quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

20.07.23

 

Olho as unhas dos pés, fixando-me na unha do dedo grande do pé direito. Os genes dos pais e antepassados têm influência no nosso caminhar.

Minha mãe faleceu após o segundo AVC sete anos depois de ter sofrido o primeiro. O meu irmão, uns meses mais velho que eu, já conheceu um pequeno AVC chamado isquemia o que não deixou de ser um alerta, não tendo sofrido felizmente qualquer mazela. O meu pai e o irmão mais velho dele sofreram ambos de câncer da próstata. Eu próprio mais ou menos pela idade do meu tio conheci a malvada aranha de baba peçonhenta do câncer da próstata, vivendo hoje sempre alerta a qualquer sinal silencioso que aflore no corpo. Ao olhar a unha do dedo grande do pé direito vejo-a no mesmo dedo do mesmo pé de minha mãe, o mesmo formato a mesma coloração. Claro que hoje eu trato-a com o medicamento prescrito pela médica de família, mas quando pensei ter anulado o malvado e teimoso fungo, o sacana ressuscita impondo-se obrigando-me a continuar a luta diária pela sua morte; uma luta entre dois teimosos em que só um pode vencer.

16.07.23

 

Ontem foi dia de ir até à cidade Invicta. Dia para recordar e dar abraços aos jovens que como eu constituíram o corpo militar da 2ª Companhia de Caçadores 5010, um dia com tempo para recordar, viver a alegria de reencontros, um dia com tempo para pensar e sentir a revolta rondando-me.

Defendo o direito à greve, como um dos pilares da sociedade.

Quando em 1975 comecei a trabalhar, sindicalizei-me. Depois, em plena luta pelo controle do sindicato em que estava sindicalizado, li e ouvi o que propunham e diziam em campanha, de um lado os afetos ao PCP-MDP/CDE do outro os afetos à aliança PS-MRPP. Ouvi, li e… dessindicalizei-me. É que nos anos anteriores da minha juventude tinha consumido várias obras sobre a luta e a história do sindicalismo em Portugal no tempo da Primeira República e do Estado Novo. Vi a vida já na outra margem sem ainda dar conta que me estava afastando da multidão.

Mais tarde quando a Associação de Economistas passou a Ordem desassociei-me, não gosto de Ordens profissionais, que mais não são do que organismos corporativos. Mesmo não gostando tive de continuar associado numa.

Nunca fiz greve na minha vida de trabalho, mas defendo o direito à greve.

Na noite anterior, antes de me deitar, olhei no computador o sítio da CP, assim como o e-mail, e nenhuma informação negativa havida para no dia seguinte apanhar o Alfa Pendular na estação do Oriente, cujos bilhetes tinha anteriormente adquirido via internet.

Dormi de um sono só. Acordei quando os sensores urinários tocaram o alerta. Levantei-me, relaxei a bexiga e ao colocar de novo o corpo na horizontal, olhei as horas, eram cinco horas. Aguardei e antes do despertador tocar levantei-me, eram as cinco e trinta e a claridade começava a despontar. Tomei banho e saí para a rua para a volta matinal com a Sacha. Quando por volta das sete e quarenta cheguei à estação do Oriente tinha uma chamada do amigo José que estava em Santa Apolónia, onde tinha chegado ainda mais cedo e ao reparar que o comboio não estava no cais de onde normalmente parte, viu no quadro das partidas que o Alfa das oito tinha sido suprimido e, procurava a minha concordância para a alternativa que nos restava, adquirindo os bilhetes para o IC das nove e trinta para Braga que chegaria a Campanhã pelas treze menos dez caso cumprisse o horário, em cima da hora do almoço em S. Mamede de Infesta.

Enquanto esperava pelo amigo, pois tínhamos duas horas e meia pela frente, dirigi-me ao único guiché aberto para comboios suburbanos e educadamente questionei a funcionária porque pelas vinte e três da noite não havia qualquer informação e agora à hora marcada o mesmo tinha sido suprimido? A senhora informou-me que no dia anterior, sexta feira, as perturbações tinham existido por problemas na Infraestruturas de Portugal, enquanto só de madrugada tiveram confirmação da greve dos revisores da empresa. Nada mais havia a falar. Aceitei a situação, porque não tenho conhecimento concreto do que está em discussão, entre os sindicalistas e os representantes da entidade patronal, a CP.

Em silêncio revoltei-me pelo caminho que uns e outros podem estar a cavar de novo, para que amanhã num futuro mais ou menos próximo, estejam reunidas condições para a privatização de mais uma empresa do setor público dos transportes, tão importante para a manutenção do nosso fraco Estado Social, como para os mais desfavorecidos da sorte na sua vida laboral, que se deslocam só e apenas nos transportes públicos.

Chegamos a Campanhã com dez minutos de atraso onde um amigo nos esperava para nos levar até à Central Churrasco em S. Mamede de Infesta onde o pessoal da Companhia nos aguardava.

Reviveram-se amizades, recordaram passagens da vida em comum e da vida dos tempos de agora.

Li em voz alta para que todos ouvissem a mensagem que o antigo capitão miliciano me tinha enviado para ler ao pessoal, já que por motivo de um exame clínico não pode estar presente no encontro.

Ficou agendado novo encontro dos resistentes milicianos da 2ª Companhia de Caçadores 5010 na cidade do Porto para o último sábado de Outubro.

