segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

21.06.23

 

Ao abrir o computador para observar os e-mails recebidos e escolher os que ia ler, vi que já tinha o relatório do tac que tinha efetuado na passada sexta-feira, dia 16, aos ouvidos a pedido da Médica de Família.

Imprimi o relatório e li-o sem entender o significado da maior parte das palavras constantes do mesmo, ainda me atrevi a consultar no Google o significado de umas determinadas células, mas depressa desisti porque um ignorante a querer perceber o que não sabe nem o Google me ensina só pode criar mais duvidas do que as já existentes em mim. Contudo, parece-me que vou continuar a viver com a «martelada auricular direita do tum tum cadenciado» assim como o acentuar da perda de audição, recusando-me por em quanto a usar qualquer aparelho auditivo que o mercado oferece, antes de obter um veredito assim como o aconselhamento médico sobre o problema.


Ao acordar esta manhã sentado na beira da cama lembrei-me de como acordei na madrugada de sábado passado.

Tinha comprado online os bilhetes do comboio Alfa da Estação do Oriente para Loulé. Na noite de sexta feira antes de me deitar verifiquei que os bilhetes que tinha imprimido estavam na mala, que os livros a carteira e os óculos de ver ao perto também já estavam assim como a pequena máquina fotográfica Lumix que eles, filha e genro lhe tinham dado, só faltava a garrafa de água e os limões. Deitei-me na minha hora habitual, pelas 23 horas. Contudo, o sono deveria ter ido beber um copo à algum sitio pois não me transportava para o mundo do repouso. De olhos fechados aguardando a chegada de Morfeu dei pela companheira se deitar e começar no seu respirar-ressonar de dormir enquanto eu procurava encontrar o sono que não chegava. Alarmei-me quando dei conta de que não tinha ativado o despertador do telemóvel, e lá se foi o sono que estava a chegar tendo de correr atrás dele depois de ativar o despertador. Acordei a meio da noite para a ida habitual do urinar. Fiz as viagens de ida e regresso à cama de olhos fechados com medo de acordar e não me deixar dormir para acordar com o despertador.

Dormia quando senti uma mão a bater-me no ombro. Olhei as horas no telemóvel faltando uns minutos para o desencadear do despertador. Acordei como gosto de acordar, sempre um pouco antes do despertador ativar o som do telemóvel. Olhei a companheira que continuava dormindo um sono ferrado. Não foi ela que me terá batido no ombro para acordar, quem terá sido?


A consulta de cardiologia estava agendada para as 15H10. A companheira disse-me que não precisava de ir apanhar o comboio suburbano ou o regional das 13H54, ela levar-me-ia. Almoçamos quase à hora normal. Não bebi café. Depois de lavar os dentes, vesti-me colocando na pasta que iria levar o dossier de cardiologia, a garrafa com água, o novo livro que comecei a ler "Nunca Te Esqueças Das Flores" do japonês Genki Kawamura, a carteira e óculos de ver ao perto. Preparado dirigi-me à sala onde ela logo começou a criticar por ainda serem 14H10 bastando saírem por volta das 14H30, ao que calmamente lhe perguntei se tinha dito alguma coisa e sentei-me no sofá, fechando os olhos desligando de tudo até pressentir que ela estava pronta, levantei-me e junto à porta de saída enfiei os pés nos sapatos e descemos. Não olhei as horas para não me incomodar pois seria normal irmos encontrar bastante trânsito depois do Campo Grande com os semáforos na Avenida da República. Chegado ao hospital de Santa Marta tirei a senha de confirmação de presença eram 15H06 em cima da hora marcada, embora como é habitual as consultas hospitalares sofrem sempre atrasos consideráveis. Sentado na sala de espera tirei o livro, coloquei os óculos e fui lendo até que ouvi chamar o meu nome para o “gabinete 5”. O médico depois de ter terminado o telefonema que estava atendendo quando entrei no gabinete saudou-me perguntando se tinha feito a prova de esforço e de imediato começou a observar a mesma no ecrã do computador. Como o ritmo do coração acompanha o esforço desenvolvido, disse-me não ser o coração a causa do cansaço. Entregou-me depois um envelope para dar à minha médica de família. Terei de emagrecer e não levar a vida sedentária que levo nesta cidade dormitório da cidade grande, não esquecendo o peso dos meus 72 anos de idade, acrescidos dos erros que cometi ao longo da caminhada.

