Hoje
é terça feira. Dia
de no outro tempo que não este tempo novo se
realizava no Campo de
Santa Clara a Feira da Ladra. Neste tempo novo não sei se os
feirantes já voltaram
e com eles voltaram
também os clientes
habituais em busca de algo que gostam de coleccionar ou simplesmente
de ter como recordação dos tempos que já estão lá atrás no seu
passado presente.
E, os habituais
clientes estarão ausentes com medo ou já terão perdido o medo? Só
duvidas neste tempo novo.
quarta-feira, 20 de maio de 2020
segunda-feira, 18 de maio de 2020
O primeiro dia desta segunda fase do tempo novo
Ontem
à noite assisti a
duas rábulas televisivas que me fizeram rir, tal a piada que aqueles
dois comentadeiros
oficiosos têm
naquilo que apregoam. Eles sabem tudo, até o futuro já é cliente
dos dois tão certos e sabidos são nas suas afirmações. Um mais
venenoso que o outro. Um mais populista no gingar
do seu ego. Eles sabem tudo. As suas fontes ocultas são divinas,
detentoras de toda a verdade, porque na verdade, "a verdade é
só uma e os outros não falam verdade" . Fazem-me lembrar
outros tempos onde a vida corria a preto e branco num cinzento de
fome e miséria.
Leio
no livro de Henry Morse Stephens "Portugal: A História De Uma
Nação" «A grandeza dos portugueses na Índia foi devida à
coragem e ao heroísmo do povo português e essas qualidades
provinham da série de grandes reis, que tinham educado o povo na
liberdade, na coragem e na constância. Se não fossem os grandes
reis como D. João I, D. João II, o Príncipe
Perfeito, e grandes príncipes como D. Pedro, duque de
Coimbra, e o infante D. Henrique, o Navegador,
a nação portuguesa nunca teria feito o que fez e a História de
Portugal ministra-nos uma eloquente lição: um povo educado em
grandes pensamentos e numa alta concepção do dever, encontra sempre
com segurança um alvo para as suas energias, mostrando em nobres
feitos o resultado da sua educação».
Mais
à frente escreve o autor, «A grandeza de um povo depende da opinião
que de si forma como indivíduos e como cidadãos; enquanto creem em
si, tudo conseguem; quando a fé na sua invencibilidade desaparece, a
posição que tem entre as nações declina rapidamente».
Foi
o que nos aconteceu com a chegada da Inquisição a implementação
do poder que os assassinos do Santo Ofício tiveram durante anos e
séculos levando a Nação outrora gloriosa e respeitada a ser aquilo
que somos hoje no contexto das Nações e em particular na União
Europeia. É certo como escreveu o grande Luís Vaz de Camões nos
seus sonetos:
Mudam-se
os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
Muita
coisa mudou, muita volta deu o Planeta e a própria vida dos povos e
das nações desde esse outro tempo. Não deixámos de ser uma Nação
independente depois dos sessenta anos sob o domínio dos Filipes de
Castela, mas as nuances, as diferenças são muitas com reis e
republicanos a comandarem a vida neste rectângulo à beira-mar.
Hoje
somos uma Nação governado por um Governo que nem para mudar uma
taxa do imposto IVA o pode fazer sem primeiro pedir autorização aos
burocratas de Bruxelas. Uma Nação onde os novos Condes de Andeiro,
os morgados Migueis de Vasconcelos, abundam em horário nobre em
canais televisivos privados e público vestidinhos a preceito.