"Nós Somos Capazes" era o lema do Batalhão de Caçadores 5010. A 2ª C. Caç. começou tarde estes encontros, para agora decidirmos marcar presença em encontros duas vezes por ano, porque o tempo não para e já estamos todos com mais de setenta em cima do corpo pelo que as oportunidades de nos encontrarmos irá diminuindo inversamente proporcional ao avanço da idade.

12.07.23

Fugindo das notícias de sentido único sobre a maldita guerra que ocorre no leste europeu, lembro-me de uma outra guerra que se iniciou quando ainda tinha dez anos, que nos meus dezassete anos ouvia na rádio os senhores da guerra dizerem que a guerra estava ganha por ação dos valentes e heroicos militares das nossas tropas que nas três frentes da guerra em África combatiam os terroristas inimigos da Pátria e da fé cristã.

Estava a guerra ganha, diziam os senhores que mandavam os jovens para a guerra no mato, porque havia outras várias formas de ir à guerra sem correr risco de vida.

Estava ganha, tão ganha e certa era a vitória que os contingentes militares por necessidades logísticas nas frentes de combate passaram a viajarem de avião, meio de transporte muito mais rápido que o transporte nos navios fretados às companhias marítimas existentes. Foi assim, com a guerra ganha como diziam os que mandavam no país que embarquei com a minha companhia de caçadores na noite de 15 de Dezembro de 1972 num avião TAM. Era o comandante do terceiro grupo de combate. Na EPI em Mafra tive mais uma nota de curso com a média de 12 valores (nem bom, nem mau, sempre suficiente). Quando chegou a altura de se escolher o primeiro período de férias, aguardei que o capitão e os dois alferes mais graduados escolhessem os seus períodos de férias, porque só um dos oficiais poderia estar ausente do arame farpado de férias. Tive sorte. Sensivelmente ao fim de oito meses podia sair daquela terra que nunca senti como minha, nem tão pouco como a continuação do meu próprio país. Era o "aerograma" para nós militares destacados nas frentes de combate africanas a forma gratuita de comunicarmos com o mundo familiar e exterior. Num dos muitos aerogramas que escrevi pedi ao irmão para comprar uma tenda de campismo e um saco cama. O meu irmão foi à Casa Sena na Rua Nova do Almada e comprou o que lhe pedi.

Vim de férias num avião TAP a meio do mês de Agosto de mil novecentos e setenta e três. No aeroporto de Lisboa apanhei um táxi com o taxista a resmungar por o destino ser nos Olivais Sul junto à Avenida Infante D. Henrique, cobrando-me o suplemento da mala. Não lhe dei troco nem tão pouco gorjeta. Oito meses antes tinha saído de casa ainda em gozo das férias que os senhores da guerra davam aos jovens mobilizados para se despedirem da família. Como não fui capaz de ver a minha mãe a chorar com medo que o seu menino morresse na maldita guerra, uns dias antes das férias acabarem inventei um serviço e fui no comboio para o Porto e depois para Viana do Castelo sem me despedir de minha mãe, já que o meu pai lendo o meu silêncio angustioso acompanhou-me até ao cais do comboio em Santa Apolónia para o Porto para um minuto antes do comboio dar o sinal de partida nos abraçarmos e beijarmos sem trocar uma palavra, nenhum dos dois sabia se aquele abraço se aquele beijo era o último. Quando o comboio começou a andar e a imagem do meu pai imóvel no cais a olhar meus olhos encheram-se de lágrimas revoltosas apagando da memória a viagem assim como os dias que passei em Viana do Castelo andando a vaguear a pela margem do Rio Lima até que chegou todo o pessoal da minha companhia; todos decidimos ir para terras distantes e totalmente desconhecidas lutar contra o inimigo que não conhecíamos.


Minha mãe quando o meu irmão chegou a casa acompanhado dos meus primos de Azambuja aquela hora da noite do dia 15 de Dezembro de mil novecentos e setenta e dois viu de imediato que o seu menino já tinha partido para a guerra sem lhe dar um beijo sem a abraçar a ela que o tinha gerado, parido e criado com tanto amor. Passados oito meses à casa regressava sem ter dito nada da minha chegada. Toquei à campainha e a porta da rua abriu-se, na época o prédio não tinha comunicador subi no elevador e toquei à porta do 8°C. Minha mãe ao abrir a porta e ao ver-me correu para dentro de casa chamando pelo meu irmão para ver quem tinha chegado e, só depois me abraçou me encheu de beijos e mimos logo preocupada com o meu aspeto físico. Naqueles oito meses tinha emagrecido cerca de dez quilos e ela sempre gostou que fosse mais forte do que era. O irmão, por já andar no ISCEF tinha pedido espera do serviço militar, um benefício que o regime concedia aos estudantes universitários.

Tínhamos um amigo alentejano que não só tinha tirado o curso de Contabilista com o meu irmão como viajava também de comboio para a Estação do Rossio, nós do Apeadeiro de Cabo Ruivo e o amigo da Estação de Entre Campos. Era o amigo Geraldo um pouco mais velho de idade que nós, trabalhando já num escritório de contabilidade depois de ter cumprido o serviço militar na cidade de Beja.

A trabalhar, o amigo Geraldo comprou o seu primeiro carro em segunda mão, um Fiat 850. A primeira viagem que os três fizemos no Fiat foi irmos passar um fim de semana à Consolação estreando a tenda que o irmão tinha comprado com o dinheiro do pré que eu cá deixava.

