quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

22.09.10

 

Se cá estivesses iríamos às Termas de Monfortinho comer um bacalhau à Brás que tanto gostavas. Assim, sozinho na companhia da tua memória, irei cozinhar um bacalhau à Gomes de Sá e uma baba de camelo que adoravas, para na tua nossa casa, nos sentarmos à mesa os dois, e, sem bolos nem velhinhas celebrarmos o dia do teu nascimento há noventa e nove anos em Segura, segundo a tua mãe te disse e que tu nos transmitiste. Dia que não é o dia em que um burocrata do sistema "quero posso e mando" de então, achou por bem registar nos documentos oficiais.

Datas, memórias que perduram no tempo, que em silêncio se recordam com amor, já que saudades só tenho do futuro, cada dia mais incerto de um horizonte carregado de nuvens negras ameaçadoras da Paz, mas nem por isso o meu desejo de conhecer o futuro diminui a vontade de viver.

Enquanto puder e a memória mostrar sinais de saúde cá estarei para com a tua memória partilharmos este teu dia, Pai.

Esta manhã à secretária olhava pela janela do sótão ao mesmo tempo que procurava organizar as fotos que por cá encontrei mais as que por cá fui deixando, e perdi-me em memórias. Tenho que organizá-las escrevendo o que ainda for capaz de fazer.

Sabes, a tua bisneta de treze anos, quando lhe enviei o que escrevi inicialmente por mensagem sobre este teu dia, respondeu-me assim:

"-Todos sentimos muito a falta dele, parabéns Avô, para o ano ele completará um século neste mundo, uma data que devemos guardar com carinho"

É muito linda a tua bisneta. Um orgulho que me leva a sorrir sempre que releio a sua resposta.

22.09.08

 

Depois de começar a semana a visitar a Feira do Livro de Lisboa acompanhado da neta mais velha nos seus ainda treze anos, de ir olhar o mar no Oeste Penicheiro na companhia de um casal amigo emigrado no Canadá, de ir à consulta semestral de controle do indicador "psa" no HVFX, colocou a Citroën em marcha viajando até ao seu canto raiano. Mais uma viagem, no seu passo sem pressa não andando devagar.

Passa ao lado do ruído gerado por enunciadas medidas governamentais sobre a atual situação económica e social das famílias.

Passa ao lado porque não acredita que a amizade possa ser fator de competência. Ora o atual governo de maioria é um palácio onde predominam amigos fiéis ao chefe e alguns previsíveis oposicionistas internos, sendo que o lugar do mais importante Ministério desta filial da UE, foi dado a um amigo fiel ao chefe. Amigo que por onde passou na sua longa vida política governativa deixou rabos de palha mal esclarecidos. Foi medíocre como secretário de estado da indústria no segundo governo de Sócrates (acompanhou o ministro do primeiro para o segundo governo); por amizades e compadrio passou depois como presidente do maior e mais importante Município com uma nota de sofrível (tais os rabos de palha que gerou), para depois de perder eleição para um Moedas sem cotação cambial, é nomeado ministro das finanças por vontade do chefe que vê nele um "yes chefe", para o cumprimento das ordens emanadas por burocratas neoliberais em Bruxelas, eles próprios representantes submissos dos falcões imperialistas na outra margem do oceano Atlântico.

Como há muito deixei de cantar "cá vamos cantando e rindo" pouco ou nada espero de bom da gente que governando o país nos leva cantando e rindo para o empobrecimento coletivo. Caminhando na outra margem penso: no tempo da noite negra salazarenta o virtual Império tinha como "donos" uma meia dúzia de famílias que viviam anafadamente à sombra do chapéu corporativista da lei do condicionamento industrial salazarenta, e, agora quantas são de novo as famílias donas deste retângulo a beira mar numa democracia novembrista boa aluna do liberalismo bruxeliano, onde os brandos costumes e as públicas virtudes do pensamento único de outrora estão de novo em alta. Serão meia dúzia ou uma dezena, nelas incluindo algumas ordens profissionais corporativistas?

22.09.02

 

Sou cidadão do Regime Geral da Segurança Social, como tal a minha médica de família, uma jovem, como gosto e prefiro, mandou-me fazer mais um exame ao coração. Quando realizei o ecocardiograma o médico que o realizou disse-me que havia uma pequena fuga nada de importante. A minha médica não ficou contente e prescreveu um holter. Ao procurar marcar nas clínicas onde fiz outros exames a resposta era sempre a mesma, "esse exame não é comparticipado" ou "de momento não fazemos". Lá encontrei onde o fazer pagando-o do meu bolso.

Hoje é um exame, amanhã é outro, em paralelo a comparticipação pública nos medicamentos a cada revisão diminui, assim passo a passo o cidadão que não tem seguro de doença, que pertence unicamente ao Regime Geral vai ficando mais pobre com muitos a ficarem depenados.

