terça-feira, 27 de dezembro de 2022

22.07.09

Sentado num dos bancos à beira da arriba, recorda as tardes que seu pai e os amigos daquela praia, ali passavam comentando, qual telejornal a vida pacata de então.

Ele e outros jovens, viam com alguma estranheza, aquelas pessoas que passavam os dias e o tempo lá sentados ou em pé a conversarem ou simplesmente a olharem o mar e o areal. Raramente desciam até à areia ou iam ao banho naquelas águas do Atlântico.

Com a passagem do tempo e dos anos, novas gerações foram chegando, mantendo-se o hábito de haver sempre quem por lá se mantenha olhando o mar e o areal.

A pacata praia da sua juventude apenas existe na memória dos mais velhos, que como ele continuam a gostar de olhar aquele mar que ano a ano vem roubando areia ao extenso areal.

Chegou o tempo de também ele se sentir melhor olhando o mar do cimo da arriba. Deitar-se no areal a apanhar um pouco de Sol, já não é a sua praia. Caminhar pelo areal na baixa-mar, sozinho ou com a sua amiga Sacha, é o seu tempo de comunhão com o tempo de praia, com a Natureza que um dia o viu chegar quase ainda criança.

Com o seu aparelho de comunicação, que lhe serve de memória auxiliar vai registando em fotos e em palavras o que a sua visão transmite à unidade central de processamento do seu cérebro. Escreveu então:

«Aqui estou frente ao mar que um dia me ensinou a respeitá-lo, a ouvi-lo nas suas queixas contra as maldades que sobre ele são cometidas. Até hoje, esse sentimento de respeito me acompanha. Respeito não medo. O mar na sua grandeza quase infinita guarda segredos que não conhecemos, pelo que, o respeito mais do que o medo é a atitude sensata que todos devemos ter. Recordo a velha frase, o velho slogan de "Há Mar e Mar! Há Ir e Voltar", que deveria ser bem publicitado à entrada de todas as praias concessionadas, sem esquecer todos os órgãos de comunicação social escritos, radiofónicos e televisivos. Mas os políticos governantes gostam mais de gastar e esbanjar dinheiro público com agências de comunicação e marketing em campanhas sem a força ou eficiência do velho slogan. Tudo porque a outra velha frase, o outro velho slogan de "Temos que viver com aquilo que temos", está fora de moda pertencendo ao passado. Hoje preferem criar e manter modos de vida artificial à custa do endividamento externo do país, hipotecando o futuro dos vindouros».

Olhando a praia, despediu-se fechando o aparelho de comunicação e voltou para os arrabaldes da cidade grande, num final de tarde onde o calor húmido anormal lhe aviva a a saudade do calor mais calor mas seco do seu interior raiano. 

 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

22.07.06

 

Voltou. Quer lembrar as ideias que à noite tinha. As mesmas esconderam-se. Procura-as e não as encontra.

As mentiras sobre a guerra continuam a desfilar nos ecrãs televisivos. Gente (comentadores) sem pinga de vergonha, menos de ética e moral, continuam ventrículos da voz do dono, do padrasto EUA-NATO.

Sorri, pois voltou a ouvir que as bombas do invasor russo só atingem instalações civis ucranianas, matando civis. Os militares ucranianos devem estar protegidos por uma força celestial desconhecida. Já os militares russos parecem que estão morrendo que nem tordos em época de caça. Passa à frente.

Ontem foi à Zarza La Mayor abastecer a sua carrinha. Sensivelmente a mesma quantidade de combustível custou-lhe mais 20€ do que no passado fim de Maio. É o famoso modelo de “democracia à Ocidente”, onde as leis do mercado são enviesadas pela ganância de "oligarcas-empreendedores" sem rosto, perante políticos que os cidadãos elegem na ilusão de que não se curvem submissos perante tais vampiros.

Sorri, a ideia voltou a sua memória “ram”.

Ao fim dos dez dias em que permaneceu no seu canto raiano, sem ouvir os noticiários da Antena1, sem sintonizar os canais televisivos RTP1, SIC e TVI, para bem da sua saúde mental, acabava de passar da A23 para a A1, quando olhou as horas e decidiu-se sintonizar a rádio Antena1 para ouvir as possíveis novidades, após estes dias em que esteve vivendo como ausente. Ouviu, consciente de que os problemas com a sua loucura silenciosa lhe chegam. Não precisa de mais doses de loucura, mas sintonizou o rádio do carro. Ouvindo, ficou a saber que vai haver uma moção de censura ao Governo colocada em cima da mesa pelos saudosistas ortodoxos dos tempos negros implementados pelo velho tirano de Santa Comba Dão. Ouviu depois, com atenção redobrada o tempo noticioso dado ao novo líder do maior partido de oposição ao atual governo. Ouviu e disse para a sua sombra: - o "cavaquismo-passista'' ressuscitou. Nada de novo se irá passar, neste pobre país. As ideias que trás o novo líder são as mesmas do passado. Pouco se poderá esperar de gente que tem como ideal político, os princípios do ressabiado novo-velho professor de finanças públicas desta Terceira República, cuja maior medida estruturante para o país nos seus dez anos de governação, alguns de maioria absoluta, como primeiro ministro, foi a alteração do nome da terra onde nasceu de Poço para Fonte de Boliqueime. Hoje, o novo líder e seus correligionários, revêm-se no mais recente e maior discípulo do cavaquismo. Nada de novo acrescentam, porque desejam governar unicamente para a destruição do pobre Estado Social ainda vigente. Tal como um tal "boy" (cavaquista) das juventudes, trabalhado que foi como gestor empresarial pelo maior lobista do nosso mercado, quase conseguiu implementar nos quatro anos mais negros que esta Terceira Republica conheceu. É este "antigo-boy" sem palavra, ex-primeiro ministro, o modelo, que a mando de forças ocultas fez cair um governo para lhe suceder, sendo por sua iniciativa mais troikano que as sanguessugas-vampiros da Troika. É certo que depois de despromovido após eleições livres, que ganhou por poucochinho não lhe permitindo continuar a vender o país aos abutres financeiros estrangeiros, foi tal personagem reconhecido como catedrático pelos amigos e apoiantes existentes na cátedra universitária publica. Mais um exemplo da consequente “nova ordem democrática” que há anos depois do 25 invernoso de Novembro tomou conta do país.