Na semana seguinte o amigo entrava de férias uns dias, combinando os três irmos até ao Algarve onde eu e o meu irmão nunca tínhamos ido. O amigo Geraldo combinou com um casal amigo dos tempos de estudante almoçarmos com eles em Porto Covo. Saímos cedo de Lisboa rumo a sul com o acordo de que tínhamos de dar um mergulho nas praias por onde passássemos. Foi assim que nessa manhã chegados a Sines estacionado o Fiat 850 lá fomos os três ao banho na praia de Sines com as obras do Porto já a decorrerem. De novo aprumados o Fiat deslizou pela estrada à beira-mar até Porto Covo, onde o casal, ambos engenheiros, já nos aguardavam. Feitas as apresentações e os cumprimentos fomos almoçar uma ótima caldeirada num restaurante da então ainda pequena aldeia de Porto Covo. Comemos, bebemos e fomos conversando à boa moda do Alentejo, estávamos de férias e a pressa não ia connosco. No final da tarde descemos à praia onde conhecemos umas moças que como nós viajavam sem pressa mas elas já estavam de regresso das férias. Tomado mais uma banho de mar, voltamo-nos a encontrar com os amigos para degustarmos umas excelentes gambas e bebermos mais uns copos. Era já noite quando os três bem jantados e bebidos iniciamos a viagem para o Monte onde os pais do amigo Geraldo viviam perto de Castro Verde. Com algum receio mas sem nos enganarmos no caminho lá conseguimos chegar ao Monte a altas horas da noite, enfrentando nova aventura pois as portas e janelas de casa estavam trancadas sendo os pais do Geraldo “surdos que nem um porta”. Estávamo-nos a preparar para dormirmos no carro, quando o “anjo” irmão mais novo chegou da noite em Castro, permitindo assim que entrássemos e pudéssemos dormir em camas. Na manhã seguinte quando acordaram e se levantaram os manos, João e Carlos, conheceram a mãe e o pai do amigo Geraldo assim como toda uma mesa cheia de iguarias que a mãe fazia. Naquela mesa desde o pão passando pela manteiga, queijos, ovos e compotas tudo a mãe do amigo fazia em casa. Ainda hoje recorda aquele pequeno almoço. Conhecido o Monte o amigo levou-nos a conhecermos Castro Verde. Depois de almoçarmos, como o calor apertava decidimos descansar, até porque havia um lanche especial em que a nossa presença iria ajudar um amigo dos pais a enganar um seu familiar que se recusava a comer carne de burro. A mãe do Geraldo preparou o petisco com a carne de burro que o amigo previamente lhe trouxe e à hora certa chegaram os dois familiares. Depois dos cumprimentos normais sentamo-nos todos à mesa a degustarmos o petisco com o familiar que se recusava a comer carne de burro sem desconfiar do que comia gabava a qualidade e o sabor da carne.
Quando o calor da tarde amainou juntou-se-nos o irmão mais novo do Geraldo que nunca tinha ido a uma praia. Os quatro no Fiat rumamos a sul, sem pressa de janelas abertas para que a natureza pudesse ir ouvindo o excelente canto alentejano do condutor. Quando encontrávamos uma placa rodoviária indicando a velocidade de 60 baixava-se a velocidade para 30 lá cantando. Portimão era o primeiro destino, chegamos já era noite. Saímos de Portimão em direção a Lagos mas sempre que víamos um foguete estourar no ar o Fiat logo se direcionava para lá de tal modo que não demos pelas horas passarem. Quando altas horas da noite chegámos à porta do Parque de Campismo do Esperança de Lagos a porta estava encerrada. Decidimos ir em busca de um local onde pudéssemos montar a tenda e descansar. Cansados e desconhecedores da zona lá encontrámos um sítio. Ainda mal tínhamos dormido quando somos acordados pelo apitar e barulho do comboio. Assarapantados levantámo-nos e só então reparámos que tínhamos montado a tenda a cerca de dois metros dos carris da linha férrea. Acordados e mal dormidos fomos de novo para o parque de campismo. Cumpridas as formalidades montamos a tenda para permanecermos uns dias em Lagos. Passámos a maior parte do tempo na Meia Praia onde na baixa-mar nos entretínhamos a apanhar conquilhas que depois as dávamos aos casais que por lá andavam na apanha do precioso bivalve. Recordo a nossa admiração ao vermos que a maioria dos pescadores que existiam na ria em plana cidade se situavam nas saídas dos esgotos pois era aí que mais peixe capturavam.
Saímos um dia de Lagos com destino à Ilha de Armona em Olhão, mas sempre sem pressa tomando banho nas praias por onde passávamos. Paramos já noite na Quarteira. O meu irmão João imaginou que poderia encontrar por lá a passear uma colega do grupo de Económicas e lá andamos pela marginal mas a gente era tanta que seria tarefa quase impossível encontrar a colega, pelo que desistimos acabámos por montar a tenda na areia perto de um chuveiro para de manhã nos poderemos lavar.