Saí do hospital satisfeito e pela Rua de Santa Marta fui andando por aquele passeio agora tão estreito para que possa haver carros estacionados no lado direito da rua, servindo o trânsito no sentido descendente.

domingo, 7 de janeiro de 2024

20.06.23

Acabei mais um livro "Os Doentes do Doutor Garcia" da grande mulher Almudena Grandes. Um romance de ficção baseado em factos reais que se enquadram com outros que já li em outros livros de outros autores. Houve nazis que foram protegidos e defendidos pelos designados democratas do Ocidente. Houve nazis, gente assassina do pior, que se viram protegidos pelos governos ocidentais, ingleses e americanos, tornando-se amigos uns e outros na luta contra o poder dos antigos aliados soviéticos, os vencedores da guerra contra a Alemanha de Hitler e seus aliados nazis e fascistas de outras regiões e países que foram bem mais do que os conhecidos Itália e Japão.

Outro livro se seguiu de um autor que nunca tinha lido, mas cujo título me chamou a atenção "O Eterno Regresso do Fascismo" de Rob Riemen. Li-o de uma assentada na viagem de comboio que fiz no sábado passado a caminho do reino dos Algarves, mas preciso de o ler de novo como se o estudasse.

A neta quando andávamos na Feira do Livro de Lisboa, admirava-se por eu comprar livros sem conhecer o autor, pois ela conhece os autores dos livros que compra. Expliquei-lhe que sempre compro livros mais pelo impulso que sinto ao olhar o título e a capa do livro e não pelo autor do mesmo. Já quando ia ao cinema era o mesmo, ia ver o filme que produzia determinado impulso quando olhava o cartaz ou lia o que os jornais desse altura comentavam sobre os filmes em exibição; nunca soube explicar o porque desta minha forma de ser, sendo que raramente ia e vou ao cinema pelos óscares ou prémios de festivais cinematográficos que as películas têm nos seus anúncios.

Também sou capaz de ler dois livros ao mesmo tempo, ou ler o mesmo livro uma segunda vez, como vou a fazer com o livro do Rob Riemen.

Ao ler, ao sentir as palavras que o autor colocou no livro vou construindo os meus cenários alimentando as minhas muitas dúvidas e interrogações.

Assim vou vivendo, sonhando, pensando porque nunca esqueço a “ausência” que sem que os outros notem me vai acompanhando. 


 

16.06.23

 

Andando indiferente aos que comigo se cruzam, olho-os mas só me vejo lá no meu canto raiano.

Ontem, depois da prova de esforço no Hospital de Santa Marta, ao regressar andando sem preocupação, no cruzamento com a Rua Barata Salgueiro decidi subir para a Avenida da Liberdade. Ainda não eram as dez da manhã, poucos turistas circulavam nas ruas, numa manhã a anunciar a chegada do calor do mês de Junho.

Entrei na estação de Metro da Avenida e com o meu aparelho de comunicação tomei nota do desleixo existente naquela estação a meio da Avenida da Liberdade.

Na outra semana, quando fui almoçar com um amigo meu superior na nunca esquecida guerra em Angola, ao despedirmo-nos fiz o caminho entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paços, pela Rua do Arsenal. Entre chusmas de turistas tomei nota de como o passeio no Cais de Sodré, passeio designado como calçada portuguesa, se encontrava um nojo tanta é a sujidade.

Dois pequenos exemplos dos muitos existentes infelizmente e não só na cidade. O malfadado vírus do desleixo com mutações várias é comum a todo país.

O sistema de gestão pública no país está a caminhar para bater no fundo, com a multidão cantando e rindo dividida e satisfeita entretendo-se nos sofás de comando na mão para assistir ao lavar de roupa entre políticos ou em alternativa ouvir os "comentadeiros" futebolísticos.

Ainda ontem há hora de almoço num canal televisivo já os usuais papagaios sem penas do atual totalitarismo liberal, ditos "comentadeiros" especialistas em tudo o que seja criticar sem contraditório o anémico mas resistente Estado Social, opinavam tais papagaios o que o antigo ministro iria dizer numa tal CPI, quando o senhor ainda nem sequer tinha entrado na sala onde decorre tal "lavar de roupa" designada de CPI..