E,
quando um português que não foi educado nas cortes partidárias de
agora, não passou pelas falsas universidades de “boys
and girls”
em final de férias , chega ao poder para controlar e gerir as
finanças públicas, quando esse cidadão nascido
em Olhão sem
curriculum em negócios duvidosos de
luvas e outros favores quer
públicos quer privados se impõe como
Ministro quer
internamente quer no seio da União Europeia, aí estão os
comentadeiros, os andeiros e os morgados,
em obediência quer aos seus nobres quer aos do clero retrógrado e
ultra conservador uns e outros de face oculta, aí
estão como seus peões de brega andeiros e morgados a
denegrir, a
rebaixarem a
imagem política e pessoal do Homem que soube fazer orçamentos
anuais sem rectificativos, que soube criar uma equipa para controlar
a despesas pública, que contribuiu para o crescimento da economia,
que soube impor no exterior algum respeito à Nação, que sem
diminuir a
elevada carga fiscal herdada
soube
cirurgicamente
dar
mais rendimento disponível às famílias. Esse Homem, Ministro das Finanças, é o inimigo
público a abater por essa gente mesquinha, invejosa e pouco ou nada
patriótica, agora não ao serviço de Castela mas de um outro reino
bem mais perigoso para todos nós cidadãos que gostamos de ser
portugueses, que
gostamos do nosso rectângulo
à beira mar cujos
antepassados navegando pelo mar profundo e distante deram novos mundo
ao mundo, que soubemos repudiar com uma “revolução
de cravos”
a política do «orgulhosamente sós» .
Esse inimigo de muitos rostos ocultos tem nome e
vários donos,
é o capitalismo selvagem financeiro e
desumano,
os novos vampiros deste
século que
com falas bonitas nos vão chupando o sangue.
sábado, 16 de maio de 2020
Décimo quarto dia deste tempo novo
Chegamos
a mais um sábado. Estamos a fazer sessenta dias deste tempo de
emergência que virou calamidade. Um tempo em que a vida quase parou
pelo medo, pelo desconhecimento dos malefícios que um vírus novo
trouxe às sociedades. Um tempo em que a força da palavra calamidade
é menos gravosa socialmente comparada com a de emergência. Com ela
entrámos num tempo novo de vida.
Tenho
69 anos de idade e de viagem. Já vivi mais de metade do meu caminho.
Pelos números sou velho para a sociedade. Cidadão de risco face ao
que dizem os que dizem saber destas coisas de um vírus desconhecido.
Não me importo nem me ralo. A asma há uns dez anos que não me
ataca. O câncer parece estar controlado, retirado que foi pela raiz.
Vivo olhando o que me rodeia com um outro modo de olhar e sentir sem
medo quer da vida quer da morte. Contudo não gosto da dor e do
sofrimento. Sem medo mas com respeito pela saúde dos outros, vejo a
vida à minha maneira.
Ser
velho é uma virtude nunca um mal. Foram sempre os mais velhos que
desbravaram a vida na busca de melhores condições. Tudo o que os
mais novos podem usufruir foi sempre conquistado pelos mais velhos,
num processo de criação e desenvolvimento nem sempre pacífico.
Em
Chaves ainda de tenra idade (21 anitos), quando me aconselharam a
colocar os ideais numa caixinha com algodão recusei, não os
aprisionei, foram e voltaram comigo com raízes mais fortes.
Aquando
do 25 invernoso de 1975 não cumpri a emergência do recolher
obrigatório; a liberdade de ver, de olhar, conhecer quem estava de
um lado e do outro, foi mais forte para pela calada da noite
relembrar as noites de 1969.
Os
ideais nunca me atrapalharam de cumprir os objectivos como
responsável nas empresas privadas onde sempre trabalhei.
Ao
ouvir discursos de dirigentes sindicais, sorrio porque vejo neles o
porquê da fraqueza que o movimento sindical tem na nossa sociedade.
Procuro na memória o tempo em que poderei ter trabalhado menos de 40
horas semanais e não encontro dados desse registo. Muito mais horas
sim, mas a minha cabeça já não é o que era.
Na
emergência deste tempo não houve um dia em que não saísse à rua
duas vezes por dia para o passeio higiénico salutar sem medo.
Neste
tempo novo de calamidade assim que pude fiz-me ao caminho ouvindo o
fado "Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera".
Sem
medo mas com respeito pela saúde dos outros, vejo a vida à minha
maneira.
No
campo falo comigo, com o vento e as copas das árvores. Junto ao mar
na minha terra adoptiva ouço o vento já que os deuses têm andado
ausentes.
De
volta à cidade grande falo com os livros que gosto de ler e reler,
principalmente de autores não badalados nos órgãos de comunicação
que nos querem parametrizar os processos de pensamento.
