Com o
passar constante do tempo, acumulando anos de vida, sente-se cada vez
mais longe do tradicional rebanho da grande maioria. É um
tresmalhado, que já atravessou o deserto, mas não se consegue
integrar na sociedade atual, caminhando assim, de forma consciente,
na outra margem da vida.
Tenta
compreender o tempo de agora, mas sente-se impotente para o entender.
Nasceu
no final do ano de 1950. É um fruto da geração de sessenta.
Geração que pôs em causa todas as tradições, todos os tabus
vigentes à época. Tradições e tabus que estavam protegidos pelas
diversas forças conservadoras da sociedade dos "brandos
costumes, públicas virtudes''.
No
final dos anos sessenta, despertou e descarrilou acreditando e
alimentando como possíveis de realizar alguma das utopias de então.
Foi nessa época que se tresmalhou da maioria, passando a olhar o
mundo com outros olhos, a ouvir não só e apenas o que o pensamento
único difundia como verdade oficial. A dialética acompanha-o até
hoje, recusando-se a integrar o atual rebanho da grande maioria.
Não
tem saudades desses tempos de luta contra o sistema político
Salazarista, nem contra os tradicionais usos e costumes. Recorda os
avanços alcançados, mas não esquece o outro lado negro da vida, da
inexistência de direitos, da exploração esclavagista em muitos
trabalhos, dos bairros de lata à volta das cidades, das imensas
numerosas famílias dependentes da caridade alheia. De que, quase
tudo era proibido, era pecado. Tanta coisa má existia que não pode
ter saudade desse tempo da sua juventude.
Ainda
hoje, como no final de sessenta e mesmo na década de setenta, é
incapaz de olhar para um mosteiro, um palácio e não pensar nos
desgraçados que os construíram, de quantos terão morrido na sua
construção, ou mesmo, quantas criadas e criados não sofreram as
sevícias dos senhores doutores, barões e baronesas. Dizem-lhe, com
razão, que não pode pensar assim, que os tempos eram outros.
Contudo, sabendo que é verdade o que lhe dizem, não consegue
desligar o fusível dessa cadeia de pensamento.
A
"ordem democrática", copiada de um tal primeiro mundo,
imposta em Novembro como encerramento da festa em Liberdade dada em
Abril, tem vindo com pezinhos de lã restabelecendo muitos dos
costumes e tradições que integravam os antigos "brandos
costumes, públicas virtudes". Agora em novas versões mais
soft.
Há
na Europa uma guerra fratricida entre vizinhos com ingerências de
outros países, que está trazendo dificuldades acrescidas a todas as
famílias europeias. Já não se importa que alguns autodenominados democratas de esquerda, o acusem ou classifiquem de “putinista”.
Ao ler tais comentários às suas publicações sobre a guerra, sobre
os efeitos colaterais e possíveis consequências da mesma, sorri com
os seus botões quando algum o critica indiciando ser ele um apoiante
de Putin. Deixa-os pousar. Não dá troco. Cada um é livre de
expressar o seu pensamento.
Recorda
aquela tarde no Leste de Angola, quando o Major do Batalhão a que
pertencia o chamou à CCS, para o avisar, que se tinha de pôr a pau,
que o médico era um PIDE que o queria "foder". Major, que
ao devolver-lhe os livros que tinham ido buscar ao fundo da sua mala,
quando ele estava ausente numa operação de cinco dias, ao
entregar-lhe o livro "O Volga Desagua no Mar Cáspio" lhe
disse, que o mesmo era reacionário e revisionista. O livro comprado
em 1971, à socapa da censura, numa livraria de Viana do Castelo, era
e é uma crítica ao modelo soviético de então. Sempre alimentou
muitas dúvidas sobre as aplicações e ações do regime soviético.
Dúvidas que não lhe permitiram entrar quando o convidaram. Dúvidas
que se confirmaram com o desmoronamento do regime e a ascensão ao
poder de gente duvidosa. Putin, nunca o enganou, aquele seu ar gingão
ao atravessar aqueles portões bordados a ouro, logo o avisaram que a
personagem não seria de convidar para uma reunião de amigos. Mas o
ditador Putin, não é o povo russo, assim como o outro ditador
Salazar não foi o povo português. Os ditadores são sempre tristes
imagens dos povos que pela força se dizem representantes. Putin, não
é flor que se cheire ou se convide para uma reunião de amigos. Mas,
ele é o Presidente eleito da Rússia. Se as eleições são viciadas
ou não é o povo russo que tem de solucionar o sistema e não
qualquer país ou organização exterior ao povo russo. Como eleito
do povo russo, Putin, goste-se ou não se goste , tem a obrigação
de defender os seus cidadãos e lutar pela sua integridade. O povo
russo-ucraniano do leste da Ucrânia estava desde o golpe de Estado
de 2014 a ser bombardeado e dizimado pelas forças ucranianas
apoiados em forças de milícias nazis financiadas e treinadas por
militares do ocidente. A guerra fratricida em curso tem causas, como
todas as guerras. Putin mandou as forças armadas russas invadirem a
Ucrânia para se defender do avanço da outra força agressiva que se
preparava para reconquistar a Crimeia e dizimar os separatistas do
Donbas que dias antes da guerra tinha declarado unilateralmente e
independência de Donetsh e Luhansk. Enquanto se preparava para a
invasão tentou o dialogo com o ocidente que lhe fez orelhas moucas.
Ele
que viveu intensamente o período da revolução em festa até 1979,
conheceu alguns falsos e outros ditos revolucionários que após o
restabelecimento da chamada “ordem democrática” se passaram de
armas e bagagens para os braços e tentáculos do “centrão”
político. Para ele não é pois novidade ver essa gente nos canais
televisivos a destilarem a versão oficial do pensamento único
vigente, mais do que nunca aliado segundo os padrões definido pelos
falcões americanos e seus súbditos em Bruxelas. Toda e qualquer
guerra, dure o tempo que durar, só tem como alternativa o
estabelecimento da paz, por acordo das partes em conflito ou pela
capitulação de um dos intervenientes.
Recorda
na sua juventude as manifestações, os comunicados subversivos
difundidos à revelia da policia política, contra a guerra fosse ela
em África (Angola, Guiné e Moçambique), fosse no Vietname. Foi a
sua juventude solidária e defensora da Paz entre povos e cidadãos.
Caminhando
na outra margem da vida, desconhece a existência de movimentos
jovens que se manifestem contra os EUA-NATO, contra a Rússia, pela
Paz na Ucrânia. O movimento das bandeirinhas azuis e amarelas
pareceu-lhe ser muito mais dos antigos ditos e falsos revolucionários
convertidos em democratas de esquerda liberais, do que de
organizações políticas de jovens autónomas de partidos políticos.
O
futuro apresenta-se como nunca incerto, carregado de nuvens escuras
cheias de dificuldades, mas sucedem-se festivais de música esgotados
por uma juventude que gosta de consumir sem se preocupar com o
amanhã, que decerto será bem mais difícil que o presente.