Já sentado no comboio suburbano em Santa Apolónia lembrei-me de quando em Paris tive cinco dias de formação num novo programa informático de gestão a implementar na empresa farmacêutica onde trabalhava. A formadora todos os dias aparecia com a mesma camisa branca, dia a dia mais suja e encardida proporcionalmente inversa à intensidade do perfume usado dia a dia mais intenso para esconder tudo o resto. Explicou-nos a pobre no penúltimo dia de formação, que depois de ali estar todo o dia connosco ainda tinha de ir trabalhar nos escritórios da empresa na Torre Montparnasse, comendo a correr comida enlatada que tivesse à mão, para ao chegar a casa depois da meia noite atirar-se para cima da cama, para no dia seguinte às 6 da mamã estar a sair de casa. O perfume poluído da moça parisiense veio-lhe à memória ao olhar como está a cidade onde nasci, estudei e trabalhei, sentindo-me um ausente como se nunca antes tivesse percorrido aquelas pedras daquelas ruas, avenidas e bairros. O meu tempo e a minha cidade mudaram já não existem.

Gastam os políticos gestores dos dinheiros públicos milhares ou mesmo milhões de €€ com agências de publicidade travestidas de comunicação para nos anunciarem a espaços a atribuição de grandes prémios disto e daquilo, embalando o pessoal ouvinte com o número de turistas que nos visitam.

Ou os políticos não sabem, ou de tão habituados que estão a mentir-nos que não nos dizem que país se desenvolveu, enriqueceu económica e socialmente tendo por motor económico o setor do turismo?


segunda-feira, 16 de outubro de 2023

13.06.23

 

Fez ontem anos, cinquenta e quatro, que fui "às sortes" ou seja à inspeção para o serviço militar obrigatório, que de sorte nada tinha. Nesse ano o Estado lembrou-se de mim, convocando-me para comparecer no Regimento de Artilharia Ligeira 1, mais tarde RALIS, tendo sido apurado para todo o serviço, como era esperado já que não apresentava nenhuma deficiência visível aos "lateiros do júri" que ao olharem para a nossa nudez nos apuravam de imediato, pois a guerra que os governantes alimentavam nas três frentes africanas assim determinava.

Nesse mesmo ano, sendo feriado como ainda o é, dia do Santo António padroeiro de Lisboa, continuei em casa dando continuidade ao estudo da disciplina História Geral e Económica já que no dia seguinte tinha prova de frequência da cadeira no velho "Cortiço", ICL à Rua das Chagas.

Agora, já de barbas brancas, gostava de continuar a estudar, mas quando pego em livros do ensino oficial atual, sinto-me incapaz. Às vezes penso se aquilo que penso saber não está tudo errado. Há muitos anos, dei explicações. Hoje não sei se seria capaz de ajudar os atuais jovens que frequentam o ensino oficial.

Esta vida já não é o que foi e muito menos o que alguns, não muitos, chegaram a sonhar quando os jovens militares mudaram a agulha dos carris da antiga vida para dar esperança ao país de uma nova forma de vida.

Vivemos alegremente um modo de vida ilusório, pois já nada depende exclusivamente de nós, entregues que fomos aos credores da finança especulativa e gananciosa sem limites e aos liberais que em Bruxelas dirigem esta salada de países como União Europeia. A riqueza que se criamos não chega para alimentar a máquina do Estado que diminuindo em número de funcionários públicos efetivos, aumentou e continua a aumentar em massa salarial com tantos ministros, tantos secretários de estado, tantos diretores gerais, com todos eles a precisarem de um exército de gente assessores, secretários e ajudantes, recrutados por confiança política nas organizações dos próprios partido políticos governantes, em que alguns ainda de fraldas, sem experiência nem calo da vida, auferem remunerações criminosas quando as comparamos com pessoal médico do SNS por exemplo.

Podem vir as festas dos Santos Populares, pode chegar a nova peregrinação dos católicos para a “jmj” para com esse evento comercial que nos dizem ser de fé virem depois tapar os olhos com os números do turismo e as exportações que o mesmo evento gera a mando dos servos liberais em Bruxelas, o país como há cinquenta e quatro anos não enxerga um futuro radioso para as suas gentes que estudam e trabalham, porque para os reformados e aposentados há muito que o seu país não é para eles fazendo jus à frase «este país não é para velhos».

Não há muitos anos um governo à direita "roubou" nas remunerações dos velhos, para agora este mesmo governo em ação que se diz socialista alterando a lei que atualizava o valor das reformas voltar a "roubar" desse modo no valor das pensões futuras dos reformados e pensionistas.