Não é só nos hospitais que o Grande SNS é lentamente desprezado pelos governantes, também os cidadãos utentes do Regime Geral o são, desprezados e ignorados, porque é no Regime Geral que se encontra a maioria da população que mais dependem da assistência da saúde pública. Não são os 50€ que paguei que me criam revolta, porque posso pagá-los, mas penso nos milhares e milhares de cidadãos do Regime Geral que têm pensões abaixo dos 600€ mês e não podem facilmente dispor de dinheiro para pagar um exame que a médica do SNS prescreveu. Que alternativa têm senão esperar meses a fio por uma vaga num instituto público que realize o mesmo comparticipado pela Segurança Social. Depois dizem-nos que as doenças do coração são as mais mortíferas no nosso país.

É o que temos, havendo sempre milhões de euros para salvar bancos dos erros e trafulhices de banqueiros e políticos, ao mesmo tempo que os milhões de acréscimo nas despesas da saúde, orçamentadas no O.E. são na grande maioria desviados para pagar serviços aos agentes privados da saúde, incluindo nestes as terríveis empresas de trabalho temporário que cedem médicos ao SNS.

Antes de ter médico de família, encontrei numa consulta no Centro de Saúde uma médica nos seus quarenta anos. Tinha trabalhado na ARSLVT num centro de saúde. Com o trabalho de horas normais, mais horas extras, fins de semana em urgências, via a sua conta bancária ser creditada em pouco mais de dois mil euros. Cansou-se e saiu da função pública, inscrevendo-se numa empresa de prestação de serviços de saúde (as tais de trabalho temporário). Passou a fazer o horário normal, passou a ter os fins de semana livre e uma vez ou outras faz umas horas extra. No fim a conta bancária é abona à volta dos quatro mil euros.

É esta a gestão que governantes submissos aos interesses liberais e neoliberais de Bruxelas, tem paulatinamente seguido na degradação lenta mas constante da Grande Conquista que Abril deu aos portugueses, contra a vontade das forças políticas que não defende um Estado Social como alavanca do bem estar social dos seus cidadãos. Infelizmente

22.09.01

 

Tenho consciência que o Estado tem necessidade do cobrar impostos e taxas para a prestação aos cidadãos de serviços públicos fundamentais. A aplicação que o Estado faz desses impostos e taxas é outro assunto, outra coisa.

Não há muito tempo ouvi um ruído grande na comunicação social por um gestor de uma empresa que comercializa eletricidade ter afirmado que o preço da eletricidade iria aumentar cerca de 40% (salvo erro).

Ruído que levou o triste primeiro ministro a afirmar que as faturas dessa entidade passariam a ser visadas por um secretário de estado.

Pensei, na altura, quão triste é o meu país. Então, é necessário um secretário de estado específico para visar as faturas de energia?

Então, o senhor primeiro ministro não confia na honestidade e seriedade dos funcionários públicos competentes que fazem até ao momento o controle das faturas nos diversos organismos do Estado, assim como nos seus Chefes de Serviço e Direções? É preciso um secretário de estado?

Os corredores de Bruxelas têm-lhe feito muito mal, senhor primeiro ministro.

Tudo para nos venderem a ilusão que o custo da energia que se consome nas nossas casas não iria aumentar pelo brilhante trabalho feito em Bruxelas pelos governos de Espanha e de Portugal se bem que na verdade o nosso governo foi mais a reboque do espanhol do que ao lado.

Face a essa brilhante vitória alcançada em Bruxelas, os governos peninsulares acordaram na criação de um mecanismo excecional, que designaram por MIBEL, que no nosso país foi publicado no Diário da República, 1.ª série Nº 93-A de 14 de Maio – Decreto-Lei nº 33/2022.

Ao conferir a fatura do fornecedor de eletricidade o “mecanismo excecional” é suportado pelo consumidor e corresponde a um acréscimo significativo do custo da energia, no caso para um

Custo de energia consumida a 0,2496€/kwh,

suporto um ajuste MIBEL de 0,130993€/kwh

ou seja suporto um aumento no custo da energia não de 40% mas de uns módicos 52,476% na fatura do custo energia/kwh.

Aumento este imposto pelo governo aos seus cidadãos e não pelas empresas que fornecem energia. Tudo claro, tudo limpinho. No lucro das empresas não se mexe. Mas na carteira do consumidor é outra festa, não é senhor primeiro ministro?

E como na introdução do Decreto-Lei se diz que a causa próxima do mesmo é o conflito armado na Ucrânia, já percebi pela viagem que o nosso ministro dos negócios estrangeiros fez à Ucrânia que vou pagar os camuflados e quicos oferecidos às forças armadas da Ucrânia.

Quando fui militar a farda e as botas foram-me descontadas no pré que me davam. Agora, passado cinquenta anos vou pagar camuflados e quicos a outros, voltando a não ser ouvido.

