Ao
sentar-se à secretaria, vestiu o roupão, colocou a manta sobre as
pernas e olhou pela janela o céu com o dia a clarear. O vento corre
forte pela rua da urbe, avisando-o para se preparar para o frio que o
vento sempre agudiza. A Isis já subiu para cima da secretária, já
se sentou em cima dos livros ficando a olhar para os movimentos que
faz no ecrã do telemóvel onde escreve. Hábitos que ela repete
quase todas as manhãs, indiferente ao que se passa lá fora no
mundo, onde as desgraças da falta de água potável, da fome, do
trabalho escravo e infantil, as várias guerras estão em expansão a
mando dos senhores sem rosto que decidem no mundo, satisfeitos nos
seus palácios com os rendimentos materiais que as mesmas desgraças
lhes garantem através das ferramentas criadas e aceites como forma
de vivência em sociedade.
Ele
para e fica a olhar para a sua gatita que olha fixamente ora para a
sua caneta ora para a rua, questiona-se com o que estará ela a
pensar, a ver, a observar no seu mundo de gata que desconhece e nem
imagina como será. Até o seu próprio pensamento por vezes ele
desconhece temporariamente. Olha o relógio. Está na hora de se
vestir para o passeio matinal com a sua outra amiga, a Sacha.
O
tempo está cinzentão, o vento acalmou. Os da meteorologia anunciam
chuva por vezes forte. Faz uma pausa para no próprio telemóvel
olhar a previsão. Diz-lhe o mesmo que a previsão de chuva às sete
da manhã é de 58%. Lá no seu canto raiano também as previsões
dos aguaceiros são animadoras com intervalos para que a terra possa
absorver a água abençoada deste início de Primavera. As barragens
locais estão com boas reservas, cheias ou quase, para garantir o
regadio que intensivo cresce em exponencial, alterando completamente
a paisagem e a biodiversidade dos campos que se encontram abastecidos
pela barragem Marechal Carmona. Preveem-se milhões de investimento
para a manutenção da rede a fim de evitar as enormes perdas de água
que a idade da rede com os seus cinquenta anos potencia, também pelo
desleixo e incúria que têm existido ao longo dos anos, mas isso não
se pode dizer, não é politicamente correto. O correto é pedir
subsídios e financiamento versus endividamento para permitir a
manutenção da rede e sua adequação aos novos tempos de cultivo
super intensivo e intensivo de amendoal e olival em nome da campanha
levada a cabo pelo Município de ser uma Bio-Região ou Região-Bio,
designação que permite a quem preside aos destinos do Município
uma certa visibilidade pessoal e política. Assim se vai cantando e
rindo, prometendo-se sol na eira e chuva no nabal. As eiras foram um
bem necessário quando no passado as gentes da terra tinham de semear
cereais para a própria sobrevivência das suas casas, hoje são
lembranças, reminiscências de um passado muito sofrido; já o nabal
virou hectares a perder de vista de árvores pequenas plantadas umas
em cima das outras como manda o plantio super intensivo do amendoal e
olival. Todo esse mar de pequenas árvores em cima uma das outras se
traduz em investimento em nome do progresso e do desenvolvimento da
região, dizem-nos os senhores que governam.
Depois
da volta matinal sem pingo de chuva, embora o céu se apresentasse
cinzentão ameaçando chover, do pequeno almoço tomado, procurou no
telemóvel mensagem que normalmente o Hospital de Vila Franca de Xira
lhe envia a relembrar a marcação de consultas e análises. Não
encontrou. Procurou então na pasta de arquivo onde guarda tudo o que
diga respeito à sua saúde. Procurou uma e outra vez. Apenas o
pedido de consulta que o médico tinha efetuado na consulta de
Setembro do ano passado está arquivado.
Procurou
no telemóvel o número do hospital e ligou. Do lado de lá a
gravação diz-lhe para ligar dentro do horário normal de serviço.
Olhou as horas ainda não eram nove. Voltou a verificar todos os
documentos. O hospital normalmente nunca lhe falhou, quer com
análises quer com a consulta. Passava das nove quando voltou a
ligar. Deram-lhe a música habitual e pacientemente aguardou o tempo
necessário até que do outro lado ouviu uma voz humana de verdade.