O país a acompanhar o pensamento que domina a classe política europeia, onde a a falta de transparência grassa entre os seus dirigentes; gente para os quais a ética e a moral passaram a ser coisas de gregos antigos e desatualizadas, face ao novo desenvolvimento do capitalismo selvagem vestido com fatos de alta costura para passar a imagem de capitalismo civilizado e moderno.

Mas, antes de passar à Antena2, ainda ouviu uma senhora que dizem ser ministra da agricultura falar sobre o problema da água no país. Sem ideias, limita-se a declamar o que lhe mandam dizer. Não se lembra nesta Terceira República de um Ministro da Agricultura que soubesse do assunto da terra, do ar e da água. Talvez a exceção tenha sido o Ministro nomeado pelo sr. Guterres, que comeu miolos de vaca, para mostrar do que sabia e não tinha medo. Cansado, esse sr. Ministro, bateu depois com a porta e foi tratar da sua vida profissional fora das intrigas e nomeações políticas. Também ele, pobre cidadão, anda cansado de Ministros da Agricultura que passam o tempo político a venderem milhões de € à disposição em fundos, para satisfação dos banqueiros e dos gestores das empresas de consultadoria especialistas em fazerem projetos em computador. Projetos quantas vezes megalómanos, de viabilidade futura duvidosa, mas que servem a propaganda política de autarcas, secretários e ministros. Quem manda na agricultura da U. E., são os grandes proprietários fundiários da Alemanha, da França e alguns de Itália. São eles através dos seus lobistas que mandam nas políticas da PAC, limitando-se o nosso Governo a transcrever as normas emanadas de Bruxelas e a nossa Ministra a fazer figura de ventrículo.

Passou à Antena2 e continuou a deslizar em direção ao dormitório arrabalde da cidade grande.


22.07.03

 

Domingo, dia de descanso. A manhã de sábado, foi para ele, de trabalho e alguma tristeza revolta. Com o calor a manifestar-se e o desejo de terminar a limpeza dos “ladrões” das restantes oliveiras, foi para o chão tão cedo quanto pode, pois tem de passear a sua amiga.

Logo no início sentiu o polo a colar-se ao corpo que suava. Nos raros momentos de pausa, para descanso da coluna, reparou no sobreiro do vizinho. Será que está chorando por lhe terem tirado a sua cortiça? Ou será a forma de refrescar a sua feloderme agora exposta, face aos muitos graus que se adivinham para o dia. Lembrou-se de Lavoisier.

Com o avançar do trabalho, sentiu que estava no limite. Ao endireitar-se sentia a ilusão do "pingo". Controlou a incontinência após a cirurgia, mas assim como as costuras dos três buracos efetuados pelo jovem cirurgião, lhe anunciam as mudanças de tempo, o "pingo" ilusório ou real, lhe diz que está no limite do esforço. O "pingo" ilusório ou real, aconselha-o lembrar-se que a idade do corpo não é a idade da mente. Esta pensa ser mais jovem do que a idade real, que seus pais lhe disseram, constando do seu cartão de cidadão. É uma perfeita idiotice sua, pensar que ainda é jovem quando caminha para os setenta e dois anos de vida. Com muito esforço e suor, conseguiu terminar o trabalho a que se propôs. Quando regressou a casa, com o sol do meio dia e meio a pique, notou que não era apenas o polo que estava húmido do suor, também as calças estavam bem húmidas. Apeteceu-lhe meter-se junto com as roupas na máquina de lavar. Mas, como ultrapassa em muito, o limite de peso que a mesma suporta decidiu ser melhor meter-se debaixo do chuveiro.

Almoçou. A seguir colocou o corpo em cima da cama na horizontal. As malvadas cãibras nas mãos e nos pés atormentaram-lhe a sesta de que tanto gosta. Sendo teimoso com o esforço da manhã, mais uma vez o seu sistema o avisava de que não deveria pisar a linha vermelha do sinal, quanto mais ultrapassá-la.