Venha o gás, que o povo é sereno e tudo aguenta contentando-se em fazer barulho nas redes sociais, chamando nomes feios aos políticos, metendo-os todos no mesmo saco para satisfação dos velhos «saudosistas salazarentos», com muitos dos “auto intitulados democratas” a dizerem que a culpa dos «saudosistas salazarentos» estarem em crescimento é dos outros, dos que nunca foram governo.

22-08.25

 

A guerra na Ucrânia, os incêndios, a falta de médicos no SNS, as eleições em Angola independente, o país está a banhos com anúncios de aumento do gás. É o receituário prescrito diariamente, hora a hora, por jornalistas a soldo dos objetivos de quem lhes paga o ordenado; em vez de notícias que comprovem o caminho do país para o prometido bem estar económico e social do paraíso eternamente adiado, só nos servem a guerra, os incêndios, a falta de médicos no SNS e as eleições em Angola. Que caminho tão longo e espinhoso este que carregamos…

Nada se pode criticar, porque não há melhor que a democracia à moda do ocidente, dizem-nos. Pouco mais resta nesta democracia que a liberdade de expressão, de se poder dizer todas as asneiras e mais algumas alarvices sem medo de ser preso por se por em causa a segurança e os bons costumes e publicas virtudes do Estado, todo o resto vai sendo parametrizado não só por leis, decretos, portarias e até despachos de uma qualquer subdiretora das finanças, como também por uma comunicação social de pensamento único e servil aos interesses ocultos que definem quem são os bons e quem são os maus, sem lugar ao contraditório.

Se falas contra a guerra que ocorre na Ucrânia, és putinista. Tu que na tua juventude te manifestavas contra a existência dos blocos militares, contra a Nato e contra o Pacto de Varsóvia (felizmente extinto), não podes agora estar contra a existência do braço armado do imperialismo americano, sob a sigla de Nato. Se o fizeres logo aparece que tem designe de putinista, te mande ir viver para a Rússia, como se tu não conhecesses o que é viver sob uma ditadura feroz asfixiante durante quase vinte e quatro anos da tua juventude.

Se críticas o modelo do capitalismo consumista, que tantas desigualdades gera, tanta fome espalha e tantas duvidas levanta sobre o ambiente, és um perigoso elemento de esquerda radical ortodoxa fazendo o jogo da extrema direita.

Não te seguem com uns sabujos de gabardina, chapéu e óculos escuros como os que se mostravam antigamente na Rotunda do Batista Russo quando jovem ias apanhar o comboio ao apeadeiro de Cabo Ruivo, ou como quando um dia faltaste às aulas e foste ao cinema Império ver a última sessão do “O Homem de Kiev” e ele lá estava por detrás dos reposteiros o sabujo de gabardina, chapéu e óculos escuros a barra-te a entrada para lhe depositares na mão o teu bilhete de identidade. Hoje não precisam de se mostrarem de gabardina, chapéu e óculos escuros, hoje andam ocultos pelas redes sociais por vezes disfarçados de algoritmos, outras nem tanto. Seguem-te nas redes sociais, não vá o sistema de vigilância, o grande «big brother», que regista os teus passos com câmaras de filmar em todas as esquinas das cidades, em todos os controles de via verde nas auto estradas, nas faturas da bica ou do papel higiénico que pedes na pastelaria ou no minimercado da tua rua, esquecerem-se de seguir os teus pensamentos, os teus gostos que sem medo expões seja pelo computador seja pelo pequeno aparelho de comunicação que usas. Tu sabes e eles sabem pois tudo fica gravado e guardado nas nuvens tecnológicas que os poderosos criaram. Eles vigiam, eles sabem, eles estão atentos, eles se julgam a si próprios os únicos defensores da vida em democracia e dos valores(?) do ocidente, muito mais do que aqueles que se recusam a ver a vida a preto e branco, que como tu se recusam a alinhar com a multidão sentados em bons sofás a ouvirem e verem televisão como fonte da única verdade recusando-se a lerem livros e jornais em papel, a ouvirem outras vozes discordantes do pensamento único.

Serenamente, de ilusão em ilusão os homens da "nova ordem democrática" parametrizam-te a vida. Eles pouco se importam que tu cidadão anónimo passas passar fome ou frio, se o dinheiro do ordenado ou da pensão te chega apenas até ao dia quinze ou ao dia vinte, se os teus filhos gostam e querem estudar mais do que aquilo que o teu parco rendimento pode suportar, que tenhas ou não assistência na saúde como está consignado na Constituição e na lei do Serviço Nacional de Saúde. Eles falam mas pouco se importam. Lembram-se de ti de quatro em quatro anos ou quando por desavenças políticas nos fazem ir votar de novo nas mesmas escolhas políticas para nos governarem nos mesmos moldes, sendo que uns vaidosos mais neoliberais violam-te sem vaselina, enquanto que os outros vaidosos liberais vaidosos ao centro com tiques de esquerda, ao violarem-te usam cremes mais consentâneos com os as ordens que recebem dos burocratas de Bruxelas. Uns e outros depois de nos prometerem crescimento económico, de maiores oportunidades para todos, de nos quererem convencer que serão eles os únicos que nos podem levar pelo caminho do peregrino em direção ao paraíso, assim que cumpres o teu dever cívico do voto, quase de imediato te apresentam novas e espinhosas faturas a pagar, a suportar, para que possas continuar a ter esperança que um dia chegará para os teus vindouros possam viver no prometido paraíso que te parece não existir.