Se os de Bruxelas ameaçam com um espirro, logo os governantes cumprem zelosamente essas ordens sem olharem às condições em que os cidadãos vivem objetivamente. Foi assim com o aumento o IVA na eletricidade e comunicações para depois quando a economia justificava a baixas da taxa do mesmo IVA, argumentarem os políticos governantes que tinham de obter autorização dos burocratas liberais bruxelianos. Já nem autonomia fiscal aparentamos possuir ter. Triste fado o deste nosso torrão à beira mar que é Portugal.

Não é fácil encarar a triste realidade da ilusão, sem sentirmos a revolta a tomar conta de nós numa tristeza que aparenta não ter retrocesso. Por onde andará a esperança?

Fácil é viver cantando e rindo em viagens submissas sempre de mão estendia às esmolas de Bruxelas, apontando a culpa aos outros quando em crescendo os salazaristas conversos democratas na Nova Ordem Democrática face aos erros cometidos por sucessivos governantes afinam as gargantas cantando o velho hino da mocidade portuguesa, faltando-lhes perder alguma vergonha escondida para ao cantarem estenderem o braço direito a exemplo dos falangistas da vizinha Espanha.


11.06.23

 

Cansado deste tempo de guerras do diz que diz entre politiqueiros. Sou republicano, defendo a Republica, mas estou cansado das lutas do diz que diz ou disse mas não disse. Um país com quase novecentos anos de história merecia ter outra qualidade de governantes, de políticos, e não estes discursos de populismo barato e mentiroso entre uns e outros, por vezes ao nível mais baixo que o das varinas na ribeira.

Cansado por não perceber como pode um país depois de ter vivido quarenta e oito anos de uma ditadura feroz de tanta miséria, terem os seus cidadãos ao fim de uma dezena de anos após a instauração de Nova Ordem Democrática escolhido para governar um ressabiado converso democrata, salazarista convicto, e não contentes com esses anos de governação perdidos em que se "marcou passo", se fez à "direita volver" e "marcha atrás" em questões sociais do Estado Social, ainda o elegeram anos mais tarde para presidente. 

Tresmalhado do rebanho, sente alguma acalmia no seu espírito quando desliga das mentiras que os órgãos de comunicação difundem a mando dos patrões sem rosto nem alma humanista.

Não contentes com o ressabiado converso democrata, salazarista convicto, escolhem de novo para o substituir como presidente um outro converso democrata, antigo salazarista, que nos últimos anos do Estado Novo foi educado pelos padrinhos do regime para ser o futuro dirigente do partido único, a Ação Nacional Popular de Marcelo Caetano, como tal futuro Primeiro Ministro todo poderoso que dominava o pais em ditadura miserável há mais de quatro décadas, para desse modo continuar a zelar pela manutenção da ordem segundo os bons costumes e publicas virtudes da trilogia Deus, Pátria e Família.

Como pode este país progredir se até muitos dos ditos nobres republicanos da Nova Ordem Democrática, que se fazem passar por esquerda ao centro ou esquerda democrática apoiaram a eleição para um segundo e triste mandato do converso democrata “enfant terrible” do Estado Novo?

quinta-feira, 6 de julho de 2023

10.06.23

 

Ontem foi dia de ir até à Central Rodoviária de Sete Rios esperar a sua neta Maria que veio de Peniche para com ele ir andarem pela Feira do Livro de Lisboa. Pediu-lhe a neta que fossem comer no mesmo restaurante em que no passado mês de Setembro tinham almoçado, aquando da sua primeira visita com o avô à Feira do Livro, é que gostou de comer lá e já há uns tempos que não come sushi de que tanto gosta. Meteram-se no Metro e lá foram à Av. de Berna comer, a neta as variedades de sushi que gosta e ele que não é fã daqueles sabores ficou-se pela comida tipo chinesa. Voltaram depois para iniciarem o sobe e desce entre pavilhões de editores e alfarrabista, com a neta a saber que livros desejava e ele buscando alguma oportunidade nos livros do dia, assim como procurando encontrar os livros que os netos mais novos, com 8 anitos, gostam de ler. Sente-se feliz por os netos gostarem de ler livros, sendo a sua neta Maria uma leitora quase compulsiva, descobrindo que os dois mais novos gostam de ler banda desenhada. Até a sua neta Maria se admirou de a irmã Luísa gostar de ler banda desenhada, já que ela nunca gostou desse tipo de livros.

