
O
caminho nas margens deste rio por onde navego está cada vez mais
estreito, cheio de lameiros e areias movediças, dizendo-me contudo
que não estou só, neste caminhar solitário.
Olho
em frente e vejo só nevoeiro cerrado. Olho para trás e vejo as
nuvens negras de poeira tóxicas puxadas pelo vento estarem cada dia
mais próximas.
Caminha
a meu lado uma multidão de solitários e desiludidos silenciosos
como eu.
Na
outra margem desfilam multidões usando bandeiras ao vento e largas
tarjas com palavras de ordem que não entendo na totalidade, gritam
em coro palavras de ordem inteligíveis e ruidosas na minha margem,
seguem em festa colorida, mas nada que se compare à célebre
manifestação de 7 de Março do século passado, quando a utopia não
era ainda um sonho no horizonte.
Recolho-me
no meu casulo, tapo os olhos às notícias que canais de propaganda
nos dão de forma repetitiva.
A
propensão genética para ouvir mal, ajude-me.
Contam-me
de que os robots em teste de inteligência artificial, lá por S
Bento, impõem a taxa reduzida para o espectáculo(?) das touradas,
enquanto que electricidade, paga a taxa máxima.
Duvido
pois da programação daqueles seres que me dizem serem inteligentes.
Mas
mais me fecho quando me dizem que aqueles seres em S. Bento aprovaram
químicos que servem para vacinas, sem que os organismos competentes
da Saúde do Estado tenham emitido a sua opinião, ficando no ar o
poder lobista da industria junto de tais seres.
Espreito
para fora do meu casulo, vejo o rio ora de margens estreitas ora se
espraiando entre margens, correr cheio de águas negras e poluídas,
cadáveres de peixes, aves e animais vão mortos na corrente
apressada, desejosa de entregar tudo aquilo ao mar que a jusante
espera, também ele cheio de materiais pesados e não
bio-degradáveis.
Por
onde vamos não sei, mas não vamos por um bom caminho de futuro, os
seres de inteligência artificial com o titulo de deputados, aprovam
constantemente leis que visam a liberalização das leis do trabalho,
quando eles próprios são um mau exemplo de assiduidade e de
verdade, para os cidadãos que têm de trabalhar para garantirem quer
o posto de trabalho, quer a sua subsistência, porque a quem trabalha
o patrão não pode perdoar tais faltas.
Ao
meu lado, de cabeça ora levantada, ora no chão farejando tudo,
segue a minha amiga indiferente a tudo, quer viver, brincar e saltar
indiferente ao mundo dos humanos. Olho-a e penso nos mais novos,
naqueles que andam na escola, nos infantários, nos berçários, nos
que estão para nascer e não sei se vou por este rio acima ou por
este rio abaixo, sendo certo que, «as águas do rio que tudo arrasta
se dizem violentas, mas ninguém diz violentas as margens que o
comprimem» (B.B. seu autor)