segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

10.07.23



 

Olhei as fotos da guerra. Fechei os olhos e vi-me na chegada ao Mumbué, na alegria louca dos militares que fomos substituir. Ao receio e medo nos olhos e semblante dos "maçaricos" que acabávamos de chegar idos de terras distantes sobreponha-se a alegria louca dos "velhinhos" que viam chegar ao fim o tempo que os senhores da guerra lhes tinham imposto como comissão.

Ia apanhar um pouco de sol nas rochas quando vi que à minha frente caminhava o meu amigo Hermano com a sua mulher Teresinha. Somos do mesmo ano, sendo o Hermano de Setembro e eu de Dezembro. Estava eu no quartel em Chaves de frente para os homens que iam integrar o meu grupo de combate, quando todos os soldados e cabos milicianos ficaram em suspenso muito admirados por um soldado desconhecido deles, chegar por trás e me ter dado um valente caldaço no pescoço. Ao voltar-me surpreendido vi à minha frente a rir-se o meu amigo Hermano do Lugar da Estrada, também mobilizado para incorporar o Batalhão que se acabava de formar, integrando como mecânico a Primeira Companhia enquanto eu pertencia à Segunda Companhia. Para maior admiração dos meus subordinados soldados e cabos milicianos nos abraçamos como amigos pois a amizade era superior às graduações militares.

Quando por várias vezes, não muitas, nos encontrávamos na cidade de Silva Porto, nas deslocações que as companhias do Batalhão ali faziam para reabastecimento de víveres frescos e recolha de correspondência, sempre preferi almoçar com o meu amigo do que com os outros oficiais e sargentos, porque antes de seremos militares de diferentes graduações, eram seres humanos amigos desde que a minha família tinha ido viver para o Lugar da Estrada. Também o nosso tempo de guerra chegou um dia ao fim e ambos regressamos às nossas casas, para cada um de nós seguir o seu caminho familiar e profissional, que a guerra não deixou saudades.

Tivemos sortes de guerra diferentes pelas funções que a cada um coube desempenhar, sendo que como em tudo na vida é preciso um pouco de sorte, todos os militares do serviço militar obrigatório que integraram o Batalhão nas diversas companhias, acabaram por conhecer essa mesma sorte ao serem destacadas para aquela zona de intervenção operacional, porque naquele tempo os guerrilheiros do MPLA andavam dispersos, pelas profundas divisões internas que existiam na Frente Leste sediada na Zâmbia, e o outro movimento independentista a UNITA existente na zona operacional de ação vivia tempos de acalmia em que as nossas tropas não atuavam para lá dos limites que as cartas topográficas marcavam com um risco amarelo, nem eles procuravam fazer incursões ou ações na nossa área. Daí o podermos dizer que tivemos sorte na guerra.

Só quando da passagem de ano de 1973 para 1974 a UNITA voltou às suas ações de atacar destacamentos militares e populações, as operações dos grupos operacionais tomaram outro sentido, com os altos comandos militares da região a desencadearem uma forte ofensiva em busca do líder Savimbi. O Batalhão participou nessa ofensiva militar com uma super companhia constituída por quatro grupos de combate completos, dois da segunda e dois da terceira aos quais se juntaram dois grupos de GE's, um do Mumbué e outro do Mutumbo, sendo a super companhia comandada pelo capitão da terceira companhia. No mês em que andei na base tática longe da zona de ação do Batalhão tão longe que saímos de comboio da cidade de Silva Porto no final da tarde para chegarmos ao Munhango no outro dia de manhã sendo de imediato transportados em viaturas militares do Batalhão de Cavalaria ali instalado para chegarmos à base tática no final desse dia, coube-me fazer a última operação de cinco dias das várias que os grupos de combate realizamos nesse longínquo mês para nessa última intervenção conhecer o que era cair numa emboscada.

