O
meu pai foi o único dos 4 irmãos que não foi mandado estudar para
o liceu de Castelo Branco. Como parece que a sua mãe, minha avó
Maria de Jesus, desejava ter um filho padre, mandaram-no para o
seminário. O miúdo João, ao chegar e olhar os muros muito altos e
os grandes portões de ferro do seminário, fez meia volta-volver e
regressou à sua casa em Segura. O pai Luís "Mouco" ( de
alcunha) quando o viu regressar disse-lhe: - ai não quiseste lá
ficar, vais guardar as cabras.
Assim
começou a sua vida de trabalho no campo aos 11 anos, a qual juntava
o ter de cuidar do irmão Raul mais novo uns anos bons, de tal modo
quando os amigos queriam ir a algum lado ou parodiar lhe diziam para
deixar a alcofa do irmão Raul num silvados perto. Não há muito
tempo que um senhor que está no lar do CCBES da Zebreira ao passar
no seu passeio junto à minha casa meteu conversa comigo e ainda
guardou porcos para o meu avô Luís, dizendo-me que o pessoal
gostava mais de trabalhar com o irmão Chico porque o meu pai João
era mais exigente do que o Chico, que entretanto tinha abandonado os
estudos e trabalhavam os dois irmãos a casa agrícola, já que o pai
Luís "mouco" legionário salazarista convicto, gostava
mais de andar nas putas e boa vida de Castelo Branco do que gerir a
casa agrícola, acentuando as divergências com os filhos em especial
com o meu pai. Divergências que chegavam ao ponto e terem uma égua
que só os dois irmãos, Chico e João, montavam porque todos os
outros que procurassem montá-la iam de imediato ao chão, o velho
Luís não deixava que o filho João a pudesse utilizar para vir
namorar a minha mãe à Zebreira e, não fosse um ganhão amigo do
meu pai no arrendamento que tinham junto à Zebreira que a guardava
escondendo-a, o João Moreira para vir aos fins de semana namorar a
Luísa Sousa, teria de vir a pé de Segura à Zebreira onde
pernoitava na casa do amigo do seu irmão Chico, o senhor José da
Silva que nesse tempo já exercia como alfaiate, criando-se amizades
que veem de longe.
Quando
por força da II Grande Guerra o medicamento alemão que mantinha o
coração de sua mãe, minha avó Maria de Jesus, a funcionar faltou
no mercado não havendo substituto, o coração dela deixou de
funcionar e a casa agrícola foi à praça por insolvência. O sonho
e a ambição do João Moreira de se tornar lavrador caiu por terra.
Toda uma juventude a trabalhar a terra de sol a sol para ficar com
umas oliveiras num terreno dos quatro irmãos. O João e o Chico
voltaram costas ao campo e entraram para a Guarda Fiscal. O irmão
mais velho Manuel era militar e assim continuou. O mais novo o Raul,
continuou a estudar no Liceu de Castelo Branco com os irmãos a
suportarem os gastos, que depois ele reembolsou aos irmãos.
Foi
assim que o João Moreira com a Luísa Sousa e os filhos João e
Carlos foram viver para o concelho de Peniche depois de uns anos
vividos nos Olivais onde os dois rapazes nasceram.
O
meu avô Luís passou a andar por casa dos filhos. Continuando a não
ser uma pessoa fácil alguns dos irmãos colocavam-no num lar o tempo
que lhes pertencia. Quando se deu o 25 de Abril logo virou as suas
esperanças para o “Pinola” como chamava ao general Spínola,
batendo com a bengala no chão dizia que o “Pinola” ia por isto
tudo e o país na ordem. Faleceu no Hospital de S. José onde estava
internado aos 83 anos, e, segundo disseram ao meu pai, antes de
morrer chamava por mim, mas eu estava em Angola.
O
êxodo das gentes do interior em busca de uma vida melhor é mais
velho que a própria nacionalidade. A Egitânia, hoje designada
Idanha-a-Velha, no tempo em que os romanos cá estiveram chegou a
ter cerca de cinco mil habitantes, para depois quando os mouros por
cá andaram perder população e por mais doações destas terras que
os primeiros reis de Portugal fizessem quer aos Templários quer a
outros Nobres para a sua repovoação nunca mais a velha Egitânia
recuperou, andando hoje à volta dos cinquenta habitantes (62 segundo
censos de 2011). Até mesmo Monsanto onde Fernando Namora exerceu no
início a sua carreira de médico, são muito mais as casas que os
resistentes habitantes.