Saímos de Quarteira indo de praia em praia tomando banho. Almoçámos em Faro num restaurante onde o empregado nos quis cobrar indevidamente 10% de taxa turística já que ao pagar lhe apresentei o meu bilhete de identidade militar pois os militares estavam isentos da mesma. Ainda se gerou uma pequena discussão com o empregado mas pagámos sem os 10% porque não nos considerávamos turistas e eu era militar. O amigo Geraldo quando fez o serviço militar em Beja como alferes criou amizade com um furriel de Olhão, cuja família tinham um lugar de venda na praça do peixe e marisco com a esposa a trabalhar num armazém de marisco. Estava tudo combinado para depois de nos encontramos com o novo amigo dirigirmo-nos ao armazém onde a esposa trabalhava e aí comprarmos uma caixa de gambas cozidas, indo depois sentarmo-nos numa esplanada comendo-as acompanhadas das respetivas imperiais; era normal naquele tempo o pessoal das esplanadas aceitar que apenas consumíssemos as bebidas para acompanhar o marisco comprado em outro local. A tarde estava a chegar ao fim estacionado o Fiat fomos com a trouxa às costas apanhar o barco para a Ilha de Armona, montando a tenda junto à Ria Formosa numa pequena duna que o amigo de Olhão nos tinha indicado.
Era o fim de Agosto início de Setembro e não havia muita gente na Ilha. Nos dias que lá passámos ficámos mais pela Ria do que pela Costa. O Bar do Tolinhas foi o ideal para aqueles dias de descanso. Aí entabulámos conversa com um grupo de moças que lá estavam lá de férias com os pais. À noite jogávamos jogos de cartas com elas sob o olhar atento e vigilante dos pais. Tinham passado três anos desde que abandonei a minha primeira namorada e não mais tinha encontrado alguém de quem gostasse, mas naquele final de Agosto princípio de Setembro no Bar do Tolinhas gostei de uma das moças que estava com o pai perto do local onde estávamos acampados. Quando chegou o dia de iniciarmos o regresso a casa e o Geraldo ao trabalho, ao despedirmo-nos das moças soube que ela iria voltar para Lisboa na semana seguinte e onde almoçava todos os dias de trabalho. Uma semana e um dia depois apareci no “self-service” existente no edifício Franjinhas na Rua Braamcamp em Lisboa onde ela almoçava.
Regressei da guerra em Angola a 29 de Novembro de 1974 para a 4 de Outubro de 1975 nos casarmos.
 

 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

10.07.23



 

Olhei as fotos da guerra. Fechei os olhos e vi-me na chegada ao Mumbué, na alegria louca dos militares que fomos substituir. Ao receio e medo nos olhos e semblante dos "maçaricos" que acabávamos de chegar idos de terras distantes sobreponha-se a alegria louca dos "velhinhos" que viam chegar ao fim o tempo que os senhores da guerra lhes tinham imposto como comissão.

Ia apanhar um pouco de sol nas rochas quando vi que à minha frente caminhava o meu amigo Hermano com a sua mulher Teresinha. Somos do mesmo ano, sendo o Hermano de Setembro e eu de Dezembro. Estava eu no quartel em Chaves de frente para os homens que iam integrar o meu grupo de combate, quando todos os soldados e cabos milicianos ficaram em suspenso muito admirados por um soldado desconhecido deles, chegar por trás e me ter dado um valente caldaço no pescoço. Ao voltar-me surpreendido vi à minha frente a rir-se o meu amigo Hermano do Lugar da Estrada, também mobilizado para incorporar o Batalhão que se acabava de formar, integrando como mecânico a Primeira Companhia enquanto eu pertencia à Segunda Companhia. Para maior admiração dos meus subordinados soldados e cabos milicianos nos abraçamos como amigos pois a amizade era superior às graduações militares.

Quando por várias vezes, não muitas, nos encontrávamos na cidade de Silva Porto, nas deslocações que as companhias do Batalhão ali faziam para reabastecimento de víveres frescos e recolha de correspondência, sempre preferi almoçar com o meu amigo do que com os outros oficiais e sargentos, porque antes de seremos militares de diferentes graduações, eram seres humanos amigos desde que a minha família tinha ido viver para o Lugar da Estrada. Também o nosso tempo de guerra chegou um dia ao fim e ambos regressamos às nossas casas, para cada um de nós seguir o seu caminho familiar e profissional, que a guerra não deixou saudades.

Tivemos sortes de guerra diferentes pelas funções que a cada um coube desempenhar, sendo que como em tudo na vida é preciso um pouco de sorte, todos os militares do serviço militar obrigatório que integraram o Batalhão nas diversas companhias, acabaram por conhecer essa mesma sorte ao serem destacadas para aquela zona de intervenção operacional, porque naquele tempo os guerrilheiros do MPLA andavam dispersos, pelas profundas divisões internas que existiam na Frente Leste sediada na Zâmbia, e o outro movimento independentista a UNITA existente na zona operacional de ação vivia tempos de acalmia em que as nossas tropas não atuavam para lá dos limites que as cartas topográficas marcavam com um risco amarelo, nem eles procuravam fazer incursões ou ações na nossa área. Daí o podermos dizer que tivemos sorte na guerra.

Só quando da passagem de ano de 1973 para 1974 a UNITA voltou às suas ações de atacar destacamentos militares e populações, as operações dos grupos operacionais tomaram outro sentido, com os altos comandos militares da região a desencadearem uma forte ofensiva em busca do líder Savimbi. O Batalhão participou nessa ofensiva militar com uma super companhia constituída por quatro grupos de combate completos, dois da segunda e dois da terceira aos quais se juntaram dois grupos de GE's, um do Mumbué e outro do Mutumbo, sendo a super companhia comandada pelo capitão da terceira companhia. No mês em que andei na base tática longe da zona de ação do Batalhão tão longe que saímos de comboio da cidade de Silva Porto no final da tarde para chegarmos ao Munhango no outro dia de manhã sendo de imediato transportados em viaturas militares do Batalhão de Cavalaria ali instalado para chegarmos à base tática no final desse dia, coube-me fazer a última operação de cinco dias das várias que os grupos de combate realizamos nesse longínquo mês para nessa última intervenção conhecer o que era cair numa emboscada.

