quarta-feira, 20 de maio de 2020

O segundo dia desta segunda fase do tempo novo


Hoje é terça feira. Dia de no outro tempo que não este tempo novo se realizava no Campo de Santa Clara a Feira da Ladra. Neste tempo novo não sei se os feirantes voltaram e com eles voltaram também os clientes habituais em busca de algo que gostam de coleccionar ou simplesmente de ter como recordação dos tempos que já estão lá atrás no seu passado presente. E, os habituais clientes estarão ausentes com medo ou já terão perdido o medo? Só duvidas neste tempo novo.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

O primeiro dia desta segunda fase do tempo novo


Ontem à noite assisti a duas rábulas televisivas que me fizeram rir, tal a piada que aqueles dois comentadeiros oficiosos têm naquilo que apregoam. Eles sabem tudo, até o futuro já é cliente dos dois tão certos e sabidos são nas suas afirmações. Um mais venenoso que o outro. Um mais populista no gingar do seu ego. Eles sabem tudo. As suas fontes ocultas são divinas, detentoras de toda a verdade, porque na verdade, "a verdade é só uma e os outros não falam verdade" . Fazem-me lembrar outros tempos onde a vida corria a preto e branco num cinzento de fome e miséria.

Leio no livro de Henry Morse Stephens "Portugal: A História De Uma Nação" «A grandeza dos portugueses na Índia foi devida à coragem e ao heroísmo do povo português e essas qualidades provinham da série de grandes reis, que tinham educado o povo na liberdade, na coragem e na constância. Se não fossem os grandes reis como D. João I, D. João II, o Príncipe Perfeito, e grandes príncipes como D. Pedro, duque de Coimbra, e o infante D. Henrique, o Navegador, a nação portuguesa nunca teria feito o que fez e a História de Portugal ministra-nos uma eloquente lição: um povo educado em grandes pensamentos e numa alta concepção do dever, encontra sempre com segurança um alvo para as suas energias, mostrando em nobres feitos o resultado da sua educação».
Mais à frente escreve o autor, «A grandeza de um povo depende da opinião que de si forma como indivíduos e como cidadãos; enquanto creem em si, tudo conseguem; quando a fé na sua invencibilidade desaparece, a posição que tem entre as nações declina rapidamente».

Foi o que nos aconteceu com a chegada da Inquisição a implementação do poder que os assassinos do Santo Ofício tiveram durante anos e séculos levando a Nação outrora gloriosa e respeitada a ser aquilo que somos hoje no contexto das Nações e em particular na União Europeia. É certo como escreveu o grande Luís Vaz de Camões nos seus sonetos:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Muita coisa mudou, muita volta deu o Planeta e a própria vida dos povos e das nações desde esse outro tempo. Não deixámos de ser uma Nação independente depois dos sessenta anos sob o domínio dos Filipes de Castela, mas as nuances, as diferenças são muitas com reis e republicanos a comandarem a vida neste rectângulo à beira-mar.
Hoje somos uma Nação governado por um Governo que nem para mudar uma taxa do imposto IVA o pode fazer sem primeiro pedir autorização aos burocratas de Bruxelas. Uma Nação onde os novos Condes de Andeiro, os morgados Migueis de Vasconcelos, abundam em horário nobre em canais televisivos privados e público vestidinhos a preceito.