Enquanto a neta escolhia ou ficava apreensiva a ler alguns livros de autores que ela conhece com receio de estar a fazer o avô gastar muito com os livros que ela gostava de comprar, já o avô a incentivava a decidir-se, dizendo-lhe também que mesmo não comprasse de imediato a coleção, que se ela gostasse do primeiro que ele poderia depois encomendá-los à “Livraria Lápis de Memórias” em Coimbra onde compra seus livros.

Caminhava atrás da neta e dava conta como ele tinha mudado. Quando foi pai, se as filhas lhe tivessem pedido para comprar aquele tipo de leitura, talvez se intrometesse nos gostas das filhas e não lhos comprasse, para agora aceitar e incentivar as escolhas da sua neta. O mundo muda a cada instante e ele também vai mudando, aceitando os outros como são, com a consciência plena que mesmo sendo “tresmalhado do rebanho” não ganha nada em opor-se à corrente, apenas pode serenamente ir procurando remar a favor da mesma com a esperança de que mais à frente possam deixar a corrente e começar a andar por outros caminhos em busca de um modo de vida mais decente no agora inexistente futuro.

Quando já iam na segunda volta, ele ia olhando para as pessoas que por eles passavam e se cruzavam na esperança de nelas poder encontrar a ausência como um dia lá atrás no tempo andava ele na feira que se realizava na Avenida da Liberdade quando ela toda sorridente foi ao seu encontro indo graciosa e sorridente para a festa da sua paróquia. No meio da multidão que à medida que a tarde avançava ia aumentando só ele via o sorriso que procurava, numa teimosia que sabe não ter lógica nem sentido.

Quando a camioneta do Expresso partiu rumo a Peniche levando de volta a sua neta, também ele foi apanhar o comboio suburbano para voltar com o saco dos livros, pois este ano comprou mais livros do que na feira do ano passado.


08.06.23

É o tempo uma constante imutável há milhões de anos, não passa a correr como vulgarmente o dizemos. Nós é que inseridos numa sociedade criada pelo sistema que julgamos ser o melhor é que quase sem darmos pela existência do tempo corremos desenfreadamente a caminho do fim. Damos conta dessa correria quando chegamos à idade, somatório do tempo de vida, em que a nossa mente pensa e deseja mas o corpo ou já não responde ou se queixa de dores pela incapacidade de continuar a executar tais desejos processados pelos nossos neurónios, como anteriormente acontecia. Quando tal acontece, já entramos na terceira fase da vida, a velhice, onde alguns formatados arranjam palavras e conceitos como "idoso", ou "mais velho", para iludidos continuarem a iludirem-se alegremente.

Ser velho, ter alguma saúde que permita ter qualidade de vida proporcional ao tempo que se leva de vida é uma felicidade, não é nenhuma desgraça ou contrariedade, é o ciclo natural do tempo de vida que nem todos infelizmente conseguem alcançar.

Muitos dos nossos antepassados, pelo modo como viveram as dificuldades que o sistema então apresentava no seu e já no nosso ciclo de vida, puderam com todas as dificuldades ultrapassadas conhecer em vida netos e bisnetos.

Um dia a agulha da vida mudou, o sistema tremeu mas logo encontrou amigos para trazerem de novo o sistema aos seus carris não fosse o exemplo proliferar. De novo instalado, o sistema impôs a nova ordem democrática, com ajuda externa o modo de vida deu saltos, alguns deles descontínuos de qualidade duvidosa, numa ilusão frenética criando-se, implementando-se o conceito "qualidade de vida" ilusório e real ao mesmo tempo. A "central do sistema" investiu milhões e milhões de notas de valor fiduciário, na difusão e implementação da enganosa democrática "ditadura da felicidade" como o melhor caminho para se chegar a essa tal felicidade que inodora e insípida é desprovida de essência humanista. A vida é para ser vivida individualmente, os outros que façam o mesmo, é o conceito errado mas de tão difundido pelos servos do sistema a troco de notas com valor fiduciário se tornou global no dito ocidente civilizado por normas impostas pela "central" do pensamento único. A mesma "central" que faz gerar todos os males da sociedade atual, mas o importante mesmo é o indivíduo ser o centro de tudo, cada um que trate de si, os outros que façam o mesmo. Embalados, formatados, parametrizados pelo sistema num modelo que não respeita a Natureza, deram-nos mais anos de vida sem que muitos de nós possamos ter esperança com esse aumento de tempo de vida ver os vindouros bisnetos nascerem e crescerem uns anitos, como aconteceu com os nossos antepassados.