Seu
pai com o desgosto de todo o esforço ter ido à praça esteve
dezasseis anos sem voltar à sua terra, assim a Luísa Sousa vinha de
dois em dois anos com os seus dois rapazes passar o mês de Agosto em
casa de meus avós Chico Capelo e Maria Isabel que moravam na Rua do
Espírito Santo, até depois da festa à Nossa Senhora da Piedade
terminar no dia 9 de Setembro. Diga-se a verdade que os dois rapazes
não faziam muita questão em deixar a praia e os amigos para virem
para a Zebreira onde não havia eletricidade, nem água canalizada,
sendo que gostavam de ir ainda de madrugada com o avô e o burro
buscar água aos poços e fontes; para piorar por força do calor não
os deixavam sair de casa entre as duas e as cinco da tarde. Desse
modo muito poucos amigos foram criando nas férias que passaram
Zebreira.
Com
o falecimento dos meus avós e a chegada do serviço militar, só
voltei à Zebreira quando meus pais vieram para cá morar.
O
seu pai no dia em que se aposentou da Guarda Fiscal já nem passou
pela casa que tinham nos Olivais Sul, apanhando logo em Santa
Apolónia o comboio para Castelo Branco e a carreira para a Zebreira
onde já estava a minha mãe na casa que entretanto tinham construído
junto à Estrada Nacional.
Na
sua atividade política meu pai foi por duas vezes escolhido pelo PS
e pelos votos para presidir à Junta de Freguesia. Um dia o
presidente do Município o sr. Joaquim Morão falou-lhe que havia
pessoas a pedirem para se acabar com a Lagoa no Valcabeiro. Meu pai
disse ao seu Presidente para o mesmo vir num fim de tarde observar os
benefícios que aquela charca com muitos anos de existência ainda
tinha para animais e pequenas hortas com poços sem água no verão.
Assim aconteceu, o senhor Presidente Joaquim Morão veio ver e a
charca Lagoa do Valcabeiro continuou a matar a sede aos animais e às
plantações nas hortas circundantes sem esquecer as pocilgas dos
porcos que por lá também existiam.
Anos
mais tarde por questões pessoais e políticas o Município levou a
cabo a desafetação da charca mandando construir no local
instalações para um Lar Social. Terminada a primeira fase do
projeto o Município chegou a acordo com o CCBES que tinha a gestão
do Centro de Dia para passar a gerir o Lar acabado de construir.
Não
foi a direção do CCBES da Zebreira que pediu mas o Município que
para solucionar o problema pediu e acordou que o Lar passasse a ser
gerido pelo CCBES da Zebreira, que desse modo deixou as instalações
próprias do Centro de Dia sem utilização, para se ocupar da gestão
do Lar e dos problemas que o edifício apresenta, quando havia tantas
outras opções melhores para a sua realização.
Já
as fotos da procissão que na festa de Setembro se realiza, mostram
que nesse ano em que as tirei ainda existia a casa da minha tia Maria
do Carmo, que o Município comprou para a deitar abaixo de modo a
facilitar a passagem das camionetas. Agora não sei se a procissão
ainda desce a Rua dos Fornos e vai ao Espírito Santo, porque na vida
tudo muda tudo cambia segundo a segundo.
Com
estas histórias e vivências comprovo que sou um português de lés
a lés, da fronteira terrestre com a Extremadura à fronteira
marítima de Peniche, que com o passar dos anos me vou sentindo
português, depois ibérico e europeu do sul com todas as crenças e
fé das tradições judaico-cristãs que à volta do Mediterrâneo se
criaram e afirmaram ao longo do tempo de muitos séculos.
No
meio das muitas duvidas que me povoam, tenho a certeza que não somos
todos iguais, cada um de nós é um pequeno mundo diferente do outro,
até os irmãos gémeos não são iguais. Iguais nos direitos,
deveres e obrigações é outra coisa diferente mas até isso está
dia a dia mais longe de se atingir.