegou e nele se instalou, por causas que só ele é sua sombra conhecem, as forças como que o abandonam, o deixam mais sozinho. Não se importa, vale mais só que mal acompanhado, pensa e diz para si mesmo.

Ergue-se, olha-se ao espelho, retesa o tronco dá meia volta e segue caminhando na outra margem da vida em busca de uma paz necessária mas difícil de alcançar. Nada na vida lhe foi proporcionado de modo fácil. A primeira vez que o Estado o procurou foi para o embalar, preparar e enviar para a guerra numa terra distante. Embora depois de regressar dessa triste guerra já sem vínculos reais ao mesmo, ainda tivesse obrigações para com o Estado, tão ou mais absurdas do que a própria guerra. Nunca mais o Estado se importou com a sua existência exceto na recolha dos impostos, que foi gerando com a sua atividade profissional.

Quando depois da guerra buscava começar a trabalhar na então Inspeção de Finanças, o Primeiro Ministro Vasco Gonçalves na busca de soluções para os que regressavam e ou chegavam a Portugal vindo das antigas colónias africanas, resolveu suspender as admissões na função pública para dar prioridade aos que chegavam. Fechada essa porta virou-se para o setor privado da economia.

Era bom homem e patriota o P M Vasco Gonçalves, procurou fazer o melhor para o país, contudo poucos foram os que beneficiaram da sua boa e enorme vontade de encontrar soluções que lhe agradeceram as oportunidades e facilidades que lhes proporcionou no regresso à terra de onde um dia partiram familiares ou aqueles que nascidos e criados, filhos de África, pisaram pela primeira vez chão português. Saiu, Vasco Gonçalves, do poder quando os defensores da "ordem democrática" se preparavam para acabar com a festa popular que vigorava no país desde 25 de Abril de 1974.

02.08.22

Recorda os tempos da alegria que a Liberdade dada ao povo por jovens militares lhe proporcionou. Sempre que se achava sozinho agarrava-se ao rádio Crown, para naquelas do quase fim do mundo, sentir através das ondas curtas a festa da alegria que andava à solta nas ruas do seu país. Quantas vezes as lágrimas lhe caiam pela face ao ouvir as cantigas até então proibidas por censores salazaristas.

22.07.31

 

Segue o seu caminho na contramão. A sua passada já não se enquadra na normalidade vigente. A cada passo se afasta mais do padrão que pauta os dias do agora. Onde muitos veem bons e maus, ele só vê maus e desgraçados às mãos de líderes assassinos. Bons e maus são classificações criadas por humanos, logo são falíveis na avaliação.

Não foi este o modo de vida que sonhou para si para os seus e vindouros. Na contra-mão segue o seu caminho, sem inversão de marcha.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

22.07.25

Passa o tempo a ler. Televisão apenas a abre para ver a volta à França que já terminou e o campeonato europeu de futebol feminino que está quase a terminar. Não sente necessidade de ver e ouvir, o que os muitos canais transmitem. Anda divorciado do mundo das notícias do pensamento único televisivo. Olha as capas dos jornais e não sente necessidade de os ler. Pouco a pouco foi-se afastando do chamado mundo normal, tresmalhou-se com consciência dos trilhos e veredas que caminha na outra margem da vida.

A pequena loucura não o abandonou e a cada manhã se faz presente. No cimo da duna frente ao universo grandioso de mar e céu, olha a linha do horizonte onde os azuis e por vezes os azuis-cinzentos se fundem, numa só linha. Ali sente-se pequenino, guardando a imagem nas suas caixinhas de memória, para com ela ter depois os seus momentos de meditação. Já não se imagina acompanhado, mas ao olhar ao fundo à sua direita lá está a foto, que ultimamente chegou para acompanhar a imagem da ausência sorrindo; ausência que há muito o acompanha silenciosamente. Para esta sua loucura não há medicação química que o possa ajudar. Sabe que a solução não depende dele, mas está dependente da sua própria vontade em vencer os seus medos, os seus receios, a sua crónica timidez. É uma luta surda que trava consigo mesmo.

Hoje a maré já lhe permitia andar na areia molhada. Era a hora da baixa mar quando lá chegou. O vento que não sendo forte era fresco de um quase frio, desaconselhando-o a fazer a caminhada que tinha pensado. Voltou-se para o lado do Forte, dando alguma liberdade à sua amiga. As muitas gaivotas que no areal aguardam por algum lixo que os humanos abandonem no areal ao final do dia, assustaram-se com a Sacha que ainda pensa que tem asas para poder voar atrás delas.