O
meu caminho é a outra margem da vida onde vou remando contra a maré
com a consciência de que não devo nadar contra a corrente.
sexta-feira, 15 de maio de 2020
Décimo terceiro dia deste tempo novo
Na
outra margem por onde caminho olho a margem onde vivo. Cada dia
entendo menos o que se passa à minha volta. Há tantos a festejarem,
a baterem palmas, a darem vivas, a agradecerem a profissionais e eu
sem entender o porquê de tantas saudações e vivas.
Depois
os mesmos que batem palmas e agradecem ou mais ou menos os mesmos,
vivem no medo deixando-se influenciar por notícias emanadas por
qualquer fonte dita noticiosa mas não identificada e ou reconhecida
como credível.
As
lutas pelo lucro ganancioso estão no auge mas o pessoal bate palmas,
dá vivas e parabéns.
Nunca
entendi porque quando fui pai me davam os parabéns. Quando as filhas
faziam anos me davam de novo os parabéns e eu sem entender os
porquês aceitava-os com educação sorrindo à desconhecida razão.
Chegados
ao calor que é usual ser no Verão mas pode acontecer no final da
Primavera ou no início do Outono há sempre vários pirómanos que
se sentem felizes a ver as florestas mal cuidadas de pinheiros,
eucaliptos e mato diverso a arderem sem controle. Com os incêndios
criminosos enchem-se as redes ditas sociais, enchem-se as televisões
quantas vezes elas promotoras dos instintos pirómanos com imagens de
vivas, a baterem palmas, a agradeceram com vivas aos bombeiros que
elegem como soldados da paz, sem que eu consiga enxergar que paz é
que está a ser festejada.
Neste
tempo em que a vida foi também ela globalizada por um vírus mal
intencionado para a vida dos humanos, batem palmas, dão vivas,
parabéns, agradecimentos, medalhas de mérito e se calhar até
prometem o céu aos profissionais de saúde, sejam médicos,
enfermeiros, técnicos e auxiliares como se eles não estivessem a
fazer dignamente o seu trabalho. Pelo meio um ou outro se lembram dos
profissionais da recolha do lixo, mas logo são esquecidos e
ignorados. Esses e todos os outros profissionais que na sua vida
produzem saberes como os professores dignos dessa profissão (porque
infelizmente também os há que apenas se preocupam com a
transferência dos euros no final do mês). E os cientistas que
também trabalham horas e horas em busca de soluções? E os
engenheiros e os operários das mais diversas profissões e afins, os
agricultores, os pescadores ou seja todos os que novos e velhos de
todas as outras artes e ofícios que continuam a trabalhar com medo
ou sem medo… esses não contam, não merecem uma citação um
aplauso, um agradecimento?
Há
muito que deixei de bater palmas. O meu agradecimento é de sentida
gratidão silenciosa. As palmas batem-se a qualquer um mas a gratidão
neste meu sentir é de respeito para quem o merece e não é qualquer
um que a merece.
A
cada dia que passa neste meu caminhar, concluo e tenho duvidas: -
serei eu desta vida? Não andarei cá por engano… Que faço eu por
cá? Com o passar dos anos mais desenquadrado me sinto. Assim caminho
na minha outra margem olhando a margem onde
vivo.
Décimo segundo dia deste tempo novo
A
política portuguesa é jovem, às vezes tropeça em políticos pouco
abonatórios mas, segue o seu rumo com altos e baixos como é normal
em democracia.
Gosta-se
mais de uns do que outros, é normal entre os democratas. Felizmente,
não pensamos todos da mesma forma e modo. As divergências são
necessárias e até fundamentais em democracia. O contraditório o
seu instrumento.
Que
vantagens para o país traria a demissão do Ministro das Finanças?
Numa
altura em que políticos e técnicos de saúde continuam a apalpar
terreno e medidas contra o desconhecido vírus, o porquê de um caso
político com a demissão voluntária ou imposta do homem que governa
com esmero cuidado as finanças públicas?
Que
vantagens para o país, não para a política corriqueira dos
telejornais, teria a sua demissão?
Que
motivos terão levado o comentador - mor do país no seu papel de
Presidente a meter-se em assuntos do executivo?