Já sabia que o capitão mandava um homem de sua confiança verificar se os três grupos de combate que eu comandava (por o grupo da terceira companhia que atuava junto ter o seu alferes de férias), passávamos o Rio Lungué-Bungo, pois ao passarmos o mesmo entravamos em zona de contacto iminente com as forças da UNITA. Recordo as dificuldades para passarmos o rio, que apresentava um caudal de águas cristalinas mas de meter respeito com alguns dos meus homens de baixa compleição física que não sabiam nadar apresentarem receio natural ao atravessarmos para a outra margem; caminhávamos já há mais de duas horas em fila, quando me chegou a informação de que lá atrás se recusavam a continuarem a andar por cansaço. Eu seguia na frente da coluna tendo apenas à minha frente o guia e o soldado "Vila Real". Dei ordem para estacionarem e desloquei-me até ao local dos insubordinados que se recusavam a andar encontrando o soldado "Amendoim" sentado no trilho, argumentando que queria descansar. Dei-lhe ordem para se levantar e caminhar, continuando o "Amendoim" sentado coloquei-lhe a minha bota nas costas por altura do pescoço pressionando até a cara do soldado encontrar o chão arenoso, de imediato outros soldados me apontaram a G3. Olhei-os nos olhos dei-lhes ordem para começarem a andar virando de imediato as costas fui ocupar o meu lugar na cabeça da coluna. Já a noite se anunciava quando o guia lá encontrou um rio perto onde pudemos abastecer os cantis secos de água. Não permiti que fizessem lume para aquecer as intragáveis rações de combate, assim como o fumar também estava proibido. Acampámos em linha e não no tradicional círculo. Com dois sentinelas permanentes e não apenas um. Ao romper do novo dia, os sentinelas acordam o pessoal. Não muito longe batiam o pilão. Dei ordem para que o grupo de GE's ficasse a guardar as mochilas do pessoal e parti com os restantes homens só com as G3 e munições. O guia seguia à frente, a poucos passos seguia o "Vila Real" e logo atrás ia eu com todos a guardarmos a distância aconselhada. O pilão ia diminuindo de intensidade à medida que nos aproximávamos, deixando não só de se ouvir como até o chilrear das muitas aves se tinham calado quando o guia para e com os olhos pergunta-me qual dos trilhos fresquíssimos devíamos seguir, na mesma linguagem respondi-lhe em boa hora para seguir pelo trilho da direita. O silêncio dominava a floresta quando constatámos que o outro trilho dava para um acampamento, avançávamos lentamente quando os guerrilheiros da UNITA começam a disparar sobre nós. Foi curta a duração do tiroteio pois que os guerrilheiros assim que ouviram o rebentamento do morteiro 60 seguido do diagrama desataram a fugir. Quando os soldados se aperceberam da fuga desataram a correr de imediato em direção ao aldeamento, arrombando as portas das cubatas previamente abandonadas quando presumivelmente sentiram a nossa presença na zona no dia anterior. O bater do pilão tinha sido o chamariz para os atrair na esperança que tivéssemos ido pelo trilho da esquerda em vez do da direita. Arrombadas as cubatas bastou um soldado ter incendiado o colmo de uma que logo todas foram incendiadas. Quando uns metros mais à frente demos com o aldeamento dos guerrilheiros foi de igual modo incendiado. Regressamos para junto dos GE's a fim de comermos a ração do pequeno almoço, o mata bicho, comunicando via rádio com a base, aguardando ordens pois já estávamos referenciados na zona. Ao verificar com o guia as coordenadas indicadas como novo objetivo, vi na sua cara uma mistura de admiração e receio. As coordenadas indicadas como nova zona coincidiam com o local onde na semana anterior tropas especiais tinham sido rechaçadas pelos guerrilheiros da UNITA. Terminado o pequeno almoço de novo com o saco mochila às costas começámos a andar subindo a um morro de onde avistava o quase infinito das copas das árvores daquelas florestas. Já que éramos tropa normal e não especial por ali ficámos o resto do dia.

Ainda não há muito tempo num almoço familiar com primos, quando a guerra no leste europeu veio à conversa, disse-lhes que em qualquer guerra, de guerrilha, clássica ou como a atual lá Leste europeu, há em todas as guerras três princípios fundamentais, o primeiro é ter de matar o outro antes que o outro me mate; o segundo é que ao ouvir o segundo tiro ou rebentamento nunca se pode estar no mesmo local e posição em que se ouviu o primeiro e, um terceiro princípio que diz que temos de fazer tudo e o impossível para regressarmos da guerra custe o que custar, em seguida questionei se um grupo de combate que sofre uma emboscada rechaçando o inimigo e depois lhe incendeia todos os aldeamentos que encontra, se esses homens foram ou são criminosos de guerra? por fim ainda disse que nenhum deles sabia o que um homem com uma arma numa guerra era capaz de fazer, porque a guerra transforma o ser humano numa máquina capaz de tudo fazer para poder sobreviver à própria guerra, que numa guerra não há essa treta de direitos humanos, a guerra transforma-nos em maus e do pior; não acredito em uma sequer das notícias que um lado e outro difundem e publicam. Na guerra, seja ela qual for, o primeiro desertor, muito antes de ser disparado o primeiro tiro, é a própria Verdade!