A Sul do Forte, na designada praia das rochas, já um casal de idosos bem idosos procurava o seu lugar, para com fé aguardar a chegada dos raios solares.

A fé, dizem que move montanhas, mas por aquelas rochas a fé e os raios solares ajudam a suportar melhor as várias mazelas reumáticas que a vida trouxe a cada um, quando o Outono anuncia a chegada dos frios húmidos do Inverno.

Há quem tenha vindo para cá de cadeira de rodas, depois de ter percorrido vários médicos especialistas, vários curandeiros famosos, muitas promessas à Senhora de Fátima, e, como último recurso da fé quase perdida, duma esperança quase perdida, vieram e alugaram uma casa. Ao fim de um mês naquelas rochas sentiram melhoras. Resolveram ficar mais tempo para poderem continuar os banhos de Sol naquelas rochas. Um tempo milagroso que depois de quase perdida a esperança, levantou-se da cadeira de rodas e voltou a andar com uma bengala é certo, mas andando pelos seus pés. Cedeu as propriedades aos filhos, que dos vários Mercedes já se tinha desfeito deles, quando se viu numa cadeira de rodas. Se até a vinda como última tentativa de poder melhorar um pouco a sua saúde, não conhecia a Consolação, ao entregar as propriedades aos filhos, comprou um andar e passou a viver todo o tempo na Consolação. No dia em que o senhor lhe contava a sua história, viu como os seus olhos brilharam quando disse que até comprou um Datson novo. Outras histórias ele conheceu e conhece de pessoas que aqui chegaram quase inúteis e de cá saíram com a fé redobrada e a esperança em alta.

É, talvez por isso, que depois de nos finais dos anos setenta do século passado, a televisão ainda a preto e branco, ter noticiado que por esta costa a sul do Forte da Consolação até Paimogo, os raios solares infravermelhos chegam com uma intensidade anormal, que só em determinada costa do Japão se verifica idêntica intensidade. Talvez por isso, esta praia passou a ser a praia dos avós e dos netos. Nos meses de Julho e Agosto a percentagem de idosos que a frequentam é muito, mas muito elevada. Só o aumento dos vizinhos Espanhóis que vêm em busca do mar onde o calor seja um calor tépido, que calor abrasador conhecem eles bem, contraria o movimento dos avós portugueses.

No Japão, na costa idêntica à da Consolação, foi desenvolvido um programa de medicina natural com várias clínicas, para aproveitamento das condições únicas que a Natureza naquela costa lhes dá. Por cá, nem sequer existem placares que aconselhem as pessoas que nas pedras buscam a cura milagrosa que chega dos raios solares, quanto mais a criação de condições condignas para a sua utilização. Ouviu uns zunzuns de que alguém pensou fazer alguma coisa, idêntica aos japoneses, nesta costa. Logo se levantaram as vozes dos muitos velhos do Restelo contra, que a costa era nossa, que tinham direito a usufruir das rochas. Mas estas vozes, embora ruidosas, não constituíam entrave a quem quiser auscultar a hipótese de pôr cá criar uma clínica de medicina natural. Pior, muito pior e inibidora é a legislação que, contraria a de vários países do designado falaciosamente primeiro mundo; uma legislação que apenas subsidia a medicina convencional a mando e a reboque de uma ordem corporativa castradora em conivência com a industria químico-farmaceutica. Situação à qual se juntam vários organismos de vários ministérios a dar pareceres técnicos, quantas vezes em função do nome com que o proponente se apresenta. Gente técnica que raramente, conhecem com conhecimento de causa, as situações sobre as quais se pronunciam, sustentando os seus relatórios com as resmas amontoadas de leis, decretos, portarias e pareceres sem esquecer os acentos proferidos pela Justiça e também no Google.

A costa de arribas instáveis mantém-se confiando muito mais nas alterações climatéricas que a Natureza, desde a formação do Planeta sempre sofreu, do que na boa vontade dos humanos que sobre ela detém poderes usufrutuários. 



 

22.07.22

Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Mas, crescer já não cresce. Tão pouco sabe se dará saúde esta sua forma de vida. Dorme entre as cinco e seis horas, por noite. Deixando-se dormir cedo, entre as onze e as onze e meia, o seu organismo dá sinal, ainda a manhã se anuncia numa claridade ténue. Hábitos que criou e vêm de muito longe. A noite nunca o entusiasmou. A alvorada, o clarear do novo dia sim, sempre gostou de ver com olhos de sentir o abraço cúmplice que a noite dá ao novo amanhecer. Também gosta do abraço que no final, o dia dá de boas vindas à sua conhecida noite. São cúmplices e amigos inseparáveis. Como não tem qualquer dificuldade em dormir, faz as suas sestas diárias facilmente. Dorme em qualquer sítio, mas nada é tão bom como a sua cama.