A
culpa disto tudo, ficou lá atrás aquando da gestão danosa que o
DDT da altura ia fazendo, com os mesmos papagaios televisivos a
beijarem-lhe os passos e a lamberem-lhe o dito.
Culpa
nos erros da gestão gravosa de políticos e administração do BP na
solução do problema Grupo BES.
Culpa
na opção de venda a mais um fundo financeiro em vez da
nacionalização a termo da instituição bancária.
Meter
lá os milhões orçamentados parece-nos mal mas é o caminho que foi
escolhido com tantos erros pelo meio. Caminho cheio de silvas
venenosas que temos de cumprir pelos acordos anteriormente
estabelecidos.
Que
podemos esperar de gestores liberais e neoliberais cujo sentimento de
vida passa única e exclusivamente pelos bens pessoais do seu próprio
umbigo? Nada é claro! seja na banca, seja nos seguros, seja nas
comunicações, seja na energia. Eles, os gestores de topo, estão lá
porque foram nomeados para nos comerem a carne e chuparem os ossos
até ao tutano, recebendo em troca graciosos prémios de gestão.
Uma
instituição que perdoa milhões a clube de futebol, a empresário
ligado ao futebol, a outros vaidosos empresários, pode fazê-lo
porque sabe que existe um acordo nupcial que salva os seus
accionistas privados da gestão do buraco e em troca recebem os
graciosos prémios para alegria e satisfação dos seus umbigos
continuando a tradição da gestão dolosa dos anteriores gestores.
Olhemos
para o futuro sem medo. Conscientes de que a vida por agora mudou sem
sabermos como será amanhã.
Ficarmos
em casa com medo não é solução com futuro.
No
final disto tudo alguns ricos estarão mais ricos. O “Zé” irá
novamente pagar com língua de palmo e meio toda a crise gerada pelo
vírus e pelo medo, porque por mais donativos com ares solidários
que façam... eles não dão almoços grátis.
Décimo primeiro dia deste tempo novo
Mais
chuva no horizonte de nuvens negras se avizinha. Sente-se o trovejar
longínquo.
O
tempo passa no seu passo certo. As desgraças acontecem deixando-nos
sem ideias. Como
é possível acontecer coisa assim tão revoltante.
Que
amor me desengane que não quero viver num mundo assim. Faz falta
regressar a um outro tempo. Um tempo onde o amor seja lei universal
livre de todos os perigos que a soberba, o ciúme, a inveja lhe
incutem. Um tempo em que os que não sabem viver o amor que o
confundem com posse e poder nas suas múltiplas facetas não mais
consigam
olhar-se ao espelho, não mais conheçam
a compaixão, o perdão, a alegria de um olhar meigo, apaixonado, de
um abraço, de um simples beijo. Um tempo de vida longo que lhes
pesasse a consciência os vergasse à vergonha de terem que rastejar
os dias longos da sua existência sem outro sentido que o expiar a
culpa de não saberem cultivar o amor.
Mas
nós
ajudámos a criar esta
sociedade
que banalizou a vida, que fez do amor uma coisa doentia um
não-amor incapaz
de aceitar os outros na sua própria dimensão.
O
tempo passa no seu passo certo mas há ainda quem não saiba viver o
amor na sua essência. Ainda nos falta percorrer
muito tempo para chegarmos ao tempo em que o amor seja a única lei
universal de convivência entre todos.
“O
passado e o presente são o fio e agulha da nossa identidade”* Na
minha vida não há presente sem passado. Com
eles crio as minhas utopias os meus sonhos, a minha Liberdade
de caminhar pela outra margem, até porque “Quem é cego para o
futuro vive sem sonhos”* e
eu vou continuar a sonhar a criar o meu passado com saudades do
futuro.
*
Mia Couto em Universo Num Grão de Areia
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Oitavo dia deste tempo novo
O
vírus mais falado e global do primeiro quarto do século vinte e um,
seja natural ou não é consequência do modelo de desenvolvimento
seguido pela sociedade actual onde as diversas forças políticas que
vivem e coabitam no seu seio não olham a meios para atingir os seus
fins. Fins que passam sempre pela acumulação de mais capital, como
símbolo de riqueza quer do próprio Estado quer dos seus amigos
privados que lhes facultam os meios necessários para o
desenvolvimento desses fins.