Já sabia que o capitão mandava um homem de sua confiança verificar se os três grupos de combate que eu comandava (por o grupo da terceira companhia que atuava junto ter o seu alferes de férias), passávamos o Rio Lungué-Bungo, pois ao passarmos o mesmo entravamos em zona de contacto iminente com as forças da UNITA. Recordo as dificuldades para passarmos o rio, que apresentava um caudal de águas cristalinas mas de meter respeito com alguns dos meus homens de baixa compleição física que não sabiam nadar apresentarem receio natural ao atravessarmos para a outra margem; caminhávamos já há mais de duas horas em fila, quando me chegou a informação de que lá atrás se recusavam a continuarem a andar por cansaço. Eu seguia na frente da coluna tendo apenas à minha frente o guia e o soldado "Vila Real". Dei ordem para estacionarem e desloquei-me até ao local dos insubordinados que se recusavam a andar encontrando o soldado "Amendoim" sentado no trilho, argumentando que queria descansar. Dei-lhe ordem para se levantar e caminhar, continuando o "Amendoim" sentado coloquei-lhe a minha bota nas costas por altura do pescoço pressionando até a cara do soldado encontrar o chão arenoso, de imediato outros soldados me apontaram a G3. Olhei-os nos olhos dei-lhes ordem para começarem a andar virando de imediato as costas fui ocupar o meu lugar na cabeça da coluna. Já a noite se anunciava quando o guia lá encontrou um rio perto onde pudemos abastecer os cantis secos de água. Não permiti que fizessem lume para aquecer as intragáveis rações de combate, assim como o fumar também estava proibido. Acampámos em linha e não no tradicional círculo. Com dois sentinelas permanentes e não apenas um. Ao romper do novo dia, os sentinelas acordam o pessoal. Não muito longe batiam o pilão. Dei ordem para que o grupo de GE's ficasse a guardar as mochilas do pessoal e parti com os restantes homens só com as G3 e munições. O guia seguia à frente, a poucos passos seguia o "Vila Real" e logo atrás ia eu com todos a guardarmos a distância aconselhada. O pilão ia diminuindo de intensidade à medida que nos aproximávamos, deixando não só de se ouvir como até o chilrear das muitas aves se tinham calado quando o guia para e com os olhos pergunta-me qual dos trilhos fresquíssimos devíamos seguir, na mesma linguagem respondi-lhe em boa hora para seguir pelo trilho da direita. O silêncio dominava a floresta quando constatámos que o outro trilho dava para um acampamento, avançávamos lentamente quando os guerrilheiros da UNITA começam a disparar sobre nós. Foi curta a duração do tiroteio pois que os guerrilheiros assim que ouviram o rebentamento do morteiro 60 seguido do diagrama desataram a fugir. Quando os soldados se aperceberam da fuga desataram a correr de imediato em direção ao aldeamento, arrombando as portas das cubatas previamente abandonadas quando presumivelmente sentiram a nossa presença na zona no dia anterior. O bater do pilão tinha sido o chamariz para os atrair na esperança que tivéssemos ido pelo trilho da esquerda em vez do da direita. Arrombadas as cubatas bastou um soldado ter incendiado o colmo de uma que logo todas foram incendiadas. Quando uns metros mais à frente demos com o aldeamento dos guerrilheiros foi de igual modo incendiado. Regressamos para junto dos GE's a fim de comermos a ração do pequeno almoço, o mata bicho, comunicando via rádio com a base, aguardando ordens pois já estávamos referenciados na zona. Ao verificar com o guia as coordenadas indicadas como novo objetivo, vi na sua cara uma mistura de admiração e receio. As coordenadas indicadas como nova zona coincidiam com o local onde na semana anterior tropas especiais tinham sido rechaçadas pelos guerrilheiros da UNITA. Terminado o pequeno almoço de novo com o saco mochila às costas começámos a andar subindo a um morro de onde avistava o quase infinito das copas das árvores daquelas florestas. Já que éramos tropa normal e não especial por ali ficámos o resto do dia.

Ainda não há muito tempo num almoço familiar com primos, quando a guerra no leste europeu veio à conversa, disse-lhes que em qualquer guerra, de guerrilha, clássica ou como a atual lá Leste europeu, há em todas as guerras três princípios fundamentais, o primeiro é ter de matar o outro antes que o outro me mate; o segundo é que ao ouvir o segundo tiro ou rebentamento nunca se pode estar no mesmo local e posição em que se ouviu o primeiro e, um terceiro princípio que diz que temos de fazer tudo e o impossível para regressarmos da guerra custe o que custar, em seguida questionei se um grupo de combate que sofre uma emboscada rechaçando o inimigo e depois lhe incendeia todos os aldeamentos que encontra, se esses homens foram ou são criminosos de guerra? por fim ainda disse que nenhum deles sabia o que um homem com uma arma numa guerra era capaz de fazer, porque a guerra transforma o ser humano numa máquina capaz de tudo fazer para poder sobreviver à própria guerra, que numa guerra não há essa treta de direitos humanos, a guerra transforma-nos em maus e do pior; não acredito em uma sequer das notícias que um lado e outro difundem e publicam. Na guerra, seja ela qual for, o primeiro desertor, muito antes de ser disparado o primeiro tiro, é a própria Verdade!