A educação ética e moral das crianças compete aos pais, à família, mas nas escolas da nova ordem democrática, abolido o livro único da ditadura, passaram as crianças a serem formatadas pelos novos métodos com vários livros na essência iguais, ditos de ensino criados e desenvolvidos pela "central" do sistema, para que o individualismo seja a matriz das suas vidas, não vá o diabo tecê-las.

Há quarenta e seis anos vivi um momento de felicidade que desconhecida até então. Na Maternidade Alfredo da Costa do SNS (que servos liberais ao serviço da "central" procuram destruir) nasceu-me nesse dia quarta-feira 8 de Junho (com a lua em quarto minguante) a primeira filha, tinha eu a bonita idade de 26 anos e a mãe um ano mais nova, 25 anos, os avós paternos 54 anos. Quando fiz os 46 anos, a minha filha já tinha 19 anos frequentando o ensino universitário. Hoje ela faz 46 anos mas o filho, meu neto, irá fazer 8 anos no próximo mês e eu já sou um velho rabugento, teimoso e tresmalhado embora por vezes bom rapaz com os meus 72 anos, sem esperança de poder ver um dia um ou uma vindoura bisneta, eu que só tenho saudade do inexistente futuro, estou perdendo a esperança até de poder ainda viver numa sociedade mais decente, mais transparente e humanista onde o coletivo volte a ser o motor da da vida e não está ilusória "ditadura da felicidade individualista" em que sonâmbulos se corre desenfreadamente para o fim. 

Um político manhoso disse um dia "É a vida! " Não, não é a vida, mas as mentiras que os políticos atuais produzem para que a vida não volte a descarrilar, como um dia encheu e uniu o país de alegria. Já Mia Couto no seu livro "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra" escreveu na fala de um velho africano moçambicano que, "A política é a arte de mentir tão mal que só pode ser desmentida por outros políticos".

Todos os dias são dias, mas há dias que não morrem nem se esquecem porque vivem presentes nas nossas memórias vivas, 8 de Junho é um desses dias. Felizmente no saldo em movimento desta existência outros dias há que continuam presentes na memória viva, deste pai velho, rabugento, teimoso e tresmalhado embora por vezes ainda bom rapaz.

 

07.06.23

 

Relembro quem não conheço. Olho as capas dos jornais e ausento-me para parte incerta. Consulto o que dizem alguns na rede social. Aguardo o inexistente amanhã para nesse designado futuro, observar onde estará a tão almejada verdade que há muito desertou da comunicação social de pensamento único. Vivemos tempos de informação na designada comunicação social piores do que os piores tempos do fascismo salazarista. Nesse tempo tinha-se oportunidade de escolha, existindo contraditório censurado é certo mas onde trabalhavam jornalistas inteligentes, enquanto que hoje não há escolha não há inteligência jornalística. Os agora jornalistas na sua maioria resumem-se a servos dos senhores seus chefes e patrões. O contraditório não existe, todos alinham no mesmo comprimento de onda formatados e parametrizados pela visão ocidental que esconde de nós não só a sua natureza imperialista como quer que ignoremos, esqueçamos que o mundo do Planeta está em mudança lenta mas caminhando para deixar a unipolaridade económica existente nas relações entre países e povos do planeta Terra.

06.06.23

Chegaram à casa da Consolação. A manhã sem vento com o sol semi encoberto por nuvens altas recebe-os. Depois de arrumadas as coisas, varreu a pequena varanda antes de tirar o espelho da casa de banho por o sistema de lâmpadas ledes ter deixado de funcionar e a casa onde o compraram por estar ainda dentro da validade lhes ter proposto trocá-lo por outro igual que têm em armazém. Antes, tinha desligado a luz por um minuto a fim de se certificar que o antigo comando da televisão funcionava. Não foi a primeira vez que comando e aparelho não sintonizavam mesmo após terem mudado as pilhas do comando, comprando um novo para chegarem cá e após cortarem a corrente ao aparelho o mesmo voltar a estar em sintonia como o velho comando, devolvendo eles o que tinham entretanto adquirido. No dia anterior, como vem sendo normal, ouviu críticas por não se ter interessado em saber onde arranjar um novo comando. Ouviu e calou-se, não reage por assim ter decidido, pois se é coisa que pouco lhe interessa é a televisão. Quem é dependente é que deveria ter procurado encontrar um novo. Contudo, lembrou-se do desligar a corrente do aparelho quando voltavam para casa com o novo comando adquirido.