05.07.23

 

O meu pai foi o único dos 4 irmãos que não foi mandado estudar para o liceu de Castelo Branco. Como parece que a sua mãe, minha avó Maria de Jesus, desejava ter um filho padre, mandaram-no para o seminário. O miúdo João, ao chegar e olhar os muros muito altos e os grandes portões de ferro do seminário, fez meia volta-volver e regressou à sua casa em Segura. O pai Luís "Mouco" ( de alcunha) quando o viu regressar disse-lhe: - ai não quiseste lá ficar, vais guardar as cabras.

Assim começou a sua vida de trabalho no campo aos 11 anos, a qual juntava o ter de cuidar do irmão Raul mais novo uns anos bons, de tal modo quando os amigos queriam ir a algum lado ou parodiar lhe diziam para deixar a alcofa do irmão Raul num silvados perto. Não há muito tempo que um senhor que está no lar do CCBES da Zebreira ao passar no seu passeio junto à minha casa meteu conversa comigo e ainda guardou porcos para o meu avô Luís, dizendo-me que o pessoal gostava mais de trabalhar com o irmão Chico porque o meu pai João era mais exigente do que o Chico, que entretanto tinha abandonado os estudos e trabalhavam os dois irmãos a casa agrícola, já que o pai Luís "mouco" legionário salazarista convicto, gostava mais de andar nas putas e boa vida de Castelo Branco do que gerir a casa agrícola, acentuando as divergências com os filhos em especial com o meu pai. Divergências que chegavam ao ponto e terem uma égua que só os dois irmãos, Chico e João, montavam porque todos os outros que procurassem montá-la iam de imediato ao chão, o velho Luís não deixava que o filho João a pudesse utilizar para vir namorar a minha mãe à Zebreira e, não fosse um ganhão amigo do meu pai no arrendamento que tinham junto à Zebreira que a guardava escondendo-a, o João Moreira para vir aos fins de semana namorar a Luísa Sousa, teria de vir a pé de Segura à Zebreira onde pernoitava na casa do amigo do seu irmão Chico, o senhor José da Silva que nesse tempo já exercia como alfaiate, criando-se amizades que veem de longe.

Quando por força da II Grande Guerra o medicamento alemão que mantinha o coração de sua mãe, minha avó Maria de Jesus, a funcionar faltou no mercado não havendo substituto, o coração dela deixou de funcionar e a casa agrícola foi à praça por insolvência. O sonho e a ambição do João Moreira de se tornar lavrador caiu por terra. Toda uma juventude a trabalhar a terra de sol a sol para ficar com umas oliveiras num terreno dos quatro irmãos. O João e o Chico voltaram costas ao campo e entraram para a Guarda Fiscal. O irmão mais velho Manuel era militar e assim continuou. O mais novo o Raul, continuou a estudar no Liceu de Castelo Branco com os irmãos a suportarem os gastos, que depois ele reembolsou aos irmãos.

Foi assim que o João Moreira com a Luísa Sousa e os filhos João e Carlos foram viver para o concelho de Peniche depois de uns anos vividos nos Olivais onde os dois rapazes nasceram.

O meu avô Luís passou a andar por casa dos filhos. Continuando a não ser uma pessoa fácil alguns dos irmãos colocavam-no num lar o tempo que lhes pertencia. Quando se deu o 25 de Abril logo virou as suas esperanças para o “Pinola” como chamava ao general Spínola, batendo com a bengala no chão dizia que o “Pinola” ia por isto tudo e o país na ordem. Faleceu no Hospital de S. José onde estava internado aos 83 anos, e, segundo disseram ao meu pai, antes de morrer chamava por mim, mas eu estava em Angola.

O êxodo das gentes do interior em busca de uma vida melhor é mais velho que a própria nacionalidade. A Egitânia, hoje designada Idanha-a-Velha, no tempo em que os romanos cá estiveram chegou a ter cerca de cinco mil habitantes, para depois quando os mouros por cá andaram perder população e por mais doações destas terras que os primeiros reis de Portugal fizessem quer aos Templários quer a outros Nobres para a sua repovoação nunca mais a velha Egitânia recuperou, andando hoje à volta dos cinquenta habitantes (62 segundo censos de 2011). Até mesmo Monsanto onde Fernando Namora exerceu no início a sua carreira de médico, são muito mais as casas que os resistentes habitantes.

Seu pai com o desgosto de todo o esforço ter ido à praça esteve dezasseis anos sem voltar à sua terra, assim a Luísa Sousa vinha de dois em dois anos com os seus dois rapazes passar o mês de Agosto em casa de meus avós Chico Capelo e Maria Isabel que moravam na Rua do Espírito Santo, até depois da festa à Nossa Senhora da Piedade terminar no dia 9 de Setembro. Diga-se a verdade que os dois rapazes não faziam muita questão em deixar a praia e os amigos para virem para a Zebreira onde não havia eletricidade, nem água canalizada, sendo que gostavam de ir ainda de madrugada com o avô e o burro buscar água aos poços e fontes; para piorar por força do calor não os deixavam sair de casa entre as duas e as cinco da tarde. Desse modo muito poucos amigos foram criando nas férias que passaram Zebreira.

Com o falecimento dos meus avós e a chegada do serviço militar, só voltei à Zebreira quando meus pais vieram para cá morar.

O seu pai no dia em que se aposentou da Guarda Fiscal já nem passou pela casa que tinham nos Olivais Sul, apanhando logo em Santa Apolónia o comboio para Castelo Branco e a carreira para a Zebreira onde já estava a minha mãe na casa que entretanto tinham construído junto à Estrada Nacional.