E, quando um português que não foi educado nas cortes partidárias de agora, não passou pelas falsas universidades de “boys and girls” em final de férias , chega ao poder para controlar e gerir as finanças públicas, quando esse cidadão nascido em Olhão sem curriculum em negócios duvidosos de luvas e outros favores quer públicos quer privados se impõe como Ministro quer internamente quer no seio da União Europeia, aí estão os comentadeiros, os andeiros e os morgados, em obediência quer aos seus nobres quer aos do clero retrógrado e ultra conservador uns e outros de face oculta, aí estão como seus peões de brega andeiros e morgados a denegrir, a rebaixarem a imagem política e pessoal do Homem que soube fazer orçamentos anuais sem rectificativos, que soube criar uma equipa para controlar a despesas pública, que contribuiu para o crescimento da economia, que soube impor no exterior algum respeito à Nação, que sem diminuir a elevada carga fiscal herdada soube cirurgicamente dar mais rendimento disponível às famílias. Esse Homem, Ministro das Finanças, é o inimigo público a abater por essa gente mesquinha, invejosa e pouco ou nada patriótica, agora não ao serviço de Castela mas de um outro reino bem mais perigoso para todos nós cidadãos que gostamos de ser portugueses, que gostamos do nosso rectângulo à beira mar cujos antepassados navegando pelo mar profundo e distante deram novos mundo ao mundo, que soubemos repudiar com uma “revolução de cravos” a política do «orgulhosamente sós» . Esse inimigo de muitos rostos ocultos tem nome e vários donos, é o capitalismo selvagem financeiro e desumano, os novos vampiros deste século que com falas bonitas nos vão chupando o sangue.

sábado, 16 de maio de 2020

Décimo quarto dia deste tempo novo


Chegamos a mais um sábado. Estamos a fazer sessenta dias deste tempo de emergência que virou calamidade. Um tempo em que a vida quase parou pelo medo, pelo desconhecimento dos malefícios que um vírus novo trouxe às sociedades. Um tempo em que a força da palavra calamidade é menos gravosa socialmente comparada com a de emergência. Com ela entrámos num tempo novo de vida.
Tenho 69 anos de idade e de viagem. Já vivi mais de metade do meu caminho. Pelos números sou velho para a sociedade. Cidadão de risco face ao que dizem os que dizem saber destas coisas de um vírus desconhecido. Não me importo nem me ralo. A asma há uns dez anos que não me ataca. O câncer parece estar controlado, retirado que foi pela raiz. Vivo olhando o que me rodeia com um outro modo de olhar e sentir sem medo quer da vida quer da morte. Contudo não gosto da dor e do sofrimento. Sem medo mas com respeito pela saúde dos outros, vejo a vida à minha maneira.
Ser velho é uma virtude nunca um mal. Foram sempre os mais velhos que desbravaram a vida na busca de melhores condições. Tudo o que os mais novos podem usufruir foi sempre conquistado pelos mais velhos, num processo de criação e desenvolvimento nem sempre pacífico.
Em Chaves ainda de tenra idade (21 anitos), quando me aconselharam a colocar os ideais numa caixinha com algodão recusei, não os aprisionei, foram e voltaram comigo com raízes mais fortes.
Aquando do 25 invernoso de 1975 não cumpri a emergência do recolher obrigatório; a liberdade de ver, de olhar, conhecer quem estava de um lado e do outro, foi mais forte para pela calada da noite relembrar as noites de 1969.
Os ideais nunca me atrapalharam de cumprir os objectivos como responsável nas empresas privadas onde sempre trabalhei.
Ao ouvir discursos de dirigentes sindicais, sorrio porque vejo neles o porquê da fraqueza que o movimento sindical tem na nossa sociedade. Procuro na memória o tempo em que poderei ter trabalhado menos de 40 horas semanais e não encontro dados desse registo. Muito mais horas sim, mas a minha cabeça já não é o que era.
Na emergência deste tempo não houve um dia em que não saísse à rua duas vezes por dia para o passeio higiénico salutar sem medo.
Neste tempo novo de calamidade assim que pude fiz-me ao caminho ouvindo o fado "Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera".
Sem medo mas com respeito pela saúde dos outros, vejo a vida à minha maneira.
No campo falo comigo, com o vento e as copas das árvores. Junto ao mar na minha terra adoptiva ouço o vento já que os deuses têm andado ausentes.
De volta à cidade grande falo com os livros que gosto de ler e reler, principalmente de autores não badalados nos órgãos de comunicação que nos querem parametrizar os processos de pensamento.
O meu caminho é a outra margem da vida onde vou remando contra a maré com a consciência de que não devo nadar contra a corrente.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Décimo terceiro dia deste tempo novo