Deixou o pensamento atravessar anos e anos até chegar aos tempos de jovem na Escola Industrial e Comercial de Peniche. Uma sopa no refeitório da escola custava 1 escudo. Quantas vezes apenas almoçava o que a mãe lhe fazia, levando na sua bicicleta a marmita bem embrulhada em papel de jornal, para manter a temperatura até há hora do almoço. Juntava o dinheiro que poupava, não comendo a sopa, para numa das papelarias existentes comprar livros aos quadradinhos dos então heróis na conquista do oeste americano. Ao olhar as velhas oliveiras recorda as histórias desse pequenos livros aos quadradinhos (hoje banda desenhada) , e não só esses. Lutas e guerras entre os interesses dos primeiros colonos que se dedicavam à pastorícia de gado ovino, contra os colonos que chegavam com grandes rebanhos de gado bovino. A forma como uns e outros faziam para a obtenção de pastos novos no final da época seca. Métodos que ele viu serem reproduzidos em Angola pelos naturais. No final da época seca, deitavam fogo ao capim para que mal chovesse os primeiros pingos de chuva os pastos renascessem espontaneamente.

Quando no passado mês de Dezembro andou com o seu amigo Zé na apanha da azeitona, como de imediato estendiam os panais a volta do tronco das oliveiras rodeadas de “ladrões”, de nada se apercebeu, tão entusiasmado andava com a apanha da muita azeitona existente nas velhas oliveiras. Já nas manhãs anteriores em que andou a cortar os “ladrões” se apercebeu que em algumas oliveiras o tronco estava queimado na base. Ontem, o número de oliveiras com a base queimada aumentou consideravelmente. À medida que limpava os troncos, se apercebeu do crime. A tristeza acompanhada de revolta surda, tomou conta do seu estado de espírito. Não sabe quem fez ou ordenou aquele trabalho. Não se lembra de alguma vez ter existido um incêndio por ali, depois nem todas têm o sinal de o tronco na base ter ficado a arder.

Há muitos anos que o terreno entre as oliveiras nunca foi lavrado, mas o gado bovino gostava de lá pastar. A hipotética herdeira, pelo menos fazia-se passar por tal, nunca se interessou pelo estado do mesmo. Seu primo, dono efetivo do chão de oliveiras, após a morte da viúva que viveu com o pai, conversando quando ele lhe levou o azeite que as oliveiras deram, vendeu-lho. Ele, a caminho dos setenta e dois anos aceitou, comprou. Às vezes pensa nos porquês de ter aceite tal compra, pois como lhe disse um dia o seu amigo Zé «ninguém compra trabalho». Mas ele comprou.

O seu pai considerava a oliveira como uma árvore sagrada. Ontem o seu carinho pelas velhas oliveiras passou a um sentimento de amor, talvez idêntico ao do seu pai, ou, por ele influenciado. Não é novo em si esse sentimento. Já o tinha conhecido mas em circunstâncias totalmente diferentes. Aquelas oliveiras foram violentada pelo fogo que os humanos fizeram para a obtenção de pasto para o gado bovino. Esventradas e queimadas resistiram ao mal e continuam vivas. Como? Não sabe. Sabe que nelas colheu azeitona em Dezembro passado. Este ano é fraco. Segundo ouviu dizer na época da chora carregaram, mas vieram uns ventos e a flor caiu sem ser fecundada.

É a vida ingrata e incerta da agricultura.


22.07.01

Acordou sem forças para ir para o chão da Horta da Corona acabar de limpar os ladrões das oliveiras. A tristeza acordou com ele, ainda o relógio despertador não tinha dado o alarme das cinco da manhã.

Não é fácil viver sozinho. Tem experiência. Não se importa de ter de fazer tudo sozinho. Pior do que viver só, é viver sozinho acompanhado. Nessa situação é mais do que licenciado, leva mestrado e doutoramento, com experiência.

A tristeza que se vem instalando diz respeito às filhas. Ainda ontem, quando a camisa húmida do trabalho atraia as indesejáveis moscas, pensava se alguma das filhas ou mesmo genros iria dar seguimento àquele seu trabalho. Foi preciso chegar aos quase setenta para tomar conta de dois terrenos dos herdeiros do seu tio-avô João Capelo. Herdeiros, uns primos outros nem tanto, que só querem parte do dinheiro que a venda dos mesmos possa proporcionar. Nenhum se preocupou com a saúde das oliveiras, da boa manutenção dos velhos muros de pedra, para não falar na própria terra, onde as ervas e o mato crescem na liberdade da própria Natureza. É certo que na campanha do ano passado, colheu boa azeitona no chão da Balasca, mas anteriormente investiu dinheiro na limpeza das oliveiras e só não pagou o lavrar do terreno, porque o António "Caga Cornos" o lavrou para nele semear feno para as suas ovelhas. Deu-lhe, ele, autorização para o António colocar quer no chão da Horta, quer da Balasca, quer na Eira e agora na Horta da Corona, as suas ovelhas e cavalos, com a condição de zelar pela boa manutenção dos mesmos.

Como lhe disse o seu amigo Zé <ninguém compra trabalho>, por isso quer o chão da Eira, quer o da Balasca, não foram vendidos. De nada lhes serviu o terem colocado lá a placa do "vende-se". O mesmo se passa com o chão da Horta da Corona do seu primo António. A oferta maior que tiveram não era credível para eles que vivem longe da realidade que por cá se vive. Os terrenos de pequena dimensão, assim como o olival extensivo, não têm, nem valor económico, nem futuro, face à realidade demográfica e ambiental. Se é assim, porque comprou ele a Horta da Corona ao seu primo António, agora que está à porta dos 72 anos de vida? Não sabe responder a si próprio.