Realizado esses pequenos trabalhos meteu o livro debaixo do braço e foi em busca de um lugar onde o pudesse acabar de ler, já não faltava muito para o terminar. Pensou em ir sentar-se num dos bancos que existem defronte para o areal. Ao chegar lá os mesmos estavam ocupados, deu a volta ao Largo, olhou as rochas mas não sentiu vontade de descer e procurar um sítio para se sentar e ler. Voltou a olhar a praia, os bancos continuavam ocupados. O bar da Esplanada Mar Azul estava fechado, admitindo que seria o dia de descanso. Foi andando pela passadeira até à outra concessão de praia. No bar Clube da Praia sentou-se numa mesa a olhar defronte para o mar que mais uma vez está tão calmo que nem ondas na rebentação quase tem. Pediu um café cheio e uma garrafa de água e depois de algum minutos de contemplação, pegou no livro na página onde na noite anterior tinha ficado, colocou os óculos de ver ao perto e entrou nas palavras, no mundo do autor Rafael Gallo (prémio literário José Saramago 2022) vivendo o drama social de todo o enredo daquela "Dor Fantasma".

Terminou mais um livro, sentindo-se um pouco mais rico. Foi mais uma compra por impulso, que vai enriquecer a sua pequena biblioteca.




03.06.23


 

Ontem à tarde telefonou ao RdC a convidá-lo para almoçarem com o FV. Estão todos velhos, uns mais outros menos mas todos em casa superior aos setenta.

Foram jovens que se conheceram no serviço militar obrigatório, ele e o RdC em Chaves para onde os mandaram após o término em Mafra do curso de oficiais milicianos. Em Chaves no então BC10, o RdC substituiu-o na instrução aos recrutas quando oficiosamente ele foi escolhido para adjunto do capitão de operações da unidade BC10.

Passadas as onze semanas habituais de instrução aos recrutas, chegou então o FV e outros milicianos (eram todos milicianos, desde o capitão ao soldado).

O FV chegou para comandar uma companhia de caçadores com destino à guerra que ainda ocorria em Angola. Ele desceu do gabinete do capitão de operações (militar do quadro permanente, também ele mobilizado para formar Batalhão numa outra unidade militar) e foi integrado na companhia do FV para dar instrução de especialidade aos soldados. O RdC foi integrado numa outra companhia do mesmo Batalhão de Caçadores, a designada Primeira Companhia, enquanto eles faziam parte da Segunda Companhia.

Depois, nas terras do Leste de Angola as companhias ficaram em localidades diferentes do então concelho de Chitembo, onde se encontrava a Companhia de comando e serviços. Por motivos que nunca entendeu o RdC veio passar uns tempos à sua Companhia, comandada pelo FV.

Terminada a comissão no regresso cada um seguiu o seu caminho, profissional e político para passados uns largos anos voltarem a encontrar-se.

Agora, só ele é FV vão almoçar, pois o RdC está com uns problemas de saúde que o impedem de se deslocar até à Rocha de Conde d'Obidos, mas já ficou acordado que o próximo almoço ele e se o FV puder irão até à Parede para almoçarem os três, que um dia na juventude se conheceram e agora já velhos gostam de se reunir para falarem de tudo, respeitando o passado assim como presente de cada um, falando igualmente do país que um dia serviram, para depois mais do que esquecidos serem ignorados pela “nova ordem democrática”, como se pertencesse a uma geração de indigentes, quando na verdade verdadeira as gerações que veem pertencendo aos governos da “nova ordem democrática”, lhes devem a eles e a todos os antigos combatentes o terem à sua maneira de forma simples e disciplinada ajudado à revolta gloriosa do Movimento dos Capitães, que depois entregam o poder sem exigências de valorização profissional como era típico e norma dos militares revoltosos do 25 de Abril, aos políticos da “nova ordem democrática”, que sem humildade e disciplina na governação se transformaram numa nova «nobreza» sem o sangue dos antigos nobres da fundação do reino. Uma pseudo «nobreza» incapaz de desenvolver o país e defender os interesses portugueses, vivem hoje como pedintes de mão estendida perante os burocratas liberais e neoliberais sem alma de Bruxelas.