Na outra margem por onde caminho olho a margem onde vivo. Cada dia entendo menos o que se passa à minha volta. Há tantos a festejarem, a baterem palmas, a darem vivas, a agradecerem a profissionais e eu sem entender o porquê de tantas saudações e vivas.
Depois os mesmos que batem palmas e agradecem ou mais ou menos os mesmos, vivem no medo deixando-se influenciar por notícias emanadas por qualquer fonte dita noticiosa mas não identificada e ou reconhecida como credível.
As lutas pelo lucro ganancioso estão no auge mas o pessoal bate palmas, dá vivas e parabéns.
Nunca entendi porque quando fui pai me davam os parabéns. Quando as filhas faziam anos me davam de novo os parabéns e eu sem entender os porquês aceitava-os com educação sorrindo à desconhecida razão.
Chegados ao calor que é usual ser no Verão mas pode acontecer no final da Primavera ou no início do Outono há sempre vários pirómanos que se sentem felizes a ver as florestas mal cuidadas de pinheiros, eucaliptos e mato diverso a arderem sem controle. Com os incêndios criminosos enchem-se as redes ditas sociais, enchem-se as televisões quantas vezes elas promotoras dos instintos pirómanos com imagens de vivas, a baterem palmas, a agradeceram com vivas aos bombeiros que elegem como soldados da paz, sem que eu consiga enxergar que paz é que está a ser festejada.
Neste tempo em que a vida foi também ela globalizada por um vírus mal intencionado para a vida dos humanos, batem palmas, dão vivas, parabéns, agradecimentos, medalhas de mérito e se calhar até prometem o céu aos profissionais de saúde, sejam médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares como se eles não estivessem a fazer dignamente o seu trabalho. Pelo meio um ou outro se lembram dos profissionais da recolha do lixo, mas logo são esquecidos e ignorados. Esses e todos os outros profissionais que na sua vida produzem saberes como os professores dignos dessa profissão (porque infelizmente também os há que apenas se preocupam com a transferência dos euros no final do mês). E os cientistas que também trabalham horas e horas em busca de soluções? E os engenheiros e os operários das mais diversas profissões e afins, os agricultores, os pescadores ou seja todos os que novos e velhos de todas as outras artes e ofícios que continuam a trabalhar com medo ou sem medo… esses não contam, não merecem uma citação um aplauso, um agradecimento?
Há muito que deixei de bater palmas. O meu agradecimento é de sentida gratidão silenciosa. As palmas batem-se a qualquer um mas a gratidão neste meu sentir é de respeito para quem o merece e não é qualquer um que a merece.
A cada dia que passa neste meu caminhar, concluo e tenho duvidas: - serei eu desta vida? Não andarei cá por engano… Que faço eu por cá? Com o passar dos anos mais desenquadrado me sinto. Assim caminho na minha outra margem olhando a margem onde vivo.