Com
o fim da segunda guerra mundial os nacionalistas e o nacionalismo não
acabou simplesmente. Os nacionalistas adaptaram-se vestiram as suas
peles de cordeiro sob designações mais soft. O mesmo aconteceu em
Portugal, onde em 24 de Abril existiam tribunais plenários, um
exército de polícias secretas, e outro ainda maior de bufos
nojentos, defensores acérrimos de Deus Pátria e Autoridade, sempre
a Bem da Nação que os Bons costumes e as Públicas virtudes do
regime eram o caminho para a salvação. A 26 de Abril os juízes dos
tribunais plenários eram democratas, os PIDES e bufos nojentos
sempre defenderam a democracia aderindo uma maioria considerável de
cravo na lapela a todas as organizações políticas de renome.
Mudaram
de fato colocaram novas gravatas e calçaram ténis para parecerem
mais democráticos e modernos. Criando e educando os descendentes por
forma a que os velhos princípios de Deus Pátria e Autoridade não
fossem de todo esquecidos. São adeptos da tal lei do retorno,
acreditando que a sua hora irá chegar de novo.
A
criação da União Europeia nas suas diversas fases de evolução
retardou inicialmente a sua chegada à cabeça do pelotão para
imporem as suas ideias de ambições nacionalistas. Devagar
com peles de cordeiro e sapatos de lã
eles aí estão. A desintegração da antiga Jugoslávia com as
diversas correntes nacionalistas a cometerem os seus crimes sobre os
seus vizinhos de quarenta anos. A
queda do muro de Berlim. A
desintegração do falso Império soviético. As cedências passo
a passo cada
vez maiores concedidas
por sociais
democratas, democratas
cristãos
aos interesses ora
do liberalismo ora dos neoliberais amantes
do capitalismo selvagem foi e continua
a ser
o caminho aberto para as forças políticas nacionalistas se
mostrarem de novo sem vergonha do ódio que fomentam sobre a
Democracia e a Liberdade encontrando nos pontos fracos das sociedade
democráticas dominadas
pelas ideias liberais
o móbil fácil de propagandearem o seu veneno.
Nada
disto é novo e
inesperado. Os nacionalistas germinam nas promessas não cumpridas
dos dos Governos Democratas. Vêm de longe de muito longe de muito lá
atrás
na nossa
própria
história com outra face mas
os mesmos principios.
Já foi assim no século XV e XVI com
outras
ideias.
Sétimo dia de um tempo novo
Só
fui professor no serviço militar em Chaves. Um professor imposto
pelos galões que me puseram nos ombros.
Terminado
o tempo de militar obrigatório
ainda me inscrevi no primeiro concurso realizado no pós 25.
Contabilista, curso médio na altura tinha à frente licenciaturas
que nada piscavam de contabilidade. Virei costas e lá andei pelo
mundo das empresas privadas, onde em algumas tinha a alcunha de
"professor". Quanto mais os meus colaboradores soubessem
mais facilitada tinha a minha vidinha. Estudava no ISEG à noite.
Durante
a juventude na escola de Peniche pertenço à geração do livro
único. No Instituto à geração que tinha de usar casaco e gravata
para sermos uns homens. Um dia o professor de Matérias Primas
Práticas, Domingos Sequeira, não começou a aula e só olhava para
mim. Atrapalhado com todos a olharem para o professor e para mim,
meti a mão ao bolso do casaco e lá estava esquecida a desgraçada
da gravata. Ao tirá-la do bolso o professor apontou-me a porta de
saída. Dei meia volta e com o rabo entre as pernas saí da aula sem
piar.
O
meu irmão fez carreira de professor. Brilhante e reconhecida por
colegas e
seus alunos.
Tenho
um amigo que dava aulas na Vila do Bispo pertencente ao Reino dos
Algarves. Professor de Educação Física que não se limitava ao
físico. Durante meses lá vinha ele no seu Fiat Panda, muitas vezes
de noite para minha casa depois de um dia de trabalho a dar aulas.
