Nesta
onda do pensamento único ocidental,
neste
país laico de gente católica conservadora,
neste
país de antigos brandos costumes e públicas virtudes,
neste
país triste sem rumo,
neste
país até as palavras do Papa Francisco são ignoradas pela nova
censura em liberdade do pensamento único.
Neste
país os ressuscitados inquisidores, disfarçados vestem bem e falam
palavras redondas viciantes.
Neste
país voltou a vigorar o pensamento fascista dos salazaristas em que
"todos os opositores eram comunistas, mesmo os que não o eram".
Neste
país voltamos a cantar silenciosamente "cá vamos cantando e
rindo" não estendendo o braço porque ainda não está na moda.
Neste
país os que não alinham no pensamento único oficiosamente
divulgado, que se cuidem.
Já
não sabe por anda a alegria. Até os foguetes lhe parecem bombas de
tristeza a rebentarem. Esta vida pouco ou nada lhe diz, lhe
transmite. Que fazer, se até já a utopia o vai abandonando. Vai
perdendo a esperança de ainda poder viver o tempo do "Homem
novo", a sociedade decente com que sonhou e foi lutando com as
suas armas pacíficas de pouco saber. Um tempo de paz onde os ricos
sejam menos ricos para que o povo possa ser menos pobre,é um sonho a
cada dia mais longe no distante horizonte.
Entre
antigas lembranças, palavras ausentes são sua companhia, o seu
silêncio pendente que precisa de resolver, o único arrependimento,
que carrega dos muitos erros que cometeu na sua caminhada. Se o
conseguir ultrapassar, partirá para o seu canto para lá viver
enquanto tiver saúde e força, porque viver sem qualidade de vida
não é desígnio de nenhum dos deuses que povoam o universo da mente
humana, quanto mais do Deus único dos cristãos. Só os fanáticos
do sofrimento acreditam que o seu Deus é castigador.
O
rei Sol já acordou e ilumina. Vai começar com as suas rotinas, num
sábado em que a diferença está no almoço com antigos estudantes
do ICL.
Durante
a caminhada, entre as conversas com o além sagrado, foi recordando
aventuras e desventuras, veredas e trilhos por onde caminhou em busca
do nada, de uma paz que ainda não encontrou plenamente desde que se
fez homem.
Nasceram
os dois num quarto onde seus pais viviam. O irmão nasceu no início
de Janeiro, vindo ele a nascer em Dezembro dias antes do Natal.
Chegam a ter a mesma idade sem serem gémeos. Depois dele nascer os
pais mudaram-se para uma casa no número 94 da mesma Rua da
Centieira. Entrou o irmão na escola primaria um ano à sua frente.
Quando ele entrou na primeira classe, hoje primeiro ano, ao ter de
aprender a escrever num caderno de duas linhas, por um problema
desconhecido, começava a escrever mas logo continuava fora das duas
linhas. A professora castigava-o com tantas reguadas nas mãos que
quando a escola acabava era o irmão que lhe levava a mala. Ele com
as mãos inchadas não consegui segurar a mala.
19.02.22
Quando
o pai foi promovido a Segundo Cabo a família mudou-se. Saíram da
Rua da Centieira e foram para Ferrel, onde o irmão fez a quarta
classe e o exame de admissão à Escola Industrial e Comercial, hoje
conhecida como Escola Secundária, em Peniche. Ele como mais novo fez
a terceira e a quarta classe em Ferrel, fazendo igualmente o exame de
admissão à Escola em Peniche. Naquele tempo não havia meio de
transporte de Ferrel para Peniche. Uns iam a pé pela praia do Baleal
e outros iam de bicicleta. O pai comprou-lhes uma bicicleta para cada
um. Ele, mais novo já era um pouco mais alto. A bicicleta do irmão,
mais velho, era roda 26, enquanto que a sua era roda 28. Começou a
pedalar os 8km até à escola, e, da escola para casa ainda tinha 9
anos. Um sábado em que ia para as atividades da Mocidade Portuguesa,
na descida do Viso, convenceu-se que era capaz de passar por cima de
um pedra sem as mãos no guiador. Resultado deu um enorme trambolhão.
Tiveram de lhe acudir pessoas que trabalhavam perto. Levaram-no para
o médico. Muito sangue pisado lhe tiraram do joelho esquerdo.