Décimo segundo dia deste tempo novo


A política portuguesa é jovem, às vezes tropeça em políticos pouco abonatórios mas, segue o seu rumo com altos e baixos como é normal em democracia.
Gosta-se mais de uns do que outros, é normal entre os democratas. Felizmente, não pensamos todos da mesma forma e modo. As divergências são necessárias e até fundamentais em democracia. O contraditório o seu instrumento.
Que vantagens para o país traria a demissão do Ministro das Finanças?
Numa altura em que políticos e técnicos de saúde continuam a apalpar terreno e medidas contra o desconhecido vírus, o porquê de um caso político com a demissão voluntária ou imposta do homem que governa com esmero cuidado as finanças públicas?
Que vantagens para o país, não para a política corriqueira dos telejornais, teria a sua demissão?
Que motivos terão levado o comentador - mor do país no seu papel de Presidente a meter-se em assuntos do executivo?
A culpa disto tudo, ficou lá atrás aquando da gestão danosa que o DDT da altura ia fazendo, com os mesmos papagaios televisivos a beijarem-lhe os passos e a lamberem-lhe o dito.
Culpa nos erros da gestão gravosa de políticos e administração do BP na solução do problema Grupo BES.
Culpa na opção de venda a mais um fundo financeiro em vez da nacionalização a termo da instituição bancária.
Meter lá os milhões orçamentados parece-nos mal mas é o caminho que foi escolhido com tantos erros pelo meio. Caminho cheio de silvas venenosas que temos de cumprir pelos acordos anteriormente estabelecidos.
Que podemos esperar de gestores liberais e neoliberais cujo sentimento de vida passa única e exclusivamente pelos bens pessoais do seu próprio umbigo? Nada é claro! seja na banca, seja nos seguros, seja nas comunicações, seja na energia. Eles, os gestores de topo, estão lá porque foram nomeados para nos comerem a carne e chuparem os ossos até ao tutano, recebendo em troca graciosos prémios de gestão.
Uma instituição que perdoa milhões a clube de futebol, a empresário ligado ao futebol, a outros vaidosos empresários, pode fazê-lo porque sabe que existe um acordo nupcial que salva os seus accionistas privados da gestão do buraco e em troca recebem os graciosos prémios para alegria e satisfação dos seus umbigos continuando a tradição da gestão dolosa dos anteriores gestores.
Olhemos para o futuro sem medo. Conscientes de que a vida por agora mudou sem sabermos como será amanhã.
Ficarmos em casa com medo não é solução com futuro.
No final disto tudo alguns ricos estarão mais ricos. O “Zé” irá novamente pagar com língua de palmo e meio toda a crise gerada pelo vírus e pelo medo, porque por mais donativos com ares solidários que façam... eles não dão almoços grátis.

Décimo primeiro dia deste tempo novo


Mais chuva no horizonte de nuvens negras se avizinha. Sente-se o trovejar longínquo.

O tempo passa no seu passo certo. As desgraças acontecem deixando-nos sem ideias. Como é possível acontecer coisa assim tão revoltante.

Que amor me desengane que não quero viver num mundo assim. Faz falta regressar a um outro tempo. Um tempo onde o amor seja lei universal livre de todos os perigos que a soberba, o ciúme, a inveja lhe incutem. Um tempo em que os que não sabem viver o amor que o confundem com posse e poder nas suas múltiplas facetas não mais consigam olhar-se ao espelho, não mais conheçam a compaixão, o perdão, a alegria de um olhar meigo, apaixonado, de um abraço, de um simples beijo. Um tempo de vida longo que lhes pesasse a consciência os vergasse à vergonha de terem que rastejar os dias longos da sua existência sem outro sentido que o expiar a culpa de não saberem cultivar o amor.
Mas nós ajudámos a criar esta sociedade que banalizou a vida, que fez do amor uma coisa doentia um não-amor incapaz de aceitar os outros na sua própria dimensão.
O tempo passa no seu passo certo mas há ainda quem não saiba viver o amor na sua essência. Ainda nos falta percorrer muito tempo para chegarmos ao tempo em que o amor seja a única lei universal de convivência entre todos.

O passado e o presente são o fio e agulha da nossa identidade”* Na minha vida não há presente sem passado. Com eles crio as minhas utopias os meus sonhos, a minha Liberdade de caminhar pela outra margem, até porque “Quem é cego para o futuro vive sem sonhos”* e eu vou continuar a sonhar a criar o meu passado com saudades do futuro.
* Mia Couto em Universo Num Grão de Areia