05.07.23

 

O meu pai foi o único dos 4 irmãos que não foi mandado estudar para o liceu de Castelo Branco. Como parece que a sua mãe, minha avó Maria de Jesus, desejava ter um filho padre, mandaram-no para o seminário. O miúdo João, ao chegar e olhar os muros muito altos e os grandes portões de ferro do seminário, fez meia volta-volver e regressou à sua casa em Segura. O pai Luís "Mouco" ( de alcunha) quando o viu regressar disse-lhe: - ai não quiseste lá ficar, vais guardar as cabras.

Assim começou a sua vida de trabalho no campo aos 11 anos, a qual juntava o ter de cuidar do irmão Raul mais novo uns anos bons, de tal modo quando os amigos queriam ir a algum lado ou parodiar lhe diziam para deixar a alcofa do irmão Raul num silvados perto. Não há muito tempo que um senhor que está no lar do CCBES da Zebreira ao passar no seu passeio junto à minha casa meteu conversa comigo e ainda guardou porcos para o meu avô Luís, dizendo-me que o pessoal gostava mais de trabalhar com o irmão Chico porque o meu pai João era mais exigente do que o Chico, que entretanto tinha abandonado os estudos e trabalhavam os dois irmãos a casa agrícola, já que o pai Luís "mouco" legionário salazarista convicto, gostava mais de andar nas putas e boa vida de Castelo Branco do que gerir a casa agrícola, acentuando as divergências com os filhos em especial com o meu pai. Divergências que chegavam ao ponto e terem uma égua que só os dois irmãos, Chico e João, montavam porque todos os outros que procurassem montá-la iam de imediato ao chão, o velho Luís não deixava que o filho João a pudesse utilizar para vir namorar a minha mãe à Zebreira e, não fosse um ganhão amigo do meu pai no arrendamento que tinham junto à Zebreira que a guardava escondendo-a, o João Moreira para vir aos fins de semana namorar a Luísa Sousa, teria de vir a pé de Segura à Zebreira onde pernoitava na casa do amigo do seu irmão Chico, o senhor José da Silva que nesse tempo já exercia como alfaiate, criando-se amizades que veem de longe.

Quando por força da II Grande Guerra o medicamento alemão que mantinha o coração de sua mãe, minha avó Maria de Jesus, a funcionar faltou no mercado não havendo substituto, o coração dela deixou de funcionar e a casa agrícola foi à praça por insolvência. O sonho e a ambição do João Moreira de se tornar lavrador caiu por terra. Toda uma juventude a trabalhar a terra de sol a sol para ficar com umas oliveiras num terreno dos quatro irmãos. O João e o Chico voltaram costas ao campo e entraram para a Guarda Fiscal. O irmão mais velho Manuel era militar e assim continuou. O mais novo o Raul, continuou a estudar no Liceu de Castelo Branco com os irmãos a suportarem os gastos, que depois ele reembolsou aos irmãos.

Foi assim que o João Moreira com a Luísa Sousa e os filhos João e Carlos foram viver para o concelho de Peniche depois de uns anos vividos nos Olivais onde os dois rapazes nasceram.

O meu avô Luís passou a andar por casa dos filhos. Continuando a não ser uma pessoa fácil alguns dos irmãos colocavam-no num lar o tempo que lhes pertencia. Quando se deu o 25 de Abril logo virou as suas esperanças para o “Pinola” como chamava ao general Spínola, batendo com a bengala no chão dizia que o “Pinola” ia por isto tudo e o país na ordem. Faleceu no Hospital de S. José onde estava internado aos 83 anos, e, segundo disseram ao meu pai, antes de morrer chamava por mim, mas eu estava em Angola.

O êxodo das gentes do interior em busca de uma vida melhor é mais velho que a própria nacionalidade. A Egitânia, hoje designada Idanha-a-Velha, no tempo em que os romanos cá estiveram chegou a ter cerca de cinco mil habitantes, para depois quando os mouros por cá andaram perder população e por mais doações destas terras que os primeiros reis de Portugal fizessem quer aos Templários quer a outros Nobres para a sua repovoação nunca mais a velha Egitânia recuperou, andando hoje à volta dos cinquenta habitantes (62 segundo censos de 2011). Até mesmo Monsanto onde Fernando Namora exerceu no início a sua carreira de médico, são muito mais as casas que os resistentes habitantes.