Foi assim com as privatizações de bens que foram nacionalizados após a tentativa de golpe de estado dos direitistas extremistas spinolistas. Prometeram-nos que privatizando bens públicos então nacionalizados, alguns essenciais à independência económica do país, iríamos não só amortizar a divida publica e ao mesmo tempo ter melhores preços e serviços. Promessas leva-as o vento, sempre os mais velhos nos ensinavam. A divida publica não para de aumentar, pois é necessário aos governantes manterem-nos na ilusão do modelo de vida consumista instituído, recorrendo para tal aos constantes empréstimos junto dos vampiros-abutres financeiros; quanto ao tão prometido mercado concorrencial que as privatizações iriam criar, a única constatação que conhecemos é que não há concorrência no nosso pobre país. Os gestores das grandes empresas que existem no mercado nacional fazem o que querem, perante o poder político que se tem mostrado não só com medo de atuar, como se mostra ineficaz, constituído que é por políticos submissos aos interesses do grande capital.

Mal vai o país quando se vem a publico anunciar que as faturas da energia de um operador qualquer passam a ser visadas por um qualquer secretário de estado. Como se não houvesse funcionários públicos com chefia e direção leais e competentes para conferirem faturas de energia. Que melhor prova de ignorância, de entendimento do que deve ser a gestão. Como se sentirão os funcionários públicos que antes da comunicação ao país exerciam o trabalho serio e competente de conferência das faturas da energia? Enquanto a maioria bate palmas a tão excelente ideia, caminha na outra margem sempre um pouco mais desiludido.

Se tiveres ainda memória poderás recordar que o país chegou a contrair empréstimo para comprar aviões para a sua Força Aérea adaptar no combate aos incêndios que logo depois de Abril começaram a ocorrer. Apodreceram os tais equipamentos suportados na sua compra por divida publica na base aérea do Montijo. Alguém da “nova era democrática” decidiu que o combate aos fogos florestais tinha de ser realizado por operadores privados e não pelo próprio Estado. Num tempo mais à frente após reunião de altos pensadores em Bruxelas alguém chega ao país trazendo a encomenda que era preciso diminuir o número e o peso do pessoal no Estado. Políticos competentes em fazerem os trabalhos de casa ditados por Bruxelas logo descobriram que se podiam extinguir as funções dos antigos funcionários públicos, de cantoneiros, de guardas florestais e de guarda-rios, diminuindo o número de funcionários para agradar aos amigos liberais em Bruxelas. Cantoneiros, pessoas que limpavam as bermas das estradas, cuidavam da saúde das muitas árvores que existiam ao longo das mesmas; guardas florestais que guardavam os pinhais, vivendo alguns em casas do Estado nos próprios pinhais. Pessoas que conheciam e cuidavam das florestas, conhecendo os donos de todos os terrenos circundantes aos próprios pinhais e eucaliptais; os guarda-rios olhavam pela boa manutenção dos cursos de água, conhecendo não só os proprietários dos terrenos como quem não cuidava convenientemente dos mesmos. Gente simples, de pouca formação literária mas com muito saber sobre a sua profissão e que custariam tostões ao Estado. Profissões que ao serem extintas deixaram ao deus dará as bermas das estadas, os pinhais e eucaliptais assim como os cursos de água existentes. Diminui o número de funcionários e subiu astronomicamente os gastos do Estado na contratação de empresas para a manutenção das bermas das estradas, ficando a floresta e os cursos de água entregues à bicharada. De tal modo assim é que governante após governante sempre depois da porta arrombada com mais uns grandes incêndios, vem falar em impor o cadastro atualizado de todos os terrenos, sendo que os não reivindicados reverterão para uma bolsa de terrenos públicos. E, como bons liberais que são, propõem-se vender os mesmos, em vez de fazerem como em alguns países da Europa se faz, o arrendamento dos terrenos públicos por noventa ou cem anos a quem esteja interessado e os explore.