Tudo para assistir às aulas de Mestrado no seu antigo Instituto
agora Faculdade de Motricidade Humana e evoluir no saber e na
carreira docente. Outros seus colegas de curso quando íamos beber a
bica depois do jantar e os encontrávamos , estranhavam-lhe o
sacrifício. Queriam apenas ver chegada a hora das férias.
Como
em todo o lado em todas as profissões e ofícios há os que procuram
evoluir, os que procuram fazer bem, os que fazem e não se importam,
os que se estão marimbando para o que fazem, os que não gostam do
que fazem porque o patrão é explorador, outros porque o chefe que
faça pois ganha mais do que ele etc etc… agora até há
desventurados a falarem asneiras venenosas por aí.Trataram
as duvidas do desconhecido vírus mandando todos ficarmos em casa,
deixaram o vírus do medo se instalar em todos os estratos sociais
nas diversas gerações. Agora sem ideias para acalmar o pânico
instalado deixam o ónus para os da DGS quando não foi esta Direcção
que mandou fechar escolas, cresces e infantários.
Ninguém
saberá o que teria acontecido se as escolas, creches e infantários
não tivessem fechado e professores, alunos, funcionários,
educadoras, auxiliares e crianças tivessem continuado a irem às
escolas, creches e infantários respeitando todos as normas de
segurança que o contágio do vírus aconselha e os técnicos de
saúde pensam serem de aplicar.
Houve
fábricas que não fecharam. Centros de investigação que até
aumentaram o número de horas trabalhadas. Empresas e empresários
agrícolas assim como os pescadores que continuaram a sua vida normal
de trabalho, não havendo depois o convívio, a vida social a que
estavam habituados. Os supermercados das grandes cadeias de
distribuição continuaram e continuam abertos, sem rupturas graves
nos stocks dos géneros alimentares, sem casos de indisciplina nos
seus clientes.
Tenho
ideias mas não saberes e claro as minhas dúvidas sobre o ensino.
Uma coisa é certa, fecharem as escolas contra a ideia de alguns
técnicos de saúde. Foi uma medida política fácil, que agradou a
muitos.
Nada,
mesmo nada fácil vai ser o
reabrir
das
escolas dos
institutos e das universidades, das
creches e infantários
seja
agora, daqui a várias
semanas… até chegar a tão desejada vacina para nos imunizar aos
efeitos nefastos do vírus. Para lá das organizações sindicais dos
professores, temos os diversos órgãos das escolas e agora o
aparecimento de tantas associações que se reclamam de interesses
vários. Com tantos opinativos interesses não sei como o Ministro
conseguirá
dormir.
sexta-feira, 8 de maio de 2020
Sexto dia de um tempo novo
Vejo
o dia a renascer. Ainda o relógio não chegou às seis. Sentado na cama olho pela janela o silêncio da
vida que vai lá fora. Também por esta estrada a acção do vírus
parece ter diminuído o tráfego das trocas logísticas com Espanha.
Com
grande parte dos sectores económicos em suspenso a procura e a
oferta dos bens que por aqui transitam diminuiu pelo que circulam
menos gigantes do asfalto a caminho e de regresso pela fronteira
aberta nas Termas de Monfortinho.
Contemplando
a beleza que o silêncio me dá vou pensando em muitas coisas porque
também tenho outros medos que não do vírus. Medo da alzheimer que
me pelo, por isso em vez de receber os dados cozinhados e embalados
que me oferecem para não me cansar, prefiro pensar, duvidar,
equacionar sistemas para pôr os neurónios a trabalhar em busca das
soluções possíveis, mesmo que muitas delas sejam apenas sonhos e
utopias irrealizáveis.
Não
ponho em causa os dinheiros que o Estado através do Governo vai dar
às empresas. Custa-me aceitar ajuda a algumas empresas mas é o
sistema que a maioria escolheu, tenho que aceitar. Neste caso está a
TAP, empresa que ao longo da sua existência acumula montes de
prejuízos. Só apresentou lucro quando por interesses políticos que
não de gestão, se esqueceram de fazer as amortizações dos aviões.