Veio passar uns dias à Praia da Consolação, a sua praia de juventude. Será Lua Nova no próximo dia 28. Hoje a maré ainda não lhe permite caminhar pela areia molhada plana. Caminhar na areia com inclinação não faz bem à coluna, prefere outros caminhos.

24.07.22

Foram em direção ao Porto Batel. No cimo da arriba olhou a sua outra praia de juventude, e, onde um dia parte das suas cinzas serão entregues clandestinamente ao mar, num dia de mar chão, na vazante para que possam ser embaladas para a profundeza do mesmo.

As autoridades colocam avisos de "arribas instáveis" e lavam as suas mãos preventivamente a algum acidente que possa ocorrer, quando os amantes da natureza e do surf, que ali também se pratica, colocam as suas viaturas mesmo à beira da arriba.

Sente-se triste e deixa a gaveta da revolta abrir-se. A Sacha assusta-se com o seu grito de revolta. Um lugar, quase único, está abandonado às intempéries da chuva e do vento. Não há dinheiro dirão. Mas há tantos milhões de euros esbanjados com os vampiros do setor financeiro, tantos milhões dados ao turismo em praias onde colocam toneladas de areia para o mar as levar de novo. Tantos € desperdiçados e ninguém com poder de decisão olha a beleza desta costa. Já todos os partidos políticos e movimento independente de cidadãos, passaram pelo executivo municipal, mas quem manda e gere tem sempre outros objetivos, outras prioridades. Prioridades que não alteram a agulha económica do Município que ano a ano vai, à vista desarmada, morrendo lentamente dentro das suas muralhas. Salva-se pela horticultura das suas terras circundantes, mas também elas dependentes e indefesas perante as políticas agressivas, quando não assassinas sobre o pequeno agricultor, praticadas pelas cadeias da distribuição moderna nas barbas das autoridades da concorrência. Setor da distribuição dominado por três ou quatro cadeias de hipermercados e supermercados, que estrangulam os agricultores a montante para depois a jusante esfolarem os consumidores com as suas margens especulativas e de lucro sempre crescente, seja nas grandes ou pequenas cidades, seja nas vilas ou freguesias, a sua rede já se estende por todo o lado. A famosa concorrência do sistema é mais uma falácia. Simplesmente não há concorrência verdadeira na nossa pobre economia.

Seguiram a caminhada pelo caminho de terra que tantas vezes o fez na sua bicicleta. Onde há cinquenta anos ainda existiam pequenas vinhas, estão agora todos os terrenos dedicados essencialmente à horticultura, a tal bóia de salvação na economia municipal.

Terras barrentas onde felizmente não falta água para a sua exploração. A água sempre a água como um bem de inigualável valor na vida de sobrevivência das comunidades.


Neste sábado lá o convenceram a ir à praia, ou seja, ir passar a tarde no areal. Depois de almoçarem, foram em busca de um lugar para estacionar a viatura no Baleal. Ele duvidava que tal fosse possível num sábado de sol. As suas dúvidas confirmaram-se, a Nossa Senhora da Vaga não os acompanhou neste desejo. Não encontrando sítio para estacionar a viatura, deram meia volta resolvendo ir até à praia não vigiada do Casal Moinho. Atravessaram as dunas e já no areal estacionaram num cabeço de areia mesmo à beira mar. O mar estava na baixa mar. Colocados os chapéus de sol, sentou-se à sombra. Olhava os vizinhos e vizinhas expostos à torreira do Sol em busca do bronze. Por fim, lá se decidiu tirar a camiseta. Colocou uma carrada de creme, sem se importar com o prazo de validade do mesmo, num sinal da perna que o incomoda. Olhando a grandiosidade do mar concluía que, sem dúvida, aquela vida já não era para ele. Se tivesse ficado em casa a ler os seus livros, teria feito melhor, mas não quis ser desmancha prazeres e ali estava sentado à sombra feito não sabe bem o que. Nos seus quase setenta e dois anos já apanhou Sol que chegue para o tempo que terá a oportunidade de viver. Que os seus dias sejam curtos para serem muitos, intercalados com dias longos para que possa ir vivendo e aprendendo com a velhice, é um dos seus desejos, mais do que se preocupar com a sua imagem.