Seu pai com o desgosto de todo o esforço ter ido à praça esteve dezasseis anos sem voltar à sua terra, assim a Luísa Sousa vinha de dois em dois anos com os seus dois rapazes passar o mês de Agosto em casa de meus avós Chico Capelo e Maria Isabel que moravam na Rua do Espírito Santo, até depois da festa à Nossa Senhora da Piedade terminar no dia 9 de Setembro. Diga-se a verdade que os dois rapazes não faziam muita questão em deixar a praia e os amigos para virem para a Zebreira onde não havia eletricidade, nem água canalizada, sendo que gostavam de ir ainda de madrugada com o avô e o burro buscar água aos poços e fontes; para piorar por força do calor não os deixavam sair de casa entre as duas e as cinco da tarde. Desse modo muito poucos amigos foram criando nas férias que passaram Zebreira.

Com o falecimento dos meus avós e a chegada do serviço militar, só voltei à Zebreira quando meus pais vieram para cá morar.

O seu pai no dia em que se aposentou da Guarda Fiscal já nem passou pela casa que tinham nos Olivais Sul, apanhando logo em Santa Apolónia o comboio para Castelo Branco e a carreira para a Zebreira onde já estava a minha mãe na casa que entretanto tinham construído junto à Estrada Nacional.

Na sua atividade política meu pai foi por duas vezes escolhido pelo PS e pelos votos para presidir à Junta de Freguesia. Um dia o presidente do Município o sr. Joaquim Morão falou-lhe que havia pessoas a pedirem para se acabar com a Lagoa no Valcabeiro. Meu pai disse ao seu Presidente para o mesmo vir num fim de tarde observar os benefícios que aquela charca com muitos anos de existência ainda tinha para animais e pequenas hortas com poços sem água no verão. Assim aconteceu, o senhor Presidente Joaquim Morão veio ver e a charca Lagoa do Valcabeiro continuou a matar a sede aos animais e às plantações nas hortas circundantes sem esquecer as pocilgas dos porcos que por lá também existiam.

Anos mais tarde por questões pessoais e políticas o Município levou a cabo a desafetação da charca mandando construir no local instalações para um Lar Social. Terminada a primeira fase do projeto o Município chegou a acordo com o CCBES que tinha a gestão do Centro de Dia para passar a gerir o Lar acabado de construir.

Não foi a direção do CCBES da Zebreira que pediu mas o Município que para solucionar o problema pediu e acordou que o Lar passasse a ser gerido pelo CCBES da Zebreira, que desse modo deixou as instalações próprias do Centro de Dia sem utilização, para se ocupar da gestão do Lar e dos problemas que o edifício apresenta, quando havia tantas outras opções melhores para a sua realização.

Já as fotos da procissão que na festa de Setembro se realiza, mostram que nesse ano em que as tirei ainda existia a casa da minha tia Maria do Carmo, que o Município comprou para a deitar abaixo de modo a facilitar a passagem das camionetas. Agora não sei se a procissão ainda desce a Rua dos Fornos e vai ao Espírito Santo, porque na vida tudo muda tudo cambia segundo a segundo.

Com estas histórias e vivências comprovo que sou um português de lés a lés, da fronteira terrestre com a Extremadura à fronteira marítima de Peniche, que com o passar dos anos me vou sentindo português, depois ibérico e europeu do sul com todas as crenças e fé das tradições judaico-cristãs que à volta do Mediterrâneo se criaram e afirmaram ao longo do tempo de muitos séculos.

No meio das muitas duvidas que me povoam, tenho a certeza que não somos todos iguais, cada um de nós é um pequeno mundo diferente do outro, até os irmãos gémeos não são iguais. Iguais nos direitos, deveres e obrigações é outra coisa diferente mas até isso está dia a dia mais longe de se atingir.




02.07.23

 

Com excesso de peso ou por má colocação dos parafusos que a suportavam, a prateleira inclinou-se. Ao inclinar-se pastas de arquivo tombaram no chão não sendo necessário chamar os bombeiros porque nos tombos não ocorreram fraturas, apenas leves amolgadelas. Pastas onde guardava fotos desde que tive a primeira máquina fotográfica, uma Zenit (final da década de setenta).