Recorda as conversas com o seu pai. Pai que vivia no receio disto (casa e chão da Horta) ficar abandonado porque já nessa altura as coisas não se vendiam por falta de compradores. Seu pai, após a morte de sua mãe vendeu os chões que tinham herdado e comprado. Dizia seu pai que os filhos não estariam dispostos a vir viver para cá. Deixou o chão da Horta e a casa, porque dizia que a Horta iria ajudar na venda da casa. Como seu pai estava enganado.

É certo que a vida dá muitas voltas, e, volta não volta muda tudo num segundo. Ele, sempre dizia ao seu pai que nunca iria deixar a casa e o chão ao abandono. Assim tens de dar tornas ao teu irmão, dizia-lhe o pai. Não se preocupe pai, que nós nos iremos entender, respondia-lhe ele, ficando o pai em silêncio a pensar em como o filho desempregado tanto tempo, que tantas vezes recorreu à sua ajuda financeira, iria pagar metade da casa ao seu outro filho.

Depois de terem andado esquecidos, os irmãos voltaram a ser os irmãos que sempre foram quando jovens até se casarem. Como tal, foi fácil o entendimento entre eles, com o irmão a facilitar-lhe o pagamento da sua parte na casa. A base da partilha teve como origem o valor que o banco lhe atribuiu, quando ele solicitou um empréstimo para a realização de obras necessárias. O irmão enviou-lhe a forma de cálculo financeiro para o pagamento em prestações constantes. Ele ficou de estabelecer uma taxa de juro para a amortização. Nem utilizou a fórmula. Deitou contas à vida. Dividiu o valor em causa pelo número de prestações que iria pagar e acertou o valor para a unidade superior das centenas. Nem lhe interessa saber qual o valor da taxa em causa. O número de prestações a pagar ao irmão é igual ao número de prestações a pagar ao banco pelo empréstimo que lhe concederam para as obras. Prestações que são religiosamente pagas. Para não se esquecer de pagar, determinou com o banco o valor da transferência constante mensal. 

 

Acorda ainda mais cedo. A manhã ainda não é manhã, apenas a claridade se anuncia.

Levantou-se, e, dirigiu-se à casa de banho, levando consigo o pequeno aparelho de comunicação que o liga ao mundo exterior. Na sua casa guarda silêncios de outros tempos, de suas gentes, seus antepassados. A Sacha, também ela se levanta, vem até ao fundo da cama para receber os habituais bons dias que ele lhe dá.

Preparam-se para o passeio matinal. Saindo da povoação solta-a para ela correr à sua vontade. Caminham os dois apressados, num circuito onde conhecem todos os cantos. Tomam o pequeno almoço. Ele olha o relógio, são 7h30. Calça as botas e sai levando consigo a garrafa de água e as ferramentas para limpar as oliveiras dos muitos "ladrões" que com os anos e a falta de manutenção cresceram desalmadamente. Muitos só os consegue cortar com o serrote tão grossos e duros.

Ao entrar no chão lembrou-se de como o seu tio, dono do chão, falava do mesmo. Agora, o seu primo vendeu-lho. Falou com a amigo cujas vacas lá iam pastar. Facilmente se entenderam. Ele vai aramar o terreno para depois o António "Caga Cornos" lá poder por as suas ovelhas. O amigo propõe-se pagar metade do material. Como sempre as soluções exigem paciência, para mais não estando ele a viver permanente no seu canto.

Enquanto trabalhava de volta das oliveiras, ia pensando, nas primas e primo que nunca se interessaram, em saber as causas da insolvência do avô Luís, se é que sabem do fato, após o falecimento da sua avó Maria de Jesus. Ele, já leu diversas vezes a certidão do auto que o seu pai em tempo solicitou ao Tribunal da Comarca de Idanha-a-Nova. São os seus primos, politicamente à direita, sendo que a mais velha se intitula de esquerda, militando no Partido Socialista, que de esquerda pouco ou nada tem, tão liberal é na governação do país. Os setores da sociedade afetos ao pensamento político designado por direita, utilizam o conceito da família cristã como um dos seus baluartes morais. Contudo, a família não se resume aos que vivem hoje dentro da mesma casa. Antes deles tiveram que existir outros progenitores, caso contrário, não existiriam, simplesmente. Tão religiosos são, exceto a mais nova, mas tão indiferentes são com os seus antepassados.

Mundo estranho este onde vive. 

 

22.06.29

 

Nada de novo para este recomeçar de dia. Na estrada raros são os carros que passam. É o momento dado para o nascer do Sol. O dia vai ser quente. Tem a manhã para voltar ao chão da Horta da Corona, onde os ladrões das oliveiras são muitos, dos muitos anos em que não foram cuidadas. A oliveira para o seu pai era uma árvore sagrada.

Quando se lembra do pai e do medo que ele tinha, que tudo isto ficasse ao abandono, sente-se um bom filho. Tem a casinha arranjada. Ao chão da Horta juntou agora o da Horta da Corona e leva os dois que foram do seu tio avô João Capelo (o da Balasca e a Eira). É certo que não os cultiva diretamente. Cedeu a sua utilização ao António de alcunha "Caga Cornos" que coloca lá as suas ovelhas e os cavalos, os lavra e semeia de pasto para os animais, olhando pela manutenção quer dos muros de pedra quer da eliminação das terríveis silvas.

Às vezes, nas madrugadas em que acorda sonha com projetos mas logo a sua sombra lhe lembra a idade e o seu desconhecimento das coisas agrícolas da região.