A determinada altura pelo incómodo de estar sentado já sem posição, decidiram ir molhar os pés, tomar a temperatura da água. Disseram-lhe que os da televisão tinham anunciado para a costa uma temperatura de 20 graus. Duvidou, mas como não acredita na maior parte do que os papagaios televisivos anunciam, calou-se. Claro que a água não estava a 20 graus, mas também não estava má. Depois de almoçar, de ter ficado sentado à sombra um bom bocado, bastou molhar os pés para o sistema lhe comunicar a necessidade urgente de fazer o xixi da ordem. Avançou até as ondas lhe baterem pela cintura. A água pode ser fria mas é tão transparente que olhava o fundo e via os seus pés na areia. Esteve quase a mergulhar mas eu uníssono os ossos e as cartilagens logo lhe apresentaram uma petição privada para não o fazer. Achou por bem estar de acordo e a custo saiu da água. Apetecia-lhe mesmo dar umas braçadas naquela água tão transparente. Há vários anos que não o faz, mas a prudência foi mais forte felizmente para as suas artroses. Num instante o calção de banho secou. Sentou-se de novo à sombra na areia. Ao fundo, olhava a praia da Consolação, pobre urbanisticamente, rica de iodo de ares fortes, rodeada por um mar que é diferente de outros mares em outras praias. No cimo da arriba lá está o Forte que leva anos de restauração para um projeto de duvidosa afirmação futura. É o seu pensamento desde que há cinco ou seis anos assistiu à celebração do contrato entre o Município e os vários organismos do Estado que têm direitos de decisão sobre a propriedade do mesmo. Se D. João IV, que o mandou construir para defesa da costa, voltasse do além e visse a confusão dos organismos do Estado atual, que tem direitos sobre o seu Forte, mandava-se de imediato ao mar para fugir da confusão que reina na corte em Lisboa. 

 

22.07.21

 

Novo dia começa com velhos pensamentos. Pouco ou nada tem mudado, nos últimos tempos da sua caminhada. Caminha na contramão impotente. Tem consciência que não é capaz de mudar o mundo onde está inserido. Já desistiu de se enquadrar. O mesmo acontece com a maioria dos grupos para os quais é convidado. Republicano e solitário, cada dia mais distante do rebanho, encontra nos livros um modo de sobrevivência. Escolhe-os fora dos top ten ou dos Best sellers. Já quando era jovem ia ao cinema não pela publicidade que os mesmos tinham nos jornais de então. Viaja no tempo e no espaço com as suas leituras. Pouco viajado é nas outras formas de viagens, mais do que a escultura, arquitetura ou pintura é nos ensinamentos que os livros traduzem que gosta de viajar, conhecer idealizando com o seu pensamento povos e lugares.

A manhã chegou fria. Nada de anormal neste tempo de microclima penicheiro. A humidade que os deuses sopram do mar, a norte ou a sul do Cabo Carvoeiro tanto faz, aconselha a vestir algo mais que uma simples camisa de manga curta. O céu totalmente tapado, pelas nuvens de uma frente, ameaça manter-se, a não ser que a nortada habitual acorde e ao espreguiçar-se afaste dos céus este manto compacto e cinzentão de nuvens.

De resto tudo igual ao passado recente. Não vê televisão. Na rádio só a Antena2. Mesmo esta rádio quando dá notícias sobre a guerra, desliga-a. Na verdade a guerra ainda o isolou mais na outra margem, onde vive e caminha com a sua pequena mas constante loucura silenciosa. A ausência é a sua companhia virtual.

Não se quer imiscuir nas "faladuras" sobre os incêndios. Não sendo especialista incendiário, abstem-se de opinar. As causas são conhecidas de todos, os que ainda pensam com seus neurónios saudáveis. Os interesses à volta dos incêndios igualmente conhecidos, assim como, a fraqueza dos políticos que no calor das chamas prometem reformas que nunca realizam por falta de coragem em tomar decisões que levem o país a enfrentar os empreendedores do negócio sazonal de rendimentos garantidos.