22.08.13

 

Acordou, ainda a noite dominava a madrugada. Automaticamente contou as horas de sono e viu que não iria dormir mais. As seis horas foram de um sono só. Tempo de Verão, tempo de calor quente e seco. Levantou-se abrindo mais as janelas para a frescura da madrugada perfumar a casa. Verão, tempo de férias com os viajantes da noite na Estrada Nacional a interromperem o ladrar de um ou outro cão mais assustado e o canto dos poucos galos existentes, num ou em outro quintal, anunciando o despertar para se iniciarem as tarefas das madrugadas, pois há que cuidar das hortas e dos animais, que o calor irá chegar logo logo. Sentado na cama acompanhado pela ausência, sente-se cansado, desiludido com o sem rumo que políticos sofríveis impõem aos cidadãos. Anima-se ao olhar as previsões da temperatura no seu pequeno aparelho, é que hoje está prevista uma frescura de 33°C, nada mau.


Vivem-se tempos em que só nos resta a luz ténue da Esperança ao fundo do túnel. Túnel cada dia mais estreito e escuro onde nos exigem sempre mais e mais sacrifícios, sem que saibamos para que servem em concreto os sacrifícios exigidos ao cidadão comum.

Socialismo e Social-democracia foram conceitos e práticas que levaram a Europa a criar um Estado Social Europeu que não só dava educação gratuita, como protegia os seus cidadãos na doença e na velhice, tendo nessa construção a companhia da Democracia cristã e apoio de Liberais. Criaram no pós segunda guerra mundial uma organização de foi tendo várias designações sendo a actual União Europeia. Ao longo da sua existência os seis países fundadores foram admitindo no seu seio outros países. O sucesso e o crescimento teve os seus custos sociais numa desunião em matérias fundamentais para a coesão como a defesa, a fiscalidade e a união monetária que não cativou todos a aderirem. Os países mais fortes económica e socialmente foram impondo os interesses dos seus agricultores e industriais aos países mais fracos, começando a imperar a lei do mercado sob a batuta filosófica americana. Pouco a pouco as velhas ideologias socialistas, sociais-democratas e da democracia cristã deixaram-se invadir pelos defensores de que as leis do mercado livre tudo regulam na sociedade. Hoje temos governantes liberais sob a designação de socialistas e neoliberais sob as antigas designações de sociais-democratas e democratas cristãos. Uns e outros defensores das teorias do atual capitalismo sob a designação falaciosa de capitalismo humanista, onde impera o ataque constante às estruturas, já fracas, do Estado Social por contrapartida da defesa da iniciativa privada selvagem, alimentando-se um estilo de vida ilusório, sustentado em rácios falaciosos, tendo como suporte de todas as falácias, o endividamento externo do próprio Estado que somos todos nós.

Fechou o aparelho para ir à padaria.

22.08.11

 

O cidadão terminou a sua viagem terrena. A sua dualidade terminou, separou-se. Muitos enalteceram os prodígios que o seu pé esquerdo fazia com a bola, a sua velocidade, a sua imprevisibilidade que deixava os adversários arrasados para felicidade dos adeptos benfiquistas, da seleção e amantes do futebol.

Poucos ou nenhum chamou a atenção para o mundo cão que vive à volta do futebol, alimentando-se de prodigiosos artistas da bola, desgraçando-os, chupando-lhes o dinheiro com mulheres e vícios sem retorno. Se os dirigentes do Benfica não tivessem ido buscá-lo à barraca miserável onde vivia na beira Tejo no Barreiro, quem se lembraria do menino prodígio que viveu a glória nos estádios de futebol, para ser esquecido, sobrevivendo a vida de miséria de tantos sem abrigo esquecidos e ignorados pela mesma sociedade que ontem o glorificou. Não sou adepto do Benfica e sofri com a sua arte. Ainda o vi no Estádio do Restelo envergando as cores do clube Os Belenenses. Nunca vi com bons olhos os negócios duvidosos do sr. Luís Filipe Vieira, antes e durante os seus mandatos à frente da instituição Benfica, mas foi durante a sua presidência que o cidadão Fernando Chalana foi resgatado, retirado do esquecido e ignorado submundo que a sociedade alimenta e dele se serve, para ontem essa mesma sociedade, de gente que se acha importante, enaltecer a sua arte prodigiosa. Não o tivessem os dirigentes do Benfica resgatado do submundo em que vivia dando-lhe a oportunidade de voltar a sorrir na vida de cara lavada e ombros levantados, qual das personalidades que ontem se manifestaram, iria manifestar-se?

Não foi, não é Chalana um caso único do mundo-cão que se alimenta dos artistas da bola. Infelizmente, muitos outros jovens conheceram a glória do golo para depois caírem no submundo e aí apodrecerem esquecidos e ignorados, pelos senhores que gostam de botar faladura em tudo.

Porra de vida esta que tanta desigualdade cria, para ela própria se alimentar da desgraça dos mais desfavorecidos.

22.08.09

Quando eu era jovem vivíamos os tempos da noite escura e perigosa salazarenta. Tão perigosa para a Liberdade, que até as paredes tinham ouvidos, tal era o número de bufos ao serviço da polícia assassina, que pomposamente os situacionistas integralistas absolutistas chamavam de "polícia internacional de defesa do estado".