Ao por as coisas em ordem aproveitei e digitalizei algumas fotos numa velha impressora HP que para surpresa minha ainda funciona e pouco me importa que seja um pouco mais lenta que as novas versões, pois já entrei na idade onde não tenho mais pressa, pois até nas minhas caminhadas matinais perguntei aos deuses do Universo se eles não podiam fazer dias de 26 horas em vez das atuais e velhíssimas 24 horas e eles rindo-se disseram-me que assim é que esta bem e para não ter pressa pois quanto mais correr mais depressa irei encontrar o final da reta por onde caminho e onde não estará ainda o último comboio à minha espera.

Ao olhar as fotos saltaram de imediato recordações, não saudades, de como era a vida, os lugares e as praias.

Tudo vai mudando, tudo cambia sem darmos conta de como nos formatam e parametrizam a vida sempre em nome do prometido progresso, das melhorias de condições de vida. Nós crentes com mais ou menos fé vamos acreditando nesse tal prometido paraíso, vamos suportando as inflações que os deuses do mercado geram, vamos pagando sempre mais um acréscimo de imposto ou uma nova taxa para salvar o ambiente… e nós acreditando porque somos gente de mais ou menos fé vamos caminhando alimentando esperanças.

Há os que vivem de saudades, eu como não queria ser mais novo do que sou gosto mais de celebrar recordações sejam boas ou más porque umas e outras permitiram-me chegar aqui e continuar a gostar de viver porque a vida é bela, o ser humano é que muitas vezes a estraga com a sua ruindade.

Fotos de 1982 salvo erro, quando não se falava a toda a hora das alterações climáticas e os deuses do mar, do vento e das marés levaram a areia da praia do Baleal de tal forma que na praia-mar o Baleal era mesmo uma ilha. Depois os técnicos e os políticos construíram pela praia um pontão-estrada e não mais o Baleal voltou a ser uma ilha.

Baleal a praia que o escritor Raul Brandão na sua obra os Pescadores em 1919 descreveu como “a mais linda praia da terra portuguesa” é hoje muito mais um fast food urbanístico anárquico sempre cheio de gente, salvando-se algumas das antigas construções na antiga ilha, porque agora já nem mas marés grandes a praia voltou a ter ilha.



25.06.23

 

Lá fora o calor convida ao recato. Abro o computador para ver os e-mails e lá estão as notícias sobre as prometidas maravilhas da IA inteligência artificial.

Já pela manhã enquanto preparava o almoço ouvi, como faço todas as manhãs de domingo. o programa na Antena 1 "O Amor É" onde o tema foi abordado pelo Prof. Júlio Machado Vaz e a Inês Meneses com base no texto de Miguel Esteves Cardoso "É Preciso Ressuscitar o Futuro".

Da badalada IA pouco sei e o que sei traz-me muitas dúvidas sobre a verdadeira utilidade da mesma quanto ao futuro da sociedade e das relações interpessoais. Resta-me a esperança de cá já não estar quando essas máquinas começarem a substituir tantas e tantas profissões que hoje são importantes na sociedade atual. Não acredito numa sociedade fria de relações pessoais. Não tenho pressa que esse tempo chegue.

Olho a rua e vejo os danados dos pássaros de volta da figueira. Saio para o quintal enfrentando o calor tórrido para os afugentar e ver os estragos que os danados fazem nos figos. Ao ver que já degustaram quase totalmente um dos figos que iria apanhar amanhã deixando os figos que estão mesmo ao lado intactos, nasceu-me a duvida se essas máquinas que dizem ser Inteligência Artificial também saberão como aves que tão bem sabem qual dos frutos é o mais doce, mais maduro para elas comerem, é que a passarada nunca se engana, onde picam é fruta doce e madura quando os nossos olhos nem sempre acertam precisando nós do apalpar o fruto.

Dúvidas só dúvidas muito mais que certezas.

24.06.23


Eles não sabem, não imaginam o bom que é colher os figos fresquinhos bem cedo logo pela manhã, depois de ter ido à padaria Tradições da Zebreira comprar do melhor pão que se pode comer a qualquer hora do dia ou da noite, para depois de passear a Sacha deixando-a correr livre de trela, sentar-me à mesa da cozinha colocar o queijo comprado no mini mercado do Filipe, olhar as cadeiras onde se sentavam os meus pais, ver a mãe a sorrir porque acompanho este pequeno almoço nutricional com uma cerveja mini, relembrando sem saudade do tempo em que perdido no leste angolano recebia o maço de tabaco Português Suave sem filtro e um queijo curado à cabreira que a mãe me enviava pelo Movimento Nacional Feminino. O tabaco deixei-o da mesma forma que comecei. A cerveja uma vez por outra sabe bem neste tempo em que o calor se faz sentir.