2017 foi um ano terrível de incêndios e mortes. Quando nesse ano deslizava pela A23 a caminho do seu interior raiano, ao passar Abrantes foi desviado para estrada secundária, por a autoestrada estar cortada por incêndio que já andava à solta no concelho de Mação. Foi apanhar o IP2 perto de Nisa e entrou na A23 no Fratel. Quando passou sobre o viaduto que existe depois da saída para Proença a Nova, novo fogo começava com a chamas a voarem alto. Incêndio que por vales e montes consumiu mato, estevas, pinheiros, eucaliptos e tudo o que encontrou à sua frente passando inclusive o Rio Tejo para a margem esquerda. Vieram bombeiros de Espanha ajudar ao combate do maldito fogo que durou dias sem conto. Neste tempo havia um Ministro do Ambiente que gostava de dizer coisas, brotando faladura de promessas várias. Igualmente havia um velho Ministro da Agricultura que nos anos muitos de ministro, as suas medidas apontavam sempre para a existência de fundos a que proprietários e agricultores poderiam recorrer. Só promessas que beneficiam meia dúzia de empresas de consultadoria e o sistema bancário. Também existiram muitos ecologistas, de ar condicionado, que empunhavam bandeiras de ódio contra o eucalipto e o pinheiro. Todos, políticos, ecologistas e "paineleiros televisivos”, de acordo, era necessário fazer a reforma da floresta. Reforma que começaria pela elaboração, mais uma vez, do cadastro (já antes prometido). O Planeta no seu constante movimento de rotação sobre si mesmo fez passar dias, meses e anos, sem que o país conhecesse o tal cadastro. Ele nas suas muitas viagens pela A23 foi e vai constatando que o pouco que se fez foi plantação de eucaliptos australianos. Nada tem contra a árvore eucalipto. Gosta de inspirar o odor que os mesmos libertam.

Hoje como em 2017 continua convicto que a culpa dos incêndios não é do eucalipto e muito menos do pinheiro. Ninguém conhece uma árvore que se incendeia a si própria. Depois, naqueles vales profundos e montes que ladeiam a A23 que outro rendimento mais fácil podem os seus proprietários obter das suas terras? A culpa dos incêndios é do ser humano, muito facilitada pelas políticas liberais que vêm sendo tomadas num granel avulso sem nexo nem visão de futuro, por uma decadente e muito onerosa corte em Bruxelas, para os países da bacia do Mediterrâneo europeu.

A sua máquina de comunicação tem a bateria com fome. Vai voltar à leitura enquanto a máquina carrega a sua bateria de lítio.

22.07.19

 

Que faz ele por aqui? Questiona-se. Cansado, desiludido deixa-se cair. Acorda. Levanta-se e olha-se ao espelho. A água fria desperta-o. Sorri para quem está no espelho. Veste-se e sai caminhando. Desistir é proibido. A vida é a luta mais constante de todas as outras.

22.07.17

 

Acordou. Ao por os pés no chão sentiu o corpo mole. Raras são estas situações, em que lhe apetece ficar deitado mais um pouco. Pela primeira vez nestes quatro anos e meio a Sacha não estava deitada junto à porta que dá para os quartos. Estranhou. Encontrou-a deitada junto aos estores da varanda, que virada a nordeste é de madrugada o local onde a aragem se sente mais fresca. Saíram e ele deixou-se conduzir pela vontade da sua amiga. Foi ela que conduziu a volta matinal. Depois de uns dias de forte calor, a manhã apresentou-se fresca à moda de Verão.

Quando se lavava, olhou-se nos olhos e recordou o seu pai. E, porque o movimento de rotação do planeta é constante sem darmos conta que estamos rodando, já passaram seis anos e um mês. Sorriu ao recordar uma das sovas que o pai lhe deu. Não foram muitas, mas todas tiveram resultados positivos posteriores.

Naquele tempo, andava ele no segundo ano do ciclo preparatório na Escola em Peniche. Todos os meses, desde que começavam as aulas, realizavam testes para atribuição de notas, nas diversas disciplinas. No primeiro teste de matemática, numa classificação de zero a vinte, tirou um medíocre, salvo erro um oito. No segundo teste a matemática, já a viver no Lugar da Estrada a nota piorou. Quando apresentou o teste, com o M de mau, ao pai para assinar, este ralhou com ele. Ao dizer ao pai que não queria estudar, que queria ser ciclista, o pai chegou-lhe a roupa ao pelo, forte e feio. Ao deitar-se ainda soluçava. Na manhã seguinte quando a mãe o acordou para se levantar, não queria ir para a escola. A mãe pediu ajuda ao irmão, os dois vestiram-no e ajudaram-no a subir para a sua bicicleta com o irmão a empurrá-lo até chegarem à Escola. No último teste a matemática daquele primeiro período, tirou um Muito Bom, dezoito ou dezanove. Olha-se nos olhos sorrindo para a imagem que guarda do seu pai, agradecendo-lhe tudo o que fez por ele e por eles, os dois irmãos que não sendo gémeos, nasceram no mesmo ano, num pequeno quarto da cidade grande que seus pais tinham alugado, em casa de uma família.