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Oitavo dia deste tempo novo


O vírus mais falado e global do primeiro quarto do século vinte e um, seja natural ou não é consequência do modelo de desenvolvimento seguido pela sociedade actual onde as diversas forças políticas que vivem e coabitam no seu seio não olham a meios para atingir os seus fins. Fins que passam sempre pela acumulação de mais capital, como símbolo de riqueza quer do próprio Estado quer dos seus amigos privados que lhes facultam os meios necessários para o desenvolvimento desses fins.
Com o fim da segunda guerra mundial os nacionalistas e o nacionalismo não acabou simplesmente. Os nacionalistas adaptaram-se vestiram as suas peles de cordeiro sob designações mais soft. O mesmo aconteceu em Portugal, onde em 24 de Abril existiam tribunais plenários, um exército de polícias secretas, e outro ainda maior de bufos nojentos, defensores acérrimos de Deus Pátria e Autoridade, sempre a Bem da Nação que os Bons costumes e as Públicas virtudes do regime eram o caminho para a salvação. A 26 de Abril os juízes dos tribunais plenários eram democratas, os PIDES e bufos nojentos sempre defenderam a democracia aderindo uma maioria considerável de cravo na lapela a todas as organizações políticas de renome.
Mudaram de fato colocaram novas gravatas e calçaram ténis para parecerem mais democráticos e modernos. Criando e educando os descendentes por forma a que os velhos princípios de Deus Pátria e Autoridade não fossem de todo esquecidos. São adeptos da tal lei do retorno, acreditando que a sua hora irá chegar de novo.
A criação da União Europeia nas suas diversas fases de evolução retardou inicialmente a sua chegada à cabeça do pelotão para imporem as suas ideias de ambições nacionalistas. Devagar com peles de cordeiro e sapatos de lã eles aí estão. A desintegração da antiga Jugoslávia com as diversas correntes nacionalistas a cometerem os seus crimes sobre os seus vizinhos de quarenta anos. A queda do muro de Berlim. A desintegração do falso Império soviético. As cedências passo a passo cada vez maiores concedidas por sociais democratas, democratas cristãos aos interesses ora do liberalismo ora dos neoliberais amantes do capitalismo selvagem foi e continua a ser o caminho aberto para as forças políticas nacionalistas se mostrarem de novo sem vergonha do ódio que fomentam sobre a Democracia e a Liberdade encontrando nos pontos fracos das sociedade democráticas dominadas pelas ideias liberais o móbil fácil de propagandearem o seu veneno.
Nada disto é novo e inesperado. Os nacionalistas germinam nas promessas não cumpridas dos dos Governos Democratas. Vêm de longe de muito longe de muito atrás na nossa própria história com outra face mas os mesmos principios. Já foi assim no século XV e XVI com outras ideias.