Quando eu era jovem também havia guerras pelo Planeta para lá da guerra que o país travava nas suas colónias africanas. Mas, quando eu era jovem, muita da juventude de então manifestava-se contra a guerra, arriscando a sua própria liberdade na defesa da Paz. Contra a guerra nas colónias africanas, mas também, contra a guerra no Vietname, contra as bombas de napalm e outras bombas químicas, utilizadas pelos americanos, já em defesa dos valores do Ocidente. Contra a invasão da Checoslováquia pelo exército soviético. A juventude manifestava-se pela Paz pela Liberdade contra as guerras.

Quando fui jovem, o Estado salazarento, que nunca se tinha importado com a minha existência, lembrou-se que eu existia e mandou-me para a guerra que travava em Angola.

Agora que já sou velho, já deixei a ilusão do idoso, assumindo a condição de velho, vejo guerras fratricidas ocorrerem que põe em causa a Paz e, quem sabe, o futuro da humanidade.

Tristemente não tenho conhecimento de fortes manifestações de jovens (sem bandeirinhas) pela Paz, como quando fui jovem se faziam desafiando a ordem estabelecida.

Sou velho, rabugento, dizem-me que teimoso que nem um corno, tresmalhado do rebanho por vontade própria… sentindo-se bem na minha velhice, continuando não só com vontade de viver mas também a defender a Paz entre todos os seres do Planeta.

Na minha velhice consciente, o mundo que existe entre as pessoas continua a ter todas as cores do arco-íris, nunca foi, não é e não será a preto e branco, haverá sempre os que, como durante a noite escura salazarenta, dizem não, ao pensamento único vigente e estabelecido pelos novos falsos profetas do Ocidente e do Oriente, contra todas as novas e modernas armas independentemente de quem as utiliza.

Os senhores da guerra, cobardes que são, não vão à guerra, mandam os outros matarem-se…


Depois, leu e releu o que tinha acabado de escrever. Eram quase dez da manhã, Preparou-se para ir aos correios na Junta de Freguesia, dando depois um salto ao cemitério para olhar como está a campa com os restos materiais dos seus pais. Foi a pé pelas ruas onde caminhava com o seu avô Chico Capelo, passando pelo antigo palheiro agora convertido em casa pelos novos donos. No Largo onde antes existia uma lagoa e várias furnas onde se criavam porcos, estão agora as instalações do Lar onde se cuidam com zelo idosos e velhos. As ruas agora têm placas com os nomes e o respetivo código postal. Chegou ao largo da sua juventude quando visitava os avós, onde está a Capela do Espírito Santo. Ali, à sombra, relembrou a sua avó Maria Isabel que na altura dos exames dos netos lá ia colocar o seu copo de água com azeite rezando as suas rezas para que o Espírito Santo protegesse e ajudasse os netos. A sua avó nasceu no último ano do século XIX. Ela assim como as irmãs estudaram até fazerem a quarta classe, os irmãos já não se lembra mas pensa que ainda prosseguiram os estudos. Sabe que um viveu depois na cidade de Évora e o outro por Lisboa. Teve uma vida sofrida a sua avó. O seu avô não foi homem que gostasse de trabalhar, sendo sempre um implicativo desconfiado. Foi guarda fiscal mas cedo se reformou, vivendo depois com a parca reforma. O pouco dinheiro que ganhava como escrivão da Junta não chegava para o tabaco mata-ratos Kentucky e para os copos. Junto à casa alugada onde viveram na Rua do Espírito Santo para em frente à janela por onde tantas vezes saltou e entrou. Ao fundo no entroncamento com a antiga rua dos fornos está a casa onde nasceu a sua mãe. Hoje, muito diferente do que foi. Ainda lá dormiu algumas vezes quando regressou da guerra e os seus pais andavam na colheita da azeitona. Seguiu pela Rua da Amoreira. A casa da sua tia Maria do Carmo já não existe, o Município comprou-a para a deitar abaixo facilitando assim o trânsito. Passou pela casa do primo Albano sapateiro em frente à casa do seu tio avô João Capelo, depois pela casa onde o Zézinho tinha a sua loja e onde comprou a primeira máquina de lâminas Nacet, para fazer a barba que era só penugem, mais à frente a Casa do Chefe da Estrada e o edifício da Casa do Povo onde no primeiro andar havia um salão com televisão e salvo erro lá se realizavam bailes. Foi algumas vezes com o seu avô, às quintas-feira assistir à transmissão das touradas. O seu avô gostava de ficar junto à porta e quando ele lhe perguntou porquê não iam mais para a frente, o avô disse-lhe sorrindo que se o soalho fosse abaixo ele não gostava de morrer de morte macaca. Agora, depois de terem feito obras, a Junta de Freguesia está no rés-do-chão e não sabe o que há no antigo salão. A moça sempre simpática dos correios lá o ajudou na encomenda com figos. Seguiu depois para o cemitério passando forçosamente pelo Pelourinho com os seus símbolos históricos, pela Igreja Matriz mais à frente antes de descer a rua para o cemitério. Já não olha as ruínas das casas antigas, em especial a antiga casa do médico Dr. Crisóstomo. O que ali se poderia fazer se houvesse da parte das instituições municipais, vontade para tal, pois quando querem o dinheiro sempre aparece (eles até têm programa aprovado que se designa PERU - Plano Execução de Reabilitação Urbana). As casas abandonadas, todas elas, quando paramos e as olhamos logo nos querem contar a sua triste sina de abandono e solidão. Elas não compreendem estas coisas modernas de desenvolvimento social, que as deixaram ficar abandonadas à sua tristeza, continuando agarradas às vidas passadas que por elas cresceram e viveram.