Dizem-me que é uma empresa fundamental, uma empresa bandeira do nome
de Portugal. Fui contra a quase doação a privados que muito
prometiam. Fui contra o modelo de recompra de 50% do capital, uma
chinesisse para "portuga" ver e calar. O que se viu aquando
da recompra dos 50% está à vista. Uma privatização em que o
Estado ainda pagou para vender 50% sem direito a decidir. Colocou um
CEO escolhido entre adversários políticos para dizer que é
democrático.
Sobre
a EFACEC empresa de ponta que exporta saber técnico transformado em
valor acrescentado, isto é, riqueza nossa, não ouço notícias de
que tenha o Estado feito a intervenção necessária à compra do
capital que um hacker odiado por muitos, obrigou a empresária
Angolana a colocar em venda. A EFACEC é uma empresa industrial,
tecnológica que produz bens transacionáveis e os exporta com
qualidade “made in Portugal”.
A
TAP é uma empresa de serviços que contribui para receitas sem
produzir bens, apenas produz serviços andando por vezes nas bocas do
mundo pela fraca qualidade dos seus serviços igualmente "Made in Portugal"
Maneira
diferente a minha de ver as coisas.
O
estado que as economias estão a atravessar deveria ser olhado pelos
governantes lá para a frente, para trás do por do sol onde outro
modo desponta,
outras oportunidades de vivermos nos aguardam… Como ajudar as
empresas nacionais que foram capazes de reconverter a produção e
ajudar o SNS na luta contra o vírus, empresas que reestimaram os
objectivos e continuaram a produzir em condições de segurança,
algumas para exportação.
Abandone-se
o método de só nos preocuparmos com as receitas, olhemos com outros
olhos de ver e analisar o valor acrescentado, a riqueza produzida,
sem esquecermos os proveitos e o resultado porque em tudo no fim há
sempre um resultado final.
Que
futuro se deve desenvolver no interior do país? Vias de comunicação
já existem globalmente. Gente que pensa que luta e resiste contra o
esquecimento também. Que fazer? Que soluções? É preciso deixar de
falar no interior e vir estar cá uns tempos, sem câmaras de filmar
e agentes de segurança. É preciso vir e ouvir as gentes que vivem e
resistem no próprio interior, não só as autoridades e agentes do
Estado. É preciso saber conversar, saber ouvir as gentes, meditar sobre as ansiedades
dos jovens dos politécnicos, das universidades… Não só ouvir aqueles
que do interior se foram para a cidade grande e hoje engravatados
falam e expõem ideias que leem em tratados escritos por gente de
outras regiões de outros viveres que não o nosso próprio interior.
Não basta ter um Ministério e uma ou duas Secretarias de Estado,
não chega e se não chega não resolve problemas.
Lembrem-se
que se nada for mudado no sistema de exploração vigente
dos recursos naturais
e humanos, mantendo-se
todas as premissas do
actual modelo
da sociedade,
se nada for mudado ao
estilo de vida… aos
vossos descendentes, bisnetos
e trinetos e outros
pelo caminho que as
coisas levam só lhes
restará virem a fugir
para o interior se não
quiserem ser
absorvidos pela subida
das águas dos oceanos
que já esta em curso,
mas que os políticos
preferem ignorar gastando milhões inutilmente a por areia para o mar
levar de novo.
Será
no interior que
hoje é
esquecido
e
ignorado que
estará a Nova Arca de Noé e
quem o diz não é bruxo.
quinta-feira, 7 de maio de 2020
Quinto dia deste novo tempo
O
silêncio domina. A vida corre normal. O vírus não entrou cá no
concelho.
A
viagem ontem correu serena. Nas duas superfícies comerciais onde fiz
compras na cidade de Castelo Branco o movimento era perfeitamente
normal com as pessoas a usarem a máscara quando entram nas mesmas.
Ninguém atropela ninguém, todos nos evitávamos uns aos outros.