Durante cerca de quatro anos coxeava quando fazia esforço adicional.
Ia
fazer 12 anos quando o pai saiu do Baleal para a Consolação.
Deixaram Ferrel e passaram a viver no Lugar da Estrada. Os 8 km
passaram a 6 km, sem subidas e descidas.
O
seu irmão chumbou um ano e passaram os dois manos a frequentar o
mesmo ano. Depois de chumbar o ano o irmão começou a ser um aluno
aplicado que ano a ano melhorava de rendimento. Foi assim que ao
fazerem o 3° ano do Curso Geral do Comércio, equivalente ao 5° ano
ou atual 9° ano, enquanto o seu irmão passou as férias a
preparar-se para fazer exame de admissão ao Instituto Comercial em
Lisboa. Ele, como tinha chumbado na prova oral da disciplina Noções
de Comércio, Direito Comercial e Economia Política, teve que ir a
exame em Outubro para ser aprovado e continuar a estudar já em
Lisboa, para no ano seguinte ir fazer o exame de admissão ao
Instituto Comercial. Voltaram a andar em anos separados.
20.06.22
Quando
viviam no Lugar da Estrada, ele sempre foi magro, mais alto mas mais
fraco que o irmão. A mãe para eles terem força ao irem de
bicicleta para a Escola em Peniche, batia-lhes num copo de água
grande, um ovo com açúcar a que depois juntava vinho ou mesmo água
pé, cujo barril estava debaixo das escadas que davam para o primeiro
andar. Para ele, mais do que para o irmão, os seus avós que viviam
na Zebreira, quando mandavam uma encomenda lá vinha um ou dois
frascos de "xarope de sangue de cavalo", que os avós
encomendavam aos contrabandistas que traziam aquele xarope de
Espanha. A sua mãe tinha medo que o filho não tivesse forças para
pedalar contra a nortada que sempre soprava de frente quando ia para
a Escola logo pela manhã.
Ao
estudarem na Escola o Curso Geral do Comércio, nos três anos do
curso, sempre tinham exames para fazer ano a ano. Ele porque o seu
nome se inicia com a letra C, era dos primeiros a fazer a prova oral
quando não dispensava da mesma. O seu irmão como o nome se inicia
com J tinha a prova oral sempre depois da dele.
Sabiam
os irmãos que só quando terminassem os exames é que poderiam ir
para a praia, brincar, tomar banho, assim como, nas marés grandes,
poderem, na maré baixa ou apanhar limo agar-agar ou procurarem
apanhar povos com negaça. Para facilitar a apanha do polvo, eles
tinham receio de meter a mão nos buracos, colocavam na ponta da cana
junto ao rabo de bacalhau uns anzóis grandes para quando o polvo
procurasse comer o rabo do bacalhau, eles puxavam-no para fora de
água e viravam-lhe a mocha e o desgraçado morria.
Assim,
entre a praia, as rochas atrás do Forte e o Porto Batel passavam os
quase três meses de férias. O pai deixava-os andarem ao banho, até
ao último domingo antes de começarem as aulas do novo ano lectivo.
Tinham assim férias até ao fim do mês de Setembro, já que as
aulas começavam normalmente a 7 de Outubro.
Foram
bons tempos aqueles em que estudaram na agora Escola Secundária de
Peniche e viverem quer em Ferrel - Baleal, quer no Lugar da Estrada -
Consolação.
Para
continuarem a estudar, pediram aos pais que em vez de irem estudar no
Magistério Primário para serem professores e dar aulas até à
então quarta classe (hoje quarto ano), que os deixassem ir estudar
no Instituto Comercial de Lisboa. Os pais que não conheciam aquela
Instituição, escreveram um postal a perguntarem ao primo António o
que era aquilo que os filhos lhes pediam. Por sorte a prima Irene,
mulher do primo António, também tinha feito o Curso Comercial assim
como o Instituto Comercial antes de se ter licenciado em Económicas
e Financeiras (hoje gestão de empresas). Foi assim que os manos
voltaram para Lisboa, acompanhados pela mãe. O pai continuou a
prestar serviço no Posto da Guarda Fiscal em Peniche, aguardando por
uma vaga num dos postos existentes na cidade de Lisboa. O que
aconteceu, cerca de dois anos após a vinda deles com a mãe para a
Rua da Centieira que no ano de 1950 os viu nascer naquele quarto do
número 25.