Hoje os ramos da oliveira não mexem, sinal que o vento ainda não acordou.

Como o dia vai aquecer, vai mais cedo passear a Sacha, para se despachar em e ir também mais cedo para o chão tratar das oliveiras que este ano parecem não ter azeitona. Com ele segue a sua companhia ausente.


22,06.27

Pela janela observa os cumprimentos de despedida da noite com o novo dia. Os ramos da velha oliveira dizem-lhe que o vento fraco continua de noroeste.

No seu aparelho de comunicação chinês, já deu uma vista de olhos pelas capas dos jornais. Nada lhe despertou interesse. Quando ontem lhe falaram na Conferência dos Oceanos, perguntou se os pescadores ou os mestres das embarcações de pesca estariam presentes. Hoje, ao ler o título das declarações do antigo ministro do Ambiente na capa do DN confirmou, que os muitos colarinhos brancos irão centrar as suas «faladuras» na exploração dos recursos marítimos, podendo haver quem fale defendendo a não poluição dos oceanos, pois é um tema moderno e fica bem.

A sobre-exploração de alguns recursos marítimos irão não só continuar como aumentar, e, novas oportunidades serão anunciadas para o capital financeiro poder vir a usufruir lucros fabulosos. É para isso que estas Conferências Mundiais existem. Não há ponta sem nó.

Recordemos que em alguns mares o temível tubarão está em vias de desaparecer, sendo que o negócio da indústria farmacêutica e cosmética não para de crescer. O mesmo com a pesca da baleia. Todos, conferencistas e participantes, uns e outros, irão acrescentar mais um capítulo no seu vasto curriculum. No final, os conferencistas não irão a banhos no logo ali Mar da Palha, nem sequer, irão voltar às suas origens de barco a remos ou com velas e ainda menos de bicicletas-anfíbias.

Por fim todos eles, assim como os outros que os seguem cegamente, irão sentir-se mais felizes e descansados. Eles não estão sozinhos no interesse que os oceanos representam para o futuro crescimento económico, para a criação e manutenção das ilusões que o marketing político de mão dada com o comercial, criam e irão criar.

Viajarão os conferencistas de regresso, contentes e felizes, em aviões não poluentes, a bem dos oceanos. Alguns poderão usar os novos carros elétricos imaginando que num futuro próximo irão realizar uma outra conferência sobre as oportunidades da reciclagem das baterias de lítio, para bem dos negócios com o ambiente. Acrescentando então, novo capítulo ao seu curriculum.

Por cá, neste Portugal esquecido o mar são os campos dourados onde o verde da copa das resistentes árvores, são ilhas de esperança, para os que teimam em resistir não abandonando as suas casas, as terras dos seus antepassados. Por cá o azul dos oceanos está longe por detrás das serras, sendo substituído pelo azul de um céu limpo de nuvens.

Os vizinhos do outro lado do Rio Erges previam ontem que a temperatura vai voltar para a casa dos trinta e muitos graus celsius, esta semana.

Ontem a TV, quando a ligou, foi muito mais a dos vizinhos extremenhos. E foi, porque não viu notícias da guerra, caso contrário desliga-la-ia de imediato.

Já lá vão os anos em que por esta altura dormia em cima da cama, com a janela aberta e apenas o lençol para de madrugada se resguardar do fresco. No ano passado, não se lembra, de uma noite em que não fechasse a janela e não usasse um edredom. Este ano junta-lhe o pijama de mangas compridas. Depois lê e ouve os arautos, quer da sociedade consumista, quer dos ecologistas-de-ar-condicionado, botarem «faladura» de que o mês foi o mais quente dos últimos anos. Ao ler e ouvir tais sumidades, sorri por saber que a idade não lhe perdoa, sentindo-se bem, com o ser um tresmalhado cada dia mais afastado do rebanho. 

 

22.06.26

 

Guerra. SNS. Violência. Morte. São o mote para a super exploração das emoções. Nada de positivo nos dão. Nada de esperanças transmitem as nossas miseráveis televisões com maiores audiências. Resta-nos um ou outro programa no canal 2 da RTP e uma ou outra reportagem na RTP3. Que sociedade estamos a construir para o futuro no amanhã que se avizinha? Enquanto se questiona pensa nos bandos de mabecos que conheceu na guerra?

Deixa a televisão e os seus muitos canais. Olha para os vídeo jogos. De novo encontra, guerra violência e morte como pano de fundo.

Nem as tristes telenovelas de amores, traições, violência e morte que hoje servem a qualquer hora nos canais televisivos se comparam às revistas da “Corin Tellado” que chegavam aos jovens militares nas frentes das guerras em África, para que ao lerem-nas, pudessem sonhar e masturbando-se esquecessem a vida de "carne para canhão" que os senhores da guerra nos grandes palácios de Lisboa, lhes tinham destinado.

Sente-se a envelhecer, desiludido e cansado. Cada dia de vida vive-o mais longe da multidão, que de festival em festival seguem sem se importarem nem preocuparem com a fome, com a miséria que grassa nas cidades e que se vai contagiando aos campos.

Viaja de lês a lês no seu país, sem grandes ambições de outras viagens. Entre fronteiras é o seu mundo. Um mundo feito de lutas, vitórias e derrotas. A todas, têm sobrevivido, consciente do seu caminho, navega em busca da Paz que tarda a encontrar.