Acabava
de almoçar quando
chegou o meu amigo que
me vinha cumprimentar porque cá o bicho não entrou. Evitei
dizendo-lhe que eu vinha da poluição e assim era melhor, já que
todo o cuidado é
pouco. Estávamos a falar das videiras novas que pegaram todas para
depois se arrancar as velhas, quando passa um outro amigo que depois
de almoçar voltava ao trabalho. Amigo que gostava de ir ao café
beber a sua bica, a sua cervejinha mas que não aceita ir ao café e
ter de as beber na rua, revoltado com a situação já se habituou a
bebê-las em casa. Também a mulher do meu amigo diabética ao ficar
em casa todo este tempo diz que já não sente necessidade de todas
as manhãs ir lá acima ao café beber a sua bica. O vírus a mudar
hábitos de convivência.
Como
não tenho televisão só a rádio e a Internet me ligam ao mundo.
Mundo que julgávamos ser mais civilizado do que na verdade o é.
A
grande maioria dos portugueses ficou em casa não por educação
cívica mas por terem medo, com
as
televisões sempre
mais interessadas na exploração desse
conceito tão antigo que é o
medo e que tantas
audiências lhe dá. Em vez do procurarem
aconselhar e ajudar à educação cívica de
como nos devemos comportar em “pandemia” só a apologia do medo lhes interessa durante horas e horas de emissão, criando o
pânico em várias gerações. Alguns políticos responsáveis
ajudaram a que tal clima se instalasse. Que
juventude iremos ter amanhã é mais uma das minhas duvidas?
Com
o passar do tempo
o vírus mantém
a sua actividade de contágio, contudo
as autoridades governativas vão dando autorização para que algumas
actividades económicas
recomecem
a sua actividade lentamente.
O medo parece ter tomado conta do tempo entrando
na fase de vivermos com dois vírus, o tal
covid-19 e um outro
vírus sem
nome mas já nosso
conhecido de
anos anteriores ou
seja o da
recessão económica. Este segundo vírus reacende-se por acção do
primeiro, sendo necessário já
um grande esforço colectivo para lhe fazer frente.
A
fome em muitos
lares
familiares
que recorrem às organizações sociais para
poderem ter algo para se alimentarem não
é apenas e só consequência da pandemia, ela simplesmente veio
agravar ainda mais a vida precária de muitas famílias cuja
existência é necessária ao
actual sistema
social da sociedade. Ou
não fosse a fome mundial representar tão pouco comparativamente aos
gastos da industria do armamento, por exemplo.
Considerando
que o país só esteve unido entre o 25 de Abril e o 1 de Maio de
1974, não vejo como iremos sair desta pandemia dupla sem
sacrifícios individuais e colectivos por muito boa que seja a vontade nas
palavras de quem nos governa. As diversas organizações políticas e
sociais já estão a puxar cada uma para o lado que lhe convém pôr
ideologia, por interesses mais ou menos ocultos, criticando sempre as
medidas dos que governam e tem de tomar decisões.
O
Turismo actividade que mascarava as nossas contas públicas está
moribundo com muitas das empresas que dele faziam a sua actividade
principal ligadas à máquina em busca de oxigénio, sendo que para
muitas empresas parece não haver ventiladores disponíveis. Iludidos pelos
ares da falsa “primavera árabe” aprovaram-se projectos
imobiliários assassinos dos bairros tradicionais das cidades por
falta de outra visão estratégica para essas zonas históricas das
urbes; autorizaram-se hotéis e mais hotéis sempre a contar com o
ovo no cu da galinha. A iniciativa privada e o empreendedorismo a
fazer de sofríveis autarcas gente importante. Agora os
empreendedores, os homens que tinham visão do futuro estão de
calças nas mãos a pedirem dinheiro ao velho Estado. O tal Estado
que era pesado, burocratizado que os impedia de realizar os seus
sonhos de homens de negócio com visão de futuro.
Quando
recebiam os “dinheirinhos” das marcações de
estrangeiros... quantos não o
recebiam
directamente nas suas contas off. Agora que
perderam a
visão de futuro porque chegou um
vírus estendem a mão ao Estado Previdência que tanto renegavam.
Mas
o pequeno e médio empresário sem lugar na dita concertação social
dos grandes faz das tripas coração e contas à vida...
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