Loucuras que se cruzam entre recordações do passado temperadas com o sabor dos figos, do pão e do queijo que nenhum hotel de 5 ou 7 estrelas me daria, nem tão pouco a multidão que corre apressada nas grandes cidades sabe como é bom um pequeno almoço nutricional que termina com um café feito na cafeteira tipo italiana porque gosto de cafeína e do aroma que fica no ar.

Sábado, quando escrevo lá fora estão 38 graus.

 

23.06.23

Vim para o meu canto, uma casa pequena com menos de 80 m2 onde vive um mundo quase infinito de lembranças, por isso se diz que as casas são do tamanho das almas que as habitam. É assim o meu canto, uma casa pequena numa terra onde dizem os entendidos da vida que por cá nada existe.

Já pouco me importa se nada existe ou não, já não sou deste tempo nem sei a que tempo pertenço, porque não fiquei no passado nem tão pouco o esperado futuro já existe, sei que aqui, no meu canto, encontro uma paz que não sinto, não encontro em outro lugar.

Ainda ontem, quinta feira, caminhava à beira mar na praia que me viu crescer me tornar homem de espírito inquieto e revoltado contra as injustiças, contra as mentiras das verdades oficiais, para agora menos de vinte e quatro horas passadas estar longe do mar onde o cheiro da maresia carregado de iodo pela decomposição do limo correia não chega, mas onde o odor da terra quente temperado pelo calor que vindo do céu sopra pelas copas das velhas azinheiras, sobreiras e oliveiras como se o tempo descansasse na sua caminhada induzindo uma paz que não encontro em outro lugar.

Já não me identifico com a terra onde nasci. Nasci num quarto no sétimo bairro administrativo de Lisboa, freguesia de Santa Maria dos Olivais, que políticos modernistas sem coluna vertebral na eterna luta entre os aventais maçónicos e as saias batinas dos padres e “opus day”, com os presumíveis maçónicos a levarem a melhor transformaram-na em Olivais, entregando a minha rua de nascimento à freguesia que a nova burguesia da classe média criou como Parque das Nações. Nunca ali pertenci nem pertencerei, sou de Santa Maria dos Olivais, ponto final. Até mesmo a minha praia com aquele mar de Peniche que não existe em mais lugar algum do planeta já não me prende nem me chama, traz-me boas recordações é certo mas as minhas raízes fundiram-se com as dos meus progenitores, dos meus antepassados.

É no calor de forno e no gelo do frio que gosto de estar, de sentir não só o odor desta terra mas principalmente saborear o gosto da paz. 






























22.06.23

 

Na sala de espera do hospital, como no Metro ou no comboio suburbano ao olhar à sua volta é o único que lê um livro de papel todos os que o rodeiam estão sintonizados com os seus telemóveis. Pensou, como em outras vezes, "o que seria de toda esta gente, desta juventude, se deixasse de existir telefones móveis ligados à Internet" do que iriam viver se estão tão viciados que logo de manhã antes mesmo das oito horas têm por vezes de parar com a Sacha para que eles não choquem consigo; jovens e os menos jovens que a caminho do comboio ou da escola seguem de olhar fixo grudados nos telemóveis, até mesmo quando da volta ao final da tarde sai com a Sacha é crescente o número de pessoas que passeiam os seus animais fixadas nos seus telemóveis. 

Como será o por agora inexistente futuro?

21.06.23

 

Ao abrir o computador para observar os e-mails recebidos e escolher os que ia ler, vi que já tinha o relatório do tac que tinha efetuado na passada sexta-feira, dia 16, aos ouvidos a pedido da Médica de Família.

Imprimi o relatório e li-o sem entender o significado da maior parte das palavras constantes do mesmo, ainda me atrevi a consultar no Google o significado de umas determinadas células, mas depressa desisti porque um ignorante a querer perceber o que não sabe nem o Google me ensina só pode criar mais duvidas do que as já existentes em mim. Contudo, parece-me que vou continuar a viver com a «martelada auricular direita do tum tum cadenciado» assim como o acentuar da perda de audição, recusando-me por em quanto a usar qualquer aparelho auditivo que o mercado oferece, antes de obter um veredito assim como o aconselhamento médico sobre o problema.


Ao acordar esta manhã sentado na beira da cama lembrei-me de como acordei na madrugada de sábado passado.