22.06.21

Final da tarde. Depois de jantar saiu para ver o pôr-do-sol, ouvir a música do embalo do mar que aqui se despedia do rei Sol. A nortada do último dia de Primavera não incomodava. A aragem fresca que corria, não atrapalhava os jovens casais, que ao longo do areal saboreavam o momento que a Natureza lhes presenteava. A Natureza brindava-os. Eles agradeciam.

Tirou fotos às nuvens que iam tapando o Sol, embelezando o momento sagrado do ocaso. O dia despedia-se para que o novo dia, solstício de verão, pudesse chegar com todo o seu misticismo de outros tempos, de outras eras que ainda se mantém no presente.

Olhou o longínquo horizonte e deixou-se navegar içando as velas em direção ao futuro. Futuro que naquele instante era por ele vivido, ali, na areia da sua praia, frente ao mar de velhas amizades. Preparava-se a noite para abraçar, o final da última tarde desta Primavera de altos e baixos meteorológicos. Navegando, buscou a ausência que andando ausente é sua companhia, ali frente ao mar, no final de tarde, na Consolação sem nortada.

Voltou para casa acompanhado da ausência. A Sacha logo o recebeu aguardando que ele a presenteasse com um biscoito.

Deixou-se dormir cedo e cedo se levantou. Um hábito que virou rotina nos seus dias. Consultou na net as marés. Não dava para andar na areia molhada. Ainda faltava muito para a maré baixa. Aguardou a chegada das sete da manhã, para saírem no passeio matinal. A manhã fresca pedia um agasalho.

Caminharam em direção à praia, para usando a passadeira irem até ao Largo do Forte que é também o Largo da Igreja. O Forte mandado construir por D. João IV após a reconquista da independência em 1640, teve como finalidade a vigilância e defesa da costa. É um marco na Consolação. Para norte se estende o areal até ao Molho Leste do Porto de Peniche. Para Sul são as rochas que chamam muitos veraneantes para ali apanharem os benditos banhos-de-sol que lhes permitirá diminuir as dores reumáticas que a vida lhes trouxe. Se a Norte o areal é ladeado por um extenso sistema dunar, a Sul predomina o promontório de rochas instáveis pela sua sedimentação ao longo de séculos, que nos últimos anos se vem degradando, colocando alguns irresponsáveis em perigo ao não respeitarem os avisos de perigo de derrocada. Como em muitas outras situações o colocar Avisos não resolve problema algum, apenas serve para os poderes responsáveis fugirem a previsíveis responsabilidades caso ocorra um acidente. É o passar da bola, o lavar das mãos como o tal Pilatos, tão usual no nosso sistema de governação das coisas públicas.

Andando, chegaram ao Porto Batel, a sua praia de juventude no fundo da arriba, porto de abrigo onde as nortadas não incomodavam. Hoje, ainda mais que no passado, está abandonado à sorte meteorológica dos ventos e das marés. Marés que não deixam de subir com as alterações climatéricas que o sistema de exploração consumista acelerou. Salvam a sua existência os amantes do surf que na fronteira entre o Porto Batel e o Porto da Freira procuram encontrar as ondas perfeitas para satisfação do seu prazer. Vêm de longe, até de outros países, nas suas viaturas, amantes que são da Natureza, indiferentes às inexistentes infraestruturas de apoio. A onda perfeita tudo compensa, tudo faz esquecer. São os amantes solitários do surf que lhe afloram uma pontinha de ciúme, por na sua juventude tal prática de desporto-prazer ser desconhecida. Depois de ali, no fundo da arriba, ter conversado as suas falas com o além sagrado, voltaram a subir a instável arriba, dirigindo-se para casa. O Sol já aquecia, brindando o mar de vários tons azuis. No horizonte, para noroeste, o arquipélago das Berlengas . Para o Sul, o céu azul permitia ver o escondido S. Bernardino, Areia Branca e mais além talvez Santa Cruz. Manhã bonita a deste dia, solstício de Verão.

As obras no Forte levam anos. Já aquando da apresentação do projeto inicial, procurou chamar a atenção que a parte subterrânea não estava considerada para aproveitamento daquela infraestrutura que nasceu para defesa e vigilância da costa. Conheceu o Forte. Seu pai, no tempo em que prestou serviço no Posto da Guarda Fiscal era o depositário da chave do mesmo. Todos os anos ao chegar o Verão e antes das freiras virem para o mesmo a banhos, o seu pai mandava limpar as instalações. Foi acompanhando o pai que conheceu as catacumbas, quartos tipo celas, existentes no subterrâneo do Forte. Hoje, não sabe, se o próprio projeto inicial ainda se mantém ou se já sofreu alterações. Desiludido, pouco se importa com o que venham a fazer. Gastaram, e muito bem, milhões na defesa da arriba junto ao Forte e nas casas existentes por cima da mesma. Casas com muitos anos de existência. Mas ao não consolidarem totalmente bem, a arriba que suporta o muro do Largo, vai o mesmo inclinando-se ameaçando vir a cair. Mais uma cerca metálica avisando do perigo de derrocada e umas fitas a isolar aquele bocado de muro. As Cercas metálicas já perderam a cor, as fitas há muito que voaram com a ação do vento. Só as pedras do muro se mantêm na sua inclinação. Os anos passam e o muro lá está inclinando-se… até ao dia em que nem a Nossa Senhora da Consolação lhe valha.

