Quando
eu era jovem vivíamos os tempos da noite escura e perigosa
salazarenta. Tão perigosa para a Liberdade, que até as paredes
tinham ouvidos, tal era o número de bufos ao serviço da polícia
assassina, que pomposamente os situacionistas integralistas
absolutistas chamavam de "polícia internacional de defesa do
estado".
Quando
eu era jovem também havia guerras pelo Planeta para lá da guerra
que o país travava nas suas colónias africanas. Mas, quando eu era
jovem, muita da juventude de então manifestava-se contra a guerra,
arriscando a sua própria liberdade na defesa da Paz. Contra a guerra
nas colónias africanas, mas também, contra a guerra no Vietname,
contra as bombas de napalm e outras bombas químicas, utilizadas
pelos americanos, já em defesa dos valores do Ocidente. Contra a
invasão da Checoslováquia pelo exército soviético. A juventude
manifestava-se pela Paz pela Liberdade contra as guerras.
Quando
fui jovem, o Estado salazarento, que nunca se tinha importado com a
minha existência, lembrou-se que eu existia e mandou-me para a
guerra que travava em Angola.
Agora
que já sou velho, já deixei a ilusão do idoso, assumindo a
condição de velho, vejo guerras fratricidas ocorrerem que põe em
causa a Paz e, quem sabe, o futuro da humanidade.
Tristemente
não tenho conhecimento de fortes manifestações de jovens (sem
bandeirinhas) pela Paz, como quando fui jovem se faziam desafiando a
ordem estabelecida.
Sou
velho, rabugento, dizem-me que teimoso que nem um corno, tresmalhado
do rebanho por vontade própria… sentindo-se bem na minha velhice,
continuando não só com vontade de viver mas também a defender a
Paz entre todos os seres do Planeta.
Na
minha velhice consciente, o mundo que existe entre as pessoas
continua a ter todas as cores do arco-íris, nunca foi, não é e não
será a preto e branco, haverá sempre os que, como durante a noite
escura salazarenta, dizem não, ao pensamento único vigente e
estabelecido pelos novos falsos profetas do Ocidente e do Oriente,
contra todas as novas e modernas armas independentemente de quem as
utiliza.
Os
senhores da guerra, cobardes que são, não vão à guerra, mandam os
outros matarem-se…
Depois,
leu e releu o que tinha acabado de escrever. Eram quase dez da manhã,
Preparou-se para ir aos correios na Junta de Freguesia, dando depois
um salto ao cemitério para olhar como está a campa com os restos
materiais dos seus pais. Foi a pé pelas ruas onde caminhava com o
seu avô Chico Capelo, passando pelo antigo palheiro agora convertido
em casa pelos novos donos. No Largo onde antes existia uma lagoa e
várias furnas onde se criavam porcos, estão agora as instalações
do Lar onde se cuidam com zelo idosos e velhos. As ruas agora têm
placas com os nomes e o respetivo código postal. Chegou ao largo da
sua juventude quando visitava os avós, onde está a Capela do
Espírito Santo. Ali, à sombra, relembrou a sua avó Maria Isabel
que na altura dos exames dos netos lá ia colocar o seu copo de água
com azeite rezando as suas rezas para que o Espírito Santo
protegesse e ajudasse os netos. A sua avó nasceu no último ano do
século XIX. Ela assim como as irmãs estudaram até fazerem a quarta
classe, os irmãos já não se lembra mas pensa que ainda
prosseguiram os estudos. Sabe que um viveu depois na cidade de Évora
e o outro por Lisboa. Teve uma vida sofrida a sua avó. O seu avô
não foi homem que gostasse de trabalhar, sendo sempre um implicativo
desconfiado. Foi guarda fiscal mas cedo se reformou, vivendo depois
com a parca reforma. O pouco dinheiro que ganhava como escrivão da
Junta não chegava para o tabaco mata-ratos Kentucky e para os copos.
Junto à casa alugada onde viveram na Rua do Espírito Santo para em
frente à janela por onde tantas vezes saltou e entrou. Ao fundo no
entroncamento com a antiga rua dos fornos está a casa onde nasceu a
sua mãe. Hoje, muito diferente do que foi. Ainda lá dormiu algumas
vezes quando regressou da guerra e os seus pais andavam na colheita
da azeitona. Seguiu pela Rua da Amoreira. A casa da sua tia Maria do
Carmo já não existe, o Município comprou-a para a deitar abaixo
facilitando assim o trânsito. Passou pela casa do primo Albano
sapateiro em frente à casa do seu tio avô João Capelo, depois pela
casa onde o Zézinho tinha a sua loja e onde comprou a primeira
máquina de lâminas Nacet, para fazer a barba que era só penugem,
mais à frente a Casa do Chefe da Estrada e o edifício da Casa do
Povo onde no primeiro andar havia um salão com televisão e salvo
erro lá se realizavam bailes. Foi algumas vezes com o seu avô, às
quintas-feira assistir à transmissão das touradas. O seu avô
gostava de ficar junto à porta e quando ele lhe perguntou porquê
não iam mais para a frente, o avô disse-lhe sorrindo que se o
soalho fosse abaixo ele não gostava de morrer de morte macaca.
Agora, depois de terem feito obras, a Junta de Freguesia está no
rés-do-chão e não sabe o que há no antigo salão. A moça sempre
simpática dos correios lá o ajudou na encomenda com figos. Seguiu
depois para o cemitério passando forçosamente pelo Pelourinho com
os seus símbolos históricos, pela Igreja Matriz mais à frente
antes de descer a rua para o cemitério. Já não olha as ruínas das
casas antigas, em especial a antiga casa do médico Dr. Crisóstomo.