Sétimo dia de um tempo novo


Só fui professor no serviço militar em Chaves. Um professor imposto pelos galões que me puseram nos ombros.
Terminado o tempo de militar obrigatório ainda me inscrevi no primeiro concurso realizado no pós 25. Contabilista, curso médio na altura tinha à frente licenciaturas que nada piscavam de contabilidade. Virei costas e lá andei pelo mundo das empresas privadas, onde em algumas tinha a alcunha de "professor". Quanto mais os meus colaboradores soubessem mais facilitada tinha a minha vidinha. Estudava no ISEG à noite.
Durante a juventude na escola de Peniche pertenço à geração do livro único. No Instituto à geração que tinha de usar casaco e gravata para sermos uns homens. Um dia o professor de Matérias Primas Práticas, Domingos Sequeira, não começou a aula e só olhava para mim. Atrapalhado com todos a olharem para o professor e para mim, meti a mão ao bolso do casaco e lá estava esquecida a desgraçada da gravata. Ao tirá-la do bolso o professor apontou-me a porta de saída. Dei meia volta e com o rabo entre as pernas saí da aula sem piar.
O meu irmão fez carreira de professor. Brilhante e reconhecida por colegas e seus alunos.
Tenho um amigo que dava aulas na Vila do Bispo pertencente ao Reino dos Algarves. Professor de Educação Física que não se limitava ao físico. Durante meses lá vinha ele no seu Fiat Panda, muitas vezes de noite para minha casa depois de um dia de trabalho a dar aulas. Tudo para assistir às aulas de Mestrado no seu antigo Instituto agora Faculdade de Motricidade Humana e evoluir no saber e na carreira docente. Outros seus colegas de curso quando íamos beber a bica depois do jantar e os encontrávamos , estranhavam-lhe o sacrifício. Queriam apenas ver chegada a hora das férias.
Como em todo o lado em todas as profissões e ofícios há os que procuram evoluir, os que procuram fazer bem, os que fazem e não se importam, os que se estão marimbando para o que fazem, os que não gostam do que fazem porque o patrão é explorador, outros porque o chefe que faça pois ganha mais do que ele etc etc… agora até há desventurados a falarem asneiras venenosas por aí.Trataram as duvidas do desconhecido vírus mandando todos ficarmos em casa, deixaram o vírus do medo se instalar em todos os estratos sociais nas diversas gerações. Agora sem ideias para acalmar o pânico instalado deixam o ónus para os da DGS quando não foi esta Direcção que mandou fechar escolas, cresces e infantários.  
Ninguém saberá o que teria acontecido se as escolas, creches e infantários não tivessem fechado e professores, alunos, funcionários, educadoras, auxiliares e crianças tivessem continuado a irem às escolas, creches e infantários respeitando todos as normas de segurança que o contágio do vírus aconselha e os técnicos de saúde pensam serem de aplicar.
Houve fábricas que não fecharam. Centros de investigação que até aumentaram o número de horas trabalhadas. Empresas e empresários agrícolas assim como os pescadores que continuaram a sua vida normal de trabalho, não havendo depois o convívio, a vida social a que estavam habituados. Os supermercados das grandes cadeias de distribuição continuaram e continuam abertos, sem rupturas graves nos stocks dos géneros alimentares, sem casos de indisciplina nos seus clientes.
Tenho ideias mas não saberes e claro as minhas dúvidas sobre o ensino. Uma coisa é certa, fecharem as escolas contra a ideia de alguns técnicos de saúde. Foi uma medida política fácil, que agradou a muitos.
Nada, mesmo nada fácil vai ser o reabrir das escolas dos institutos e das universidades, das creches e infantários seja agora, daqui a várias semanas… até chegar a tão desejada vacina para nos imunizar aos efeitos nefastos do vírus. Para lá das organizações sindicais dos professores, temos os diversos órgãos das escolas e agora o aparecimento de tantas associações que se reclamam de interesses vários. Com tantos opinativos interesses não sei como o Ministro conseguirá dormir.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Sexto dia de um tempo novo


Vejo o dia a renascer. Ainda o relógio não chegou às seis. Sentado na cama olho pela janela o silêncio da vida que vai lá fora. Também por esta estrada a acção do vírus parece ter diminuído o tráfego das trocas logísticas com Espanha.