Com a idade, com os erros de juventude, as articulações começam a enferrujar e o melhor é não aumentar a oxidação das mesmas. Foi feliz naquele mar de águas frias e transparentes, sem as algas verdes indicadoras de alterações na sua qualidade. Hoje limita-se a saborear as recordações vividas olhando-o, ouvindo-o e desfrutando a sua magnificência poderosa.

Gosta de saber que a praia tem bandeira azul, embora esta coisa pouco lhe diga. Foi mais uma invenção das gentes bruxelianas para nos convencerem que as águas já não estão tão poluídas como na verdade estão. A poluição é consequência dos maus desperdícios que o desenvolvimento económico e social consumista provocou e provoca na Natureza. Se pouco liga à bandeira azul, menos ainda à designação de ouro por parte da Quercus. Todos sabemos que não há almoços grátis. Tudo tem um preço e sempre há quem pague. A praia tem a tal bandeira azul, e a tal designação de ouro. A juntar estas tão honrosas designações tem a praia a céu aberto uma vala de esgoto, que corre ao lado da antiga fonte, até se infiltrar na areia a poucos metros do mar, aguardando que as marés grandes de inverno possam levar a porcaria que nela se acumula. Quantos milhares de euros recebeu o Município de Peniche ao longo dos anos a Fundo Perdido por parte do Estado e da C.E.E. agora designada de União Europeia, para tratar do saneamento básico das suas terras? Será que a Consolação não pertence ao Município? Ou, como pode o Município ter aquela vala de maus cheiros a céu aberto, quando publicita as suas bandeiras azuis e designação ouro, incluindo nelas a Consolação?

Peniche é mais um exemplo vivo de que o desenvolvimento do Turismo não passa de uma falácia. O surf trouxe muita gente para o concelho. Gente que veio e vem de fora de países distantes. A economia do Município beneficiou com o desenvolvimento do surf, mas onde está de modo visível a riqueza, o valor acrescentado, criado pelo Turismo? O mar oferece condições para a prática do surf. Escolas de surf apareceram como cogumelos, mas, o Município e em especial a cidade, dentro das suas muralhas vai ano a ano ficando mais pobre aos olhos de quem conheceu a força da sua economia nos anos sessenta do século passado. As opções erradas tomadas pelos executivos municipais ao longo dos anos estão à vista de quem não vivendo lá, gosta da terra das suas gentes que o viram e ajudaram a crescer. 

 

22.06.18

 

Nesta onda do pensamento único ocidental,

neste país laico de gente católica conservadora,

neste país de antigos brandos costumes e públicas virtudes,

neste país triste sem rumo,

neste país até as palavras do Papa Francisco são ignoradas pela nova censura em liberdade do pensamento único.

Neste país os ressuscitados inquisidores, disfarçados vestem bem e falam palavras redondas viciantes.

Neste país voltou a vigorar o pensamento fascista dos salazaristas em que "todos os opositores eram comunistas, mesmo os que não o eram".

Neste país voltamos a cantar silenciosamente "cá vamos cantando e rindo" não estendendo o braço porque ainda não está na moda.

Neste país os que não alinham no pensamento único oficiosamente divulgado, que se cuidem.


Já não sabe por anda a alegria. Até os foguetes lhe parecem bombas de tristeza a rebentarem. Esta vida pouco ou nada lhe diz, lhe transmite. Que fazer, se até já a utopia o vai abandonando. Vai perdendo a esperança de ainda poder viver o tempo do "Homem novo", a sociedade decente com que sonhou e foi lutando com as suas armas pacíficas de pouco saber. Um tempo de paz onde os ricos sejam menos ricos para que o povo possa ser menos pobre,é um sonho a cada dia mais longe no distante horizonte.

Entre antigas lembranças, palavras ausentes são sua companhia, o seu silêncio pendente que precisa de resolver, o único arrependimento, que carrega dos muitos erros que cometeu na sua caminhada. Se o conseguir ultrapassar, partirá para o seu canto para lá viver enquanto tiver saúde e força, porque viver sem qualidade de vida não é desígnio de nenhum dos deuses que povoam o universo da mente humana, quanto mais do Deus único dos cristãos. Só os fanáticos do sofrimento acreditam que o seu Deus é castigador.

O rei Sol já acordou e ilumina. Vai começar com as suas rotinas, num sábado em que a diferença está no almoço com antigos estudantes do ICL.

Durante a caminhada, entre as conversas com o além sagrado, foi recordando aventuras e desventuras, veredas e trilhos por onde caminhou em busca do nada, de uma paz que ainda não encontrou plenamente desde que se fez homem.

Nasceram os dois num quarto onde seus pais viviam. O irmão nasceu no início de Janeiro, vindo ele a nascer em Dezembro dias antes do Natal. Chegam a ter a mesma idade sem serem gémeos. Depois dele nascer os pais mudaram-se para uma casa no número 94 da mesma Rua da Centieira. Entrou o irmão na escola primaria um ano à sua frente. Quando ele entrou na primeira classe, hoje primeiro ano, ao ter de aprender a escrever num caderno de duas linhas, por um problema desconhecido, começava a escrever mas logo continuava fora das duas linhas. A professora castigava-o com tantas reguadas nas mãos que quando a escola acabava era o irmão que lhe levava a mala. Ele com as mãos inchadas não consegui segurar a mala.