Tinha comprado online os bilhetes do comboio Alfa da Estação do Oriente para Loulé. Na noite de sexta feira antes de me deitar verifiquei que os bilhetes que tinha imprimido estavam na mala, que os livros a carteira e os óculos de ver ao perto também já estavam assim como a pequena máquina fotográfica Lumix que eles, filha e genro lhe tinham dado, só faltava a garrafa de água e os limões. Deitei-me na minha hora habitual, pelas 23 horas. Contudo, o sono deveria ter ido beber um copo à algum sitio pois não me transportava para o mundo do repouso. De olhos fechados aguardando a chegada de Morfeu dei pela companheira se deitar e começar no seu respirar-ressonar de dormir enquanto eu procurava encontrar o sono que não chegava. Alarmei-me quando dei conta de que não tinha ativado o despertador do telemóvel, e lá se foi o sono que estava a chegar tendo de correr atrás dele depois de ativar o despertador. Acordei a meio da noite para a ida habitual do urinar. Fiz as viagens de ida e regresso à cama de olhos fechados com medo de acordar e não me deixar dormir para acordar com o despertador.

Dormia quando senti uma mão a bater-me no ombro. Olhei as horas no telemóvel faltando uns minutos para o desencadear do despertador. Acordei como gosto de acordar, sempre um pouco antes do despertador ativar o som do telemóvel. Olhei a companheira que continuava dormindo um sono ferrado. Não foi ela que me terá batido no ombro para acordar, quem terá sido?


A consulta de cardiologia estava agendada para as 15H10. A companheira disse-me que não precisava de ir apanhar o comboio suburbano ou o regional das 13H54, ela levar-me-ia. Almoçamos quase à hora normal. Não bebi café. Depois de lavar os dentes, vesti-me colocando na pasta que iria levar o dossier de cardiologia, a garrafa com água, o novo livro que comecei a ler "Nunca Te Esqueças Das Flores" do japonês Genki Kawamura, a carteira e óculos de ver ao perto. Preparado dirigi-me à sala onde ela logo começou a criticar por ainda serem 14H10 bastando saírem por volta das 14H30, ao que calmamente lhe perguntei se tinha dito alguma coisa e sentei-me no sofá, fechando os olhos desligando de tudo até pressentir que ela estava pronta, levantei-me e junto à porta de saída enfiei os pés nos sapatos e descemos. Não olhei as horas para não me incomodar pois seria normal irmos encontrar bastante trânsito depois do Campo Grande com os semáforos na Avenida da República. Chegado ao hospital de Santa Marta tirei a senha de confirmação de presença eram 15H06 em cima da hora marcada, embora como é habitual as consultas hospitalares sofrem sempre atrasos consideráveis. Sentado na sala de espera tirei o livro, coloquei os óculos e fui lendo até que ouvi chamar o meu nome para o “gabinete 5”. O médico depois de ter terminado o telefonema que estava atendendo quando entrei no gabinete saudou-me perguntando se tinha feito a prova de esforço e de imediato começou a observar a mesma no ecrã do computador. Como o ritmo do coração acompanha o esforço desenvolvido, disse-me não ser o coração a causa do cansaço. Entregou-me depois um envelope para dar à minha médica de família. Terei de emagrecer e não levar a vida sedentária que levo nesta cidade dormitório da cidade grande, não esquecendo o peso dos meus 72 anos de idade, acrescidos dos erros que cometi ao longo da caminhada.

Saí do hospital satisfeito e pela Rua de Santa Marta fui andando por aquele passeio agora tão estreito para que possa haver carros estacionados no lado direito da rua, servindo o trânsito no sentido descendente.

domingo, 7 de janeiro de 2024

20.06.23

Acabei mais um livro "Os Doentes do Doutor Garcia" da grande mulher Almudena Grandes. Um romance de ficção baseado em factos reais que se enquadram com outros que já li em outros livros de outros autores. Houve nazis que foram protegidos e defendidos pelos designados democratas do Ocidente. Houve nazis, gente assassina do pior, que se viram protegidos pelos governos ocidentais, ingleses e americanos, tornando-se amigos uns e outros na luta contra o poder dos antigos aliados soviéticos, os vencedores da guerra contra a Alemanha de Hitler e seus aliados nazis e fascistas de outras regiões e países que foram bem mais do que os conhecidos Itália e Japão.

Outro livro se seguiu de um autor que nunca tinha lido, mas cujo título me chamou a atenção "O Eterno Regresso do Fascismo" de Rob Riemen. Li-o de uma assentada na viagem de comboio que fiz no sábado passado a caminho do reino dos Algarves, mas preciso de o ler de novo como se o estudasse.