Na sua atividade política meu pai foi por duas vezes escolhido pelo PS e pelos votos para presidir à Junta de Freguesia. Um dia o presidente do Município o sr. Joaquim Morão falou-lhe que havia pessoas a pedirem para se acabar com a Lagoa no Valcabeiro. Meu pai disse ao seu Presidente para o mesmo vir num fim de tarde observar os benefícios que aquela charca com muitos anos de existência ainda tinha para animais e pequenas hortas com poços sem água no verão. Assim aconteceu, o senhor Presidente Joaquim Morão veio ver e a charca Lagoa do Valcabeiro continuou a matar a sede aos animais e às plantações nas hortas circundantes sem esquecer as pocilgas dos porcos que por lá também existiam.

Anos mais tarde por questões pessoais e políticas o Município levou a cabo a desafetação da charca mandando construir no local instalações para um Lar Social. Terminada a primeira fase do projeto o Município chegou a acordo com o CCBES que tinha a gestão do Centro de Dia para passar a gerir o Lar acabado de construir.

Não foi a direção do CCBES da Zebreira que pediu mas o Município que para solucionar o problema pediu e acordou que o Lar passasse a ser gerido pelo CCBES da Zebreira, que desse modo deixou as instalações próprias do Centro de Dia sem utilização, para se ocupar da gestão do Lar e dos problemas que o edifício apresenta, quando havia tantas outras opções melhores para a sua realização.

Já as fotos da procissão que na festa de Setembro se realiza, mostram que nesse ano em que as tirei ainda existia a casa da minha tia Maria do Carmo, que o Município comprou para a deitar abaixo de modo a facilitar a passagem das camionetas. Agora não sei se a procissão ainda desce a Rua dos Fornos e vai ao Espírito Santo, porque na vida tudo muda tudo cambia segundo a segundo.

Com estas histórias e vivências comprovo que sou um português de lés a lés, da fronteira terrestre com a Extremadura à fronteira marítima de Peniche, que com o passar dos anos me vou sentindo português, depois ibérico e europeu do sul com todas as crenças e fé das tradições judaico-cristãs que à volta do Mediterrâneo se criaram e afirmaram ao longo do tempo de muitos séculos.

No meio das muitas duvidas que me povoam, tenho a certeza que não somos todos iguais, cada um de nós é um pequeno mundo diferente do outro, até os irmãos gémeos não são iguais. Iguais nos direitos, deveres e obrigações é outra coisa diferente mas até isso está dia a dia mais longe de se atingir.




02.07.23

 

Com excesso de peso ou por má colocação dos parafusos que a suportavam, a prateleira inclinou-se. Ao inclinar-se pastas de arquivo tombaram no chão não sendo necessário chamar os bombeiros porque nos tombos não ocorreram fraturas, apenas leves amolgadelas. Pastas onde guardava fotos desde que tive a primeira máquina fotográfica, uma Zenit (final da década de setenta).

Ao por as coisas em ordem aproveitei e digitalizei algumas fotos numa velha impressora HP que para surpresa minha ainda funciona e pouco me importa que seja um pouco mais lenta que as novas versões, pois já entrei na idade onde não tenho mais pressa, pois até nas minhas caminhadas matinais perguntei aos deuses do Universo se eles não podiam fazer dias de 26 horas em vez das atuais e velhíssimas 24 horas e eles rindo-se disseram-me que assim é que esta bem e para não ter pressa pois quanto mais correr mais depressa irei encontrar o final da reta por onde caminho e onde não estará ainda o último comboio à minha espera.

Ao olhar as fotos saltaram de imediato recordações, não saudades, de como era a vida, os lugares e as praias.

Tudo vai mudando, tudo cambia sem darmos conta de como nos formatam e parametrizam a vida sempre em nome do prometido progresso, das melhorias de condições de vida. Nós crentes com mais ou menos fé vamos acreditando nesse tal prometido paraíso, vamos suportando as inflações que os deuses do mercado geram, vamos pagando sempre mais um acréscimo de imposto ou uma nova taxa para salvar o ambiente… e nós acreditando porque somos gente de mais ou menos fé vamos caminhando alimentando esperanças.

Há os que vivem de saudades, eu como não queria ser mais novo do que sou gosto mais de celebrar recordações sejam boas ou más porque umas e outras permitiram-me chegar aqui e continuar a gostar de viver porque a vida é bela, o ser humano é que muitas vezes a estraga com a sua ruindade.

Fotos de 1982 salvo erro, quando não se falava a toda a hora das alterações climáticas e os deuses do mar, do vento e das marés levaram a areia da praia do Baleal de tal forma que na praia-mar o Baleal era mesmo uma ilha. Depois os técnicos e os políticos construíram pela praia um pontão-estrada e não mais o Baleal voltou a ser uma ilha.

Baleal a praia que o escritor Raul Brandão na sua obra os Pescadores em 1919 descreveu como “a mais linda praia da terra portuguesa” é hoje muito mais um fast food urbanístico anárquico sempre cheio de gente, salvando-se algumas das antigas construções na antiga ilha, porque agora já nem mas marés grandes a praia voltou a ter ilha.



25.06.23

 

Lá fora o calor convida ao recato. Abro o computador para ver os e-mails e lá estão as notícias sobre as prometidas maravilhas da IA inteligência artificial.

Já pela manhã enquanto preparava o almoço ouvi, como faço todas as manhãs de domingo. o programa na Antena 1 "O Amor É" onde o tema foi abordado pelo Prof. Júlio Machado Vaz e a Inês Meneses com base no texto de Miguel Esteves Cardoso "É Preciso Ressuscitar o Futuro".