Com grande parte dos sectores económicos em suspenso a procura e a oferta dos bens que por aqui transitam diminuiu pelo que circulam menos gigantes do asfalto a caminho e de regresso pela fronteira aberta nas Termas de Monfortinho.
Contemplando a beleza que o silêncio me dá vou pensando em muitas coisas porque também tenho outros medos que não do vírus. Medo da alzheimer que me pelo, por isso em vez de receber os dados cozinhados e embalados que me oferecem para não me cansar, prefiro pensar, duvidar, equacionar sistemas para pôr os neurónios a trabalhar em busca das soluções possíveis, mesmo que muitas delas sejam apenas sonhos e utopias irrealizáveis.
Não ponho em causa os dinheiros que o Estado através do Governo vai dar às empresas. Custa-me aceitar ajuda a algumas empresas mas é o sistema que a maioria escolheu, tenho que aceitar. Neste caso está a TAP, empresa que ao longo da sua existência acumula montes de prejuízos. Só apresentou lucro quando por interesses políticos que não de gestão, se esqueceram de fazer as amortizações dos aviões. Dizem-me que é uma empresa fundamental, uma empresa bandeira do nome de Portugal. Fui contra a quase doação a privados que muito prometiam. Fui contra o modelo de recompra de 50% do capital, uma chinesisse para "portuga" ver e calar. O que se viu aquando da recompra dos 50% está à vista. Uma privatização em que o Estado ainda pagou para vender 50% sem direito a decidir. Colocou um CEO escolhido entre adversários políticos para dizer que é democrático.
Sobre a EFACEC empresa de ponta que exporta saber técnico transformado em valor acrescentado, isto é, riqueza nossa, não ouço notícias de que tenha o Estado feito a intervenção necessária à compra do capital que um hacker odiado por muitos, obrigou a empresária Angolana a colocar em venda. A EFACEC é uma empresa industrial, tecnológica que produz bens transacionáveis e os exporta com qualidade “made in Portugal”.
A TAP é uma empresa de serviços que contribui para receitas sem produzir bens, apenas produz serviços andando por vezes nas bocas do mundo pela fraca qualidade dos seus serviços igualmente "Made in Portugal"
Maneira diferente a minha de ver as coisas.
O estado que as economias estão a atravessar deveria ser olhado pelos governantes lá para a frente, para trás do por do sol onde outro modo desponta, outras oportunidades de vivermos nos aguardam… Como ajudar as empresas nacionais que foram capazes de reconverter a produção e ajudar o SNS na luta contra o vírus, empresas que reestimaram os objectivos e continuaram a produzir em condições de segurança, algumas para exportação.
Abandone-se o método de só nos preocuparmos com as receitas, olhemos com outros olhos de ver e analisar o valor acrescentado, a riqueza produzida, sem esquecermos os proveitos e o resultado porque em tudo no fim há sempre um resultado final.

Que futuro se deve desenvolver no interior do país? Vias de comunicação já existem globalmente. Gente que pensa que luta e resiste contra o esquecimento também. Que fazer? Que soluções? É preciso deixar de falar no interior e vir estar cá uns tempos, sem câmaras de filmar e agentes de segurança. É preciso vir e ouvir as gentes que vivem e resistem no próprio interior, não só as autoridades e agentes do Estado. É preciso saber conversar, saber ouvir as gentes, meditar sobre as ansiedades dos jovens dos politécnicos, das universidades… Não só ouvir aqueles que do interior se foram para a cidade grande e hoje engravatados falam e expõem ideias que leem em tratados escritos por gente de outras regiões de outros viveres que não o nosso próprio interior. Não basta ter um Ministério e uma ou duas Secretarias de Estado, não chega e se não chega não resolve problemas.
Lembrem-se que se nada for mudado no sistema de exploração vigente dos recursos naturais e humanos, mantendo-se todas as premissas do actual modelo da sociedade, se nada for mudado ao estilo de vida… aos vossos descendentes, bisnetos e trinetos e outros pelo caminho que as coisas levam só lhes restará virem a fugir para o interior se não quiserem ser absorvidos pela subida das águas dos oceanos que já esta em curso, mas que os políticos preferem ignorar gastando milhões inutilmente a por areia para o mar levar de novo.

Será no interior que hoje é esquecido e ignorado que estará a Nova Arca de Noé e quem o diz não é bruxo.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Quinto dia deste novo tempo