19.02.22

Quando o pai foi promovido a Segundo Cabo a família mudou-se. Saíram da Rua da Centieira e foram para Ferrel, onde o irmão fez a quarta classe e o exame de admissão à Escola Industrial e Comercial, hoje conhecida como Escola Secundária, em Peniche. Ele como mais novo fez a terceira e a quarta classe em Ferrel, fazendo igualmente o exame de admissão à Escola em Peniche. Naquele tempo não havia meio de transporte de Ferrel para Peniche. Uns iam a pé pela praia do Baleal e outros iam de bicicleta. O pai comprou-lhes uma bicicleta para cada um. Ele, mais novo já era um pouco mais alto. A bicicleta do irmão, mais velho, era roda 26, enquanto que a sua era roda 28. Começou a pedalar os 8km até à escola, e, da escola para casa ainda tinha 9 anos. Um sábado em que ia para as atividades da Mocidade Portuguesa, na descida do Viso, convenceu-se que era capaz de passar por cima de um pedra sem as mãos no guiador. Resultado deu um enorme trambolhão. Tiveram de lhe acudir pessoas que trabalhavam perto. Levaram-no para o médico. Muito sangue pisado lhe tiraram do joelho esquerdo. Durante cerca de quatro anos coxeava quando fazia esforço adicional.

Ia fazer 12 anos quando o pai saiu do Baleal para a Consolação. Deixaram Ferrel e passaram a viver no Lugar da Estrada. Os 8 km passaram a 6 km, sem subidas e descidas.

O seu irmão chumbou um ano e passaram os dois manos a frequentar o mesmo ano. Depois de chumbar o ano o irmão começou a ser um aluno aplicado que ano a ano melhorava de rendimento. Foi assim que ao fazerem o 3° ano do Curso Geral do Comércio, equivalente ao 5° ano ou atual 9° ano, enquanto o seu irmão passou as férias a preparar-se para fazer exame de admissão ao Instituto Comercial em Lisboa. Ele, como tinha chumbado na prova oral da disciplina Noções de Comércio, Direito Comercial e Economia Política, teve que ir a exame em Outubro para ser aprovado e continuar a estudar já em Lisboa, para no ano seguinte ir fazer o exame de admissão ao Instituto Comercial. Voltaram a andar em anos separados.

20.06.22

Quando viviam no Lugar da Estrada, ele sempre foi magro, mais alto mas mais fraco que o irmão. A mãe para eles terem força ao irem de bicicleta para a Escola em Peniche, batia-lhes num copo de água grande, um ovo com açúcar a que depois juntava vinho ou mesmo água pé, cujo barril estava debaixo das escadas que davam para o primeiro andar. Para ele, mais do que para o irmão, os seus avós que viviam na Zebreira, quando mandavam uma encomenda lá vinha um ou dois frascos de "xarope de sangue de cavalo", que os avós encomendavam aos contrabandistas que traziam aquele xarope de Espanha. A sua mãe tinha medo que o filho não tivesse forças para pedalar contra a nortada que sempre soprava de frente quando ia para a Escola logo pela manhã.

Ao estudarem na Escola o Curso Geral do Comércio, nos três anos do curso, sempre tinham exames para fazer ano a ano. Ele porque o seu nome se inicia com a letra C, era dos primeiros a fazer a prova oral quando não dispensava da mesma. O seu irmão como o nome se inicia com J tinha a prova oral sempre depois da dele.

Sabiam os irmãos que só quando terminassem os exames é que poderiam ir para a praia, brincar, tomar banho, assim como, nas marés grandes, poderem, na maré baixa ou apanhar limo agar-agar ou procurarem apanhar povos com negaça. Para facilitar a apanha do polvo, eles tinham receio de meter a mão nos buracos, colocavam na ponta da cana junto ao rabo de bacalhau uns anzóis grandes para quando o polvo procurasse comer o rabo do bacalhau, eles puxavam-no para fora de água e viravam-lhe a mocha e o desgraçado morria.

Assim, entre a praia, as rochas atrás do Forte e o Porto Batel passavam os quase três meses de férias. O pai deixava-os andarem ao banho, até ao último domingo antes de começarem as aulas do novo ano lectivo. Tinham assim férias até ao fim do mês de Setembro, já que as aulas começavam normalmente a 7 de Outubro.

Foram bons tempos aqueles em que estudaram na agora Escola Secundária de Peniche e viverem quer em Ferrel - Baleal, quer no Lugar da Estrada - Consolação.

Para continuarem a estudar, pediram aos pais que em vez de irem estudar no Magistério Primário para serem professores e dar aulas até à então quarta classe (hoje quarto ano), que os deixassem ir estudar no Instituto Comercial de Lisboa. Os pais que não conheciam aquela Instituição, escreveram um postal a perguntarem ao primo António o que era aquilo que os filhos lhes pediam. Por sorte a prima Irene, mulher do primo António, também tinha feito o Curso Comercial assim como o Instituto Comercial antes de se ter licenciado em Económicas e Financeiras (hoje gestão de empresas). Foi assim que os manos voltaram para Lisboa, acompanhados pela mãe. O pai continuou a prestar serviço no Posto da Guarda Fiscal em Peniche, aguardando por uma vaga num dos postos existentes na cidade de Lisboa. O que aconteceu, cerca de dois anos após a vinda deles com a mãe para a Rua da Centieira que no ano de 1950 os viu nascer naquele quarto do número 25.