Fez o regresso quase pelo mesmo caminho, sendo que subiu a Rua onde andam a reformar o Parque Infantil. Parou para olhar com atenção, não o parque, mas as instalações do Centro de Dia. Sentiu pena do estado em que as mesmas se encontram. Aquela obra foi uma realização coletiva do povo da Zebreira, pouco importando a placa sinalizadora de quem a inaugurou; hoje, talvez pela desertificação humana, talvez por algum desleixo encontra-se meio abandonada sem utilização que sirva o povo para que foi criada. Muita coisa mudou desde que a obra foi idealizada e realizada com a ajuda da Segurança Social. Mudaram leis, conceitos e interpretações nesta mudança rápida que no mundo ocorre, incluindo o próprio conceito do Estado Social. Ver uma obra que foi uma mais-valia social desperdiçada dá um sentimento de pena difícil de descrever. Ah!, se os mentores da obra coletiva fossem vivos não iam deixar aquilo assim. Alguma utilidade seria encontrada para fazer reviver a obra coletiva que um dia o povo da Zebreira realizou.

Seguiu pela sombra já na Estrada Nacional, sentindo o trânsito dos camiões e carros fora dos limites de velocidade estabelecidos no atravessar das povoações. Comprou os fracos de mel na sua parenta Maria Isabel Silva. Na reta de saída onde fica a sua casa, estando bem dentro da povoação, as velocidades com que transitam os camiões e veículos só se resolverá com a instalação de radar, dando origem às multas e penalizações aos condutores prevaricadores. Não há volta a dar. Todos têm pressa em chegar ao destino esquecendo a segurança dos habitantes.


Ontem no seu escrito esqueceu-se de mencionar que no Largo do Espírito Santo, junto à capela, a Sra. Carvalha fazia queijos com qualidade muito acima da média. Segundo a sua mãe que sabia de queijos, os da Sra. Carvalha eram os melhores de todos os que pela região se faziam. Sua mãe aprendeu a fazer queijos e até sabão em casa dos seus avós paternos em Segura. Durante a guerra civil de Espanha até o sabão tinha que ser feito em casa pois não havia nas lojas de então, recuperando-se hábitos antigos. Ainda tem os ancinhos e uma pequena bancada onde ela fazia e escorria os queijos que passou a fazer quando o seu pai se reformou e passaram a viver na casinha que construiram vivendo a terceira fase das suas vidas. Tinham algumas ovelhas e, ao leite das ovelhas, misturava leite de vaca que comprava aos Alves. O cardo era também natural, tinham-no plantado na horta.

Um dia o meu irmão que andava a tirar o doutoramento com a supervisão do Prof. André Chaîneau da Universidade de Poitier, pediu à minha mãe que lhe arranjasse um queijo para levar ao Prof. A Chaîneau. Os franceses têm mais variedades de queijo que nós temos de receitas com bacalhau. A esposa do prof. Chaîneau pediu a morada dos meus pais ao meu irmão e escreveu à minha mãe, agradecendo-lhe muito grata, pois há muitos anos que não comiam um queijo tão bom, fazendo-lhe lembrar os queijos que seus avós então faziam, mas que já não se encontram mais pois tudo agora esta industrializado.

Assim, com os interesses dos grandes industriais franceses e outros de queijos a imporem as suas vontades, o governo português, aluno obediente a tudo o que em Bruxelas vomitam, logo impôs a vontade dos grandes industriais franceses e outros aos pequenos produtores de queijos artesanais asfixiando-os, como se a sua atividade fosse a causa maior do deficit das contas públicas. Mais tarde, os descendentes da sra. Carvalhal ainda tentaram obter da Assembleia de Freguesia autorização para instalar em terrenos da Herdade do Soudo uma unidade industrial para queijos e charcutaria, mas logo se levantaram em uníssono as vozes dos Velhos do Restelo contra, porque “os terrenos da herdade são do povo”. Hoje, nesta terra não há nenhuma indústria de transformação, a não ser a padaria e um ou outro empreiteiro de construção civil, que leve o nome da Zebreira a outras povoações e regiões, sendo que continua a não faltar terreno na Herdade para ser utilizado. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, disse o poeta Camões, mas pela Zebreira, não se mudam as vontades ao que parece.