A neta quando andávamos na Feira do Livro de Lisboa, admirava-se por eu comprar livros sem conhecer o autor, pois ela conhece os autores dos livros que compra. Expliquei-lhe que sempre compro livros mais pelo impulso que sinto ao olhar o título e a capa do livro e não pelo autor do mesmo. Já quando ia ao cinema era o mesmo, ia ver o filme que produzia determinado impulso quando olhava o cartaz ou lia o que os jornais desse altura comentavam sobre os filmes em exibição; nunca soube explicar o porque desta minha forma de ser, sendo que raramente ia e vou ao cinema pelos óscares ou prémios de festivais cinematográficos que as películas têm nos seus anúncios.

Também sou capaz de ler dois livros ao mesmo tempo, ou ler o mesmo livro uma segunda vez, como vou a fazer com o livro do Rob Riemen.

Ao ler, ao sentir as palavras que o autor colocou no livro vou construindo os meus cenários alimentando as minhas muitas dúvidas e interrogações.

Assim vou vivendo, sonhando, pensando porque nunca esqueço a “ausência” que sem que os outros notem me vai acompanhando. 


 

16.06.23

 

Andando indiferente aos que comigo se cruzam, olho-os mas só me vejo lá no meu canto raiano.

Ontem, depois da prova de esforço no Hospital de Santa Marta, ao regressar andando sem preocupação, no cruzamento com a Rua Barata Salgueiro decidi subir para a Avenida da Liberdade. Ainda não eram as dez da manhã, poucos turistas circulavam nas ruas, numa manhã a anunciar a chegada do calor do mês de Junho.

Entrei na estação de Metro da Avenida e com o meu aparelho de comunicação tomei nota do desleixo existente naquela estação a meio da Avenida da Liberdade.

Na outra semana, quando fui almoçar com um amigo meu superior na nunca esquecida guerra em Angola, ao despedirmo-nos fiz o caminho entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paços, pela Rua do Arsenal. Entre chusmas de turistas tomei nota de como o passeio no Cais de Sodré, passeio designado como calçada portuguesa, se encontrava um nojo tanta é a sujidade.

Dois pequenos exemplos dos muitos existentes infelizmente e não só na cidade. O malfadado vírus do desleixo com mutações várias é comum a todo país.

O sistema de gestão pública no país está a caminhar para bater no fundo, com a multidão cantando e rindo dividida e satisfeita entretendo-se nos sofás de comando na mão para assistir ao lavar de roupa entre políticos ou em alternativa ouvir os "comentadeiros" futebolísticos.

Ainda ontem há hora de almoço num canal televisivo já os usuais papagaios sem penas do atual totalitarismo liberal, ditos "comentadeiros" especialistas em tudo o que seja criticar sem contraditório o anémico mas resistente Estado Social, opinavam tais papagaios o que o antigo ministro iria dizer numa tal CPI, quando o senhor ainda nem sequer tinha entrado na sala onde decorre tal "lavar de roupa" designada de CPI..

Já sentado no comboio suburbano em Santa Apolónia lembrei-me de quando em Paris tive cinco dias de formação num novo programa informático de gestão a implementar na empresa farmacêutica onde trabalhava. A formadora todos os dias aparecia com a mesma camisa branca, dia a dia mais suja e encardida proporcionalmente inversa à intensidade do perfume usado dia a dia mais intenso para esconder tudo o resto. Explicou-nos a pobre no penúltimo dia de formação, que depois de ali estar todo o dia connosco ainda tinha de ir trabalhar nos escritórios da empresa na Torre Montparnasse, comendo a correr comida enlatada que tivesse à mão, para ao chegar a casa depois da meia noite atirar-se para cima da cama, para no dia seguinte às 6 da mamã estar a sair de casa. O perfume poluído da moça parisiense veio-lhe à memória ao olhar como está a cidade onde nasci, estudei e trabalhei, sentindo-me um ausente como se nunca antes tivesse percorrido aquelas pedras daquelas ruas, avenidas e bairros. O meu tempo e a minha cidade mudaram já não existem.

Gastam os políticos gestores dos dinheiros públicos milhares ou mesmo milhões de €€ com agências de publicidade travestidas de comunicação para nos anunciarem a espaços a atribuição de grandes prémios disto e daquilo, embalando o pessoal ouvinte com o número de turistas que nos visitam.

Ou os políticos não sabem, ou de tão habituados que estão a mentir-nos que não nos dizem que país se desenvolveu, enriqueceu económica e socialmente tendo por motor económico o setor do turismo?