Apresentou a razão do seu telefonema. A senhora funcionária do
hospital do serviço de marcação de consultas pediu-lhe o nome e a
data de nascimento que ele prontamente deu e aguardou, até que a
senhora lhe diz que o doutor já não tem vaga até ao final do mês
de Maio. Engoliu em seco o murro no estômago respirando fundo,
disse à senhora que ficava então a aguardar que lhe dissessem para
quando a consulta, já que o que lhe apetecia dizer ela não tinha
culpa. Do outro lado a senhora dizia que ia enviar um email aos
serviços sobre o seu caso. Desligou. Respirou fundo várias vezes e
ligou o computador para também ele enviar um e-mail a solicitar a
marcação da consulta. É a primeira vez que tal lhe acontece. Ele
que é um defensor acérrimo do SNS universal e público, com
consciência das limitações que o mesmo atravessa pelas políticas
governamentais que vêm esvaziando ao longo dos anos o SNS em
recursos humanos e técnicos, vê agora a diferença do que era a
gestão do Grupo Melo Saúde para a gestão pública dos serviços do
mesmo hospital. Nunca durante a gestão anterior teve qualquer
problema no atendimento do mesmo, quer em consultas normais, quer nas
deslocações à urgência, mas quem manda pode e lá saberão o
porquê de não renovarem o contrato com o Grupo Melo Saúde. Aquilo
que na sua ótica funcionava bem, deixou de funcionar. Diga-se em
abono que tem muitas dúvidas sobre a competência da equipa que
dirige a Saúde. Ao procurar pela marcação da consulta encontrou as
“cartas-cheque” que lhe enviavam para ele escolher uma unidade de
saúde privada quando aguardava pela marcação cirúrgica no
hospital, onde na segunda carta o prazo de espera de uma das unidades
de saúde privadas era superior ao tempo que lhe indicavam ser o do
seu hospital público. “Cartas-cheques” a forma como os
governantes ( tanto à esquerda como à direita), híbridos nas suas
ações, escolheram para em vez de investirem no SNS público,
alimentarem desse modo os amigos do negócio privado da saúde. Assim
não há estado Social que não empobreça. Quando o exemplo vem do
topo passa a coisa pública a ser gerida pela estrutura com falta de
profissionalismo e humanismo. O que lhes interessa para a sua
carreira pessoal são os rácios que com estes erros se obtém para
apresentarem aos amigos liberais de Bruxelas, que indiretamente nos
vão governando nas grandes opções de política económica e
social.
Já
que estava com a mão na massa, depois de enviar educadamente o
e-mail ao hospital, enviou outro ao Centro de Saúde solicitando
novamente a marcação de uma consulta para a sua médica de família
da qual só conhece o nome. Desde o início de 2020 que não mais foi
ao Centro de Saúde, senão apenas para levantar a prescrição dos
medicamentos que toma regularmente para a pressão arterial.
Prescrição que solicita por e-mail e foi num desses pedidos que
soube o nome da sua nova médica de família.
Ainda
olhou os blogs que segue, preparando-se para ir almoçar com o amigo
de infância que ao tempo e no Centro de Saúde a seu pedido,
solicitou ao Hospital de Vila Franca de Xira uma consulta de
urologia. Consulta que fez toda a diferença na saúde de sua vida.
Da
guerra que vai lá pela Ucrânia invadida, apenas fala normalmente
com o seu irmão ao telefone, já que para os dois não há apenas um
lado mau na origem da mesma, mas essa visão dos factos está quase
proibida pela opinião pública que corre na sociedade do pensamento
único existente. Para essa maioria de pensamento único, só o filho
da puta do Putin com a sua estrutura de apoio são os únicos
culpados. Cegos que querem ser, incapazes de olhar para o governo do
comediante ucraniano Levinsky, de forma um pouco independente para
com essa réstia de independência que ainda possam ter, abrirem a
pestana das células cerebrais e verem o apoio que os ditos governos
democráticos saídos do golpe da designada revolução laranja na
Praça Maidan tem dado às diversas milícias (Batalhão Azov, Setor
Direita, Svoboda…) que impunemente ostentam e difundem com orgulho
símbolos nazis, a forma como branquearam a figura de execrável nazi
Stepan Bandera promovendo-o a herói nacionalista com estátua e
tudo. Situação essa que levou o primeiro ministro do governo de
Israel a recusar o pedido de Levinsky para que as negociações entre
ucranianos e russos se realizassem em território israelita,
recomendando ao ucraniano a reposição da verdade histórica sobre
os crimes que Stepan Bandera e os seus homens cometeram contra os
Judeus nos campos de concentração nazi ao serviço de Hitler, assim
como retirar todo o apoio às milícias nazis que estão integradas
nas estruturas governamentais. Milícias que matam e violam Judeus
ucranianos, russos ucranianos, o povo roma (ciganos), gays e
imigrantes. Mas, o realçar das razões apontadas pelo primeiro
ministro israelita não passa na censura auto-aceite do pensamento
único, que a cegueira do ódio ao ditador filho da puta Putin o
confunde com o povo russo colocando todos na mesma bandeja servida
pela quase totalidade da comunicação ocidental obediente aos
interesses dos falcões americanos e dos súbditos vassalos da UE
perante aqueles.
Hoje já
estamos a viver o início dos tempos negros que a guerra na Europa
oriental nos irá presentear.