Quando os “Velhos do Restelo” impõem a sua vontade do bota abaixo não há progresso, matando à nascença qualquer iniciativa de mudança. Depois lamentamos a desertificação humana.

22.08.06

 

Ao acordar fez as contas às horas dormidas. Mais uma hora do que as habituais seis dos últimos dias. As noites com o avançar dos ponteiros do relógio ficam mais amenas, entrando o fresco pelas janelas abertas. Esta é uma das vantagens que o interior ainda nos dá, o descanso em segurança. É certo que se alguém entrar no quintal a Sacha da sinal com o seu ladrar que mete respeito ao mais aventureiro.


Ao ver as capas dos jornais chamou-me a atenção no Público mais uma notícia sobre judeus sefarditas.

Como aos sábados gosto de ir ao mercado na Idanha lá fui com a curiosidade acrescida de ser dia de Mercado-Bio. Nas outras vezes vi um mercado sem clientela mas lá comprei umas hortaliças. Hoje a cena repetiu-se. É certo que havia mais vendedores nas bancas, mas o cenário da clientela era idêntico, acumulando-se junto às duas bancas de entrada onde não se vendem produtos ditos "bio".

Ao passar no Intermarché comprei o Público. Nem imaginava que custasse 400 escudos🙂. Perdi o conto ao tempo que levei sem comprar um jornal em papel.

Depois de almoçar e antes de começar a ler o Público entrei aqui no Facebook. Entrei e vi logo uma publicidade do Município de Idanha à realização do Mercado Bio da manhã. Estaria tudo bem se nas fotos não incluísse as bancas dos vendedores que nada tem a ver com a promoção dos produtos com designação "bio". À mulher de César não lhe basta ser séria…

Depois, peguei no jornal e senti-me bem. Ler em papel é muito diferente para melhor do que ler em ecrã de computador. Li de fio a pavio o jornal, embora alguns artigos de gente que me causa urticária mais rapidamente. Sobre o tal judeu sefardita que agora também é português, sabem muito ou quase tudo sobre o seu passado na Mossad (polícia secreta israelita) onde foi líder da mesma. O homem é agora empresário e tem uma empresa com projeto aprovado pelo Município de Vila de Rei para ali produzir produtos farmacêuticos à base de cannabis. Embora esteja há uns anos à espera de autorização pelo Infarmed, o articulista realça amiúde a sua condição de ex-chefe da Mossad. Lembrei-me que já tivemos um colaborador da PIDE-DGS que chegou a primeiro ministro e a presidente da República. Voltando ao empresário agora sefardita e português com outros sócios judeus agora também portugueses, será que a sua paciência de sefarditas irá aguentar a demora do Infarmed? Os 100 postos de trabalho de mão-de-obra qualificada envolvidos no projeto em Vila de Rei não interessam à Coesão Territorial tão apregoada em palavras e discursos? A ver vamos…

22.08.02

 

Cinquenta anos não são cinquenta meses e muito menos cinquenta dias. Foi assim que ao olhar o céu cinzento, beneficiando da aragem fresca da manhã, começou o dia lembrando-se que há cinquenta anos andava pelas terras quentes do norte transmontano em Chaves, formando jovens, tão ou mais jovens que ele, para irem de G3 nos braços defenderem aquilo que não lhes pertencia mas que os senhores da guerra pelos palácios da capital lhes diziam ser um dever patriótico.

A fronteira com a província galega de Ourense ficava a poucos quilómetros. Muitos outros militares à força, a tinham passado para não mais voltarem ao país enquanto durasse a noite negra do fascismo na versão salazarenta. O Rio Tâmega na fronteira passava-se com água pelo peito, mas passava-se seguro naquele verão de setenta e dois. Contudo, na sua fornada de oficiais e sargentos milicianos nenhum decidiu passar a fronteira e não voltar ao quartel. Todos aceitaram as mobilizações que lhe foram impostas.

Cinquenta anos passaram e olhando para trás, recordando peripécias, medos, lutas, vitórias e derrotas sente um peso cada dia mais pesado sobre os seus ombros. Peso que não é proporcional à idade. Peso que tem vindo a progredir numa razão superior à unidade que os anos vão acumulando. É o peso da revolta que nunca o abandonou. Uma revolta surda contra o estado de coisas que vem sentindo, que paulatinamente nos trazem muitos dos "brandos costumes e públicas virtudes" da noite escura, agora numa versão soft atualizada por novos chavões. Dão-nos um modelo de vida artificial à custa do endividamento exterior do país, alimentando de novo meia dúzia de famílias algumas diferentes das famílias da noite escura, mas cujos métodos e princípios se assemelham.