O que ali se poderia fazer se houvesse da parte das instituições
municipais, vontade para tal, pois quando querem o dinheiro sempre
aparece (eles até têm programa aprovado que se designa PERU - Plano
Execução de Reabilitação Urbana). As casas abandonadas, todas
elas, quando paramos e as olhamos logo nos querem contar a sua triste
sina de abandono e solidão. Elas não compreendem estas coisas
modernas de desenvolvimento social, que as deixaram ficar abandonadas
à sua tristeza, continuando agarradas às vidas passadas que por
elas cresceram e viveram.
Fez
o regresso quase pelo mesmo caminho, sendo que subiu a Rua onde andam
a reformar o Parque Infantil. Parou para olhar com atenção, não o
parque, mas as instalações do Centro de Dia. Sentiu pena do estado
em que as mesmas se encontram. Aquela obra foi uma realização
coletiva do povo da Zebreira, pouco importando a placa sinalizadora
de quem a inaugurou; hoje, talvez pela desertificação humana,
talvez por algum desleixo encontra-se meio abandonada sem utilização
que sirva o povo para que foi criada. Muita coisa mudou desde que a
obra foi idealizada e realizada com a ajuda da Segurança Social.
Mudaram leis, conceitos e interpretações nesta mudança rápida que
no mundo ocorre, incluindo o próprio conceito do Estado Social. Ver
uma obra que foi uma mais-valia social desperdiçada dá um
sentimento de pena difícil de descrever. Ah!, se os mentores da obra
coletiva fossem vivos não iam deixar aquilo assim. Alguma utilidade
seria encontrada para fazer reviver a obra coletiva que um dia o povo
da Zebreira realizou.
Seguiu
pela sombra já na Estrada Nacional, sentindo o trânsito dos camiões
e carros fora dos limites de velocidade estabelecidos no atravessar
das povoações. Comprou os fracos de mel na sua parenta Maria Isabel
Silva. Na reta de saída onde fica a sua casa, estando bem dentro da
povoação, as velocidades com que transitam os camiões e veículos
só se resolverá com a instalação de radar, dando origem às
multas e penalizações aos condutores prevaricadores. Não há volta
a dar. Todos têm pressa em chegar ao destino esquecendo a segurança
dos habitantes.
Ontem
no seu escrito esqueceu-se de mencionar que no Largo do Espírito
Santo, junto à capela, a Sra. Carvalha fazia queijos com qualidade
muito acima da média. Segundo a sua mãe que sabia de queijos, os da
Sra. Carvalha eram os melhores de todos os que pela região se
faziam. Sua mãe aprendeu a fazer queijos e até sabão em casa dos
seus avós paternos em Segura. Durante a guerra civil de Espanha até
o sabão tinha que ser feito em casa pois não havia nas lojas de
então, recuperando-se hábitos antigos. Ainda tem os ancinhos e uma
pequena bancada onde ela fazia e escorria os queijos que passou a
fazer quando o seu pai se reformou e passaram a viver na casinha que
construiram vivendo a terceira fase das suas vidas. Tinham algumas
ovelhas e, ao leite das ovelhas, misturava leite de vaca que comprava
aos Alves. O cardo era também natural, tinham-no plantado na horta.
Um
dia o meu irmão que andava a tirar o doutoramento com a supervisão
do Prof. André Chaîneau da Universidade de Poitier, pediu à minha
mãe que lhe arranjasse um queijo para levar ao Prof. A Chaîneau. Os
franceses têm mais variedades de queijo que nós temos de receitas
com bacalhau. A esposa do prof. Chaîneau pediu a morada dos meus
pais ao meu irmão e escreveu à minha mãe, agradecendo-lhe muito
grata, pois há muitos anos que não comiam um queijo tão bom,
fazendo-lhe lembrar os queijos que seus avós então faziam, mas que
já não se encontram mais pois tudo agora esta industrializado.
Assim,
com os interesses dos grandes industriais franceses e outros de
queijos a imporem as suas vontades, o governo português, aluno
obediente a tudo o que em Bruxelas vomitam, logo impôs a vontade dos
grandes industriais franceses e outros aos pequenos produtores de
queijos artesanais asfixiando-os, como se a sua atividade fosse a
causa maior do deficit das contas públicas. Mais tarde, os
descendentes da sra. Carvalhal ainda tentaram obter da Assembleia de
Freguesia autorização para instalar em terrenos da Herdade do Soudo
uma unidade industrial para queijos e charcutaria, mas logo se
levantaram em uníssono as vozes dos Velhos do Restelo contra, porque
“os terrenos da herdade são do povo”. Hoje, nesta terra não há
nenhuma indústria de transformação, a não ser a padaria e um ou
outro empreiteiro de construção civil, que leve o nome da Zebreira
a outras povoações e regiões, sendo que continua a não faltar
terreno na Herdade para ser utilizado. Mudam-se os tempos, mudam-se
as vontades, disse o poeta Camões, mas pela Zebreira, não se mudam
as vontades ao que parece.
Quando
os “Velhos do Restelo” impõem a sua vontade do bota abaixo não
há progresso, matando à nascença qualquer iniciativa de mudança.
Depois lamentamos a desertificação humana.