Ao caminhar conduzido pela sua amiga, abre gavetas antigas, fecha umas e outras deixa-as abertas como forma de, ao ler essas recordações, exercitar o seu cérebro para que o mesmo se possa manter vivo. Tem medo que um dia ele, cérebro, possa gripar, deixando-o totalmente perdido no meio da multidão

18.07.22

Perdido no meio da multidão continua caminhando. Olha ao seu redor. Procura entender os porquês. Só ouve os lamúrios do silêncio. Não os entende. Olha de novo e só vê um vácuo escuro e pegajoso. Caminha mais apressado. Procura distanciar-se, perdido que caminha no meio da multidão.

Por onde andarão os sonhos de uma sociedade diferente. Caminha, passo a passo, na busca que seus dias sejam curtos para que possam ser muitos, intercalados com dias longos, que lhe permitam aprender a ser velho, a entender os outros, perdido que caminha no meio da multidão. Leva consigo a ausência, sua companhia dos últimos anos.

22.07.14

 

Como é seu hábito levantou-se cedo. A noite acabava de dar as boas vindas ao novo dia. Na casa de banho, utilizando o seu pequeno aparelho de comunicação, olhou as primeiras páginas dos jornais diários. De seguida, abriu as janelas do apartamento para entrar um pouco da fraca aragem matinal. Olhou o céu e viu-o cinzento ameaçador. Lavou-se, fez a cama e saiu com a sua amiga Sacha para o passeio matinal dos dois. Nestes dias de temperaturas bastante elevadas, vai mais cedo para a volta matinal, para que a sua amiga não sofra muito com o calor.

Regressaram e antes do habito diário de lhe limpar as patas, fechou a janela da varanda. Dada a ração matinal aos animais, preparou o pequeno almoço com fatias do pão que trouxe da Zebreira e enquanto torravam, mediu a pressão arterial (104 -52) que continua baixa. Tem alturas em que lhe apetece deixar de tomar os comprimidos. De seguida observou o estado dos vários vasos de plantas e regou os que apresentavam menor sinal de humidade na terra. Na varanda cuidou dos tomateiros(tomate cereja). Aparou depois a barba antes de tomar banho e resolveu sair. Tomou as chaves e os documentos do carro e partiu em busca da ausência.

Rolou serenamente A1 em direção à cidade grande. Não se aborreceu com o para arranca existente na 2ª circular entre o Aeroporto e o Campo Grande. Em Benfica decidiu ir pela CRIL em vez de subir a Monsanto para entrar na A5. Fez a CRIL até Algés e depois a Marginal calmamente com atenção aos sinais e veraneantes das praias da linha. A velocidade a que seguia deu para ver a praia de Santo Amaro de Oeiras assim como a de Carcavelos cheias não só de pessoas mas muito de grupos de crianças que pelos colégios e outras organizações vão com os seus monitores à praia enquanto os pais estarão a trabalhar. No destino não encontrou logo lugar para estacionar. Sem se aborrecer procurou e um pouco mais afastado encontrou. Seguiu a pé pelas ruas. Conheceu vários condomínios, muito ao gosto de determinada franja da classe média, a que ele gosta mais de chamar média burguesia. Pouca gente a andar a pé pelas ruas, sendo o transito dos carros constante. O tempo apresentava-se fresco. Depois de dias muito quentes, soube-lhe bem o andar a pé sentido a frescura da manhã. Olhou as janelas dos prédios. Umas totalmente fechadas e outras meio abertas. Junto à porta do edifício procurou ver o sentido das escadas. Abriu o aparelho de comunicação para consultar a sua memória auxiliar. Tocou a campainha no número certo. De imediato a luz da câmara do circuito interno se acendeu. Aguardou mas não ouve sinal algum. Tudo iria continuar ausente. Se a ausência o viu pelo ecrã do sistema do prédio existente no seu apartamento, não se quis dar a conhecer. Não insistiu. Esperou um sinal que não chegou. Foi em busca da ausência e voltou com a ausência como companhia.

22.07.13

Desde que chegou em 2012 quase todos os dias passava por ela. No Outono enchia-se de cor para se despir lentamente das suas folhas. Hibernava, aguardando os sinais da Primavera para desabrochar e voltar a sorrir frondosa na sua folhagem.

Não sabe se já estaria doente. Não tem conhecimentos para tal. Nem tão pouco a vida stressada, da cidade dormitório da cidade grande, lhe permitia ouvir as conversas entre ela e as suas vizinhas, assim como, entre elas e o vento. No final da tarde do dia anterior, notou mais folhas de todas as árvores no chão. Normal face à vaga de calor que chegou. Ontem o coração bateu dorido ao vê-la despida de folhas. Não aguentou ou desistiu de viver, apresentando-se triste e dorida.

