A
vida deste pequeno burguês na apanha da azeitona não é fácil.
Vivo uma nova lição que mais acentua o meu ser tresmalhado do
rebanho; já não é um sentir de revolta, antes e apenas mais uma
lição, um aprender de como tudo nesta vida poderia ser diferente do
modo como os mandantes sem rosto nos seus palácios forrados a ouro
nauseabundo, decidem e nos parametrizam a forma de vivermos em
desrespeito às regras da Natureza que nos deu origem e nos vai
sustentando a vida como a conhecemos.
Levanto-me
o mais tardar pelas 05H30, poucos são os dias que quando o
despertador toca ainda estou na horizontal; na casa de banho olho as
primeiras páginas dos jornais e dou uma vista de olhos pela rede
social, despacho-me pelas seis horas, meço a pressão arterial e
registo os valores na folha de cálculo do aparelho de comunicação,
visto-me, faço a cama, abro as portadas das janelas, saindo pelas
seis e meia para a volta matinal com a Sacha, regressando a casa
pelas sete da manhã dando-lhe de comer; tomado o meu pequeno almoço,
preparo a bucha do almoço no campo, não me esquecendo da
imprescindível garrafa de água, caso contrário os meus rins
apresentam queixa ao sistema urinário.
Há
hora certa no mesmo local o meu amigo chega no seu carro, seguimos
pelo caminho da Fonte Nova até ao caminho para o Calacu para
ficarmos no Valongo onde tem as oliveiras.

Ontem,
domingo, a temperatura anunciada no telemóvel dizia três graus com
a sensação de dois graus. Quando chegámos vimos de imediato que a
geada foi forte, ao colocarmos os panais junto da primeira oliveira
da manhã os mesmos estavam gelados, assim como a oliveira e os seus
frutos; aquela oliveira segundo o meu amigo, foi o “tio Charneco
velho”, homem lá de cima, do norte?, que a trouxe desconhecendo-se
a característica, foi batizada como “azeiteira”; ramos e
azeitonas cobertas com a fina camada da geada que deixava as mãos
geladas ao retirá-las dos ramos, com os pequenos pedaços de gelo a
ficarem quer nas mãos e luvas quer nos panais. As mãos geladas
trabalhavam, já os pés parados em cima do panal doíam de gelados,
do meu nariz caiam de vez em quando pingos sem que sentisse qualquer
necessidade de espirrar ou mesmo de me assoar. Quando esperava que o
Sol pudesse aquecer aquele ambiente gelado, eis que chegou em vez do
Sol o não desejado nevoeiro que arrefece e gela o corpo com a sua
humidade fria. Dia duro e difícil para esta atividade da apanha de
azeitona, mas lá fomos fazendo a apanha das azeitonas com o meu
amigo sempre a fazer dois em um, isto é, trabalhando com a máquina,
cortando e limpando as oliveiras de modo a puxá-las para baixo para
que no próximo ano o trabalho se inverta, ou seja, muito mais
máquina de varejar e muito menos trabalho manual, isto se a Natureza
for amiga na época da floração e depois em Setembro por altura da
festa em honra da Nossa Senhora da Piedade caírem umas águas dos
céus para que as oliveiras que se alimentam mais pelas folhas do que
pelas raízes superficiais possam dar corpo às azeitonas. Acabamos o
domingo procedendo à limpeza da azeitona apanhada no dia e no
anterior.
Cheguei
a casa ao final da tarde com os pés e mãos geladas num corpo frio a
pensar na política de preço do azeite.
Há
muitos anos que não me lembro de sentir o corpo tão frio e gelado.
Vida dura esta da apanha da azeitona em oliveiras de exploração
extensiva todas elas com idades centenárias.
Tem
sido assim a apanha da azeitona, desde que a chuva ou o nevoeiro
denso o permitam e já vamos em Dezembro quase a acabarmos a nossa
tarefa de entreajuda.
Ontem,
segunda-feira, tivemos nos céus a visita dos grifos, algum animal
morto os chamou pois voavam em círculo sobre um determinado local,
grifos das encostas escarpadas do rio Erges ou mesmo do rio Tejo
vieram em busca de alimento. Depois foram embora e nós voltamos a
estar sós com o silêncio do campo aqui e ali interrompido pelo
canto das aves.
Este
ano o preço do azeite subiu dos 25€ em anos anteriores para os 40€
o garrafão de 5 lt, quer nos lagares quer em produtores que pela
quantidade de oliveiras que possuem vendem depois o azeite obtido a
particulares. Os nossos vizinhos espanhóis grandes produtores e
consumidores de azeite já o compram a 60€ o garrafão de 5 lt. Não
sei se a subida de preço é apenas especulação, mas quem vota em
políticos que defendem ou aplicam medidas económicas liberais para
a economia não se pode nem se deve queixar já que o custo do azeite
este ano é o célebre deus do mercado a funcionar face à fraca
produção do olival espanhol, pois são eles que determinam o preço
do azeite no mercado internacional.
O
azeite que obtive das minhas oliveiras não é para vender, mas sei
que pela qualidade que obtive em dois lotes de azeitonas diferentes,
nunca o iria vender por menos dos 50 ou mesmo 60€ que os espanhóis
já pagam, é que o azeite produto natural que nestas terras de
Zebreira em especial e na zona raiana em geral, não é o mesmo
azeite que se vê nas prateleiras dos supermercados.
Há
azeites e azeites e quem quer bom, barato e natural já não
encontra.
O
azeite do olival extensivo das diferentes qualidades de azeitona
tradicionais, produzido a frio de acordo com as normas estabelecidas
pelas autoridades, não está caro.
O português trabalhador,
reformado ou pensionista é que ganha e recebe pouco, com os governos
da Nova Ordem Democrática a optarem pela manutenção da baixa
remuneração do fator trabalho como forma de progresso económico e
social que só alguns extratos da média e alta burguesia conseguem
alcançar, mas a malta, o rebanho, segue cantando e rindo, «tudo a
bem da nação» que agora são todos classe média, exceto alguns
poucos tresmalhados que teimam em andar pela outra margem da vida,
pensando nas coisas pela sua própria cabeça, como ginástica para
fugir da velhice que lentamente se vai instalando neste pedaço de
Natureza que já foi um jardim à beira mar.