Da badalada IA pouco sei e o que sei traz-me muitas dúvidas sobre a verdadeira utilidade da mesma quanto ao futuro da sociedade e das relações interpessoais. Resta-me a esperança de cá já não estar quando essas máquinas começarem a substituir tantas e tantas profissões que hoje são importantes na sociedade atual. Não acredito numa sociedade fria de relações pessoais. Não tenho pressa que esse tempo chegue.

Olho a rua e vejo os danados dos pássaros de volta da figueira. Saio para o quintal enfrentando o calor tórrido para os afugentar e ver os estragos que os danados fazem nos figos. Ao ver que já degustaram quase totalmente um dos figos que iria apanhar amanhã deixando os figos que estão mesmo ao lado intactos, nasceu-me a duvida se essas máquinas que dizem ser Inteligência Artificial também saberão como aves que tão bem sabem qual dos frutos é o mais doce, mais maduro para elas comerem, é que a passarada nunca se engana, onde picam é fruta doce e madura quando os nossos olhos nem sempre acertam precisando nós do apalpar o fruto.

Dúvidas só dúvidas muito mais que certezas.

24.06.23


Eles não sabem, não imaginam o bom que é colher os figos fresquinhos bem cedo logo pela manhã, depois de ter ido à padaria Tradições da Zebreira comprar do melhor pão que se pode comer a qualquer hora do dia ou da noite, para depois de passear a Sacha deixando-a correr livre de trela, sentar-me à mesa da cozinha colocar o queijo comprado no mini mercado do Filipe, olhar as cadeiras onde se sentavam os meus pais, ver a mãe a sorrir porque acompanho este pequeno almoço nutricional com uma cerveja mini, relembrando sem saudade do tempo em que perdido no leste angolano recebia o maço de tabaco Português Suave sem filtro e um queijo curado à cabreira que a mãe me enviava pelo Movimento Nacional Feminino. O tabaco deixei-o da mesma forma que comecei. A cerveja uma vez por outra sabe bem neste tempo em que o calor se faz sentir.

Loucuras que se cruzam entre recordações do passado temperadas com o sabor dos figos, do pão e do queijo que nenhum hotel de 5 ou 7 estrelas me daria, nem tão pouco a multidão que corre apressada nas grandes cidades sabe como é bom um pequeno almoço nutricional que termina com um café feito na cafeteira tipo italiana porque gosto de cafeína e do aroma que fica no ar.

Sábado, quando escrevo lá fora estão 38 graus.

 

23.06.23

Vim para o meu canto, uma casa pequena com menos de 80 m2 onde vive um mundo quase infinito de lembranças, por isso se diz que as casas são do tamanho das almas que as habitam. É assim o meu canto, uma casa pequena numa terra onde dizem os entendidos da vida que por cá nada existe.

Já pouco me importa se nada existe ou não, já não sou deste tempo nem sei a que tempo pertenço, porque não fiquei no passado nem tão pouco o esperado futuro já existe, sei que aqui, no meu canto, encontro uma paz que não sinto, não encontro em outro lugar.

Ainda ontem, quinta feira, caminhava à beira mar na praia que me viu crescer me tornar homem de espírito inquieto e revoltado contra as injustiças, contra as mentiras das verdades oficiais, para agora menos de vinte e quatro horas passadas estar longe do mar onde o cheiro da maresia carregado de iodo pela decomposição do limo correia não chega, mas onde o odor da terra quente temperado pelo calor que vindo do céu sopra pelas copas das velhas azinheiras, sobreiras e oliveiras como se o tempo descansasse na sua caminhada induzindo uma paz que não encontro em outro lugar.

Já não me identifico com a terra onde nasci. Nasci num quarto no sétimo bairro administrativo de Lisboa, freguesia de Santa Maria dos Olivais, que políticos modernistas sem coluna vertebral na eterna luta entre os aventais maçónicos e as saias batinas dos padres e “opus day”, com os presumíveis maçónicos a levarem a melhor transformaram-na em Olivais, entregando a minha rua de nascimento à freguesia que a nova burguesia da classe média criou como Parque das Nações. Nunca ali pertenci nem pertencerei, sou de Santa Maria dos Olivais, ponto final. Até mesmo a minha praia com aquele mar de Peniche que não existe em mais lugar algum do planeta já não me prende nem me chama, traz-me boas recordações é certo mas as minhas raízes fundiram-se com as dos meus progenitores, dos meus antepassados.

É no calor de forno e no gelo do frio que gosto de estar, de sentir não só o odor desta terra mas principalmente saborear o gosto da paz. 






























22.06.23

 

Na sala de espera do hospital, como no Metro ou no comboio suburbano ao olhar à sua volta é o único que lê um livro de papel todos os que o rodeiam estão sintonizados com os seus telemóveis. Pensou, como em outras vezes, "o que seria de toda esta gente, desta juventude, se deixasse de existir telefones móveis ligados à Internet" do que iriam viver se estão tão viciados que logo de manhã antes mesmo das oito horas têm por vezes de parar com a Sacha para que eles não choquem consigo; jovens e os menos jovens que a caminho do comboio ou da escola seguem de olhar fixo grudados nos telemóveis, até mesmo quando da volta ao final da tarde sai com a Sacha é crescente o número de pessoas que passeiam os seus animais fixadas nos seus telemóveis. 

Como será o por agora inexistente futuro?