Não é a única que neste ano, nos seus itinerários, vê morrer lentamente. As outras por incúria direta de obras públicas, sem que o pessoal quer da Junta de Freguesia, quer do Município tenham tido qualquer ação ou intervenção fiscalizadora que se notasse. Mas este plátano não resistiu ao calor destes dias. Ali vai ficar até que um dia alguém das autarquias se lembre dele quando já não existir outra solução que não seja o abate.

Os problemas e as doenças do Estado não estão apenas na centralização do poder em Lisboa. Não é localização a doença mais grave. As doenças do Estado têm origem na falta de capacidade e de competência dos governantes que por lá andam. Doenças contagiosas essas, que se estenderam rapidamente aos poderes autárquicos municipais.

Realizam estes últimos obras bonitas de fachada, quase sempre para enaltecer o ego do sr. Presidente Municipal. Depois de fixada a placa comemorativa e dos vivas e parabéns dados pelo seus apaniguados, tudo é esquecido, abandonado sem manutenção pelo sistema que os alimenta e controla nossas vidas.

Sistema, que dizendo-se de direita, do centro esquerda, do centro direita ou de esquerda, aplica e esbanja na gestão pública os princípios liberais e neoliberais que burocratas nos corredores em Bruxelas, impõem como ferramentas de gestão.

Os censos dizem que o país está perdendo população residente. Mas o Estado em sentido amplo, mesmo abstraindo as despesas com o SNS e a Educação, não deixa de engordar em despesa com pessoal, em prestações de serviços com pessoal, subcontratação de serviços e estudos que já foram estudados e reestudados anteriormente.

O parlamento que deveria controlar a atividade do governo limita-se na generalidade a votar propostas e leis quantas vezes elaboradas por gabinetes externos em subcontratação de serviços; os tais “pedido de parecer” elaborados em adjudicação direta a gabinetes externos onde há sempre amigos do “centrão” prontos a colaborar. Pareceres elaborados e feitos à medida da ocasião, que custam os olhos da cara ao país.

A cada dia que o tempo passa se sente mais convicto de ser absolutamente contra qualquer regionalização do país.

Anda no ar o cheiro a queimado… 

 

22.07.11

 

Com o passar constante do tempo, acumulando anos de vida, sente-se cada vez mais longe do tradicional rebanho da grande maioria. É um tresmalhado, que já atravessou o deserto, mas não se consegue integrar na sociedade atual, caminhando assim, de forma consciente, na outra margem da vida.

Tenta compreender o tempo de agora, mas sente-se impotente para o entender.

Nasceu no final do ano de 1950. É um fruto da geração de sessenta. Geração que pôs em causa todas as tradições, todos os tabus vigentes à época. Tradições e tabus que estavam protegidos pelas diversas forças conservadoras da sociedade dos "brandos costumes, públicas virtudes''.

No final dos anos sessenta, despertou e descarrilou acreditando e alimentando como possíveis de realizar alguma das utopias de então. Foi nessa época que se tresmalhou da maioria, passando a olhar o mundo com outros olhos, a ouvir não só e apenas o que o pensamento único difundia como verdade oficial. A dialética acompanha-o até hoje, recusando-se a integrar o atual rebanho da grande maioria.

Não tem saudades desses tempos de luta contra o sistema político Salazarista, nem contra os tradicionais usos e costumes. Recorda os avanços alcançados, mas não esquece o outro lado negro da vida, da inexistência de direitos, da exploração esclavagista em muitos trabalhos, dos bairros de lata à volta das cidades, das imensas numerosas famílias dependentes da caridade alheia. De que, quase tudo era proibido, era pecado. Tanta coisa má existia que não pode ter saudade desse tempo da sua juventude.

Ainda hoje, como no final de sessenta e mesmo na década de setenta, é incapaz de olhar para um mosteiro, um palácio e não pensar nos desgraçados que os construíram, de quantos terão morrido na sua construção, ou mesmo, quantas criadas e criados não sofreram as sevícias dos senhores doutores, barões e baronesas. Dizem-lhe, com razão, que não pode pensar assim, que os tempos eram outros. Contudo, sabendo que é verdade o que lhe dizem, não consegue desligar o fusível dessa cadeia de pensamento.

A "ordem democrática", copiada de um tal primeiro mundo, imposta em Novembro como encerramento da festa em Liberdade dada em Abril, tem vindo com pezinhos de lã restabelecendo muitos dos costumes e tradições que integravam os antigos "brandos costumes, públicas virtudes". Agora em novas versões mais soft.