O silêncio domina. A vida corre normal. O vírus não entrou cá no concelho.
A viagem ontem correu serena. Nas duas superfícies comerciais onde fiz compras na cidade de Castelo Branco o movimento era perfeitamente normal com as pessoas a usarem a máscara quando entram nas mesmas. Ninguém atropela ninguém, todos nos evitávamos uns aos outros.
Acabava de almoçar quando chegou o meu amigo que me vinha cumprimentar porque cá o bicho não entrou. Evitei dizendo-lhe que eu vinha da poluição e assim era melhor, já que todo o cuidado é pouco. Estávamos a falar das videiras novas que pegaram todas para depois se arrancar as velhas, quando passa um outro amigo que depois de almoçar voltava ao trabalho. Amigo que gostava de ir ao café beber a sua bica, a sua cervejinha mas que não aceita ir ao café e ter de as beber na rua, revoltado com a situação já se habituou a bebê-las em casa. Também a mulher do meu amigo diabética ao ficar em casa todo este tempo diz que já não sente necessidade de todas as manhãs ir lá acima ao café beber a sua bica. O vírus a mudar hábitos de convivência.
Como não tenho televisão só a rádio e a Internet me ligam ao mundo. Mundo que julgávamos ser mais civilizado do que na verdade o é.
A grande maioria dos portugueses ficou em casa não por educação cívica mas por terem medo, com as televisões sempre mais interessadas na exploração desse conceito tão antigo que é o medo e que tantas audiências lhe dá. Em vez do procurarem aconselhar e ajudar à educação cívica de como nos devemos comportar em “pandemia” só a apologia do medo lhes interessa durante horas e horas de emissão, criando o pânico em várias gerações. Alguns políticos responsáveis ajudaram a que tal clima se instalasse. Que juventude iremos ter amanhã é mais uma das minhas duvidas?

Com o passar do tempo o vírus mantém a sua actividade de contágio, contudo as autoridades governativas vão dando autorização para que algumas actividades económicas recomecem a sua actividade lentamente. O medo parece ter tomado conta do tempo entrando na fase de vivermos com dois vírus, o tal covid-19 e um outro vírus sem nome mas já nosso conhecido de anos anteriores ou seja o da recessão económica. Este segundo vírus reacende-se por acção do primeiro, sendo necessário um grande esforço colectivo para lhe fazer frente.

A fome em muitos lares familiares que recorrem às organizações sociais para poderem ter algo para se alimentarem não é apenas e só consequência da pandemia, ela simplesmente veio agravar ainda mais a vida precária de muitas famílias cuja existência é necessária ao actual sistema social da sociedade. Ou não fosse a fome mundial representar tão pouco comparativamente aos gastos da industria do armamento, por exemplo.

Considerando que o país só esteve unido entre o 25 de Abril e o 1 de Maio de 1974, não vejo como iremos sair desta pandemia dupla sem sacrifícios individuais e colectivos por muito boa que seja a vontade nas palavras de quem nos governa. As diversas organizações políticas e sociais já estão a puxar cada uma para o lado que lhe convém pôr ideologia, por interesses mais ou menos ocultos, criticando sempre as medidas dos que governam e tem de tomar decisões.

O Turismo actividade que mascarava as nossas contas públicas está moribundo com muitas das empresas que dele faziam a sua actividade principal ligadas à máquina em busca de oxigénio, sendo que para muitas empresas parece não haver ventiladores disponíveis. Iludidos pelos ares da falsa “primavera árabe” aprovaram-se projectos imobiliários assassinos dos bairros tradicionais das cidades por falta de outra visão estratégica para essas zonas históricas das urbes; autorizaram-se hotéis e mais hotéis sempre a contar com o ovo no cu da galinha. A iniciativa privada e o empreendedorismo a fazer de sofríveis autarcas gente importante. Agora os empreendedores, os homens que tinham visão do futuro estão de calças nas mãos a pedirem dinheiro ao velho Estado. O tal Estado que era pesado, burocratizado que os impedia de realizar os seus sonhos de homens de negócio com visão de futuro.
Quando recebiam os “dinheirinhos” das marcações de estrangeiros... quantos não o recebiam directamente nas suas contas off. Agora que perderam a visão de futuro porque chegou um vírus estendem a mão ao Estado Previdência que tanto renegavam. Mas o pequeno e médio empresário sem lugar na dita concertação social dos grandes faz das tripas coração e contas à vida...