Há na Europa uma guerra fratricida entre vizinhos com ingerências de outros países, que está trazendo dificuldades acrescidas a todas as famílias europeias. Já não se importa que alguns autodenominados democratas de esquerda, o acusem ou classifiquem de “putinista”. Ao ler tais comentários às suas publicações sobre a guerra, sobre os efeitos colaterais e possíveis consequências da mesma, sorri com os seus botões quando algum o critica indiciando ser ele um apoiante de Putin. Deixa-os pousar. Não dá troco. Cada um é livre de expressar o seu pensamento.

Recorda aquela tarde no Leste de Angola, quando o Major do Batalhão a que pertencia o chamou à CCS, para o avisar, que se tinha de pôr a pau, que o médico era um PIDE que o queria "foder". Major, que ao devolver-lhe os livros que tinham ido buscar ao fundo da sua mala, quando ele estava ausente numa operação de cinco dias, ao entregar-lhe o livro "O Volga Desagua no Mar Cáspio" lhe disse, que o mesmo era reacionário e revisionista. O livro comprado em 1971, à socapa da censura, numa livraria de Viana do Castelo, era e é uma crítica ao modelo soviético de então. Sempre alimentou muitas dúvidas sobre as aplicações e ações do regime soviético. Dúvidas que não lhe permitiram entrar quando o convidaram. Dúvidas que se confirmaram com o desmoronamento do regime e a ascensão ao poder de gente duvidosa. Putin, nunca o enganou, aquele seu ar gingão ao atravessar aqueles portões bordados a ouro, logo o avisaram que a personagem não seria de convidar para uma reunião de amigos. Mas o ditador Putin, não é o povo russo, assim como o outro ditador Salazar não foi o povo português. Os ditadores são sempre tristes imagens dos povos que pela força se dizem representantes. Putin, não é flor que se cheire ou se convide para uma reunião de amigos. Mas, ele é o Presidente eleito da Rússia. Se as eleições são viciadas ou não é o povo russo que tem de solucionar o sistema e não qualquer país ou organização exterior ao povo russo. Como eleito do povo russo, Putin, goste-se ou não se goste , tem a obrigação de defender os seus cidadãos e lutar pela sua integridade. O povo russo-ucraniano do leste da Ucrânia estava desde o golpe de Estado de 2014 a ser bombardeado e dizimado pelas forças ucranianas apoiados em forças de milícias nazis financiadas e treinadas por militares do ocidente. A guerra fratricida em curso tem causas, como todas as guerras. Putin mandou as forças armadas russas invadirem a Ucrânia para se defender do avanço da outra força agressiva que se preparava para reconquistar a Crimeia e dizimar os separatistas do Donbas que dias antes da guerra tinha declarado unilateralmente e independência de Donetsh e Luhansk. Enquanto se preparava para a invasão tentou o dialogo com o ocidente que lhe fez orelhas moucas.

Ele que viveu intensamente o período da revolução em festa até 1979, conheceu alguns falsos e outros ditos revolucionários que após o restabelecimento da chamada “ordem democrática” se passaram de armas e bagagens para os braços e tentáculos do “centrão” político. Para ele não é pois novidade ver essa gente nos canais televisivos a destilarem a versão oficial do pensamento único vigente, mais do que nunca aliado segundo os padrões definido pelos falcões americanos e seus súbditos em Bruxelas. Toda e qualquer guerra, dure o tempo que durar, só tem como alternativa o estabelecimento da paz, por acordo das partes em conflito ou pela capitulação de um dos intervenientes.

Recorda na sua juventude as manifestações, os comunicados subversivos difundidos à revelia da policia política, contra a guerra fosse ela em África (Angola, Guiné e Moçambique), fosse no Vietname. Foi a sua juventude solidária e defensora da Paz entre povos e cidadãos.

Caminhando na outra margem da vida, desconhece a existência de movimentos jovens que se manifestem contra os EUA-NATO, contra a Rússia, pela Paz na Ucrânia. O movimento das bandeirinhas azuis e amarelas pareceu-lhe ser muito mais dos antigos ditos e falsos revolucionários convertidos em democratas de esquerda liberais, do que de organizações políticas de jovens autónomas de partidos políticos.

O futuro apresenta-se como nunca incerto, carregado de nuvens escuras cheias de dificuldades, mas sucedem-se festivais de música esgotados por uma juventude que gosta de consumir sem se preocupar com o amanhã, que decerto será bem mais difícil que o presente.